
Duas ou
três semanas de asfalto e vinagre foram suficientes para azedar o sabor de
prosperidade econômica que há quase dez anos embalava os brasileiros, o governo
e o PT.
Porém,
muito mais grave do que as fraturas políticas que a crise traz à tona é que um eventual
fracasso do atual governo significará muito mais do que o tropeço de um partido
ou de um programa político econômico. Não afetará somente nossa vida daqui por
diante, mas marcará drasticamente a nossa vida pretérita, nossos tantos anos de
construção de uma alternativa para este país.
Como
muitas vezes nos ensina a história, o sentido das coisas, o rumo dos processos
sociais e políticos são definidos de frente para trás – de hoje para ontem. São
os eventos do presente que magicamente dão sentido às trajetórias e escolhas do
passado e essas, por sua vez, só podem ser plenamente compreendidas a partir do
seu desfecho. Sem ele, não seriam mais do que eventos fortuitos, largados ao
acaso, ao lado de tantos mais.
É como
quando damos o primeiro beijo na namorada. Resgatando na memória, identificamos
naquela festa da escola, ou naquele olhar no retrovisor, um encanto que só
poderia desaguar no grande amor de hoje. Ou também no futebol, quando tabelamos
desde o nosso campo de defesa numa triangulação predestinada a encher a rede,
num belíssimo gol de placa. Mas, quantos foram as tabelinhas desperdiçadas pelo
centroavante fominha? E quantos olhares em quantos retrovisores não passaram de
olhares nos retrovisores?
Para que
nossa arte, nossa labuta, faça algum sentido, é imprescindível que de algum
jeito consigamos conectar o presente a nossas ambições de ontem. Se não para construir
o futuro - como gostamos de acreditar - talvez para amalgamar o passado.
Pois é com
isso que o governo atual e a Presidente Dilma estão lidando. Tenhamos
participado mais ou menos ativamente da política nos últimos 30 anos, temos que
reconhecer que o PT foi o portador da caneta que parecia predestinada a ligar
os pontos de nossa história. Os chumbos da ditadura, a luta pelas Diretas-Já,
os desenhos do Henfil, a Constituinte do Dr Ulisses, o Lula-lá, o impeachement do Collor, o
sufoco do FHC,... todo esse amontoado de vida só comporá um roteiro inteligível
se, ao fim, formos capazes de desaguar em algum mar. Aquele leito caudaloso,
expressão talvez das duras escarpas que nos acompanharam ao longo do tempo, não deveria terminar assim, absorvido pela areia da costa, empapuçando um mangue que
parece infinito.
Sem um
mar, não haverá rio, nem córregos, nem nascentes.