13.10.10

desemprego friccional? agora?

Peter Diamond, Dale Mortesen e Christopher Pissarides foram laureados com o Prêmio Nobel de Economia de 2010 por seus estudos sobre o "desemprego friccional". 
Poucos temas são tão irrelevantes quanto esse, principalmente quando se considera as atuais circunstâncias econômicas mundiais. 


Para quem não é do ramo é bom dizer que "desemprego friccional" é o nome que se dá à parte do desemprego que resulta do desencontro temporário entre trabalhadores e empregadores. Ex: um engenheiro naval que mora em Natal (RN) e que esteja desempregado pode levar algum tempo para descobrir que em São Gonçalo (RJ) estão precisando urgentemente de engenheiros navais, ou, um caso mais trivial, o azulegista do bairro A não sabe que a aposentada do bairro B quer ladrilhar a sua varanda. Enquanto os candidatos aos empregos não se encontram com aqueles que demandam sua força de trabalho, dá-se a situação de desemprego friccional.


O que os nobres economista fizeram foi sofisticar a análise sobre as tais fricções, suas causas e seus combates. Porém, cabe lembrar que essa modalidade de desemprego só tem alguma significância quando se supõe que o desemprego involuntário se aproxima de zero. Quando está sobrando engenheiro ou azulegista - quase sempre - o desemprego friccional é piada de mau gosto.


Portanto, beira o nonsense dar luz a esse assunto quando no mundo real problemas de emprego de muito maior gravidade e amplitude jogam para escanteio grandes contingentes de trabalhadores. Na Espanha, um em cada cinco trabalhadores está sem emprego; nos EUA se estima que nos próximos dez anos as taxas de desemprego permanecerão acima dos dois dígitos e a OIT anuncia que no último ano foi registrado o maior contingente de desempregados da história. 


Nesse contexto, seria muito mais interessante e profícuo discutir, por exemplo, a evidente correlação entre desregulamentação financeira e desemprego. Os suecos poderiam talvez procurar reconhecer o trabalho de algum economista menos crédulo que demonstrasse que nada desemprega mais do que a livre mobilidade de capitais.


Mas, como sabemos, os cientistas da tal academia sueca não costumam primar pelo realismo quando o tema é economia. Não escondem a preferência pela ficção e por ela navegam pela economia neoclássica e suas premissas café-com-leite. Estão certos de que a economia tende ao "desemprego natural" e, de modo precavido e responsável, preparam a ciência para lidar melhor com esse futuro radiante.

Pobres suecos! Um país tão avançado tendo que conviver com uma pantomima desse quilate. 

E.T.: embalado pelo mesmo bafo conservador, o Nobel de literatura coube à Mario Vargas Llosa. A esse respeito, sugiro a leitura de artigo publicado no Biscoito Fino, de autoria de Pedro Meira Monteiro (Clique aqui)  

12.10.10

instrucciones para experimentos em dias ocos

Para um feriado, nada como as exatas instrucciones de Julio Cortazar.
No vídeo abaixo, en su próprio timbre, nos orienta como fazer para subir uma escada ao revés.
Como deverão notar, é assunto de especial utilidade em dias ocos.
Antes, porém, algumas considerações necessárias:

Recomendações para a presente Instruccion: considerando a lassidão e a indolência que a muitos de nós domina e contamina nos dias ocos, é recomendável que aqueles que se dispuserem a reproduzir o experimento sugerido e tão bem orientado por Cortazar, reservem especial atenção ao derradeiro degrau, quando um leve toque descuidado do calcanhar poderá jogar por terra as percepções colhidas nas etapas anteriores do ensaio e - o que pode ser ainda mais grave - jogar ao solo o próprio sujeito do experimento.

A relevância e especificidade do derradeiro degrau, independentemente de quantos mais possuir a escada, decorre do fato de que nele se sobrepõem três aspectos críticos, a saber:

1º) ter-se-á, lógica e necessariamente, atingido o pavimento com maior distância em relação ao solo, o que significa dizer que, estando correta a canção popular que afirma que "quanto maior o coqueiro, maior o tombo", não haverá tombo maior do que o possível no referido degrau;

2º) como o último degrau é, necessariamente, um ponto de transição para um plano horizontal, dever-se-a estar atento à mudança abrupta das circunstâncias, o que não é algo trivial como pode parecer àqueles que estão acostumados a subir escadas de frente e que, portanto, tendem a subestimar este momentum crítico do experimento;

3º) como é frequente acontecer em outras modalidades de deslocamentos em que há clareza por parte do agente a respeito dos pontos de partida e de chegada, há uma natural e compreensível tendência ao relaxamento da atenção no segmento final da jornada, o que amplifica de maneira aguda os riscos de acidentes. No caso em tela, significa dizer que apenas um ou dois milímetros do solado do calcanhar que deixem de ser erguidos como vinham sendo nos degraus anteriores serão suficientes para provocar um desequilíbrio crítico do agente que, dadas as circunstâncias descritas nos itens (1) e (2), produzirão uma queda de consequências imprevisíveis e certamente indesejáveis.

Obs: é forçoso lembrar que a hipótese, mencionada em outro dito popular, de que "para baixo todo santo ajuda" não se aplica ao contexto do experimento supracitado. Vale dizer: imprecisões no uso de dizeres populares, muitas vezes inócuas e até charmosas, podem adicionar gravames em escala crescente quando se está praticando jogos lógicos que lançam mão da inversão de sentidos.


10.10.10

filho de hippie, pai de metaleiro

Pausa na eleição, mas não na política. Um dia de Rock.
Fui ao SWU com o filho para 10 horas de rock. 
E voltei tosquiado.

Me interessava em especial assistir aos legendários Mutantes e a boa música do Los Hermanos, grupos mais adequados aos ouvidos de um quarentão cansado. 


