Mostrando postagens com marcador verve. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador verve. Mostrar todas as postagens

10.10.12

manifesto em defesa da civilização*


Vivemos hoje um período de profunda regressão social nos países ditos desenvolvidos. A crise atual apenas explicita a regressão e a torna mais dramática. Os exemplos multiplicam-se. Em Madri uma jovem de 33 anos, outrora funcionária dos Correios, vasculha o lixo colocado do lado de fora de um supermercado. Também em Girona, na Espanha, diante do mesmo problema a Prefeitura mandou colocar cadeados nas latas de lixo. O objetivo alegado é preservar a saúde das pessoas. Em Atenas, na movimentada Praça Syntagma situada em frente ao Parlamento, Dimitris Christoulas, químico aposentado de 77 anos, atira contra a própria cabeça numa manhã de quarta-feira. Na nota de suicídio ele afirma ser essa a única solução digna possível frente a um Governo que aniquilou todas as chances de uma sobrevivência civilizada. Depois de anos de precários trabalhos temporários o italiano Angelo di Carlo, de 54 anos, ateou fogo a si próprio dentro de um carro estacionado em frente à sede de um órgão público de Bologna.

Em toda zona do euro cresce a prática medieval de anonimamente abandonar bebês dentro de caixas nas portas de hospitais e igrejas. A Inglaterra de Lord Beveridge, um dos inspiradores do Welfare State, vem cortando recorrentemente alguns serviços especializados para idosos e doentes terminais. Cortes substantivos no valor das aposentadorias e pensões constituem uma realidade cada vez mais presente para muitos integrantes da chamada comunidade europeia. Por toda a Europa, museus, teatros, bibliotecas e universidades públicas sofrem cortes sistemáticos em seus orçamentos. Em muitas empresas e órgãos públicos é cada vez mais comum a prática de trabalhar sem receber. Ainda oficialmente empregado é possível, ao menos, manter a esperança de um dia ter seus vencimentos efetivamente pagos. Em pior situação está o desempregado. Grande parte deles são jovens altamente qualificados.

A massa crescente de excluídos não é um fenômeno apenas europeu. O mesmo acontece nos EUA. Ali, mais do que em outros países, a taxa de desemprego tomada isoladamente não sintetiza mais a real situação do mercado de trabalho. A grande maioria daqueles que hoje estão empregados ocupam postos de trabalhos precários e em tempo parcial concentrados no setor de serviços. Grande parte dos postos mais qualificados e de melhor remuneração da indústria de transformação foi destruída pela concorrência chinesa.

Nesse cenário, a classe média vai sendo espremida, a mobilidade social é para baixo e o mercado de trabalho vai ficando cada vez mais polarizado no país das oportunidades. No extremo superior, pouquíssimos executivos bem remunerados que têm sua renda diretamente atrelada ao mercado financeiro. No extremo inferior, uma massa de serviçais pessoais mal pagos sem nenhuma segurança, que vivem uma realidade não muito diferente dos mais de 100 milhões que recebem algum tipo de assistência direta do Estado. O Welfare State, ao invés de se espalhar pelo planeta, encampando as tradicionais hordas de excluídos, encolhe, aumentando a quantidade de deserdados.

Muitos dirão que essa situação será revertida com a suposta volta do crescimento econômico e a retomada do investimento na indústria de transformação nestes países. Não é verdade. É preciso aceitar rapidamente o seguinte fato: no capitalismo, o inexorável progresso tecnológico torna o trabalho redundante. O exponencial aumento da produtividade e da produção industrial é acompanhado pela constante redução da necessidade de trabalhadores diretos. Uma vez excluídos, reincorporam-se – aqueles que o conseguem – como serviçais baratos dentro de um circuito de renda comandado pelos detentores da maior parcela da riqueza disponível. Por isso mesmo, a crescente desigualdade de renda é funcional para explicar a dinâmica desse mercado de trabalho polarizado.

