29.11.08

midia-ligeira dá vexame

Foi realmente vexatório o papel dos midia-ligeira de nossa imprensa ao tentar fazer do empréstimo da Caixa Econômica Federal à Petrobras um escândalo nacional. A depender das manifestações em alguns blogs de maior popularidade, como o do Nassif ou do Alon, jornais como Estadão, O Globo, além da rádio CBN, martelaram o assunto sem levar em conta que do lado de lá das redações pode ter gente com um mínimo de discernimento, um tantinho acima que Rommer Simpson.
Mirian Leitão tabelando com Sardemberg fizeram tamanho emaranhado mental para justificar a cena de indignação com o episódio que produziram uma peça digna do Teatro do Absurdo (Ionesco vive!).


"Onde já se viu tomar empréstimo de um banco público para financiar a importação de diesel com alta concentração de enxofre? (...) E que falta de planejamento financeiro! Como que uma empresa do porte da Petrobras não consegue se planejar para pagar os tributos devidos?". Ao que o Sardemberg emitia grunhidos de regozijo.
"E o pre-sal? Não estava tudo maravilhoso há alguns meses atrás?" "Hiiiiii!!!!!!"

Mas meus caros midia-ligeira: souberam da crise internacional? Foram informados de que o crédito externo secou e que os nossos bancos privados não são lá muito chegados nas operações de crédito, a não ser que sejam em títulos do tesouro?

Ridículo. De certo perderam o senso.

E cabe perguntar: se estão tão atentos às operações de crédito entre bancos públicos e a Petrobrás, por que na época em que Francisco Gross na Petrobras e Mendonça de Barros no BNDES realizaram diversas operações de empréstimos da ordem de 4 bilhões de Reais nenhum jornalista se revoltou com o fato de que cada uma daquelas operações - note-se: entre dois entes públicos - deveria ser intermediada por um banco privado, a módicas taxas de 2% ou 80 milhões de Reais? Pior, a notícia da mamata tucana só veio a público quando o Carlos Lessa, presidindo o BNDES sob a gestão de Lula, resolveu acabar com o tal pedágio privado. E Lessa pagou caro pela ousadia.

Enfim. Diretas Já. Quero votar para diretor de redação.

goste-se ou não: meio século de socialismo moreno

27.11.08

o homem que fez o Delfim dançar


Quem diria, o mais do que experiente Paul Volcker, ex-presidente do FED, que em 1979 produziu uma crise mundial para defender o dólar, estará de volta ao governo dos EUA. Será chefe do "conselho anti-crise", montado por Obama para evitar o agravamento da recessão norte-americana e cuidar da recuperação.
Não resta dúvida que Volcker é um sujeito experiente e que teve o sangue frio necessário quando em 79 jogou os juros dos títulos americanos às alturas, revertendo a trajetória de desvalorização do dólar e dando sobrevida à hegemonia dos EUA.
Mas... como alerta Paul Krugman em seu blog (clique ali do lado), a equipe econômica que vai sendo formada pelo presidente eleito Barack Obama parece excessivamente conservadora para alguém que ganhou a eleição sob a bandeira da mudança e que, pela própria gravidade da crise, tem margem política para ousar à vontade.

Será que nosso Lula lhe andou falando ao ouvido? Seria uma pena.

25.11.08

país torto

Informa o site Folha Online que, no terceiro trimestre de 2008, em plena crise financeira mundial, a soma dos lucros dos 15 bancos brasileiros (com ações em bolsa) foi superior à soma dos lucros das 201 empresas não-financeiras do país (excetuada a Vale, a Petrobrás e a Eletrobrás). (veja detalhes aqui). Ou seja, some-se os lucros de todas as empresas de capital aberto de todos os setores produtivos (telefonia, construção civil, automobilísticas, têxtil, energia elétrica, etc.) e mesmo assim não se chega ao lucro alcançado por apenas 15 bancos instalados nesta terra de palmeiras e sabiás.
Eis o resultado de uma política monetária concentradora de renda, tocada pelo Dr. Meirelles (ex-Banco de Boston), que sacrifica dinheiro público para regar com juros a vida dos rentistas.
Não é por acaso que os bancos de cá nem sentiram a marolinha, embora venham restringindo preventivamente o crédito e assim produzindo uma freada desconcertante na economia real.
Também não é por acaso que no mesmo dia, em entrevista à Folha (de papel), Carlos Jereissati (dono do Iguatemi)informa que o consumo de luxo no país vai de vento em popa e que, segundo ele, a crise tem até um lado benéfico: sem perspectivas de despesas em ativos de longo prazo, os ricos tendem a gastar mais ainda com o consumo de luxo.

Renitentes e descabidos juros! Pé manco deste governo Lula.

23.11.08

pau no homem econômico racional


Creio que já mencionei em algum post anterior que uma das boas consequências da atual crise é o florescimento do debate político-econômico, com espaço para novas e velhas idéias. Sabe-se lá que dias serão estes, mas certamente não são mais de pensamento único.

No embalo da crise, um dos mitos do liberalismo econômico que vai erodindo é o tal indivíduo maximizador (homo economicus), sem o qual a teoria neo-clássica (liberal) não fica de pé.
E não é por menos. Nunca na história deste mundo como nas últimas três décadas se deu tanta corda aos hominhos maximizadores, mas a propalada bem-aventurança que seus espíritos livres e empreendedores deveriam produzir revelou-se um enorme mico a pedir colo ao Estado.