Qual o quê? Como dizia o bom Chico. 
Fui infectado pela sonzera dos 'veios'.


Primeiro, porque Os Mutantes, sob a autocrática liderança de Sergio Dias, já não mudam nem a roupa. Vestidos como nos sessenta, tocaram sem viço ou qualquer lampejo criativo. Sérgio Dias, cada vez mais ressentido, enche o saco, com uma eterna postura de reclamão. Entre hits do grupo, escolheu os mais etéreos, justamente aqueles em que, nos bons tempos, Rita Lee era a alma - para infelicidade da afinada substituta Bia. De resto, impôs duas músicas novas, que poucos tiveram a paciência de levar a sério. Ante uma platéia repleta de "air guitar players", não reviveu os inesquecíveis solos de guitarra que quarenta anos atrás colocaram Os Mutantes no topo do mundo. Foi uma pena.


Quanto aos cariocas Los Hermanos, o problema não foi exatamente com eles. Ocorre que aquela não era a praia nem a hora para a banda. Não cabiam no SWU, e estando lá, deveriam ter se apresentado antes das bandas nervosas que abriram a noite. Quando subiram ao palco, tocando suas melódicas canções, despertaram a platéia para as pernas exauridas, a bexiga cheia, o zumbido no ouvido, ... e muitos dispersaram. Apesar de que, os casais e boa parte das mulheres curtiram e até cantarolaram junto com os barbudos C.B.


Desconstruídos meus interesses, restaram-me as bandas pauleira, como dizíamos no tempo do Passat e do Corcel. E gostei do que ví.


Quem primeiro botou fogo no palco foi  o ótimo grupo de Goiania, Black Drawing Chalks, com um rock pesado, de grande força. Depois, veio o Macaco Bong, de Cuiabá, que toca um rock instrumental, meio alternativo, de excelente qualidade. Eram apenas  três sujeitos siderados (baixo, bateria e guitarra, sem vocal) que, por quase uma hora, mantiveram o público a alguns metros do chão. 


É curioso como têm surgido boas bandas no interior do país. Depois do Angra (originário de Fóz do Iguaçu), agora essa moçada do Centro-Oeste, com um tipo de música que poderia brotar em qualquer grande metrópole cinza do planeta. É som com cara de Berlim ou Londres, só que subproduto da soja e das distâncias encurtadas pela internet e seus aparatos.


Então, vieram as bandas gringas. 


Infectious Grooves, com um funk carregado, meio metal, e seu vocalista um tanto estranho, uma espécie de red-neck do B ou um Kid Vinil mais diabólico, que animou a platéia e em especial a moçada da pancadaria. Foi a senha para abrirem as rodas de bate-cabeça e o espreme-espreme entre os que queriam apenas ouvir a música.


Mais adiante, foi a vez do The Mars Volta,  grupo do Texas, formado por chicanos com pinta de holandeses. Gostei bastante. Com um hard-rock psicodélico que lembra muito o Led Zeppelin - com certeza alguém já deve ter dito isso antes. O vocalista, Cedric Zavalla, embora fisicamente talvez se pareça mais com Jimmy Page, tem um timbre de voz e trejeitos afeminados muito parecidos com os de Robert Plant. E faz animadas performances no palco. Já o guitarrista e lider do grupo, Omar Rodriguez-López, escondido atrás de sua boina preta, toca no melhor estilo Jimmy Page, fazendo solos delirantes, na linha de Dazed and Confused ou lemmon Song. À dupla, que faz a alma do grupo, acompanham outros ótimos músicos, apoiados por um sujeito que, à beira de um PC, cuida dos efeitos espaciais que permeiam os solos e nos fazem pensar em Marte. Muito bom.


E, finalmente, para terminar a noite, o explosivo e incendiário Rage Against The Machine. Além da música agressiva, algo entre o hip-hop e o heavy metal, o grupo se notabiliza pela militância política de esquerda. Tanto o vocalista Zack de La Rocha, financiador declarado da guerrilha Zappatista, quanto o extraordinário guitarrista Tom Morello, um filho de ex-guerrilheiro do Quênia, formado em ciências políticas em Harward, provocam como nunca ví a gana de suas platéias. Com um som nervoso e pegado e letras incendiárias, misturam revolução com desobediência civil, e protestos da melhor cepa. Em poucos minutos, fizeram cair a grade de proteção que os separava da platéia e, ironicamente, foram vítimas das machines: as caixas de som pifaram por 15 minutos, esfriando o sangue dos endiabrados do palco e do gramado. Mas não deixaram por menos, no final -  que ouvi do estacionamento - deixaram rolar a Intenacional Socialista enquanto se preparavam para o bis. Vida longa para essa banda porreta.


Por fim, uma palavra sobre o público. 
É verdade que era uma noite com sabor de sangue, mas gostei de ver a moçada rockeira destes dias de hoje. São muito diferentes da minha geração. Gente com cara boa e cabeça aberta, com um espírito meio libertário, mas sem porraloquice. Ao contrário do que se costuma dizer por aí, o rock de hoje me parece mais politizado e o público muito mais atento e crítico. Talvez seja uma decorrência do novo mundo inaugurado pelos arquivos em MP3 e a internet, que furaram as gravadoras e suas pautas musicais.  

o ronco da cuíca



Copiado do Tijolaço, blog do Brizola Neto 

8.10.10

na ponta do lápis



Veja o panfleto num tamanho maior!
Via @IlustreBOB

pensando verde e vermelho

É muito bom que temas como meio ambiente e sustentabilidade ganhem espaço na agenda política brasileira e devemos reconhecer que só por isso a candidatura de Marina Silva teve sua razão de ser.

