blog em recesso...
o pífano e o escaninho
14.9.11
10.7.11
yamaga, ainda que fosse apenas pelo aroma
Quem acompanha a mais tempo este blog, deve ter notado que, sob o tema "cinza is beautifull", reúno os posts que tratam de lugares notáveis garimpados no enrosco das grandes cidades.
Pois, ontem, descobri mais um: o Yamaga.
Permitam-me, porém, um preâmbulo, um antepasto.
Vinte anos atrás, tranquei a faculdade e fui com minha namorada - hoje minha companheira e mãe de meus filhos - passar uma temporada em Londres. Sem falar inglês, o primeiro emprego que consegui foi como lavador de cumbuca num restaurante japonês.
Mas não era um restaurante qualquer. Era, talvez, o japonês mais "in" da cidade. A começar pela porta de entrada, sem nenhuma placa ou qualquer indicativo de que se tratava de um restaurante. Apenas uma porta preta que dava acesso ao subsolo de uma também solene loja da Maserati. Para frequentar o lugar, só com a indicação de alguém e reserva prévia. Do lado de dentro, doze mesas apenas, cada qual em sua salinha de tatame. As garçonetes, importadas do Japão, não falavam inglês. Só o gerente conhecia o idioma. Na cozinha, quatro ou cinco japoneses de facas na mão e calçados naqueles tamancos de madeira que se apoiam em duas traves. Ao lado, num beco de 2m², eu, o único ocidental, ante uma pia enorme, abarrotada dos mais variados utensílios de bambu e as infinitas cumbucas.
Era ali que eu passava meus dias, sem precisar de qualquer idioma, apenas gesticulando com a cabeça e sentido os aromas que cruzavam a janela através da qual as pequenas gueixas me passavam as cumbucas. Todos os dias, invariavelmente, chegava à minha janelinha alguma cesta de tempurás com um ou dois enormes camarões empanados, desprezados por algum cliente esnobe ou sem tempo para os prazeres. Pois eram os melhores camarões da terra.
Volto ao dia de ontem, Rua Tomás Gonzaga, bairro da Liberdade. Por indicações de amigos, sempre que estou por lá, vou ao Hinodê ou ao Gombe, dois tradicionais restaurantes japoneses apreciados pelos paulistanos. Mas, ontem, titubeamos e resolvemos nos arriscar por um local desconhecido. Por uma fresta de porta enxergamos um balcão (sushi-bar) que nos chamou a atenção. Era o Yamaga, nº66.
Sentamos, claro, no balcão, de bela e confortável madeira branca. À nossa frente, um japonês esquálido, com sete olhos, quatro braços, dezoito facas, um copo de uísque. Fui lhe pedir o cardápio e tomei um "moça traz". Virei para o lado, em busca da moça, e tomei uma baforada da cozinha.
Direto do hipotálamo me veio a lembrança do restaurante de Londres. Tantos anos depois, tantos japas visitados, me reencontro com aqueles aromas que me traziam as cumbucas.
Entusiasmados, pedimos um "combo" cada um - lá o combo é individual. Enquanto aguardávamos, apreciávamos o ambiente, os nomes de clientes cativos nas garrafas de uísque na prateleira: Sr. Park, Sr. Nakagawa, Sr. Hidetoshi, outro Naka e, acima, no canto esquerdo, Sr. Jacard - ao que me seguiu um frio na espinha.
Do centro de seu pequeno reino, o Sr.Toshiso Nonogushi comandava com poderes absolutos todas as ações da casa: "Pati, limpa mesa 3"; "Roberta, leva Teishoku"; "Pati, pega gelo Chefe". E a Pati: "O Chefe tá vermelho como um camarão". E ele: "Chefe uísque". Isso tudo, sem tirar a mão esquerda da panela de arroz, de onde preparava os bolinhos para depois cobri-los com as fatias de peixe. Aliás, no Yamaga, não são exatamente "fatias". Mais correto seria chamar de pedaços, pois o Sr. Toshiso serve o peixe em bitelos mais grossos, com estranhos cortes na diagonal - feito que só é possível graças à qualidade do peixe. Segundo ele, o segredo está na hora de comprar o peixe ("tem que ser gordo"), tarefa que, evidentemente, cabe apenas a ele.
E de fato, o peixe servido no Yamaga é muito superior ao que se come em outros lugares. Chega a ser intrigante. Como é que uma comida tão simples, com pouquíssimos ingredientes e servida crua, pode variar tanto?
E o tempurá? Ahhh, o tempurá.....
Pois, ontem, descobri mais um: o Yamaga.
Permitam-me, porém, um preâmbulo, um antepasto.