Sobre as peripécias deste ente que dá vida ao liberalismo, recomendo alguns artigos:
primeiro, o do Delfim Netto publicado na Carta Capital que chegou às bancas neste fim de semana;
Vale ler também o artigo do Belluzzo, no site da mesma revista;
Por fim, aproveito para resgatar do baú um artigo que publiquei na Caros Amigos em 2001, que também fala das idiossincrasias do tal (segue abaixo).

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Eu e o Mundo

Taí uma parceria complicada.

Desde muito tempo não tem sido fácil a relação entre o indivíduo e a coletividade - mas suspeito que no capitalismo de hoje este conflito é amplificado para além dos limites da tolerância.

Enquanto vende o peixe da livre escolha, seduzindo nossas almas com a possibilidade de trocarmos as notas que carregamos no bolso pelos nossos maiores sonhos de consumo, o capitalismo nos cobra o trabalho e, mais do que isto, nos impele a crescente especialização de nossas atividades.

É curioso como um sistema que promete o infinito - o império da liberdade - exige de cada um de nós um tal grau de focalização, que corremos o risco de reduzir nosso vínculo social apenas e tão somente a uma única atividade rotineira, especializada e estúpida. Aliás, é bom lembrar que Marx, ao deschavar com seu agudo bisturi as mumunhas da sociedade capitalista, já apontava para esta tendência de progressiva alienação do sujeito.

Com o recente furacão liberal, mais do que nunca a especialização floresce como a grande meta dos viventes. Quanto mais avança a mediação mercantil das relações sociais, mais forte é a pressão pela especialização de nossas habilidades humanas. Gregos ou troianos, freqüentemente nos vemos "planejando nossas carreiras" para que possamos nos tornar ainda mais imprescindíveis ao capital. Obedecendo os sinais do mercado, que joga alpiste para os que se dedicam com afinco e fidelidade a alguma tarefa miúda na divisão social do trabalho, acabamos reduzindo nossa identidade à faceta mais tosca de nossa existência - a da mera reprodução material.

Evidentemente, a divisão social do trabalho, associada aos direitos de propriedade e mediada pelo dinheiro, é uma maneira um tanto engenhosa de se organizar a produção. Na medida em que cada indivíduo subordina sua existência à tarefa que lhe cabe nesta gigantesca organização social chamada sociedade capitalista, é de se esperar que no "conjunto da obra" este arranjo pareça bastante funcional. Não há como negar que, excluindo-se todas as demais dimensões da vida humana, o capitalismo é um eficiente sistema produtor de mercadorias. Não por acaso, desde Adam Smith, muita gente boa (e muito mais gente safada) tem exaltado esta eficiência como forma de alcançarmos o bem-estar geral.

Acontece que, ao contrário do que nos acostumamos a pensar, pertencer ao mundo não se resume ao estreito vínculo profissional que tanto cativamos. Saber pilotar uma mesa de operações cambiais pela manhã e não conseguir apreciar um bife no almoço pode ser até compreensível do ponto de vista da funcionalidade do sistema, mas soa quase ridículo de qualquer outro ponto de vista.
Como seres humanos, dotados de sentidos e curiosidade, somos tentados a cada instante a vasculhar, entender e participar da vida em muitas de suas dimensões e, se não o fazemos, é porque talvez estejamos deixando nossa humanidade em segundo plano, para nos colocarmos cada vez mais a serviço da produção social de mercadorias.

Assim, para além de todos os problemas econômicos e sociais que decorrem do capitalismo, esta dicotomia entre um mundo de desejos que carregamos na cabeça e o barbante tênue da profissão que nos liga à sociedade é talvez uma das maiores angústias da modernidade. Curiosamente, ao mesmo tempo em que proliferam alternativas de consumo e deleite através desta potente máquina produtora de todo e qualquer tipo de mercadoria, nossos interesses tendem a convergir para atividades cada vez mais especializadas e descoladas das outras esferas da vida. Com a vista ofuscada, dedicamos nossos dias a conquistar um horizonte de sonhos que já não sabemos como desfrutar.

Mais uma vez, o capital demonstra sua maestria na arte do ilusionismo, operando a inversão entre o que é anseio e o que é dever e fazendo-nos crer que nos libertamos quando nos sujeitamos.

Publicado originalmente na Revista Caros Amigos, agosto, 2001

22.11.08

1968: o ano que o rock´n roll, e acendeu


Antes que o ano termine, cumpro a promessa e coloco o player (ali ao lado >>>> ) com 40 músicas que contaminaram o ano de 1968 e a vida de muita gente.
A seleção foi feita pela companheira Maria Clara, com apoio técnico do filho Peu, e resultou num belo CD 'pirata' que tocamos na festa dos meus quarenta.

Ouçam! Tutano da alma!

21.11.08

e o péssimo de pareto?


