12.9.09

leviathan no banco central


Nesta semana, seguimos investigando o ambiente intelectual que cercava a Cambridge de Keynes, no início do século XX.

Sob a batuta do Prof. Sílvio Rosa e a varinha de condão do grande Prof João Manuel puxou-se uma linha que, partindo de Hobbes, conduz ao desenvolvimento do conceito de "cálculo racional", indevidamente usurpado pelos utilitaristas, como J. Bentham e S. Mill (pai e filho), do campo da teoria política para o da teoria econômica.

Não ousarei reproduzir aqui a trajetória percorrida pelos professores, mas motivado pelo assunto, arrisco abaixo algumas considerações sobre o pensamento de Hobbes que me parecem especialmente profícuas para o debate econômico que deverá nos acompanhar ao longo dos Seminários - vale dizer que muito me ajudou a leitura de "A Física da Política: Hobbes contra Aristóteles", livro de Yara Frateschi, filósofa e professora da Unicamp.

Jejuno nos temas da filosofia, sigo pé ante pé, sob grande risco de ainda assim errar:

(1) Hobbes procurava refutar a idéia clássica (Aristotélica) de natureza política do homem (homem = animal político). Para Hobbes, o homem age apenas e tão somente pelo "princípio do benefício próprio", pelo qual busca evitar a dor e realizar seus desejos (reduzidos a necessidades);

(2) Não há substância, nem sequer uma "razão reta" ou uma vocação à sociabilidade a priori a habitar o indivíduo; sua conduta segue apenas as regras de sobrevivência e portanto não há limites para a sua ação, desde que esta lhe proporcione benefícios tangíveis e imediatos;

(3) Portanto, aqui a racionalidade é reduzida à "razão calculadora", que se orienta a partir de referências externas (sensações, medos, memórias, necessidades), imaginadas (especuladas) como fontes de prazer e dor;

(4) Consequentemente, não se pode conceber conceitos como "escolha" ou "livre-arbítrio". O homem aqui apenas "delibera" para agir, sempre em benefício próprio, sem qualquer freio moral, social ou divino.

(5) Nesses termos, não tem cabimento supor que haja uma tendência de convergência entre a busca pelo benefício próprio e o bem comum.

(6) Pelo contrário, o "estado de guerra" deverá se impor como tendência, a luta de todos contra todos, sem qualquer possibilidade intrínseca (natural) de superação desta condição.

Qual a saída? Como escapar da guerra de todos contra todos?

(1) Não há saída individual;

(2) Não cabe - pois não há a priori e porque a razão calculadora é ineficaz - buscar "educar" os indivíduos para que aprendam a fazer coincidir seu interesse pessoal com o coletivo;

(3) É preciso lançar mão de um "artifício" capaz de atribuir valor aos objetos (referências/acontecimentos) externos.

(4) Este artifício é a instituição do Estado (de uma autoridade soberana), habitada por alguém falível e egoista como todos nós, mas dotada do poder delegado para fazer cumprir os "pactos sociais" que conseguimos imaginar como necessários para evitar a dor, mas para os quais não temos como garantir o cumprimento a partir da ação individual.

Até aqui, tudo bem. A "mecânica" filosófica de Hobbes, além de genial simplicidade, é intelectualmente confortável: reduz a política à sua dimensão pacificadora (sem maiores divagações sobre a substância dos indivíduos, quanto mais das classes) e larga no colo da humanidade a tarefa gigantesca de constituir o artifício político (Estado) capaz de dar sentido à sociedade, tal qual uma "comunidade de valores".

Bingo!

O problema é que, da robusta argumentação de Hobbes, retiraram a matéria-prima para calçar linhas de pensamento das mais diversas, muitas das quais, embora falaciosas, lograram enorme sucesso perante o público.

É esse o caso do chamado utilitarismo, que foi buscar na 'razão calculadora' as bases da 'racionalidade utilitária', segundo a qual os homens, empenhados em obter a máxima utilidade individual de suas ações, levam a uma transformação material que, no limite, beneficia a todos.

Ora! Jogaram a criança com a água do banho. Dizer que existe uma "razão calculadora" não implica de modo algum supor algum automatismo que levará ao progresso de nossa sociedade. Aceitar a razão calculadora, pelo contrário, nos alerta para a inescapável necessidade de construção consciente de uma instância soberana e artificial, cuja tarefa é coagir o indivíduo, subordinando sua busca pelo benefício próprio ao interesse comum.

Palpite meu: Keynes, embora não provenha de uma tradição hobbesiana, chega por outras vias (que certamente ainda estudaremos ao longo do tempo) a propor uma solução semelhante, porém talvez mais sofisticada, para justificar a necessidade da ação soberana do Estado ante as forças cegas do mercado. A idéia de uma "utopia monetária", apontada frequentemente pelo Prof. Belluzzo como o modelo de organização econômica da sociedade imaginada por Keynes, é, muito provavelmente, um exemplar - mediado pelos nexos financeiros - do artifício soberano de que falava Hobbes.

Dito de outro modo, me parece que Keynes, ante a constatação de que vivemos em uma "economia monetária de produção", onde o dinheiro deixa de ser meio e se transforma em fim (como já apontava a fórmula D-D' de Marx), enxerga no controle soberano da moeda e das decisões de investimento a única possibilidade de transcêndência sob a égide do capital.

PS: encontrei um artigo bastante interessante da Profª Yara Frateschi, elucidando algumas passagens controvertidas do pensamento de Hobbes relativas aos conceitos de racionalidade e de moralidade. Para acessar o texto, clique aqui.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Caro leitor, se você não está conseguindo incluir seu comentário, tente fazê-lo assinando com a opção "anônimo".