Vinte anos atrás, tranquei a faculdade e fui com minha namorada - hoje minha companheira e mãe de meus filhos - passar uma temporada em Londres. Sem falar inglês, o primeiro emprego que consegui foi como lavador de cumbuca num restaurante japonês.
Mas não era um restaurante qualquer. Era, talvez, o japonês mais "in" da cidade. A começar pela porta de entrada, sem nenhuma placa ou qualquer indicativo de que se tratava de um restaurante. Apenas uma porta preta que dava acesso ao subsolo de uma também solene loja da Maserati. Para frequentar o lugar, só com a indicação de alguém e reserva prévia. Do lado de dentro, doze mesas apenas, cada qual em sua salinha de tatame. As garçonetes, importadas do Japão, não falavam inglês. Só o gerente conhecia o idioma. Na cozinha, quatro ou cinco japoneses de facas na mão e calçados naqueles tamancos de madeira que se apoiam em duas traves. Ao lado, num beco de 2m², eu, o único ocidental, ante uma pia enorme, abarrotada dos mais variados utensílios de bambu e as infinitas cumbucas.
Era ali que eu passava meus dias, sem precisar de qualquer idioma, apenas gesticulando com a cabeça e sentido os aromas que cruzavam a janela através da qual as pequenas gueixas me passavam as cumbucas. Todos os dias, invariavelmente, chegava à minha janelinha alguma cesta de tempurás com um ou dois enormes camarões empanados, desprezados por algum cliente esnobe ou sem tempo para os prazeres. Pois eram os melhores camarões da terra.
Volto ao dia de ontem, Rua Tomás Gonzaga, bairro da Liberdade. Por indicações de amigos, sempre que estou por lá, vou ao Hinodê ou ao Gombe, dois tradicionais restaurantes japoneses apreciados pelos paulistanos. Mas, ontem, titubeamos e resolvemos nos arriscar por um local desconhecido. Por uma fresta de porta enxergamos um balcão (sushi-bar) que nos chamou a atenção. Era o Yamaga, nº66.
Sentamos, claro, no balcão, de bela e confortável madeira branca. À nossa frente, um japonês esquálido, com sete olhos, quatro braços, dezoito facas, um copo de uísque. Fui lhe pedir o cardápio e tomei um "moça traz". Virei para o lado, em busca da moça, e tomei uma baforada da cozinha.
Direto do hipotálamo me veio a lembrança do restaurante de Londres. Tantos anos depois, tantos japas visitados, me reencontro com aqueles aromas que me traziam as cumbucas.
Entusiasmados, pedimos um "combo" cada um - lá o combo é individual. Enquanto aguardávamos, apreciávamos o ambiente, os nomes de clientes cativos nas garrafas de uísque na prateleira: Sr. Park, Sr. Nakagawa, Sr. Hidetoshi, outro Naka e, acima, no canto esquerdo, Sr. Jacard - ao que me seguiu um frio na espinha.
Do centro de seu pequeno reino, o Sr.Toshiso Nonogushi comandava com poderes absolutos todas as ações da casa: "Pati, limpa mesa 3"; "Roberta, leva Teishoku"; "Pati, pega gelo Chefe". E a Pati: "O Chefe tá vermelho como um camarão". E ele: "Chefe uísque". Isso tudo, sem tirar a mão esquerda da panela de arroz, de onde preparava os bolinhos para depois cobri-los com as fatias de peixe. Aliás, no Yamaga, não são exatamente "fatias". Mais correto seria chamar de pedaços, pois o Sr. Toshiso serve o peixe em bitelos mais grossos, com estranhos cortes na diagonal - feito que só é possível graças à qualidade do peixe. Segundo ele, o segredo está na hora de comprar o peixe ("tem que ser gordo"), tarefa que, evidentemente, cabe apenas a ele.
E de fato, o peixe servido no Yamaga é muito superior ao que se come em outros lugares. Chega a ser intrigante. Como é que uma comida tão simples, com pouquíssimos ingredientes e servida crua, pode variar tanto?
E o tempurá? Ahhh, o tempurá.....
2.7.11
29.6.11
a pública: a urtiga
Porreta a iniciativa das jornalistas Marina Amaral, Natália Viana e Tatiana Merlino (todas ex-Caros Amigos) que botaram no ar a página "A Pública", nada menos que uma promissora "Agência de Reportagens e Jornalismo Investigativo".
De saída, 50 traulitada produzidas a partir de documentos do Wikileaks que estão sendo distribuídas a cada duas horas ao longo dessa semana.