A "preferência pela liquidez", que para os não-economistas pode parecer assunto de boteco, é um dos grandes insights de Keynes. Antes dele, entre as correntes dominantes do pensamento econômico, acreditava-se que as forças de mercado - se não atrapalhadas pelos governos - conduziriam os capitalistas a investirem todo o estoque de capital (poupança) na órbita da produção. No limite, a sociedade conheceria o pleno emprego e chegaria àquela situação conhecida como "Ótimo de Pareto", uma espécie de clímax econômico. Mas Keynes assistiu à depressão econômica provocada pela crise de 1929 e chamou a atenção para o fato de que, especialmente quando há grandes incertezas quanto à demanda futura, os indivíduos preferem manter o seu capital (ou parte dele) na forma líquida, mesmo que isto signifique perder eventuais oportunidades de lucro. Por esta razão, quando a incerteza aumenta, as propensões a consumir ou a investir se reduzem drasticamente, transformando os medos do presente em pesadelos do futuro. Esperar que as leis entre oferta e procura resolvam este problema e recoloquem a economia em equilíbrio é tarefa que só os contos de fada e os manuais de microeconomia dão conta.
Embora tenham encontrado um limite teórico para a máxima capacidade produtiva (o ótimo de Pareto), o liberalismo econômico fez de conta que não viu a impossibilidade do "péssimo de pareto", ou seja, não há um limite inferior para a espiral depressiva, em que a queda dos preços leva à queda dos investimentos, que leva à queda da demanda, que produz nova queda dos preços, ... e assim sucessivamente. Sem a intervenção de algum deus ex machina (que podemos chamar de Estado ou Política) não há solução natural capaz de deter a espiral deflacionista.
Portanto, o que Keynes enxergou (a partir da observação dos equívocos econômicos na crise dos anos 30) é que só o Estado, pela sua dimensão e principalmente pela sua motivação, é capaz de restabelecer a demanda em níveis suficientes para que voltem a operar as forças de mercado e haja novos estímulos ao investimento privado.
Na crise atual, este assunto se apresenta revigorado. Não sabemos contudo, se as lições da história, serão suficientes para convencer o liberalismo econômico, seus parceiros rentistas e seus porta-vozes na mídia de que o "péssimo de Pareto" não chegou a ser formulado porque exigiria uma dose de cinismo inaceitável.

20.11.08

trânsito infinito


Com o anúncio de que o Governo de São Paulo colocará 4 bilhões de reais à disposição das montadoras de automóveis, para socorrê-las da crise, circularam na imprensa e na blogosfera algumas críticas à prioridade escolhida pelo Governador José Serra.

Por que não gastar em transporte público?
Segundo máteria do Terra Magazine, com o mesmo dinheiro poderia-se construir 13 Km de metrô. Outra proposta que circulou foi a implantação de dezenas de quilómetros de corredores exclusivos para ônibus.

Contudo, embora seja evidente que o gasto com aumento da frota é a pior alternativa do ponto de vista ambiental ou da mobilidade urbana, a escolha do governador é coerente com o urgência econômica e social colocada pela crise. A cadeia produtiva ligada ao setor automobilistico não só representa 22% do PIB industrial brasileiro, como emprega - somente no estado de São Paulo - cerca de 1,5 milhões de trabalhadores. Nenhum governante minimamente responsável poderia deixar um setor estratégico como este correr o risco de entrar em colapso.

Mas isso não significa que a ajuda ao setor de automóveis tenha se dado da melhor maneira. O governo poderia exigir maiores contrapartidas das empresas beneficiadas e, pelo menos em parte, reduzir os danos provocados pelo consequente aumento do número de veículos nas ruas.
Por exemplo, poderia-se aproveitar a oportunidade e promover a renovação da frota de carros velhos, incentivando os donos de carros com motores com carburador (mais de 15 anos) a trocarem de carro. Uma medida destas, além de evitar a ampliação da frota (que piora o transito), traria importantes benefícios ambientais, na medida em que carros com injeção eletrônica são menos poluentes, mais econômicos e já pertencem a uma geração que sai de fábrica com sistema de catalizadores que reduz a emissão de CO2.

18.11.08

como especular sem capital: uma receita banal

Há um tanto de tempo que tiro meu sustento das aulas de economia brasileira e do trabalho insano na prefeitura. Tem dias, que são 16 horas direto, parando apenas para almoçar. Nesse meio tempo, foram raras as vezes que não terminei o mês pendurado no cheque especial.

Enquanto isso, um aluno meu, que ralava de dia em uma empresa de telefonia e fazia contabilidade à noite, resolveu se arriscar no mercado de ações. Não tinha experiência com o assunto, nem muito menos capital.
Então como começar?
O sujeito encontrou uma brecha.
Aproveitando-se de uma promoção do Banco Real, que concedia a clientes universitários 12 dias mensais de cheque especial sem cobrança de juros, ele sacava de sua conta no Real, depositava em outro banco e de lá aplicava o dinheiro em operações diárias de compra e venda de ações. Passados os doze dias, transferia de volta o valor sacado ao Banco Real, cobria o cheque especial e aguardava o mês seguinte.
Passados umas tantas levas de 12 dias, escolado e com o caixa reforçado por recursos próprios (fruto dos rendimentos anteriores), o cara tem hoje um capital de algumas dezenas de milhares de Reais, criados a partir do vento.

Elementar! Estupidamente Simples! Viu o cavalo passar arreado e pulou em cima.

