31.3.08

una giornata stupenda e o slogan de merda

Sábado de glória. Nostro Palestra esparramou-se pela tarde chutando a gol. Poderia ter feito mais, de esquerda, de direita, chapelando o goleiro, mas os 3 x1 (este um, roubado) ficaram de bom tamanho, principalmente porque comemoramos em coro e timbre barítono o belíssimo amarelo aplicado ao mago Valdívia. Grande dia.
A nota surreal ficou por conta da campanha pela paz promovida pela Federação Paulista de Futebol. Entre dizeres dos patrocinadores, uma placa de gramado exibia em letras negras: SEQUESTRO NÃO! APOIE ESTA IDÉIA.
.... Que frase impressionante, não. Faz pensar. Afinal, ...o que será que passa na cabeça da cartolagem? Provavelmente acreditam que sequestro é uma questão de visão de mundo: uns acham maneiro, outros nem tanto; uns não mexem com este tipo de coisa, outros ainda não experimentaram. Porra meu! Em que mundo mora esta gente? Será que imaginam que maninho, fodido pela vida, rato do PCC, ao visitar das arquibancadas palestrinas a mensagem pacifista da FPF vai amolecer seu coração de pedra, esquecer o jogo, esquecer o vício, sair da fita, e começar uma vida nova, limpa, digna, fraterna....

Falei Ionesco, num dianta!

sintonia fina

O recém empossado governador do Estado de Nova York, David Paterson, noticiado como o primeiro governador cego e negro dos EUA, veio a público confessar suas derrapadas do leito da moral e dos bons costumes. Disse que, quando jovem, cheirou e fumou. Também confessa que tanto ele quanto a esposa tiveram lá seus passeios extra-conjugais.
Grande figura! Antecipando-se aos mídia-ligeira (lá também existe), o político demonstrou bela dose de sensatez e disse logo o obvio: que era gente de carne e osso. Deixou de brocha na mão os arapongas que esperavam sangrar a reputação do governador para vender jornal e inflar a oposição.
Ao saber desta notícia, me lembrei do artigo (curriculum mortis e a reabilitação da auto-crítica) escrito recentemente pelo filósofo Leandro Konder, no qual ele reflete sobre a hipocrisia - ou a miragem coletiva - que se manifesta na importância que nossos tempos dão ao Curriculum Vitae.
Peça de ficção, escrita com as tintas da auto-promoção, o C.V. é talvez o suprassumo do fetiche da mercadoria 'força-de-trabalho', reificação patética dos acuados indivíduos de hoje, impelidos pela aguda competição no mercado de trabalho.
Pois o ilustre governado de NY, sabendo que não se sustentam os anjos ou querubins que se apresentam nos C.V.s ou nas peças de campanha eleitoral, mostrou logo seu Curriculum Mortis, dando um olé na rapinagem e aliviando a todos que esperam dele apenas uma boa governança.

P.S. Como certamente o texto do filósofo brasileiro ainda não foi traduzido para o inglês, nem vertido para o braile, eis uma bela nota de sintonia nestes tempos bicudos.

28.3.08

o panelaço e os mídia-ligeira

Seguindo no encalço das hipérboles e marteladas produzidas diariamente pelos analistas econômicos em nossa imprensa, vale a pena refletir sobre os comentários do Sardemberg (sempre ele) a respeito da crise argentina.
Diz o mídia-ligeira que o atual protesto de agricultores no país vizinho resulta dos equívocos da política econômica praticada pelos governos Kirschner, e que - na sua opinião - demoraram a acontecer (hmm!). Argumenta o jornalista da CBN que a tarifa sobre as exportações agrícolas, que se pretende aumentar de 35% a 45%, é na pratica um confisco sobre a renda dos exportadores e que, portanto, o governo os obriga a vender sua produção a um preço bastante inferior ao praticado no mercado internacional. Além disso, diz o Sardemberg, na medida em que intervém na dinâmica de preços dos mercados, o governo argentino acaba desestimulando o investimento e o resultado é a escassez de alguns produtos. Como exemplo, cita o caso do gás que, segundo ele, está faltando porque não interessa ao setor privado ampliar a produção.
Lamentável, caro jornalista. Primeiro, porque não custava nada pesquisar um pouco do assunto antes de proferir tamanha bobajada. Sabemos que o problema da Argentina em relação ao gás decorre do fato de que nossos hermanos têm assistido a um crescimento médio do PIB da ordem de 9% ao ano nos últimos 5 anos (nós estamos girando em torno dos 3,5%) e como a Argentina não tem grandes reservas de gás, tem sido obrigada a importar dos vizinhos. Este fato, portanto, não guarda qualquer relação com o controle de preços. Segundo, em relação à tarifa sobre as exportações, trata-se de uma estratégia - acertada-, e que poderia ser estuda por nosotros, para proteger a economia argentina da chamada "doença holandesa". Ou seja, a fim de evitar que o câmbio se valorize por conta do bom desempenho das exportações de bens primários - o que prejudicaria o desempenho do setor industrial e comprometeria o desenvolvimento futuro do país - o governo usa das tarifas como forma de desestimular a exportação de produtos agrícolas e ao mesmo tempo manter uma taxa de câmbio favorável às exportações dos setores estratégicos para o desenvolvimento do país e para a geração de emprego.