E o engraçado da história é que a trupe dos jornalões, que andava dizendo que a internet, os blogs e sites, nada mais eram do que caixa de ressonância da velha mídia, está agora com o olho pregado na Pública esperando o próximo drops, sabor pólvora.
Pois, vamos logo a elas. O link já está devidamente posicionado ali do lado direito, na Redondeza.
Parabéns muchachas!
ET: enquanto isso, no site do Estadão, jornalão por excelência, o que resta é a produção de um parrudo factoide. Aproveitando-se da aura suspeita que cerca o prefeito de Campinas, o jornal estampa em letras garrafais um "grampo" que trataria de um suposto lobby do Dr. Hélio com o marketeiro de Dilma em favor de uma empresa chinesa. Ouça aqui o áudio, disponibilizado pelo mesmo jornal que produziu o factoide, para perceber como não há absolutamente nada de ilegal, irregular ou anti-ético na conversa dos dois. Aliás, o Prefeito deixa claro que se trata de uma decisão de investimento já tomada pela empresa, em favor de Campinas, e que se trata de uma oportunidade - legítima e corriqueira - da Presidenta Dilma, que estaria na cidade, participar do anúncio oficial do investimento da multinacional.
Lamentável! De minha perspectiva, a ilegalidade do episódio está apenas e tão somente na divulgação de uma gravação que foi produzida com autorização da justiça para investigar suspeitas de corrupção na prefeitura de Campinas e que não tem qualquer vínculo com o teor da conversa sobre a qual montaram o factoide. Seria ótimo que o Ministério Público Paulista, responsável pelas investigações em Campinas, se comprometesse, primeiro, a apurar como o material vazou de seus processos e, segundo, a defender o interesse do público ante a patente e irresponsável má fé do "furo" jornalístico desse carcomido jornalão.
De saída, 50 traulitada produzidas a partir de documentos do Wikileaks que estão sendo distribuídas a cada duas horas ao longo dessa semana.
E o engraçado da história é que a trupe dos jornalões, que andava dizendo que a internet, os blogs e sites, nada mais eram do que caixa de ressonância da velha mídia, está agora com o olho pregado na Pública esperando o próximo drops, sabor pólvora.
Pois, vamos logo a elas. O link já está devidamente posicionado ali do lado direito, na Redondeza.
Parabéns muchachas!
ET: enquanto isso, no site do Estadão, jornalão por excelência, o que resta é a produção de um parrudo factoide. Aproveitando-se da aura suspeita que cerca o prefeito de Campinas, o jornal estampa em letras garrafais um "grampo" que trataria de um suposto lobby do Dr. Hélio com o marketeiro de Dilma em favor de uma empresa chinesa. Ouça aqui o áudio, disponibilizado pelo mesmo jornal que produziu o factoide, para perceber como não há absolutamente nada de ilegal, irregular ou anti-ético na conversa dos dois. Aliás, o Prefeito deixa claro que se trata de uma decisão de investimento já tomada pela empresa, em favor de Campinas, e que se trata de uma oportunidade - legítima e corriqueira - da Presidenta Dilma, que estaria na cidade, participar do anúncio oficial do investimento da multinacional.
Lamentável! De minha perspectiva, a ilegalidade do episódio está apenas e tão somente na divulgação de uma gravação que foi produzida com autorização da justiça para investigar suspeitas de corrupção na prefeitura de Campinas e que não tem qualquer vínculo com o teor da conversa sobre a qual montaram o factoide. Seria ótimo que o Ministério Público Paulista, responsável pelas investigações em Campinas, se comprometesse, primeiro, a apurar como o material vazou de seus processos e, segundo, a defender o interesse do público ante a patente e irresponsável má fé do "furo" jornalístico desse carcomido jornalão.
25.6.11
a moratória que revigora
Enquanto o clima de tensão pré-colapso se espraia entre os europeus, a prestigiosa e conservadora revista The Economist publicou dias atrás em seu site uma nota acabrunhada sobre um estudo no qual são analisados vários casos de moratória de dívidas soberanas (os ditos defaults). Comparando diferentes experiências desde 1999, o tal estudo aponta que, ao contrario do que costumam vaticinar os 'analista do mercado', o desempenho econômico dos países que declararam moratória melhora sensivelmente no período pós-calote.
De fato, como se observa no gráfico acima, com exceção de economias cronicamente inviáveis (Belize, Camarões ou Granada), em todas as demais as taxas de crescimento do PIB pós-calote (em azul escuro) dão um salto quando comparadas às taxas pré-calote (em azul claro).