Será que foram as aulas de economia?

16.11.08

queda livre


O palestra parece que foi afetado por algo mais que uma marolinha. Desde a derrota para o Fluminense por 3x0, em 25 de outubro, o time seguiu em parafuso, em evidente colapso da estratégia Luxemburgo.
Realmente o tal Luxa é problema. Seus times, ao invés de embalarem, desandam. É verdade que o Palmeiras não conta com uma seleção de craques, mas comparado com os rivais, tem um elenco bastante razoável.
Creio que além do clima pesado emanado de seu vaidoso treinador e os interesses escusos na escalação, o time do Palmeiras teve dois pontos fracos que tornaram-se mais evidentes à medida em que o campeonato foi chegando ao fim, quando as equipes adversárias estavam mais aguerridas e entrosadas.
Primeiro, a defesa bateu cabeça o ano todo, com muitas duplas diferentes atuando na zaga. Acho até que a experiência com o Martinez foi positiva e também gosto da presença do Roque Junior. O problema é que estas soluções surgiram na reta final, quando não havia mais tempo para sedimentar o esquema de jogo da nova zaga.
O segundo problema crônico do Palmeiras foi a falta de criatividade nas laterais. Embora o Leandro apareça bem, de vez em quando, tanto ele quanto o Elder gostam de fechar na diagonal e como os atacantes Kleber e Alex jogam como pivô, o time afunilava na cabeça da grande área. Quando o Valdívia estava no time, ele ainda conseguia abrir algumas brechas na defesa, principalmente pela esquerda. Mas com a sua saída, o time ficou na dependência de alguns lampejos do Diego Souza. Raríssimos!
Lamento pelo palestra e principalmente pelos palestrinos. Mas o Luxemburgo não merecia levar este título.
Resta torcer pelo tricolor, gaúcho.
Mais um campeonato para o São Paulo, além de encher de moral os chatos bambinos de Jd. Lourdes, reforça o argumento dos pragmáticos, arautos do futebol feio, insosso e defensivo praticado pelo time do Muricy.
Que venha 2009.

13.11.08

Serra 1 x 0 PSDB


Vai entender esta nossa pátria! Estive hoje no Palácio dos Bandeirantes (sede do governo paulista) assistindo ao lançamento do programa "Emprega São Paulo". Trata-se de um pequeno 'Ovo de Colombo', que renderá muitos dividendos ao governador. Através de um site de livre acesso, dedicado à intermediação de mão-de-obra, serão cruzados um cadastro de trabalhadores com outro de vagas disponibilizadas pelas empresas. Assim que o sistema identifica pares potenciais, promove (via email ou telefone) o encontro das "metades da laranja", alegrando a gregos e troianos. É óbvio, banal, coisa que milhares de sites de relacionamento ou de venda de veículos já fazem há anos. Mas, até a presente data, governos em vários níveis batiam cabeça com este problema. Muito bem!

Mas o que me traz ao tema foi o discurso do Serra durante o evento. Empunhando claramente a bandeira do desenvolvimentismo, Serra discorreu sobre os poucos e graves entraves de nossa economia, anotando com correção para o sacrifício de empregos e de atividade econômica que resultam da insana política de juros e de câmbio que têm-se praticado desde o já distante Plano Real. Foi muito aplaudido (inclusive por mim), mas o curioso da história é que, entre seus correligionários de partido e seus parceiros de governo, as críticas por ele levantadas serviam como perfeita carapuça. A grande maioria foi e é entusiasta do nanismo estatal, guardiões da responsabilidade fiscal, avessos a controle de capitais, tementes ao dragão da inflação, enamorados da autonomia do Banco Central. Como é que pode?
Como é que o sujeito-político com maior clareza quanto aos rumos para nosso desenvolvimento foi subir neste trem repleto de cosmopolitas safados e provincianos ignóbeis? Difícil de entender. Muito difícil.

10.11.08

keynes e o sábio chinês

Se a Inglaterra de 29 são os EUA de hoje, seria a China de hoje os EUA de 1933?








Vejamos...

Ontem, o governo chinês anunciou um superpacote de incentivos à sua economia: são US$ 586 BILHÕES para serem investidos, nos dois próximos anos, em habitação popular, infraestrutura e reconstrução de áreas atingidas por terremotos recentes.

Assustados com a possível desaceleração de sua economia para 9% a.a. (quais, quarais, quais, quais!!!!), os chineses não pensaram duas vezes: ante a redução da demanda global, jogarão pesado para turbinar a demanda interna e assim contrabalançar os efeitos recessivos da crise mundial.

Esta história - que poderá ou não se confirmar - segue um enredo parecido com o da crise de 29. Naquela ocasião, a Inglaterra ainda era tida como potência hegemônica, emissora da moeda internacional (a libra esterlina) e responsável em última instância pela manutenção do Padrão-Ouro. Embora à época a virulência da crise recomendasse às economias desenvolvidas alternativas heterodoxas e nacionalistas, os ingleses resistiram o quanto puderam, afundando a sua economia junto com a caduca arquitetura do Padrão-Ouro. Em contrapartida, duas potências emergentes da época - os EUA (com o New Deal de Roosevelt) e a Alemanha (com Hitler) - abandonaram a rígida ortodoxia liberal, lançaram mão do Estado e do orçamento público como forma de revigorar suas economias por dentro (via demanda interna) e já em 1939 estavam tinindo, a ponto de terem lutado como protagonistas a maior guerra de todos os tempos. Desta estratégia, emergiu a nova potência hegemônica (os EUA), jogando a enferrujada e conservadora Inglaterra para os livros de história.