25.3.08

tornassol

Embora pouco consideradas pelos mídia-ligeira, as medidas tomadas recentemente pelo Ministro Mantega, visando evitar o "derretimento" do dólar frente ao real, foram mais importantes pelo que sinalizam do que pela efetiva proteção cambial que promovem. Como o papel tornassol, evidenciaram aos mais sintonizados com a gestão macroeconômica que o governo tem lado (ou quase), que medidas administrativas serão usadas quando necessário for e que a tolerância com os crentes e adoradores do PIB potencial vai até o ponto em que não se coloque em risco as conquistas econômicas, sociais e políticas deste segundo mandato do Presidente Lula.
Entre os que enxergaram sinais de vitalidade política na macroeconomia de Lula, cabe mencionar o economista Bresser Pereira que, em artigo corajoso (para um tucano ilustre) na Folha de São Paulo, rende-se aos acertos recentes do governo. Pelo lado dos que vislumbraram acidez nas ações do Ministro da Fazenda e temem pelo fim do laissez-faire, destaca-se o alavancado Mailson da Nobrega, que, ao ser entrevistado pelo Sardemberg, conseguiu arrancar do jornalista argumentos levemente pró-governo. (ouça clicando aqui)

24.3.08

saudade amarela

Aprendi com a Maria a evitar o saudosismo, mal que, fácil, fácil, me arrebata na estiagem.


"Se não houver frutos
Valeu a beleza das flores
Se não houver flores
Valeu a sombra das folhas
Se não houver folhas
Valeu a intenção da semente"

HENFIL, do livro Diretas Já



21.3.08

ora pois


Caros compadres e comadres,
no rastro do bacalhau, icei este maravilhoso e inconcebível encontro dos amantes (melhor dizer tarados?) do bacalhau: o XXXVII Congresso Mundial das Academias do Bacalhau, a se realizar em outubro de 2008, na cidade de Toronto, Canada.


Mas, se teu interesse for apenas culinário - o que é legítimo - dê uma olhada nesta lista com 100 receitas de bacalhau.
Diga-se de passagem, a grande maioria é variação do mesmo tema: Dessalga-se o bacalhau, cozinham-se as batatas, junta-se a cebola em rodelas (crua ou frita), muito azeite e, com alguma variação nos métodos e na ordem dos ingredientes, deita-se tudo em uma assadeira que seguirá ao forno.

hino da academia do bacalhau de coimbra

Vamos cantar à saúde de Coimbra
Academia com cartola de penacho
Sou de Coimbra
Ninguém me deita abaixo
O vinho tinto dá-me força pela medida

Teu bacalhau cheira a seiva de menina
Sou gavião vou comer esse repasto
Sou de Coimbra
Eu nunca serei casto
O vinho tinto dá-me força pela medida

Vestes de negro
Roupinha branca por baixo
Que é a cor da toalha desta mesa
Hoje vou comer-te esse penacho
Nem que seja uma punheta à Portuguesa

Sou de Coimbra
Ninguém me deita abaixo
O vinho tinto dá-me força pela medida
Quando te como vou p’ra cima
E vou p’ra baixo
ACADEMIA DO BACALHAU DE COIMBRA

autor:
Compadre João Afonso

P.S. quem tiver interesse em se aprofundar no tema bacalhau, segue o link da academia do bacalhau de coimbra, onde se terá acesso também ao hino internacional das academias do bacalhau e à lista completa de todas as academias do bacalhau em portugal e no mundo.