Acho, porém, que mesmo considerando os limites de tempo e compromissos empresariais do PV, aqueles temas foram tratados de maneira superficial e se perdeu uma ótima oportunidade para avançar sobre tantas outras questões do nosso modo de vida contemporâneo. (a degradação da vida e do ambiente nas grandes metrópoles, o consumo inconsequente e desenfreado, a centralidade do automóvel, os incentivos fiscais, etc, etc...)

Há, contudo, um outro aspecto que gostaria de me aprofundar aqui em relação à agenda ambientalista, que tratei rapidamente dois posts abaixo.

Apesar do uso frequente de slogans do tipo "abordagem sistêmica" ou "perspectiva holística", que costumam acompanhar outros mais antigos como "desenvolvimento sustentável" ou "responsabilidade sócio-ambiental", vejo no discurso dos verdes uma inconsistência dos argumentos, justamente por carecerem de uma análise que abarque o conjunto de variáveis que compõem o complexo mundo que nos cerca. Ou seja, falta-lhes justamente a visão sistêmica de que tanto falam; falta-lhes um projeto de sociedade que dê conta de enfrentar todas as bandeiras que empunham, todas meritórias, mas que exigem um enfrentamento concreto e coerente para o qual não se arriscam.

Em sua grande maioria (na verdade não me lembro de nenhuma exceção), os Partidos Verdes não questionam ou problematizam os conflitos inerentes à dinâmica econômica atual, limitando o seu foco às manifestações mais tangíveis e epidérmicas das lutas dilacerantes e disruptivas que se multiplicam a partir das entranhas da concorrência intercapitalista. Aliás, é especialmente cara aos PVs a idéia de concorrência. Sonham com um darwinismo institucional, no qual as boas iniciativas devem ser premiadas através das regras impessoais do mercado. Adeptos entusiasmados do método de precificação de bens públicos, acreditam ser possível quantificar - em escala monetária - o valor da Mata Atlântica ou uma ninhada da arara azul e assim mobilizar via mercado os interesses econômicos capazes de salvá-los.

Ora, não há nada menos sistêmico do que esse tipo de abordagem. É o que na economia corresponde à perspectiva microeconômica, em oposição à macroeconomia que, se bem entendida, é a expressão fora de moda que no passado denominava os processos sistêmicos que compõem o ambiente sócio-econômico.

Portanto, os verdes nada mais fazem do que reunir em uma única cesta um conjunto de soluções parciais, supondo que, garantida a eficácia e a coerência interna (sustentabilidade) de cada solução, se conseguirá atingir uma sociabilidade mais racional e civilizada.

Lamento, mas é difícil não enxergar nesse tipo de posição ideológica uma mistura de voluntarismo ingênuo com preguiça intelectual. Creio ser muito mais profícuo e politicamente responsável, refletir sobre as causas da destruição massiva que a concorrência desregulada do capitalismo atual produz a cada vez que avança o frenético e imperativo processo de acumulação do capital. Nesse sentido, feitas as devidas mediações, nada é mais deletério ao meio ambiente ou à sustentabilidade do que o livre trânsito de que desfruta o capital nos dias de hoje. Como já via o velho Marx no século XIX, nada mais potente do que o capital (entenda-se como capital a dinâmica de valorização da riqueza, não a moral dos patrões) na tarefa de produzir obsolescências.

A mesma bolsa de valores, que dá vida às mágicas transações de crédito de carbono, é palco de trocas de ativos financeiros que põem de joelhos governos e tornam inócuas as políticas econômicas. Sem elas, ninguém, nem mesmo o espírito santo, é capaz de evitar que a fábrica que ontem produzia parafusos no teu bairro vire abrigo para os crackeiros nessa madrugada.

Ou haveria outra razão para as infinitas casas, milhões de quarteirões espalhados pelas cidades norte-americanas esvaziadas por uma lufada mal ajambrada dos mercados financeiros? Ou pense no belíssimo centro do Rio de Janeiro ou na saudosa Barra Funda em São Paulo, por que são hoje inservíveis e mumificaram? Não foi precisamente a inescapável volúpia capitalista que inventou os novos paraísos - a Barra da Tijuca, o Alphavile -  que não só escalpelaram as novas frentes de expansão, como precisaram desvalorizar as antigas e bem montadas regiões centrais?

O capital, por sua natureza, seu temperamento, não tem como fugir a essa sina. Ante a incerteza radical, lança mão de todas as estratégias a seu alcance, amplificando a concorrência e, no limite, tornando cada vez mais incerto o seu habitat, ao que dobra a aposta.

Assim, se forem estimuladas e facilitadas a concorrência e a competição - em nome da beleza teórica das leis de mercado ou da suposta eficiência dos instrumentos impessoais de alocação - será sempre crescente a sua dinâmica de destruição-criadora. Ao invés de acenderem velas ao capital de boa índole, à responsabilidade social dos managers, os que se preocupam de fato com o meio ambiente deveriam refletir obrigatoriamente sobre as formas de enquadramento da concorrência. E descobrirão que a variável chave a ser enjaulada no regime capitalista é a "decisão de investimento", pois é ela a morada da incerteza. Descobrirão, por fim, que Keynes foi o sujeito que enxergou isso com grande lucidez, há quase cem anos, e que, um tanto desconsolado, sugeriu o controle público das decisões de investimento como a única forma de evitar que as diatribes do capital destruissem nossa periclitante civilização.

Por tudo isso, nesse segundo turno, acho que entre aqueles que desejam e que estão seriamente comprometidos com as questões ambientais, cabe refletir sobre qual candidatura está mais próxima do necessário e urgente enquadramento do capital. Ninguém - talvez devêssemos lamentar - está propondo uma luta contra o capital, a instauração de outro regime ou coisa parecida. Mas, apensar disso, há importantes distinções relacionadas ao papel do estado, ao grau de liberdade do capital, ao balanço entre interesses públicos e privados que são sim determinantes para as questões relativas ao meio ambiente e à sustentabilidade de nosso necessário desenvolvimento econômico e social.