Pois, estaríamos assistindo a uma reprise daquele dilema vivido pelos Ingleses? Será que os EUA de Bush e agora Obama ousarão cometer a 'heresia' - para o liberalismo econômico norte-americano - de transformar o Setor Público em novo e agigantado "Big Governmet", capaz de dinamizar a demanda e evitar o colapso dos preços e do emprego? Ou será que, como a Inglaterra de outrora, permanecerá sentado em seu trono de areia, assistindo ao "Big Governmet" stritu sensu dos pragmáticos chineses, que ao final da trovoada poderão lhes roubar a braçadeira de capitão?
Eis a questão mais relevante de toda a discursera que toma conta do noticiário econônico atual.

Mas, em minha mui modesta opinião, Obama e sua turma parecem atentos ao problema e já dão sinais de que não darão margem para o colapso de sua economia real. Pelas declarações de Rahm Emanuel no Financial Times de hoje, "Obama vê a crise financeira como uma oportunidade histórica para realizar os investimentos em larga escala que os democratas vêm prometendo há anos". Oxalá!
Como bom estadista que parece ser, Obama indica que os EUA não sucumbirão à 'maldição do vencedor', agindo prontamente para recuperar o dinamismo interno de sua economia e de seu mercado de trabalho. Como a China promete fazer o mesmo, tudo indica que o jogo continuará a ser jogado, a economia global deverá se reerguer em alguns meses e a braçadeira deverá continuar com os Yankees por mais um tempo.
Pelo menos desta feita, o pessoal parece ter aprendido alguma coisa com a história.

Para conhecer uma proposta de economistas afinados com Obama, recomendo a leitura do texto elaborado pelo Economic Policy Institute. Clique Aqui.

8.11.08

porque hoje é sábado: escuta o cheiro



A amiga do amigo da amiga convidou, e eu repasso, a quem amigo for, a dica de roda de samba e comidinhas que tá fazendo quizomba aqui nas abas de Campinas. Segue o convite dos caras:

A levada é dia 16, domingo

Abre a roda de responsa
Na segunda edição do Projeto Escuta o Cheiro, domingo, dia 16 de novembro, o grupo Casa Caiada convida e reverencia uma importante figura do samba no interior paulista. ARMANDO MORELI, músico autodidata, violonista, cavaquinista, cantor e compositor.
Moreli vive em Mogi Guaçu onde fundou e atuou em escolas de samba e fez parte de importantes projetos como o TUPEC - Tudo Pela Cultura.
Atualmente comanda o quarteto de MPB Kananga, fundado em 1994, apresenta-se com seu grupo de samba e prepara-se para gravar seu primeiro CD autoral, que reunirá composições colecionadas ao longo de 40 anos.
Foi vencedor de importantes festivais de Música Popular Brasileira e compos trilhas para teatro e curtas-metragens e sambas-enredo.
Em Campinas Moreli apresentou-se no Tonico´s Boteco, na Casa São Jorge, Deck Sousas, no projeto Samba do Mercadão e no projeto Choro no Bosque. Também foi atração no Sesc Campinas com o Kananga. Além do trabalho com seus próprios grupos, Moreli apresenta-se com freqüência com músicos daqui, entre eles o Quarteto de Cordas Vocais e os artistas Lígia Moreli, Silo Sotil (que é coisa nossa!),Tatiana Rocha e o guitarrista JP Gonçalves.
No bate-bola com o Casa Caiada, Armando Moreli deve nos contemplar com um belo repertório de sambas em suas mais diferentes levadas, do samba canção ao samba de breque, com a leveza e o sentimento típico das boas rodas de samba que os bambas sabem fazer!
Estamos imensamente felizes em recebê-lo!!! Seja sempre muito bem vindo entre nós!

Agora Escuta o Cheiro
Temos algumas novas pra contar. A roda vai começar mais cedo, portanto esperamos vocês a partir do meio dia. Haverá também uma alteraçãozinha no preço de entrada, que dessa vez é R$20. Ah… Não chora não meu preto…porque isso acontece em função dos convidados do Casa Caiada e do que serviremos naquele capricho que os que estiveram com a gente já sabem.
Na estreia quisemos oferecer um pouquinho de quase tudo que a gente sabe fazer e deixamos que as pessoas escolhessem suas cumbucas quentes entre os quatro tipos oferecidos. Foi agradinho das “tias” pra todo mundo!
Dessa vez ficam as cumbucas que tiveram mais sucesso: carne seca com abóbora, caldinho de siri e cuzcuz que é a novidade! A primeira cumbuca de caldinho de siri é cortesia e as demais (mais siri, carne seca e cuzcuz) serão cobradas a parte. A mesa de saladas continua a vontade o tempo todo e dessa vez tem caipirinha no bar!
Vem pra almoçar e passe a tarde.