20.3.08

das solas

Senhores,
enquanto paramos para bacalhoar, sugiro uma visita ao humor afiado do "meia-sola", blog inspirado do celso paraguaçú, jornalista de rara cepa.

caixa de pandora

Aos que gostam de temas econômicos e em especial da dinâmica das crises financeiras do capitalismo em nossos dias, vai o convite para o Iº Encontro Internacional da Associação Keynesiana Brasileira", que acontecerá na Unicamp, entre os dias 16 e 18 de abril.
Estarão participando dos debates quase todos os papas do assunto, gente que não costuma ser ouvida pela imprensa brasuca, mas que reúne o melhor da tradição da Economia Política.
E por falar na crise financeira, recomendo a leitura da entrevista do Belluzzo publicada no site Terra Magazine. Entre outras, ele entende que para reverter a crise e estancar a quebradeira que se expande a partir dos créditos imobiliários, não bastará a ação do FED ampliando a liquidez do mercado - pois não há apetite para novas operações finenceiras - e talvez a única solução seja uma moratória aos devedores da ponta do sistema.

5 anos de invasão no Iraque

quadro de uma pintora catalã, cujo nome infelizmente perdi.

19.3.08

mulheres porretas

Olha ai! Parece que estão certos aqueles que recomendam focar nas mulheres as políticas de microcrédito. Vejam artigo sobre o assunto.

O chapéu de Obama

Atingido por um vídeo que circulou no Youtube, em que um pastor e amigo inflamava a comunidade negra com argumentos que supostamente fomentavam o ódio contra os governantes brancos dos EUA, Barack Obama chapelou seus oponentes com a classe e a categoria dignas de um Leônidas da Silva. Ao invés de negar sua proximidade com o Reverendo Jeremiah Wright ou se perder em esquivas teóricas, Obama proferiu um magnífico pronunciamento público, no qual, não só reafirma seus laços com o pastor (que batizou seus filhos, realizou seu casamento), como escancara a hipocrisia do processo eleitoral norte-americano, que usa das cisões entre brancos x negros, mulheres x homens, jovens x idosos, como forma de cooptação de uns contra os outros.
Como disse um pastor da igreja metodista - branco e idoso - ao comentar na CNN o discurso, Obama foi a público como alguém que teria que enfrentar um grande desafio, mas terminou o discurso devolvendo à sociedade norte-americana o desafio de superar a pequenês das estratégias racistas que imobilizam a política naquele país. Entre os comentadores da CNN, democratas ou republicanos, a avaliação unânime foi de que Obama se saiu muitíssimo bem. Não faltou quem o comparasse ao mítico Martin Luther King .

Segue um pequeno trecho do discurso:

"Eu escolhi concorrer à presidência neste momento da história porque acredito profundamente que nós só seremos capazes de vencer os desafios de nossa época se o fizermos conjuntamente – se nós construirmos uma perfeita união, sabendo que temos diferentes histórias, mas que compartilhamos das mesmas esperanças; que não somos todos parecidos, nem viemos do mesmo lugar, mas que todos nós caminhamos na mesma direção – rumo a um futuro melhor para nossas crianças e nossos netos.
"

17.3.08

notas de brutalidade

Enquanto o FED (BC dos EUA) anuncia que disporá de 200 bilhões de dólares por semana para acalmar os aventureiros que se refastelaram ao longo dos últimos 15 anos, no maravilhoso mundo da globalização financeira, um estudo do Economic Policy Institute revela a esquizofrenia que impera na vórtice do planeta. Em duas décadas, de 1987 a 2007, a população carcerária nos EUA triplicou, tornando-se a maior do mundo, seja em números absolutos, seja em proporção ao total da população adulta. Neste período, que compreende a era de maior bonança da generosa história da economia norte-americana, as despesas do setor público com o sistema prisional cresceram incríveis 127%, enquanto as despesas com o ensino superior variaram apenas 21%. Não por acaso, nos estados de Connecticut, Vermont, Michigan e Oregon, o orçamento público destinado às prisões já supera as despesas com a educação superior.
Como diria o homem da vassoura, fi-lo por que qui-lo.

Para maiores detalhes, clique aqui.