Diante desse quadro, uma pergunta torna-se inevitável: estamos nós, hoje, vivendo uma crise que nega os princípios fundamentais que regem a vida civilizada e democrática? E se isso for verdade: quanto tempo mais a humanidade suportará tamanha regressão?

A angústia torna-se ainda maior quando constatamos que as possibilidades de conforto material para a grande maioria da população deste planeta são reais. É preciso agradecer ao capitalismo, e ao seu desatinado desenvolvimento, pela exuberância de riqueza gerada. Ele proporcionou ao homem o domínio da natureza e uma espantosa capacidade de produzir em larga escala os bens essenciais para as satisfações das necessidades humanas imediatas. Diante dessa riqueza, é difícil encontrar razões para explicar a escassez de comida, de transporte, de saúde, de moradia, de segurança contra a velhice, etc. Numa expressão, escassez de bem estar!

Um bem estar que marcou os conhecidos “anos dourados” do capitalismo. A dolorosa experiência de duas grandes guerras e da depressão pós 1929, nos ensinou que deveríamos limitar e controlar as livres forças do mercado. Os grilhões colocados pela sociedade na economia explicam quase 30 anos de pleno emprego, aumento de salários e lucros e, principalmente, a consolidação e a expansão do chamado Estado de Bem Estar Social. Os direitos garantidos pelo Estado não deveriam ser apenas individuais, mas também coletivos. Vale dizer: sociais. Dessa maneira, ao mesmo tempo em que o direito à saúde, à previdência, à habitação, à assistência, à educação e ao trabalho eram universalizados, milhares de empregos públicos de médicos, enfermeiras, professores e tantos outros eram criados.

O Welfare State não pode ser interpretado como uma mera reforma do capitalismo, mas sim como uma grande transformação econômica, social e política. Ele é, nesse sentido, revolucionário. Não foi um presente de governos ou empresas, mas a consequência de potentes lutas sociais que conseguiram negociar a repartição da riqueza. Isso fica sintetizado na emergência de um Estado que institucionalizou a ética da solidariedade. O individuo cedeu lugar ao cidadão portador de direitos. No entanto, as gerações que cresceram sob o manto generoso da proteção social e do pleno emprego acabaram por naturalizar tais conquistas. As novas e prósperas classes médias esqueceram que seus pais e avós lutaram e morreram por isso. Um esquecimento que custa e custará muito caro às gerações atuais e futuras. Caminhamos para um Estado de Mal Estar Social!

Essa regressão social começou quando começamos a libertar a economia dos limites impostos pela sociedade, já no início dos anos 70. Sob o ideário liberal dos mercados, em nome da eficiência e da competição, a ética da solidariedade foi substituída pela ética da concorrência ou do desempenho. É o seu desempenho individual no mercado que define sua posição na sociedade: vencedor ou perdedor. Ainda que a grande maioria das pessoas seja perdedora e não concorra em condições de igualdade, não existem outras classificações possíveis. Não por acaso o principal slogan do movimento Occupy Wall Street é “somos os 99%”. Não por acaso, grande parte da população espanhola está indignada.

Mesmo em um país como o Brasil, a despeito dos importantes avanços econômicos e sociais recentes, a outrora chamada “dívida social” ainda é enorme e se expressa na precariedade que assola todos os níveis da vida nacional. Não se pode ignorar que esses caminhos tomados nos países centrais terão impactos sob essa jovem democracia que busca, ainda, universalizar os direitos de cidadania estabelecidos nos meados do século passado nas nações desenvolvidas.

Como então acreditar que precisamos escolher entre o caos e austeridade fiscal dos Estados, se essa austeridade é o próprio caos? Como aceitar que grande parte da carga tributária seja diretamente direcionada para as mãos do 1% detentor de carteiras de títulos financeiros? Por que a posse de tais papéis que representam direitos à apropriação da renda e da riqueza gerada pela totalidade da sociedade ganham preeminência diante das necessidades da vida dos cidadãos? Por que os homens do século XXI submetem aos ditames do ganho financeiro estéril o direito ao conforto, à educação e à cultura?