PROJETO ESCUTA O CHEIRO
RUA DOS EXPEDICIONÁRIOS, 544, SOUSAS, CAMPINAS, SÃO PAULO,

7.11.08

a hora e a vez de keynes?

Que o capitalismo é bicho bruto, sabemos todos. Junto à sua inata índole transformadora carrega o vício da irracionalidade e, de tempos em tempos, mostra as caninos, jogando por terra as apostas e os sonhos dos dias de benevolência.
Isto não nos autoriza, contudo, imaginar que sejamos capazes de retirá-lo de cena, como tentou-se no socialismo real, nem substituí-lo por "outro mundo possível", como quer a militância voluntariosa dos Fóruns Sociais ou os grêmios de esquerda.

O próprio Marx foi um entusiasta do vigor transformador do capital, que pelas forças da concorrência intercapitalista e pela inescapável luta pela acumulação, conduziria a sociedade a uma progressiva redução do fardo do trabalho concreto, libertando o homem para uma existência mais digna e criativa. Além disso, não só o capitalismo era visto como uma etapa civilizatória, como era inevitável, necessário e, em grande medida, indiferente e refratário a julgamentos morais ou a ímpetos voluntaristas.
Keynes, que nunca foi marxista (há toda uma polêmica se ao menos foi leitor de Marx), percebeu no capitalismo os mesmos traços fundamentais apontados por Marx, mas resistindo à tentação de sonhar com um "mundo paralelo", um outro sistema, preferiu trabalhar na formulação de ajustes e regras que fossem capazes de reduzir a virulência das crises de nervos do capital e ao mesmo tempo preservar suas maiores qualidades, quais sejam: a incessante transformação tecnológica (que se traduz em melhores condições de vida) e a garantia de razoável grau de liberdade individual.
Para tanto, Keynes propôs extirpar do capital o nervo que lhe produzia os surtos, destruindo países e famílias de quando em quando. O segredo estava em construir canais institucionais por onde fluíssem os capitais, irrigando o setor produtivo de pé em pé. Ou seja, era preciso evitar que os fluxos de capitais, impelidos pela necessidade de acumulação e inoculados pela incerteza, seguissem livremente para os mercados de menor risco e maiores possibilidades de acumulação, sob pena deste próprio movimento produzir ondas de valorização de ativos dissociadas dos processos de aumento real da renda e do produto.
E na formulação de Keynes, este enquadramento do capital só poderia ser obtido por meio do fortalecimento de instituições públicas nacionais e supranacionais. Ou seja, não se trata de colocar o Estado a serviço do mercado (como fazem os detratores do keynesianismo), mas sim de subordinar o capital à Política.

É disso que andam falando por aí, mas que como sabemos é tarefa pra lá de difícil.



Sobre as propostas de Keynes, reproduzo abaixo artigo esclarecedor do incansável Belluzzo:





Keynes e o fim do laissez-faire

31/10/2008
Luiz Gonzaga Belluzzo


John Mayard Keynes nasceu em 1883, o ano da morte de Karl Marx. Nesse momento a economia mundial vivia o tempo da Grande Depressão do século XIX e das profundas transformações da 2ª Revolução Industrial. Entre 1873 e 1896 o aço, a eletricidade, o motor a combustão interna, a química da soda e do cloro, alteraram radicalmente o panorama da indústria, até então marcado pelo carvão, pelo ferro e pela máquina a vapor. A aplicação simples da mecânica cedeu lugar à utilização e integração sistemática da ciência nos processos produtivos. Esta segunda revolução industrial veio acompanhada de um processo extraordinário de ampliação das escalas de produção.

O crescimento do volume de capital requerido pelos novos investimentos impôs novas formas de organização à empresa capitalista. A sociedade por ações tornou-se a forma predominante de estruturação da propriedade. Os bancos, que concentravam suas operações do financiamento do giro dos negócios, passaram a avançar recursos para novos empreendimentos (crédito de capital), e a promover a fusão entre as empresas já existentes. Pouco a pouco todos os setores industriais foram dominados por grandes empresas, sob o comando de gigantescas corporações financeiras. O movimento de concentração do capital produtivo e de centralização do comando capitalista tornou obsoleta a figura do empresário frugal que confundia o destino da empresa com sua própria biografia. O magnata da finança é, agora, o herói e o vilão do mundo que nasce.

Estas violentas transformações sacudiram a Inglaterra e a Alemanha, os Estados Unidos e o Japão. A Inglaterra, pioneira da indústria, foi incapaz de deter o avanço dos demais e de preservar sua supremacia econômica. Os Estados Unidos e a Alemanha ingressaram no cenário. Fizeram valer a superioridade de suas respectivas estruturas capitalistas, especialmente a agilidade de seus bancos e a presença ativa de seus respectivos Estados nacionais. A emergência de novas potências inaugurou um período de grande rivalidade internacional. A disputa pela preeminência econômica intensificou a penetração de capitais nas áreas provedoras de matérias primas e alimentos, alterando a configuração da chamada periferia do mundo capitalista.