16.3.08

para que não se explique mais a dialética

novas telhas,
à primeira chuva,
nova goteira.

p. leminski

multiplicando desvios

Ao fim de 20 anos de ditadura, e na ânsia de defender a sociedade civil das mãos pesadas do Estado, difundiu-se no Brasil a idéia de que era preciso criar instâncias de controle social para orientar e fiscalizar o Estado. Foi a febre dos orçamentos participativos, dos conselhos tripartites, da pulverização do poder contra os perigosos desmandos do leviatã.
Nesse afã, criaram-se estruturas de poder paralelas aos governos, às câmaras de vereadores, fragmentando as instâncias decisórias e de controle, na ilusão de que quanto mais perto do povo e dos beneficiários das ações do Estado, mais próximo da "virtude" caminharia a política. Antes fosse fácil assim defender o homem do homem! A princípio, distribuir o poder entre os cidadãos parece ser o supra sumo da equidade democrática. Mas, lamentavelmente, os desmandos, desvios e escândalos de corrupção que atormentam a vida do cidadão não decorrem do formato "Estado", mas da índole e da moral dos indivíduos que o habitam e, portanto, se desenharmos outros formatos, outras e diferentes instâncias de poder, também nelas ocorrerão os mesmos desvios e escândalos.
Na semana que se encerra, dois episódios que pipocaram na imprensa deixam claro que nossa natureza é que nos torna o próprio 'lobo do homem". No Conselho Nacional de Assistência Social, instância máxima do controle da sociedade civil sobre as políticas de apoio aos desassistidos, seis de seus membros (nenhum do governo) foram presos pela Polícia Federal por receberem propinas em troca de favores a instituições filantrópicas privadas. No inquérito, além dos seis já grampeados, outros 21 são suspeitos de participar do esquema.
Já no CODEFAT, que tem a atribuição de zelar e fiscalizar o que se faz com os bilhões depositados anualmente no Fundo de Amparo ao Trabalhador, seu presidente - da bancada os trabalhadores - também é acusado de favorecer ONGs ligadas a seus parentes. Novidade? De forma alguma, as laranjas podres estão em toda parte (especialistas dizem que 5% dos indivíduos são pouco afetos à ética e à moral, vendem a mãe e não entregam) e certamente não é exclusividade do setor público ter em seus quadros pessoas que se locupreteiam com o dinheiro dos outros.
Qual a solução? Não sei se alguém tem esta resposta, mas com certeza não é a pulverização das instâncias de poder que fará a sociedade civil menos sujeita aos vícios do homem.

14.3.08

Obama e as idéias

Barack Hussein Obama "é o cara" da atual campanha presidencial dos EUA. Negro, nascido no Hawai, filho de um keniano, passou parte da infância na Indonésia, atuou em movimentos sociais na periferia de Chicago, para onde voltou - após estudar direito em Harward - para se tornar professor de direito constitucional. Em suma, o sujeito tem uma biografia pra lá de incomum, seja porque se trata de um caso excepcional de self-made-man (que tanto agrada ao imaginário yankee), seja porque foge ao figurino clássico do líder político norte-americano.
Até janeiro passado, era apenas um dos seis pré-candidatos do Partido Democrata e era lembrado apenas pelo seu estilo fora-de-esquadro. Mas, ao saltar em 30 dias para o primeiro lugar na corrida democrata, ultrapassando a super-star Hillary Clinton, ganhou as manchete no mundo todo e, claro, virou alvo dos concorrentes. Surpreendentemente, da campanha de Hillary veio a acusação de ser apenas um bom orador, vazio de projetos e de idéias. A pecha colou, e pelos quatro cantos passou-se a cobrar de Obama que explicitasse seu plano de governo, que dissesse como resolveria uma crise internacional quando às 3hs da madrugada seu telefone tocasse e não houvesse ninguém para orientá-lo, enfim, que explicasse melhor como pretende dar concretude ao seu slogan: "Change! Yes we can".
Ora, ora. Até aqui, neste rincão de mundo, pipocaram artigos e críticas à suposta escassez de idéias da campanha de Obama. Gente séria e bem pensante, como o jornalista José Arbex e o economista e ilustre palmeirense Luiz G. Belluzzo, lamentaram a falta de ousadia de suas propostas e a ausência de temas, se não revolucionários, ao menos reformistas. Será?
Será que Obama teria saído da lanterninha se viesse ao público conservador dos EUA propor o financiamento estatal da saúde? Será que poderia dizer que vai regularizar a vida dos milhões de imigrantes ilegais que ralam nas terras de Tio Sam? Evidentemente que não. Com a sua incomum trajetória de vida, sua relativa independência da máquina partidária, Obama não pode se dar ao luxo de cometer arroubos esquerdistas, nem ousar avançar o sinal do cismado eleitor norte-americano.
Há ainda uma estrada longa a percorrer até a eleição de novembro, e parece óbvio que quanto menos explicito puder ser o discurso de Obama, melhor. Como no caso de Lula, a eleição de Obama é trasformadora por si, como marco histórico de profundo simbolismo. É claro que não poderá virar o país do avesso, resgatar toda a desigualdade social que se acumula na sociedade americana, mas como Lula, sua vitória autoriza a sociedade a imaginar novos paradigmas, a experimentar novas práticas. E estas mudanças, por seu caráter simbólico e seus efeitos de "empoderamento" (palavra horrivel que herdamos dos gringos) sobre cada um dos Obama ou dos Lula que não viraram presidente, mas que estão na vida e na luta, são sem dúvida potencialmente mais transformadoras do que as bravatas e os bordões de qualquer campanha. A esse respeito, vale a pena conferir o artigo um modo radical de apoiar Barack Obama, publicado no Le Monde Diplomatique.