As respostas para tais questões não serão encontradas nos meios de comunicação de massa. Os espaços de informação e de formação da consciência política e coletiva foram ocupados por aparatos comprometidos com a força dos mais fortes e controlado pela hegemonia das banalidades. É mais importante perguntar o que o sujeito comeu no café da manhã do que promover reflexões sobre os rumos da humanidade.

A civilização precisa ser defendida! As promessas da modernidade ainda não foram entregues. A autonomia do indivíduo significa a liberdade de se auto-realizar. Algo impensável para o homem que precisa preocupar-se cotidianamente com sua sobrevivência física e material. Isso implica numa selvageria que deveria ficar restrita, por exemplo, a uma alcateia de lobos ferozes. Ao longo dos últimos de 200 anos de história do capitalismo, o homem controlou a natureza e criou um nível de riqueza capaz de garantir a sobrevivência e o bem estar de toda a população do planeta. Isso não pode ficar restrito para uma ínfima parte. Mesmo porque, o bem estar de um só é possível quando os demais à sua volta encontram-se na mesma situação. Caso contrário, a reação é inevitável, violenta e incontrolável. A liberdade só é possível com igualdade e respeito ao outro. É preciso colocar novamente em movimento as engrenagens da civilização.

*este manifesto é uma iniciativa de um grupo de professores e pensadores do campo das ciências humanas.


24.5.11

um debate oportuno

Nada como um catedrático, autor de gramáticas, fundador do Museu da Língua Portuguesa e, portanto, autoridade inquestionável sobre o assunto, para deixar claro os aspectos desconsiderados pelos doutos que, ignorantes e banhados em naftalina, saem por aí clamando pela "norma culta", como se a questão se resumisse a um debate jacobino.

É sintomático que uma polêmica como essa tenha surgido alguns dias após o episódio da "gente diferenciada". Plasmam-se no mesmo caldo de cultura, de uma classe dominante que vira e mexe se espanta com os novos bárbaros que emergem dos buracos de metrô, que consomem de maneira frenética ou que "assassinam" a 'norma culta' a três por quatro.

Para surpresa dessa gente reacionária, do jeito que a coisa vai, acabaremos falando como os franceses, que, como ensina o Prof. Ataliba, não pronunciam o "s" há séculos e que, a despeito do desvio, continuam encantando a trupe dos iguais.

10.5.11

éh...., me passou


É bastante conhecida a expressão de Sergio Buarque de Holanda que, no livro "Visões do Paraíso", chamou de "procissão de milagres" a ocorrência de sucessivos ciclos econômicos que marcaram a história de nosso país.

Recentemente, tratei desse tema em sala de aula.

Dias depois, ao aplicar uma prova e questionar os alunos sobre os determinantes de nossa industrialização, um inspirado aluno se sai com uma tirada inusitada, nem de todo equivocada:

a causa da industrialização? "o vácuo de milagres"

18.4.11

a vida é sonho

Nasça o homem sabendo que
Todo esse império deve ser por ele 
Conquistado ou perdido.

A frase, de Calderon de La Barca, da peça "A Vida é Sonho", serve bem ao excelente artigo do indignado Rubens Ricúpero, publicado ontem na Folha, no qual ele manifesta sua perplexidade não só com a promiscuidade dos agentes econômicos que levaram países inteiros à bancarrota, mas principalmente com a "ausência de indignação moral" de todos, que continuam tocando a vida como se nada tivesse acontecido, assistindo ao desmonte das instituições do bem estar social, como se fosse um desígnio de deus.

26.2.11

sobre a dominação de classes



"Uma classe dominante é tanto mais forte e mais perigosa em sua dominação quanto mais for capaz de assimilar os homens mais importantes das classes dominadas"

        Karl Marx, em "O Capital", Livro III, Cap. 36.



Em tempo: a frase é oportuna para pensar sobre as insurgências políticas que têm ocorrido nos países árabes.