Veja-se, por exemplo, como melhorou a vida de nossos vizinhos uruguaios: nos anos que antecederam ao default, amargavam uma recessão que se aproximava de -3% do PIB; declarada a moratória, o PIB só faz crescer, a uma taxa quase chinesa, que hoje já é superior a 8% ao ano.
Mas os números divulgados pela The Economist não revelam apenas esse caráter virtuoso das moratórias. Deixam claro também que são justamente as baixas taxas de crescimento do PIB que muitas vezes levam os países à situação de insolvência. Dessa perspectiva, a decisão de não pagar é o último ato de uma tragédia anunciada e representa apenas o momento de acerto de contas com o passado. Baixado o pano, o país estará livre para a retomada do crescimento em uma nova base, com menor endividamento e menores riscos.
Curiosamente, não li nem ouvi nossos mídia-ligeiras tocarem no assunto.
Pois, market-friendly que são, deveriam estar mais atentos ao jogo.Tais números apenas atestam o que há muito sabemos: trata-se de capitalismo em estado bruto - capital en su tinta! Moral à parte, uma vez declarado o default, a nação ex-caloteira é rapidamente perdoada e abre-se terra virgem a novas rodadas de acumulação capitalista. O apetite dos homens se encarrega do resto.
De fato, como se observa no gráfico acima, com exceção de economias cronicamente inviáveis (Belize, Camarões ou Granada), em todas as demais as taxas de crescimento do PIB pós-calote (em azul escuro) dão um salto quando comparadas às taxas pré-calote (em azul claro).
Veja-se, por exemplo, como melhorou a vida de nossos vizinhos uruguaios: nos anos que antecederam ao default, amargavam uma recessão que se aproximava de -3% do PIB; declarada a moratória, o PIB só faz crescer, a uma taxa quase chinesa, que hoje já é superior a 8% ao ano.
Mas os números divulgados pela The Economist não revelam apenas esse caráter virtuoso das moratórias. Deixam claro também que são justamente as baixas taxas de crescimento do PIB que muitas vezes levam os países à situação de insolvência. Dessa perspectiva, a decisão de não pagar é o último ato de uma tragédia anunciada e representa apenas o momento de acerto de contas com o passado. Baixado o pano, o país estará livre para a retomada do crescimento em uma nova base, com menor endividamento e menores riscos.
Curiosamente, não li nem ouvi nossos mídia-ligeiras tocarem no assunto.
Pois, market-friendly que são, deveriam estar mais atentos ao jogo.Tais números apenas atestam o que há muito sabemos: trata-se de capitalismo em estado bruto - capital en su tinta! Moral à parte, uma vez declarado o default, a nação ex-caloteira é rapidamente perdoada e abre-se terra virgem a novas rodadas de acumulação capitalista. O apetite dos homens se encarrega do resto.
24.6.11
mas que falta alguma coisa, falta
O historiador István Jancsó deixou um belo depoimento biográfico que foi publicado por seus alunos um mês após sua morte, em março de 2010 (Um historiador do Brasil: István Jancsó. MOREL, M. et alli. São paulo: Ed Hucitec, 2010).
Lá, quando falava da "nação como projeto", apontava para uma lacuna de nossa historiografia que me parece das mais relevantes. Segundo o Prof. István, quando se trata de pensar os fundamentos da nação brasileira, "as pessoas gostam de iluminar terrenos já iluminados". Nos acomodamos às análises dos chamados "intérpretes do Brasil" (Caio Prado, Sergio Buarque e Gilberto Freyre) ou nos apoiamos na vigorosa e influente tese de Fernando Novais - que trata da crise do sistema colonial - mas pouco avançamos na reflexão sobre processos históricos mais recentes e suas relações com o Brasil contemporâneo. No esforço de construir uma genealogia da identidade nacional, dar-se-ia excessivo peso a nosso passado colonial e muito pouca relevância à dinâmica histórica de nosso período republicano.
De fato, embora eu não seja um estudioso do assunto, me arrisco a dizer que a complexidade social brasileira, em suas várias dimensões (cultural, política, econômica), não parece caber apenas em nossa matriz colonial.
Não há como discordar que nosso sentido de nação é fraco, quase uma abstração, e que está em nossa herança colonial muitas das razões desse nosso traço. Mas, por exemplo, o quanto disso não foi amplificado por um mar de imigrantes - que se tornaram gente após a urbanização - e que guardam muito pouco sentido de nacionalidade? Costumo perguntar a meus alunos - do interior de São Paulo - quantos tem sobrenomes estrangeiros. Invariavelmente, mais de 95% tem lá o seu avô italiano, japonês ou espanhol. E qual a relação dessa gente com o Brasil colônia? Em que medida são brasileiros? Ou, por outro lado, quais os nexos entre suas experiências e expectativas de vida e os rumos da "nação brasileira"?