O padrão ouro foi a organização monetária do apogeu da Ordem Liberal Burguesa. Isto quer dizer que ele se apresentava como a forma “adequada” de coordenação do arranjo internacional que supunha a coexistência de forças contraditórias: 1) a hegemonia financeira inglesa, exercida através de seus bancos de depósitos e de sua moeda; 2) a exacerbação da concorrência entre a Inglaterra e as “novas” economias industriais dos trusts e da grande corporação, nascidos na Europa e nos Estados Unidos, 3) a exclusão das massas trabalhadoras do processo político (inexistência do sufrágio universal) e 4) a constituição de uma periferia “funcional”, fonte produtora de alimentos, matérias primas e, sobretudo, fronteira de expansão dos sistemas de crédito dos países centrais.

No seu célebre artigo O Fim do Laissez-Faire, John Maynard Keynes cuidou de refletir sobre as transformações que deixaram para trás os mitos do capitalismo liberal. Não por acaso, ironizou a idéia de que a busca do interesse privado levaria necessariamente ao bem estar coletivo. "Não é uma dedução correta dos princípios da teoria econômica afirmar que o egoísmo esclarecido leva sempre ao interesse público. Nem é verdade que o auto-interesse é, em geral, esclarecido."

Conservador, Keynes professava a convicção de que a sociedade e o indivíduo são produtos da tradição e da história. Cultivava os valores de uma moral comunitária. Tinha horror ao utilitarismo e à hipocrisia da Era Vitoriana. Isso não quer dizer que recusasse o programa da modernidade, empenhado no avanço das liberdades e da autonomia do indivíduo. Não acreditava, porém, que esta promessa pudesse ser cumprida numa sociedade individualista em que os possuidores de riqueza orientam obsessivamente o seu comportamento para as vantagens do ganho monetário.

Descreveu sua utopia no artigo Perspectivas Econômicas para Nossos Netos: “Estou à espera, em dias não muito remotos, da maior mudança que já ocorreu no âmbito material da vida, para os seres humanos em seu conjunto. Vejo-nos livres para voltar a alguns dos mais seguros e tradicionais princípios da religião e da virtude tradicional – de que a avareza é um vício, a usura uma contravenção, o amor ao dinheiro algo detestável.. Valorizemos novamente os fins acima dos meios e preferiremos o bem ao útil. Honraremos os que nos ensinam a passar virtuosamente e bem a hora e o dia, as pessoas agradáveis capazes de ter um prazer direto nas coisas, os lírios do campo que não mourejam nem fiam.”

O “amor ao dinheiro”, dizia, é o sentimento que move o indivíduo na economia mercantil-capitalista. Fator de progresso e de mudança social, the love of money' pode se transformar em um tormento para o homem moderno. Seus efeitos negativos precisam ser neutralizados mediante a ação jurídica e política do Estado Racional e, sobretudo, pela atuação de "corpos coletivos intermediários”; como, por exemplo, um Banco Central dedicado à gestão consciente da moeda e do crédito.

Keynes acreditava que a cura para os males do capitalismo deve "ser buscada, em parte, pelo controle da moeda e do crédito por uma instituição central e, em parte, por um acompanhamento da situação dos negócios, subsidiados por abundante produção de dados e informações".

Keynes falava "da direção inteligente pela sociedade dos mecanismos profundos que movem os negócios privados”; particularmente os processos que envolvem as decisões de investimento, ou seja, a criação de riqueza nova.

Na Teoria Geral, Keynes tratou do caráter instável do investimento privado, concebido por ele como uma vitória do espírito empreendedor sobre o medo decorrente da "incerteza e da ignorância quanto ao futuro". É a tensão não mensurável entre as expectativas a respeito da evolução dos rendimentos do novo capital produtivo e o sentimento de segurança proporcionado pelo dinheiro que vão determinar; em cada momento, o desempenho das economias de mercado. A vida do homem comum vai depender do volume de gastos que os capitalistas - detentores dos meios de produção e controladores do crédito - estarão dispostos a realizar, criando mais renda e mais emprego. O destino da sociedade é decidido na alma dos possuidores de riqueza, onde se trava a batalha entre as forças de criação de nova riqueza e o exército negro comandado pelo "amor ao dinheiro”.

As decisões de gasto estão subordinadas às expectativas dos capitalistas - enquanto possuidores de riqueza monetária - do sistema bancário em derradeira instância - de abrir mão da liquidez, criando crédito e incorporando novos títulos de dívida à sua carteira de ativos.

Nos momentos em que o medo do futuro atropela o espírito de iniciativa, a demanda capitalista por riqueza pode se concentrar em ativos líquidos já existentes, inchando a circulação financeira e jogando para baixo os preços dos papéis (e, portanto, afetando as taxas de juros), com prejuízos para o emprego e a renda da comunidade. Esta demanda por liquidez não suscita o aumento da produção e a contratação de novos trabalhadores para satisfazê-la. Por isso, o investimento não deve ser deixado exclusivamente aos caprichos do ganho privado. Deixados à sua lógica, os mercados são incapazes de derrotar a incerteza e a ignorância.

Não é surpreendente que nos trabalhos elaborados para as reuniões que precederam as reformas de Bretton Woods, Keynes tenha tomado posições radicais em favor da administração centralizada e pública do sistema internacional de pagamentos e de criação de liquidez. Ele imaginava que o controle de capitais deveria ser "uma característica permanente da nova ordem econômica mundial".