17.11.10

em solidariedade aos patrícios




Em homenagem a nossos irmãos-patrícios, que se encontram em difícil cipoal econômico, revisito o hino da Academia do Bacalhau de Coimbra que, a qualquer tempo e lugar, será sempre motivo de inspiração e alegria:




Vamos cantar à saúde de Coimbra
Academia com cartola de penacho
Sou de Coimbra
Ninguém me deita abaixo
O vinho tinto dá-me força pela medida
Teu bacalhau cheira a seiva de menina
Sou gavião vou comer esse repasto
Sou de Coimbra
Eu nunca serei casto
O vinho tinto dá-me força pela medida
Vestes de negro
Roupinha branca por baixo
Que é a cor da toalha desta mesa
Hoje vou comer-te esse penacho
Nem que seja uma punheta à Portuguesa
Sou de Coimbra
Ninguém me deita abaixo
O vinho tinto dá-me força pela medida
Quando te como vou p’ra cima
E vou p’ra baixo

autor:
Compadre João Afonso

24.10.10

eu vejo a barra do dia surgindo

Em tempo de baforadas fascistas, que supúnhamos insignificantes em nosso país, copio a bela letra de Julinho de Adelaide, herói maroto dos tempos de ditadura, que vem fazendo sucesso na internet nesta véspera de carnaval.
Para ouvir a belíssima canção, na voz deliciosa de Nara Leão, clique aqui. É de arrepiar. 
E vale ver também (clique aqui ) o trecho do filme "Quando o Carnaval Chegar" (1972) de Cacá Diegues, onde Chico Buarque canta a música de mesmo nome, numa cena surreal e hilária, sambando ao lado de Hugo Carvana que ostenta seu bigodon e um terno rosa.   


Quando o Carnaval Chegar
De Julinho de Adelaide (pseudônimo de Chico Buarque)
Quem me vê sempre parado, 
Distante garante que eu não sei sambar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar



Eu tô só vendo, sabendo,
Sentindo, escutando e não posso falar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu vejo as pernas de louça
Da moça que passa e não posso pegar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Há quanto tempo desejo seu beijo
Molhado de maracujá...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
E quem me ofende, humilhando, pisando,
Pensando que eu vou aturar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
E quem me vê apanhando da vida,
Duvida que eu vá revidar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu vejo a barra do dia surgindo,
Pedindo pra gente cantar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu tenho tanta alegria, adiada,
Abafada, quem dera gritar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar...



Nota: a foto é do fotógrafo catalão Chema Madoz

12.10.10

instrucciones para experimentos em dias ocos

Para um feriado, nada como as exatas instrucciones de Julio Cortazar.
No vídeo abaixo, en su próprio timbre, nos orienta como fazer para subir uma escada ao revés.
Como deverão notar, é assunto de especial utilidade em dias ocos.
Antes, porém, algumas considerações necessárias:

Recomendações para a presente Instruccion: considerando a lassidão e a indolência que a muitos de nós domina e contamina nos dias ocos, é recomendável que aqueles que se dispuserem a reproduzir o experimento sugerido e tão bem orientado por Cortazar, reservem especial atenção ao derradeiro degrau, quando um leve toque descuidado do calcanhar poderá jogar por terra as percepções colhidas nas etapas anteriores do ensaio e - o que pode ser ainda mais grave - jogar ao solo o próprio sujeito do experimento.

