21.11.08

e o péssimo de pareto?


A "preferência pela liquidez", que para os não-economistas pode parecer assunto de boteco, é um dos grandes insights de Keynes. Antes dele, entre as correntes dominantes do pensamento econômico, acreditava-se que as forças de mercado - se não atrapalhadas pelos governos - conduziriam os capitalistas a investirem todo o estoque de capital (poupança) na órbita da produção. No limite, a sociedade conheceria o pleno emprego e chegaria àquela situação conhecida como "Ótimo de Pareto", uma espécie de clímax econômico. Mas Keynes assistiu à depressão econômica provocada pela crise de 1929 e chamou a atenção para o fato de que, especialmente quando há grandes incertezas quanto à demanda futura, os indivíduos preferem manter o seu capital (ou parte dele) na forma líquida, mesmo que isto signifique perder eventuais oportunidades de lucro. Por esta razão, quando a incerteza aumenta, as propensões a consumir ou a investir se reduzem drasticamente, transformando os medos do presente em pesadelos do futuro. Esperar que as leis entre oferta e procura resolvam este problema e recoloquem a economia em equilíbrio é tarefa que só os contos de fada e os manuais de microeconomia dão conta.
Embora tenham encontrado um limite teórico para a máxima capacidade produtiva (o ótimo de Pareto), o liberalismo econômico fez de conta que não viu a impossibilidade do "péssimo de pareto", ou seja, não há um limite inferior para a espiral depressiva, em que a queda dos preços leva à queda dos investimentos, que leva à queda da demanda, que produz nova queda dos preços, ... e assim sucessivamente. Sem a intervenção de algum deus ex machina (que podemos chamar de Estado ou Política) não há solução natural capaz de deter a espiral deflacionista.
Portanto, o que Keynes enxergou (a partir da observação dos equívocos econômicos na crise dos anos 30) é que só o Estado, pela sua dimensão e principalmente pela sua motivação, é capaz de restabelecer a demanda em níveis suficientes para que voltem a operar as forças de mercado e haja novos estímulos ao investimento privado.
Na crise atual, este assunto se apresenta revigorado. Não sabemos contudo, se as lições da história, serão suficientes para convencer o liberalismo econômico, seus parceiros rentistas e seus porta-vozes na mídia de que o "péssimo de Pareto" não chegou a ser formulado porque exigiria uma dose de cinismo inaceitável.

Um comentário:

  1. Demétrio C. Valadares24/11/08 00:07

    Sr. Marcelo Manzano: Porque tanto escrúpulo em utilizar os termos certos? Não se trata de tapar o nariz e admitir "a intervenção do Estado", se trata, sim, de que se não houver um órgão regulador, que se pretenda acima dos interesses mais imediatos e egoístas das pessoas, e gerido por cidadãos de de forte reputação moral, a sociedade humana vai para o beleléu, porque deixá-la a mercê dos instintos de cada um, cairemos na barbárie! Em outras palavras, precisamaos de autoridade! Porém, se o senhor se escuda na memória de certos totalitarismnos do Século passado, fique certo de que esta visão catastrófica do Estado só ajuda a produzir desmandos como estes que estamos vivendo, de suma gravidade para a sociedade humana, talvez muito pior do que viver sob certas regras e leis mais severas, dado que a insegurança absoluta gera, sobretudo, mêdo e violência.
    Tornar os empresários e executivos os "iluminados " da vez, com uma aura quase mística na produção de bens e serviços para a humanidade é falácia, apenas mais um marketing sôbre marketing. Se os sacerdotes, feiticeiros, demiurgos e outrens desta estirpe não conseguiram que a humanidade atingisse nenhum nível de "perfeição", não seria o estabelecimento do mercado que concorreria para isto, a não ser produzir workshops e cursos miraculosos, de como ficar rico começando a desmontar uma bicicleta velha no fundo de casa...

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