6.10.10

deixa a mulher falar!

Nesse momento em que se busca redefinir as estratégias de campanha para o segundo turno, me parece oportuno voltar ao vídeo da famosa chapuletada dada por Dilma em Agripino "culatra" Maia.

Além de explicitar os compromissos da Dilma com a democracia e a liberdade de expressão, o vídeo deveria servir de lembrança aos marqueteiros de campanha, que decidiram engessar a candidata e maquiar suas expressões. Dilma, em su tinta, fala com veemência e convicção, mesmo estando em uma situação de aguda pressão, como era o caso mostrado no vídeo. Veja abaixo:

5.10.10

ciro na cartucheira

Trecho da entrevista de Ciro Gomes ao Rede Brasil Atual
(RBA) A Veja passou da conta no primeiro turno?
CIRO: A Veja? A Veja passa da conta. Vive a serviço do que há de mais espúrio na sociedade brasileira. É isso que a gente deve explicar para as pessoas. Que a Veja tenha longa vida, mas que todos fiquem sabendo que a Veja não é uma observadora neutra da vida brasileira: ela está a serviço dos interesses internacionais, da privataria, da escória brasileira. Isso sempre foi. Desde que a turma de melhor nível saiu, virou isso (referindo-se a jornalistas mais antigos). Um instrumento de achaque.
Leia na íntegra aqui

para pensar a política, a economia

A tal onda verde que desestabilizou pesquisas e corações, está provocando bons debates pela bolgosfera. Gente como Alex Nodári, Rodrigo Viana, Flávia Cera, Antônio L.C.Costa, Luis Nassif e Idelber Avelar escreveram coisas muito interessantes. Em especial, recomendo o post do Idelber, que aponta para os aspectos mais relevantes, muitos dos quais passaram batido pelos analistas dos jornalões e dos politicólogos acadêmicos.

Contudo, como sempre há algo mais a dizer - e eu o disse ao Idelber nos cometários do Biscoito Fino - reproduzo abaixo, tanto o texto dele, quanto o meu, onde procuro chamar a atenção para os aspectos econômicos que necessariamente devem ser considerados no debate político.

Primeiro o dele e a seguir o meu:

Por Idelber Avelar
O que dizem os votos de Marina e como conquistá-los


Você pode discutir qual é o peso relativo dos três (não dois) grandes blocos de votos que contribuíram para os surpreendentes 20% de Marina Silva: 1) o voto estritamente marinista, verde, ecológico, que é crítico de algo maior que o PT, ou seja, de todo um paradigmadesenvolvimentista que, ironia das ironias, o PT veio a representar melhor que ninguém; 2) o voto "ético"-jovem-universitário-profissional-liberal-urbano, uma parte dele (a maior, me parece) composta por desiludidos com erros ou presepadas do PT, e a outra parte (menor, me parece) composta por eleitores movidos pelo episódio Erenice; 3) o voto evangélico que, por sua vez, tampouco é homogêneo, posto que formado de uma parcela—menor, creio—de votantes que já estavam com Marina e outra parcela—maior, creio—que foi mobilizada em termos anti-Dilma às vésperas da eleição. Num debate que teria, de preferência, que se realizar com atenção aos mapas relevantes, poder-se-ia discutir à exaustão qual é a contribuição de cada um desses segmentos para o resultado final.
O que me parece indiscutível é que somente este último, o voto evangélico, chega como irrupção e acontecimento. Foi ele o grosso do voto não computado nas pesquisas. Isso me parece verdadeiro, mas não se pode pular daí para a afirmação de que foi o atraso quem impediu a vitória dilmista no primeiro turno. Essa linha de análise é sempre muito rasa.
Para a campanha de Dilma, a tarefa é dupla. Por um lado, há que se entender os recados dados por todos os segmentos que votaram em Marina, para que a partir daí ocorra a negociação e o convencimento desse eleitorado. Esses recados têm densidade, têm conteúdo, aludem a fatos reais e não se limitam, de forma nenhuma, a uma suposta “Marina no colo da direita”. Jogar por aí é não entender o jogo. Por outro lado, há que se analisar quais foram os erros de campanha de Dilma que ajudaram a impedir a esperada vitória no primeiro turno. Fazer as duas coisas já não é fácil. Fazê-las simultaneamente é mais difícil ainda, pois a primeira—ouvir realmente os eleitores de Marina—exige humildade, proximidade e empatia. A segunda tarefa—fazer a autocrítica da campanha—exige inteligência, desprendimento, distância. São duas tarefas aparentemente contraditórias, que demandam posturas e capacidades opostas, mas elas são simultâneas e complementares.
O fascinante do resultado de domingo é que todo mundo errou. Se alguém aí previu que Marina venceria em Belo Horizonte, Maceió, Distrito Federal, Nova Lima, Volta Redonda, Vitória, Vila Velha e Niterói, além de praticamente empatar com Dilma em Natal e superá-la em Campina Grande, levante a mão, mostre um link com data anterior a 03 de outubro, que eu visto uma camisa do Flamengo ou do Cruzeiro aqui, a gosto do freguês. Todo mundo errou nas previsões, inclusive o vitorioso de domingo na eleição presidencial, que foi claramente o campo marinista. Por isso o futebol, na sua imponderabilidade, é o esporte que mais tem a ver com a política democrática. Sim, trata-se do velho clichê da caixinha de surpresas, mas também do dado menos óbvio de que o futebol é o menos contábil dos esportes, e se há uma mensagem relevante que a campanha de Marina tentou transmitir é a crítica à redução do mundo a uma lógica contábil. Quando gente como Ricardo Paes de Barros, José Miguel Wisnik, Alexandre Nodari e Eduardo Viveiros de Castrocoincidem numa candidatura que não é a sua, ou que não é a que você esperava que eles apoiassem, só um sectário muito desprovido de sensibilidade passaria à desqualificação sem uma escuta detida.
No campo dos erros, há que se destacar os estruturais, mais antigos, e os conjunturais, que se manifestaram de uma forma especialmente maluca nesta campanha. Os erros estruturais são parte do recado das urnas marinistas e não podem ser ignorados. O caso de Belo Horizonte é emblemático. Há exatos dois anos, o PT concluía 16 anos de governo de uma coalizão sua na cidade, com um prefeito que deixava o cargo comnoventa por cento de aprovação. Esse prefeito, Fernando Pimentel, é diretamente associado a Dilma e é parte da cúpula de sua campanha. A cidade não tem qualquer tradição de antipetismo raivoso como aquele encontrado em partes de São Paulo e Porto Alegre. Como é possível que o resultado aqui tenha sido Marina Silva 39,9%, Dilma Rousseff 30,9% e José Serra 27,7%, num contexto de grande vitória da esquerda nas legislativas?
Essa parte me parece relativamente simples. As urnas disseram: “não gostamos das lambanças do PT-BH nas eleições de 2008 e do PT-MG em 2010, apesar de o PT ter governado bem a cidade. Votaremos em alguém que é suficientemente próxima aos ideais da bem sucedida prefeitura de 1992-2008, mas que se afastou do campo petista, em parte, por lambanças como essa”. Junte-se a esse recado mais estrutural a avalanche de desinformação e propaganda pra cima dos evangélicos nos últimos dias--essa avalanche realmente existiu—e você tem os ingredientes dos números que deixaram todos os junkies políticos belo-horizontinos de queixo caído. Os mesmos ingredientes se combinam em outras latitudes, como o Acre, um estado onde o PT tem fortíssimas raízes, elegeu o Governador e um Senador, mas no qual Dilma ficou empatada com Marina e bem longe de Serra. Se você é petista e não vê aí um recado além do “Marina está no colo da direita” ou do “Marina é a falência do movimento ecológico” (sim, isso foi escrito), sinto muito, você precisa ler a Flávia Cera.
É sabido que, por volta de dois meses atrás, um grupo de lideranças evangélicas procurou a campanha de Dilma, preocupadas com a disseminação de boatos e emails falsos. A campanha fez a “Carta ao Povo de Deus” e ficou por isso mesmo. Os programas de João Santana—excelentes, belíssimos, inovadores—não dedicaram um só minuto, no entanto, à refutação da pilha de spam religioso anti-Dilma disseminada para púlpitos e fiéis. A coordenação de internet não ofereceu respostas a isso. Preferiu brincar de Twitter e #ondavermelha. A campanha online foi feita à base do cada um por si, sem que se aproveitasse de forma coordenada a enorme base de recursos humanos da esquerda brasileira na rede.
Quando os evangélicos voltaram a procurar a campanha de Dilma, em setembro, o nível da loucura havia piorado sensivelmente. Algumas lideranças religiosas gravaram depoimentos de apoio à candidata petista, mas não houve uma resposta sólida e consistente da campanha. Os marqueteiros não são lá grandes fãs do potencial da rede e, por sua vez, a coordenação de internet de Dilma era pobre e fraca de ideias. É importante reconhecer isso sem que esse reconhecimento nos ensurdeça para o recado real das urnas marinistas, que transcende em muito o spam do ódio.
É evidente que temos que explicar que Michel Temer não é satanista. Aliás, podemos inclusive esclarecer que ele já fez pactos com o DEM mas, pelo que nos consta, com Satã nunca aconteceu. Mas é preciso fazer isso sem desmerecer ou desqualificar o recado dado pelas urnas marinistas em sua totalidade, sem reduzir o voto de Marina a qualquer um de seus blocos, muito menos o evangélico, justamente aquele que é mais conjuntural (apesar que não necessariamente menos numeroso) na constituição da identidade da sua candidatura.
Não há motivo para pânico. Marina tem muito mais a ver com Dilma que com Serra, e isso é o próprio Serra quem diz. Para nós, faltam 3 pontinhos. Para Serra, faltam quase 18. Marina sabe que coloca seu capital político em maus lençóis se apoiar alguém como Serra. Também sabe que não lhe interessa entregar nada de graça a Dilma agora, e há que se entender isso. É da política. Um petista reclamando que Marina não está agindo de forma a facilitar as coisas pra nós é como um lateral queixando-se de que um ponta o engana, fingindo que vai abrir o jogo para depois cortar para o meio. Ora, você tem que aprender a marcar. O jogo é jogado.
Ainda estamos bem, mas é preciso jogar com inteligência, humildade e decência e, acima de tudo, não deixar que nenhuma dessas qualidades atrapalhe as outras duas.
(aqui o link para o post de Ildeber Avelar)


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Abaixo, o meu comentário, com alguns ajustes em relação àquele postado no Biscoito Fino:

Excelente análise. Aliás, como sempre. 
Vesti a carapuça em mais de um trecho e estou certo de que a candidatura Marina foi subestimada, em boa medida por conta do clima de "já ganhou" que se instaurou na campanha da Dilma e pelo fato de que, aos olhos petistas, era difícil reconhecer méritos e ameaça em alguém que veio do ninho e que, principalmente, "traiu" o campo governista aos 35 minutos do segundo tempo (Freud e Xico Sá talvez expliquem melhor).