haikai: sempre bom

O veludo
Tem um perfume
Mudo.
millôr

13.3.08

Da limonada um limão

Como faço invariavelmente pelas manhãs, ouvi hoje os comentários do Sardemberg na CBN a respeito do PIB de 2007.
Lamentável. Para quem estava do lado de cá do rádio, fica evidente a má vontade do Sardemberg em comentar a ótima notícia - tão rara em nossa história recente - desrespeitando a inteligência dos ouvintes ao fazer do aumento do consumo um problema que nos espreita na curva. Foi um raciocínio para lá de tordo, com marteladas doídas nas determinações do mundo econômico.
1º) é sempre bom lembrar que fenômenos como o que vimos (o consumo puxar o PIB) são cada vez mais frequentes na economia contemporânea e o caso mais emblemático foi o do Governo Clinton, quando durante anos a maior economia do mundo foi alçada pelo consumo das famílias americanas;
2º) ao contrário do que viu o Sardemberg, os investimentos (FBCF) cresceram a uma taxa de 13,2% - maior taxa da série histórica - e portanto não cabe o argumento de manual de microeconomia de que a demanda está crescendo acima da oferta e que portanto haverá pressão sobre os preços. Creio que o Sardemberg, na ânsia de encontrar problemas, viu no crescimento de 4,9% da indústria algum gargalo na oferta. Com todo respeito, é um erro crasso, visto que, como tanto gosta o Sardemberg, vivemos numa economia aberta, com enorme facilidade para importar (esse sim é um problema, claramente minimizado por ele);
3º) Como sabem as pedras da Ilha de Pascoa, o repique da inflação atual não resulta de uma pressão de demanda, mas da fuga de capitais especulativos para ativos reais (petróleo, aço, soja) que faz aumentar os preços das commodities e pressiona os custos de produção no mundo inteiro (portanto vivemos uma evidente inflação de custos e não de demanda), o que aliás é um tema para lá de relevante, ante a cegueira do BC e sua insana política monetária.
Se tivesse tempo, gostaria de escrever diariamente desconstruindo os argumentos martelados do Sardemberg. Para qualquer um capaz de arranhar a superfície do mundo econômico são risíveis as conexões mentais do ilustre comentarista. Sinceramente, creio que na toada em que a CBN tem conduzido a sua pauta de economia, a credibilidade jornalística da emissora corre o sério risco de "derreter", a la revista Veja. Sugiro que façam uma análise dos comentários diários a respeito das boas novas dos últimos tempos (elevação do PIB, do emprego, descobertas de petróleo, redução da dívida externa, etc) e verão como fica evidente o ridículo esforço de seus comentaristas econômicos para fazer da limonada um limão - exercício mais complexo do que tirar da fruta azeda o refresco.

9.3.08

Pelas Janelas



Seja porque delas se viu a banda passar, seja porque por elas se lançaram as tranças, as janelas talvez estejam entre as mais poéticas das coisas que nos rodeiam. Músicos, escritores, poetas,... são raros aqueles que n'algum dia não falaram das janelas, metáforas por excelência.