Não conheço em profundidade a bibliografia a respeito. Talvez exista gente nova produzindo estudos que avancem nesse esforço de interpretação do Brasil contemporâneo. Mas, creio que o Prof. István tocou em um problema real e grave de nossa historiografia. Seria muito bom que novos intérpretes viessem a tona (se é que isso ainda é possível) e pudéssemos transitar por outras narrativas, que não aquelas produzidas em um país predominantemente agrário e que resultava da visão de mundo de gente oriunda da classe dominante.
Lá, quando falava da "nação como projeto", apontava para uma lacuna de nossa historiografia que me parece das mais relevantes. Segundo o Prof. István, quando se trata de pensar os fundamentos da nação brasileira, "as pessoas gostam de iluminar terrenos já iluminados". Nos acomodamos às análises dos chamados "intérpretes do Brasil" (Caio Prado, Sergio Buarque e Gilberto Freyre) ou nos apoiamos na vigorosa e influente tese de Fernando Novais - que trata da crise do sistema colonial - mas pouco avançamos na reflexão sobre processos históricos mais recentes e suas relações com o Brasil contemporâneo. No esforço de construir uma genealogia da identidade nacional, dar-se-ia excessivo peso a nosso passado colonial e muito pouca relevância à dinâmica histórica de nosso período republicano.
De fato, embora eu não seja um estudioso do assunto, me arrisco a dizer que a complexidade social brasileira, em suas várias dimensões (cultural, política, econômica), não parece caber apenas em nossa matriz colonial.
Não há como discordar que nosso sentido de nação é fraco, quase uma abstração, e que está em nossa herança colonial muitas das razões desse nosso traço. Mas, por exemplo, o quanto disso não foi amplificado por um mar de imigrantes - que se tornaram gente após a urbanização - e que guardam muito pouco sentido de nacionalidade? Costumo perguntar a meus alunos - do interior de São Paulo - quantos tem sobrenomes estrangeiros. Invariavelmente, mais de 95% tem lá o seu avô italiano, japonês ou espanhol. E qual a relação dessa gente com o Brasil colônia? Em que medida são brasileiros? Ou, por outro lado, quais os nexos entre suas experiências e expectativas de vida e os rumos da "nação brasileira"?
Não conheço em profundidade a bibliografia a respeito. Talvez exista gente nova produzindo estudos que avancem nesse esforço de interpretação do Brasil contemporâneo. Mas, creio que o Prof. István tocou em um problema real e grave de nossa historiografia. Seria muito bom que novos intérpretes viessem a tona (se é que isso ainda é possível) e pudéssemos transitar por outras narrativas, que não aquelas produzidas em um país predominantemente agrário e que resultava da visão de mundo de gente oriunda da classe dominante.
8.6.11
celular zen
E não é que, circulando por esse mundo virtual, me deparo com um post escrito por meu pai, Nivaldo Manzano, em blog alheio, indicando essa linda peça publicitária criada, no Japão, para o lançamento de um celular de madeira.
Vejam o vídeo abaixo, uma proeza tipicamente oriental. Em meio a uma floresta tranquila, num xilofone pra lá de comprido, uma bolinha de maneira, movida apenas pela gravidade e com o tempo ditado pela inclinação e comprimento de cada tecla-degrau, executa a singela melodia de "jesus, alegria dos homens" de Bach.
Vejam o vídeo abaixo, uma proeza tipicamente oriental. Em meio a uma floresta tranquila, num xilofone pra lá de comprido, uma bolinha de maneira, movida apenas pela gravidade e com o tempo ditado pela inclinação e comprimento de cada tecla-degrau, executa a singela melodia de "jesus, alegria dos homens" de Bach.
7.6.11
e quantos dias trabalhamos para o rentismo?
É impressionante como os mídia-ligeira se derretem pelo tema "dias de trabalho necessários para pagar impostos". Em 25 de maio passado, se dedicaram com afinco a divulgar uma campanha patrocinada pelas Associações Comerciais, na qual alguns postos de gasolina se dispuseram a vender combustíveis descontando o valor dos impostos do preço final do produto. Segundo os patrocinadores do ato, tratava-se de uma estratégia para chamar a atenção do público sobre o peso da carga tributária sobre a renda nacional (PIB). Supostamente, a data escolhida demarcava o tanto de dias de trabalho que, em média, nós brasileiros dedicamos a custear o setor público.
Mas se esqueceram de dizer a verdade - o que é deplorável e muito grave, considerando que o assunto é da maior relevância e que, ao contrário do que repercutem os mídia-ligeira, os números trombeteados estão muito distantes da realidade.