Porém, a despeito de tudo que dissestes e do pós-moderno ou pós-Lula que eventualmente explique a ascensão da candidata verde, acho que é importante refletir o fenômeno Marina tendo sempre em mente sua dupla face: por um lado, essa novidade que você bem analisa e, por outro, a velharia que lhe deu combustível, qual seja, a estratégia tucana de desconstruir a Dilma. Essa face opaca da ascensão de Marina não me parece que seja tão irrelevante como você sugere em tua análise. Vinte dias antes da eleição, Marina aparecia nas pesquisas com aproximadamente 10% das preferências, e não foi de seu próprio campo que se construiu o impulso final que lhe deu projeção. Ela estava no lugar certo (sentada sobre uma proposta política principista, estéril, que não ameaça porque não é concreta) e na hora certa (quando os tucanos intensificaram o terrorismo anti-PT), atraindo para si a tal onda verde (seria de paúra?).
Além de tudo isso, tem um aspecto que já tratei em teu blog em outras ocasiões - e que pode decorrer de nossos diferentes tiques profissionais. Acho que você peca na análise por enfatizar a superestrutura (do Marx), deixando em segundo plano a perspectiva econômica que habita as posições e projetos políticos. Marina, Obama, Clinton, PT de BH, Palocci, por exemplo, (que no teu blog já despontaram com vestes rosadas) são a meu ver fenômenos políticos carregados de contradição, que, em última instância, naturalizam a infraestrutura (a dimensão econômica) para capturarem (intuitivamente, claro) o melhor dos dois mundos. Quando falo em infraestrutura, não estou resgatando temas como o conflito capital-trabalho, mas, por exemplo, a cegueira dessa trupe em relação ao caráter disruptivo da circulação financeira no mundo contemporâneo. Fazer cara de paisagem e vender a imagem de que os temas econômicos devem ser tratados apenas com a austeridade e o bom-mocismo é de uma insanidade inaceitável em um político que se pretende apresentar como transição para o pós-moderno. A matriz dessa abordagem econômica naturalista remonta ao século XVIII, quando o equilíbrio surgia como idéia-força. Não por acaso, costuma seduzir com facilidade as mentes preocupadas com os importantes temas da sustentabilidade e da perspectiva sistêmica.
Dificilmente há algo mais pós-moderno do que os derivativos financeiros que estão sendo maquinados nas mesas de operações de Wall Street, enquanto jogamos conversa fora. E o fato de serem transações abstratas, etéreas, não nos autorizam a desconsiderá-las. Pelo contrário, é justamente por esse aspecto fugidio da economia pós-moderna que, mais do que nunca, devemos nos esforçar para ancorar o debate político no econômico. Um exemplo. A rápida obsolescência industrial que devasta cidades, empregos e vidas nos EUA de hoje (portanto um descalabro em termos de sustentabilidade), é decorrência direta da liberdade de capitais que joga com moedas e ativos mundo afora. 
 os partidos e candidatos que se arriscam pela terceira via fingem desconhecer esse fenômeno, tão bem antecipado por Keynes, no século passado. É precisamente por essa razão que esse povo todo topa sentar no mesmo barco. Noves fora, estão todos de acordo.

4.10.10

voto e renda média

Um exercício interessante a se fazer com os números do primeiro turno é comparar a votação entre os candidatos a presidente e o nível de renda média da população de cada estado da federação.

Como pode-se observar no gráfico (clique aqui para ver), se considerarmos os dez estados de maior renda média, em apenas dois (Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul) Dilma teve votação superior a de seus concorrentes. Serra chegou à frente em sete estados e Marina Silva venceu no Distrito Federal.

No outro extremo, quando se analisam as votações nos dezessete estados de menor renda média (abaixo de R$ 1.065,70), verifica-se que Dilma venceu em 16, perdendo apenas em Roraima.

Parece ficar claro, portanto, que, mais do que uma questão regional, existe uma clivagem do eleitorado de acordo com a renda per capita de cada estado. É evidente que, como o recorte de renda de cada estado decorre do desenvolvimento regional do país, há alguma correspondência entre o nível de renda e a distribuição regional, mas o fator renda parece ser o preponderante.

escarafunchando o pleito

Algumas considerações sobre a eleição do dia 03:

- Consolida um avanço lento e consistente das esquerdas e em especial do PT, com importante avanço no legislativo. O PT é o único partido brasileiro que cresce ininterruptamente desde 1982, ampliando o número de deputados e senadores a cada pleito.

- A tal Onda Verde, que nesse momento tem sido tão comemorada pela mídia tucana, não me parece que decorra de méritos efetivos da candidata dos seringais. Ao contrário do que andam dizendo Sardemberg, Merval e Cia, acho que a Marina foi o verdadeiro poste da eleição, capturando os votos dos tementes da classe média que, por despolitizados, acreditaram no bombardeio de prata promovido por Serra e seus quatro patrões. Marina apresentou um discurso principista, anódino, despolitizado, e precisamente por isso capturou os desavisados. Além disso, foi a única alternativa que restou entre aqueles que, atentos à palavra do Pastor, não suportaram imaginar a Dilma promovendo abortos Brasil a fora.

- O Datafolha, tanto malhado - inclusive aqui - foi o instituto que mais próximo chegou da fotografia final. O atento Alê Porto já havia demonstrado  (clique aqui) que, nas eleições anteriores, o Datafolha era o instituto de pesquisa que mais bem exprimia a vontade do voto na hora "h". Isso não significa que seja o mais confiável durante todo o período, pois, na comparação com os concorrentes, parece que tem dificuldade de antecipar as tendências de longo prazo, como de fato se verificou nessa eleição, quando correu atrás dos demais. Ou seja, é ruim de filme, mas melhor em fotos.