Na Avenida São João ou em Copacabana, basta olhar para o lado que lá estará um tanto de acotovelados, alguns por desalento, uns sonhando com a moça, outros com o tempo.

Mas as janelas, assim como a poesia, vão aos poucos perdendo o seu lirismo e seu lugar. A violência das ruas e a tabula rasa do mundo econômico nos ensinam que hoje as janelas são dispensáveis. Hoje não temos tempo para olhar pela janela, é o ladrão quem pula a janela, falta dinheiro para pintar a janela – já não faz muito sentido a janela.

Falo das janelas porque acabo de voltar de uma viagem a Minas e pra todo canto o que mais se via eram aquelas janelas de aço, banhadas de cinza-zarcão, de quatro folhas, duas fixas, duas engastalhadas,... todas cinzas. Repletas de razão, as janelas de lata alastram-se como a peste para os povoados e vilarejos mais distantes.

Quando parti para Minas, fui especialmente interessado em conhecer a cidade de um velho amigo de meu pai que, entre o café e a pinga, nos contava de sua vida em Luminárias, terra dos “Gorpeia” - protagonistas de um acidente de bicicleta onde o Sebastião, descendo distraído pela rua principal, gorpiô pra cá, gorpiô pra lá, mas não evitou a trombada com outro parente embicicletado.

Moleque paulistano e ouvindo estas histórias da inusitada Luminárias, desde muito tempo esperava por desviar-me da Fernão Dias para conhecer o lugar. Seguindo por uma longa estrada poeirenta, ora amarela, ora vermelha, cheguei ao final de um dia à cidadinha. E como você já suspeita, mas eu sequer imaginava, Luminárias estava toda ela encerrada pelas cinzas janelas de lata. Não parei, não tomei café nem comi queijo. Atravessei pela rua dos Gorpeia e segui rumo a Carrancas, atraído pelas suas cachoeiras, mas já sem o olho para qualquer janela.

E os morretes de Minas, que por força da história e do esquecimento guardavam um gracioso passado colonial, vão aos poucos ganhando a feiura e a tristeza das periferias das grandes metrópoles. Com a industria e a virulência de consumo de massas, em todos os rincões do país, as nuances culturais e urbanísticas se vão borradas, substituídas pela absoluta sem-graceza parafraseada pelas janelas de lata. “Miséria é miséria em qualquer canto, riquezas são diferentes”, sentenciou o bando titã. De fato, à medida em que vamos respirando capitalismo, a pobreza vai ficando cada vez mais parecida, seja em Iheus, no Jardim Angela ou em Katmandu.

A pobreza nos dias de hoje não dói mais só no bolso. Quando o valor econômico é o único que sabemos reconhecer, e não possuímos coisas que valem, então não reconhecemos valor algum em nossas vidas, nem nas janelas, nem através delas.

Em Londres, por mais monotemáticas que sejam as fachadas das casas, governo e sociedade reservaram as portas como espaço de resistência às contingências da padronização econômica. “The doors of London” são uma verdadeira instituição para os ingleses, com direito a cartão postal e capa de discos. No norte da Itália, plantações de uvas em escarpas pouco produtivas são preservadas do imediatismo econômico graças à consciência de que a sobrevida de suas vilas (e vinhos) funda-se na idiossincrasia de sua cultura secular.

Pois Minas Gerais deveria dar às suas janelas estatuto de patrimônio cultural e cuidar para que não sejam varridas pela objetividade do bolso. Além das reservas de calcário que empalidecem o entorno da cidade de Formiga ou da extração de minério que solapa a serra de Tiradentes, Minas guarda um tesouro cultural de grande valor, seja para nossa história, seja para o desenvolvimento econômico da própria região que, em muitos lugares, tem no turismo sua principal vocação. Assim como a prefeitura de Parma tornou o parmesão mundialmente conhecido através de um programa de subsídio que estimulava os produtores rurais a deixarem seus queijos envelhecerem nas prateleiras, os governantes de Minas poderiam subsidiar cooperativas de marceneiros por todo o estado para que produzissem aquelas lindas janelas de madeira e tramela a um custo mais baixo do que o das janelas de lata. Ganhariam os marceneiros, ganharia o comércio, o turismo, ganharia o espírito de Minas e teríamos de volta o sol nas salas de Luminárias.