Uma instituição supranacional-um banco central dos bancos centrais - seria encarregada de executar a gestão "consciente" das necessidades de liquidez do comércio internacional e dos problemas de ajustamento de balanço de pagamentos entre países, superavitários e deficitários. Keynes pretendia evitar os métodos de ajustamento recessivos e assimétricos impostos aos países deficitários e devedores por um sistema internacional em que os problemas de liquidez ou de solvência dependem da busca da "confiança" dos mercados de capitais.

As instituições multilaterais de Bretton Woods - o Banco Mundial e o FMI - nasceram com poderes de regulação inferiores aos desejados inicialmente por Keynes e Dexter White respectivamente representantes da Inglaterra e dos Estados Unidos nas negociações do acordo, que se desenvolveram basicamente, entre 1942 e 1944. Harry Dexter White pertenceu à chamada ala esquerda dos New Dealers e foi por isso, depois da guerra, investigado duramente pelo Comitê de Atividades Anti-Americanas do Congresso. Seu plano inicial previa a constituição de um verdadeiro Banco Internacional e de um Fundo de Estabilização. Juntos o Banco e o Fundo deteriam uma capacidade ampliada de provimento de liquidez ao comércio entre os países-membros e seriam mais flexíveis na determinação das condições de ajustamento dos déficits do balanço de pagamentos. Isso assustou o establishiment americano. Uns porque entendiam que estes poderes limitavam seriamente o raio de manobra da política econômica nacional americana. Outros porque temiam a tendência "inflacionária" desses mecanismos de liquidez e de ajustamento.

Keynes propôs a Clearing Union, uma espécie de Banco Central dos bancos centrais. A Clearing Union emitiria uma moeda bancária, o bancor, ao qual estariam referidas as moedas nacionais. Os déficits e superávits dos países corresponderiam a reduções e aumentos das contas dos bancos centrais (em bancor) junto à Clearing Union. Uma peculiaridade do Plano Keynes era a distribuição mais eqüitativa do ônus do ajustamento dos desequilíbrios dos balanços de pagamentos entre deficitários e superavitários. Isto significava, na verdade, dentro das condicionalidades estabelecidas, facilitar o crédito aos países deficitários e penalizar os países superavitários. O propósito de Keynes era evitar os ajustamentos deflacionários e manter as economias na trajetória do pleno-emprego. A proposta também sofreu sérias restrições dos Estados Unidos, país que emergiu da segunda guerra como credor do resto do mundo e superavitário em suas relações comerciais com os demais.

O enfraquecimento do Fundo, em relação às idéias originais, significou a entrega das funções de regulação de liquidez e de emprestador de última instância ao Federal Reserve. O sistema monetário e de Bretton Woods foi menos "internacionalista" do que desejariam os que sonhavam com uma verdadeira ordem econômica mundial.

5.11.08

obama é o cara?

Que bela festa e que bela história a vitória de Obama. Assim como o Lula, o sujeito tem uma biografia que impõe um baita respeito. Na ponta do lápis e em sã consciência, ninguém teria sido capaz de dizer que estes caras chegariam ao mais importante cargo de seus respectivos países.
Gosto destes enredos porque nos ajudam a lembrar que a história se desenvolve do presente para o passado, da foz para a nascente, contrariando nossa intuição. O fato de terem alcançado um desfecho nobre dá sentido imediato a todo o amontoado de acontecimentos pelos quais atravessaram no passado e que agora ganham ares de predestinação. Não fosse pelo fim (um acaso histórico fruto de incontáveis determinantes), os passos pretéritos de nada valeriam, como aliás são os passos de tantos outros, de desfecho menos glorioso.
Mas e agora? Obama estará a altura dos desafios que a ele se apresentam ou da esperança que nele depositam? Este é o assunto que pipoca na imprensa neste momento, e não são poucos os sabidos que desfilam seus agouros, alertando os incautos para o óbvio: que Obama não fará a revolução nem tampouco trará a solução para os problemas de nosso cambalido planeta. É claro e notório que Obama só conseguiu se eleger por conta do apoio do establishment e que portanto está amarrado até a alma com grupos econômicos e políticos que não desejam uma virada de mesa. Porém... acho que vale a pena arriscar algumas hipóteses otimistas: primeiro, o fato de estar assumindo o governo durante uma crise profunda, ao contrário do que pensam alguns, pode ser uma rara oportunidade para que seu tino e sua retórica de mudança sejam instigados a avançar sobre limites (políticos, institucionais e sociais) que em condições normais de temperatura e pressão jamais seriam tocados (vale lembrar que Roosevelt viveu processo parecido, elegendo-se no furacão da crise em 1933 e consagrando-se como grande presidente dos EUA no século XX, eleito por 4 mandatos consecutivos); segundo, como é portador da esperança de milhões, uma vez transpostos alguns limites, parece razoável imaginar que o processo cobre crescente proatividade de Obama, que até onde pode-se depreender de seu perfil, não dá mostras de refugar a desafios políticos. Aguardemos os próximos anos. Fico entre aqueles que acreditam em tempos mais generosos.


E para que não restem dúvidas da comoção provocada pela vitória de Obama, segue o vídeo do ex-candidato Jesse Jackson, negro e democrata como Obama, chorando como criança durante o discurso do novo presidente. Belíssima cena.

1.11.08