- Outro ponto importante notado pelo Alê Porto é que nas últimas eleições presidenciais o candidato do PT sempre oscilava de 2 a 3 pontos percentuais para baixo entre a última pesquisa e a votação. Talvez por conta do perfil social e regional do voto petista, verifica-se uma baixa no dia da votação - quando se trata de eleição nacional.

- Fora o fenômeno Tiririca - que, cá entre nós, é melhor e mais divertido que os falecidos Enéas e Clodovil - a trupe dos paraquedistas midiáticos não teve êxito.

- Protógenes, o delegado que ousou morder o calcanhar de Dantas, conseguiu se eleger na última colocação, escapando da fúria que lhe prometia a justiça comum. Sem o fórum privilegiado que terá como deputado, seria devorado como aquele gato da vizinha que, capturado pela molecada do bairro, foi entregue aos onze cachorros reunidos na lavanderia, onde nem uma gota de sangue foi encontrada.

- Por falar em cachorro, na região de Campinas, deu-se um fato que me parece mais grave que a eleição do Tiririca. O deputado estadual com a maior votação foi o tal Feliciano, colega de partido da Marina, que tem como único mote a defesa dos cachorros de rua. Tiririca pelo menos faz rir e representa o voto dos inconsequentes. Já o Feliciano, que não pode ainda contar com os votos da cachorrada, teve seus 137 mil votos garimpados entre seres humanos que fazem dos vira-latas a causa primeira a ser levada à arena política. De minha parte, não tenho paciência alguma com esse assunto e menos ainda com seu representante legislativo, tanto porque, quando eu era responsável pelo programa de apoio às cooperativas de reciclagem na cidade de Campinas, tive que aguentar o sujeito solicitando que encaminhássemos um projeto de lei proibindo o uso de cavalos puxadores de carroça. Quando questionado se achava justo e razoável que um ser humano substituísse um cavalo para puxar as carroças, ele não teve dúvidas em dizer que o ser humano o faz pelo livre-arbítrio e, portanto, poderia escolher outro trabalho. Já o cavalo,... ao que tive que me segurar para não lhe dar um coice.

- E por falar em coices e livre-arbítrio, nada como ver os cavalos da tropa de choque demotucana perderem as eleições. Virgílio, Heráclito, Tasso, Cesar Maia,... Bye!

- Quanto ao segundo-turno, acho que vai ser desgastante, mas com o mérito de colocar na mesa temas importantes que foram evitados até agora. Câmbio e Juros, provavelmente os dois institutos que mais matam e esfolam farão parte do menu. Não custa lembrar que em 2006, quando Lula e Alckmin passaram ao segundo turno, Lula foi obrigado a se posicionar sobre questões cruciais, melhorando a enbocadura de centro-esquerda de seu governo.

29.9.10

datafolha de calça curta

Com a divulgação da pesquisa do Ibope para presidente da república, confirmou-se o cenário que vem sendo apontado pelo tracking do Vox Populi, ou seja, a provável vitória de Dilma (PT) no primeiro turno. Enquanto a candidata governista aparece com 50%, a soma dos demais alcança apenas 41% , portanto uma diferença (9%) ligeiramente inferior aos 12% apontados pelo Vox Populi.

Contudo, mais do que os números em si, o que a pesquisa Ibope revela de mais importante é a sistemática miopia do Datafolha, que, de tão sistemática, joga por terra o que restava de credibilidade do instituto de pesquisas da Famiglia Frias. Como foi amplamente divulgado pelos mídia-ligeira, o Datafolha  sugeria que Dilma tinha apenas 2% a mais do que a soma dos demais candidatos e que, portanto, estaríamos com um pé e meio no segundo turno.

Mentiram. E, junto com o seu candidato, não deixarão saudades.

ET: para uma rápida explicação do "martelinho de ouro" usado pelo Datafolha, leia aqui a ótima cartilha "A Escolinha do Prof. Tavinho" elaborada pelo Tijolaço

27.9.10

mercado para quem precisa de mercado

Transcrevo a seguir alguns comentários que postei no blog do Nassif, sobre a entrevista concedida pelo Economista Marcelo Neri, da FGV, ao jornal Estado de São Paulo (leia aqui), adornada com o lamentável título que segue: "demos os pobres ao mercado. É hora de dar o mercado aos pobres".
Pois bem, Dr. Neri, vamos por pontos:
1º) Como bem sabe o ilustre, embora omita em sua entrevista, a renda dos ricos cresce muito mais do que 1,5% ao ano. O problema é que não há no país - com exceção das bases de dados da RF vendidas na 25 de Março - fonte oficial que permita estimar o crescimento da renda dos ditos rentiers. A PNAD, de onde o Neri tira suas conclusões, é uma amostra autodeclaratória que, obviamente, não registra os ganhos patrimoniais e financeiros que faz a alegria dos triple A. Porém, basta olhar para a conta de juros da dívida pública, para concluir que os R$ 180 bilhões anuais pagos pelo governo devem dormir em algum recanto tranquilo, engrossando o curau de uns a taxas certamente mais altas do que as tais 1,5% mencionadas no romance do Dr. Neri;

2º) Não pega bem e não faz o menor sentido conferir o atributo da "complacência" à política de aumento real de salário mínimo. Ocorre que, não só é preciso recuperar as perdas reais acumuladas por décadas, como se trata apenas de permitir que os ganhos de produtividade do país sejam compartilhados entre as diversas camadas da sociedade, em especial entre aqueles que por suas condições sociais, não têm como se defender da perversa concorrência que afeta os trabalhadores situados nas franjas do mercado de trabalho.
3º) E falar de "desincentivo ao trabalho", causado pelo Bolsa Família, é piada de má fé. Não me parece razoável que uma família - com três ou mais filhos - irá recostar à sombra da goiabeira apenas porque recebe, na melhor (ou pior) das hipóteses, R$ 200 por mês. Se assim pensa, Dr. Marcelo Neri deveria primeiro explicar por que continua indo à FGV, se recebe "desincentivos" fiscais muito mais generosos do Estado que lhe autoriza deduzir de seus impostos o Plano de Saúde, a Previdência Privada e a escola dos meninos Nerizinhos?
4º) Como revela estudo do IPEA, os limites da redução da desigualdade no Brasil estão dados hoje pela injustiça tributária. Quem recebe o tal salário mínimo da "complacência" ou a Bolsa Família que "desincentiva" paga duas vezes mais impostos do que o Sr Neri e todos nós da classe média.