Para analisar o peso do setor público sobre a economia deveriam retirar da conta todas aquelas despesas que correspondem a transferências de recursos que apenas são intermediados pelo setor estatal.
Como se pode observar na figura abaixo (baseada em estudo do IPEA), todas as fatias em tons de azul correspondem a pagamentos realizados pelos órgãos públicos que se destinam a bolsos privados (15,3%). É o caso, por exemplo, das aposentadorias do setor privado (6,9%), das aposentadorias do setor público (4,7%), do FGTS, do Bolsa Família, Subsídios, etc. Não faz o menor sentido dizer que trabalhamos para pagar estas despesas sem considerar que, a depender da nossa condição social (aposentado, desempregado, invalido, etc), receberemos esses recursos de volta.
Porém, além destas transferências diretas, há uma outra importante porção de recursos públicos que se destina a custear os encargos da dívida pública (os famigerados Juros) que, em 2008, representaram 5,6% do PIB ou 21 dias de trabalho. E, é bom lembrar, que esses 21 dias de suor de cada um de nós destinam-se a manter cheios os bolsos dos 0,5% dos brasileiros que estão sentados no topo da pirâmide - estima-se que cada um desses abençoados recebam aproximadamente R$ 12 mil por mês a título de remuneração dos títulos públicos que mantém em suas carteiras.
Ou seja, retirando tudo que se refere apenas a movimentação de dinheiro entre bolsos privados (transferências diretas + juros), o que resta efetivamente para custear as despesas públicas corresponde apenas a 14,9% do PIB (ou 54 dias de trabalho). É tão somente com esses recursos - chamados de Carga Tributária Líquida - que os três níveis de governo pagam as despesas do SUS, das universidades e escolas públicas, da justiça, da segurança pública, das forças armadas, do legislativo, dos portos, das estradas, do metrô, e tudo mais.
Portanto, se tivessem algum compromisso com a verdade ou um mínimo de responsabilidade com o país, os mídia-ligeira deveriam fazer o seu carnaval com as Associações Comerciais lá pelo dia 23 de fevereiro e podiam inclusive mostrar tudo que se faz com esse tantinho de dias que se destina a custear o nosso setor estatal.
Em suma: de cada 2,5 dias que suamos a camisa para sustentar o governo, suamos um outro para sustentar um punhado de endinheirados que flanam nas asas dos títulos públicos.
Com o que será que devemos nos indignar?
PS: para uma comparação internacional, veja o documento do IPEA clicando aqui.
3.6.11
sobram razões para a saída de palocci
No início de 2004, quando Lula completava seu primeiro ano de governo, escrevi para o Correio da revista Caros Amigos um artigo que apontava para a excessiva e inaceitável ortodoxia econômica capitaneada pelo então todo poderoso Ministro da Fazenda, Antônio Palocci. Brinquei que caminhávamos para uma situação inusitada - que chamei de o Péssimo de Pareto - na qual nada mais podia piorar sem que alguém fosse beneficiado (ou seja, o Ministro havia maximizado as possibilidades de piora, algo que nem o mais tarado economista ousara pensar).
Pois não é que o renitente Palocci continua encravado no seio dos mandatos petistas, como uma cunha a garantir os interesses do rentismo e do mercadismo nas instâncias decisórias do país. Se resta algo de ideologia de esquerda na coalizão governista, Palocci deveria ser sacado do governo de imediato, não apenas pelos desvios de sua estratégia de alavancagem pecuniária, mas principalmente pelas inúmeras demonstrações de conservadorismo econômico, que tanto prejudicam e sabotam a rara oportunidade de um governo que navega entre o desenvolvimentismo e o progresso social.
Aos que duvidam ou não se recordam das ações de Palocci na defesa dos interesses rentistas, segue uma lista das mais notáveis:
1. Lutou politicamente para ampliar e tornar definitiva a DRU (Desvinculação das Receitas da União), com o que pretendia ter a liberdade para utilizar os recursos da Seguridade Social para pagamento de despesas financeiras (juros)
2. Foi um militante convicto da autonomia do Banco Central, tese que alimenta o sonho liberal e que em última instância significa transferir o coração da política econômica a uma instituição apartada da política, sobre a qual, portanto, a sociedade não tem qualquer ascendência.
3. Lutou para criar uma lei que obrigasse o governo a alcançar um déficit nominal próximo de zero, ou seja, seria sempre necessário garantir um superávit primário (saldo fiscal antes das despesas financeiras) suficientemente elevado para arcar com os encargos financeiros da dívida pública.