Portanto, não venha agora propor mais mercado aos de baixo. Antes devemos retirar os de cima da situação de conforto para que se sintam incentivados à luta e não sucumbam à complacência do Estado que há tanto lhes é generoso.

26.9.10

marina: o verde que não poliniza

Ouço ronronar entre amigos, familiares, alunos e vizinhos menções de simpatia a Marina Silva, a candidata-santa que veio das florestas do acre. Deve ser a tal onda verde chegando aos companheiros de estamento.

Triste e lamentável.

Suspeito que se movem por um cômodo espírito naif,  que lhes permite continuar a flanar acima do vil mundo da política. Com uma dose de preguiça e talvez outra de covardia, escolhem a candidata verde fundamentalmente porque se trata de uma alternativa anódina, estéril, que não oferece riscos políticos reais, já que não apresenta projeto concreto de poder, mas, tão somente, princípios ecológicos e de bom mocismo econômico, que tanto agradam aos que miram por sobre o verniz.

É claro que qualquer um tem o direito de votar em quem quer que seja, quanto mais aqueles que se acreditam defensores de grandes causas, condutores de grandes bandeiras. Mas, pera lá, o façam com a espinha ereta, com convicção, com gana.

Sem dúvida é preciso pensar nas questões ambientais e tratar com absoluta seriedade o tema da sustentabilidade do planeta. Entretanto, é obrigatório apresentar um projeto de desenvolvimento completo, coerente e viável, não só do ponto de vista econômico, mas principalmente social. O tema da ecologia é de enorme complexidade, talvez porque o mais sistêmico de todos. Justamente por isso, não pode ser tomado apenas como um elenco de princípios ou de reivindicações. Não basta espernear contra os peixes de Belo Monte, sem mostrar uma alternativa exequível que evite a energia produzida pelas famigeradas termo-elétricas - que seriam acionadas na ausência das hidroelétricas. Não cabe amaldiçoar o pré-sal, se não indicarem outra forma de tirar do esgoto 90 milhões de brasileiros que vivem sem saneamento básico.

Eu também quero a alegria dos micos, dos vira-latas, o cheiro da mata que um dia ocupou o pasto seco que me irrita as vistas. Mas, é preciso dizer como enfrentar o problema na sua totalidade e, mais do que isso, demonstrar que a alternativa é melhor do que a política de desenvolvimento que vem sendo executada pelo governo Lula - do qual a Marina fez parte até 2007 - cujo esforço ambiental tem sido reconhecido internacionalmente.

A opção por causas nobres, reforçada pela ojeriza aos que se atolam na política, é a expressão do apequenamento de uma classe média aturdida e incapaz de discernir entre o "submundo revelado" pelo Jornal Nacional e as motivações golpistas que transparecem pelo cenário azul-brilhoso.

Mas afinal, qual é o país que propõe a Marina? Será que isso importa? Faz alguma diferença conhecer os interesses e os personagens que lhe apóiam? Alguém sabe o que pensa o Ricardo Paes de Barros, o economista que cuida dos projetos sociais de seu programa? E a trupe ultraliberal da Casa das Garças que lhe manifesta simpatia, tem alguma relevância? Os comentários elogiosos de Sardemberg e seus amigos da CBN, importam? Quem seriam seus aliados no congresso?

Sem respostas a essas questões, que me perdoem os amigos verdes, não há candidatura. Na melhor das hipóteses, um álibi.

24.9.10

sindicato forte faz toda a diferênça

Dias atrás, citei em vão os sindicalistas alemães, que deveriam estar se coçando de inveja do histórico reajuste salarial  (de 10,80%) conquistado pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.

Pois, não é que os caras reagiram rápido!

Em matéria do Financial Times,  publicada no jornal Valor desta quinta, 23, noticia-se que o IG Metall (o poderosíssimo sindicato dos metalúrgicos da Alemanha) conseguiu assinar um acordo com a gigantesca Siemens que estabelece nada menos que a ESTABILIDADE INDEFINIDA no emprego, para 128 mil trabalhadores do conglomerado.

Impressionante em sí, a notícia surpreende ainda mais porque o momento não é dos mais róseos para a economia germânica. Com a crise que atinge a zona do euro e a crescente concorrência das manufaturas chinesas, a vitória do IG Mettal é um feito de grande significado.

Além da estabilidade em sí, que garante obvia tranquilidade à vida dos trabalhadores - devolvendo ao capital o risco que lhe pertence - coloca àqueles trabalhadores a possibilidade de negociarem em condições bastante mais favoráveis as pautas dos acordos futuros. De quebra, conseguiram estabelecer uma cláusula que garante acesso do Conselho dos Trabalhadores a informações estratégicas que possam alterar o controle societário da empresa.

Muito bão!

Como bem demonstraram os anos dourados do século XX, a concertação entre trabalhadores e patrões é condição das mais profícuas para se erguerem instituições sociais e econômicas mais justas.

Parabéns! Aos alemães e aos metalúrgicos do ABC.