4. Enquanto esteve no governo Lula, conduziu os bancos públicos tal qual bancos privados, abrindo mão do enorme potencial de indução que têm sobre os setores produtivos e de um importante instrumento de regulação indireta dos seus concorrentes no mercado bancário.
4. Enquanto esteve no governo Lula, conduziu os bancos públicos tal qual bancos privados, abrindo mão do enorme potencial de indução que têm sobre os setores produtivos e de um importante instrumento de regulação indireta dos seus concorrentes no mercado bancário.
Por outro lado, sua saída do governo Lula, creditada ao episódio do extrato do caseiro, alterou sensivelmente a condução macroeconômicas, produzindo resultados bastante positivos para o país: queda da taxa selic; redução do superávit primário; elevação do patamar de crescimento do PIB; aumento das reservas internacionais; redução das taxas de desemprego; crescimento da participação dos bancos públicos no mercado bancário; queda da TJLP para até 4,5% a.a.; duplicação das operações de crédito do BNDES; retomada dos investimentos em infraestrutura (PAC I e II); entre outras mais.
Enfim, o matreiro ex-prefeito de Ribeirão Preto arrasta consigo um caminhão de motivos que justificam o seu expurgo. A seu favor, vende a idéia de que é ele quem faz a ponte com a mão invisível do mercado, um poder que ninguém vê e nem sabe o quanto é forte, mas que segundo seus amigos é fundamental para garantir a governabilidade.
Às favas! Pura conversa. O vigor de Lula no pós-mensalão (sem o Palocci) e a vitória de Dilma num ambiente de absoluta hostilidade financiada pelos mercadistas parece demonstrar que essa gente não manda tanto quanto costumam alardear seus porta-vozes.
Já vai tarde.
Já vai tarde.
29.5.11
jovem pra quê?
Na última sexta, estive no Fórum Social do ABCD, participando de um debate sobre o tema "Juventude e Trabalho". Tema difícil, afinal, mesmo nas nações ditas desenvolvidas, o desemprego juvenil é extremamente elevado e a falta de perspectiva para os jovens tem provocado movimentos de contestação bastante virulentos que se espraiam pela Europa (como o grupo denominado "jovens sem futuro" que, surgido na França, inspirou o movimento M15 que toma conta das praças da Espanha).
O que dizer aos jovens? Que mundo temos a oferecer àqueles que chegam cheios de vontade e energia à vida adulta?
Em tese, seria desejável que conseguíssemos postergar a entrada dos jovens no mercado de trabalho. Primeiro, porque não há razão para lançar um indivíduo em sua plenitude vital e criativa às linhas de montagem, às aborrecidas tarefas de escritórios ou mesmo às responsabilidades e preocupações da vida profissional. Segundo, porque no capitalismo, para bem ou para mal, há inexorável redução da necessidade de trabalho vivo e, consequentemente, eliminação de empregos. Se assim é, parece razoável que os cada vez mais escassos postos de trabalho sejam ocupados por trabalhadores maduros, mais necessitados, com maiores obrigações financeiras, etc.
Porém, pergunte aos jovens se gostam da idéia. Tirante um ou outro mais cuca fresca, os jovens em geral são ávidos para reduzir sua dependência em relação à família e, mais do que isto, muitos vivem contando os dias para terminar a intragável escola e cair na vida. E o trabalho, um emprego qualquer que seja, de entregador de pizza ou de atendente de telemarketing, é o caminho mais curto a ser seguido.
O que fazer? Como resolver esse dilema tão característico de nosso tempo?
Claro que não tenho resposta a esse assunto e desconfio que a sociedade contemporânea levará ainda um tanto de tempo lidando com o problema. Contudo, uma coisa me parece imprescindível. Não será possível manter a juventude fora do mundo do trabalho sem que se ofereça uma alternativa concreta para a qual possa canalizar o impulso fáustico (vontade de potência e sede de sentido) que, com maior ou menor intensidade, habita o espírito de quem acaba de virar gente. É preciso, portanto, reinventar o mundo do não-trabalho ou do pré-trabalho. O modelo de escola que aí está já há muito que não serve, mas apesar de muito se falar a respeito, pouco - ou quase nada - se tem conseguido mudar. Cada vez mais as escolas se configuram como um fardo e repaginar a velha e tradicional escola só faz aumentar a distância para alguma solução.
Enfim, tal como concluí minha participação no Fórum, acho que a temática "Trabalho e Juventude" talvez seja prematura. Deve ser precedida de outra reflexão: quem são os jovens de hoje? Para depois se avançar sobre qual a educação que cabe a essa juventude. Só então fará sentido falar em "postergação" do mundo do trabalho.
PS: E sobre a reinvenção da escola, tema que conheço pouco, tenho apenas um palpite a dar. Creio que é preciso trilhar o caminho da educação com sentido. A essa geração plasmada na velocidade, na busca rápida pelo satisfação, na relação utilitária com o mundo, é urgente tornar a educação um fim em si mesma, algo que tenha sentido per se, e que, portanto, não se configure apenas como um meio para conquistas futuras - como passar no vestibular ou se preparar para uma profissão promissora.
E, nesse sentido, por estranho que possa parecer à primeira vista, creio que são as escolas técnicas que mais se aproximam dessa proposta. Como são obrigadas a focar o ensino em alguma especialização do mundo do trabalho, permanecem mais coladas a aspectos concretos do aprendizado, resultando numa experiência mais carregada de sentido e que, por isso, permite um avanço maior inclusive nas disciplinas mais etéreas.
24.5.11
um debate oportuno
Nada como um catedrático, autor de gramáticas, fundador do Museu da Língua Portuguesa e, portanto, autoridade inquestionável sobre o assunto, para deixar claro os aspectos desconsiderados pelos doutos que, ignorantes e banhados em naftalina, saem por aí clamando pela "norma culta", como se a questão se resumisse a um debate jacobino.
É sintomático que uma polêmica como essa tenha surgido alguns dias após o episódio da "gente diferenciada". Plasmam-se no mesmo caldo de cultura, de uma classe dominante que vira e mexe se espanta com os novos bárbaros que emergem dos buracos de metrô, que consomem de maneira frenética ou que "assassinam" a 'norma culta' a três por quatro.
Para surpresa dessa gente reacionária, do jeito que a coisa vai, acabaremos falando como os franceses, que, como ensina o Prof. Ataliba, não pronunciam o "s" há séculos e que, a despeito do desvio, continuam encantando a trupe dos iguais.
É sintomático que uma polêmica como essa tenha surgido alguns dias após o episódio da "gente diferenciada". Plasmam-se no mesmo caldo de cultura, de uma classe dominante que vira e mexe se espanta com os novos bárbaros que emergem dos buracos de metrô, que consomem de maneira frenética ou que "assassinam" a 'norma culta' a três por quatro.
Para surpresa dessa gente reacionária, do jeito que a coisa vai, acabaremos falando como os franceses, que, como ensina o Prof. Ataliba, não pronunciam o "s" há séculos e que, a despeito do desvio, continuam encantando a trupe dos iguais.
13.5.11
10.5.11
éh...., me passou
É bastante conhecida a expressão de Sergio Buarque de Holanda que, no livro "Visões do Paraíso", chamou de "procissão de milagres" a ocorrência de sucessivos ciclos econômicos que marcaram a história de nosso país.
Recentemente, tratei desse tema em sala de aula.
Dias depois, ao aplicar uma prova e questionar os alunos sobre os determinantes de nossa industrialização, um inspirado aluno se sai com uma tirada inusitada, nem de todo equivocada:
a causa da industrialização? "o vácuo de milagres"
5.5.11
2.5.11
identidades sociais e ressentimento psicológico
Nesta palestra de Maria Rita Kehl (copiada em 4 videos no youtube - clique abaixo) uma interessante perspectiva do significado do "ressentimento" na psique da sociedade contemporânea. Mais interessante ainda, porque a conhecida psicanalista e professora da PUC-SP parte da interpretação do indivíduo - portanto, uma abordagem clínica - para chegar a uma interpretação das "identidades sociais" em nossa época, e, mais do que isso, de alguns traços constitutivos da sociedade brasileira.
A palestra, que fez parte do programa Café Filosófico (CPFL/Cultura), resulta de um livro escrito pela psicanalista, denominado simplesmente "Ressentimento" (Editora Casa do Psicólogo, 2004), onde ela avança com muita originalidade sobre o significado de certas máculas em nossa memória social (como a escravidão e a ditadura militar) como constitutivas do imaginário da política brasileira. Infelizmente, o livro está esgotado, mas o vídeo da palestra serve bem para apresentar os argumento fundamentais da autora.
A palestra, que fez parte do programa Café Filosófico (CPFL/Cultura), resulta de um livro escrito pela psicanalista, denominado simplesmente "Ressentimento" (Editora Casa do Psicólogo, 2004), onde ela avança com muita originalidade sobre o significado de certas máculas em nossa memória social (como a escravidão e a ditadura militar) como constitutivas do imaginário da política brasileira. Infelizmente, o livro está esgotado, mas o vídeo da palestra serve bem para apresentar os argumento fundamentais da autora.
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