A relevância e especificidade do derradeiro degrau, independentemente de quantos mais possuir a escada, decorre do fato de que nele se sobrepõem três aspectos críticos, a saber:

1º) ter-se-á, lógica e necessariamente, atingido o pavimento com maior distância em relação ao solo, o que significa dizer que, estando correta a canção popular que afirma que "quanto maior o coqueiro, maior o tombo", não haverá tombo maior do que o possível no referido degrau;

2º) como o último degrau é, necessariamente, um ponto de transição para um plano horizontal, dever-se-a estar atento à mudança abrupta das circunstâncias, o que não é algo trivial como pode parecer àqueles que estão acostumados a subir escadas de frente e que, portanto, tendem a subestimar este momentum crítico do experimento;

3º) como é frequente acontecer em outras modalidades de deslocamentos em que há clareza por parte do agente a respeito dos pontos de partida e de chegada, há uma natural e compreensível tendência ao relaxamento da atenção no segmento final da jornada, o que amplifica de maneira aguda os riscos de acidentes. No caso em tela, significa dizer que apenas um ou dois milímetros do solado do calcanhar que deixem de ser erguidos como vinham sendo nos degraus anteriores serão suficientes para provocar um desequilíbrio crítico do agente que, dadas as circunstâncias descritas nos itens (1) e (2), produzirão uma queda de consequências imprevisíveis e certamente indesejáveis.

Obs: é forçoso lembrar que a hipótese, mencionada em outro dito popular, de que "para baixo todo santo ajuda" não se aplica ao contexto do experimento supracitado. Vale dizer: imprecisões no uso de dizeres populares, muitas vezes inócuas e até charmosas, podem adicionar gravames em escala crescente quando se está praticando jogos lógicos que lançam mão da inversão de sentidos.


19.10.09

ainda sobre...

... o tema explorado no texto abaixo, arrisco uma frase de efeito:

Enquanto para Marx a superação da gramática capitalista passava necessariamente pela destruição dos substantivos que lhe dão sentido, para Keynes a tarefa primordial seria a substituição dos verbos que lhe dão movimento.

1.7.09

na banguela e lambiscando

Criançada no sofá... férias aparecendo do lado de lá da semana... uma preguiça absoluta pra falar das coisas sisudas.
O jeito é levar com música, cinema - uma comidinha - quando muito, literatura.

Comecemos então pelas letras.

Não sei se por conta da frenética vida que levamos, não sei se pela glicemia elevada ou pela wikipidia, mas tenho cada vez menos gosto pelos grandes romances, pelos enredos sofisticados dos papas ou até mesmo as tramas mirabolantes dos livros policiais.

Com a cabeça empapuçada, são nas ditas histórias mínimas que tenho escorado a alma, nos textos-lambiscadas, que não pretendem dizer muito, mas que, por menos que digam, o fazem despertando saliva. Gosto especialmente dos autores que, como um gato brincando com o papel amassado - empurra daqui, belisca dali - juntam um par ou um tanto de idéias e deixam sangrar as palavras, atritando uma à outra, omitindo, insistindo.

E essa coisa que chamam cyberespeço ou blogosfera é um mar infinito para todo tipo de esperimentação literária. A cada dia, são carradas de novas páginas, navegantes, poetas, descarregos. Textos velhos restaurados, textos clássicos falados, tudo espalhado, disponível como o ar. É achar, pegar, largar, achar, pegar, ...

Pois, para colaborar com a labuta da busca, mando abaixo algumas sugestões de blogs que, de um modo ou outro, produzem aquela salivação de que falei. É verdade que muitos deles já foram recomendados em posts anteriores, mas por motivos outros que nesse. Agora, os reúno pela verve.

Em primeiro lugar, é inevitável mencionar o Luis F. Veríssmo. Na verdade, não é exatamente um blog, mas sim um portal onde se pode degustar as suas melhores crônicas, suas reflexões sobre o mundo, seus quadrinhos (animados) e até músicas - se te gusta, clique aqui ouça essa versão instrumental de "se eu quiser falar com deus".

Uma outra visita obrigatório é o blog do muito consagrado José Saramago. Escrevendo pequenos posts regularmente, o portuga é capaz de escrever de forma concisa, elegante e com invejável domínio plástico de nosso idioma. Na minha opinião, inclusive, acho ele melhor no blog do que nos romances. Seus livros - pelo menos os que tentei ler - me pareceram demasiado ambiciosos no que tange aos temas, à construção do argumento, o que acaba tirando o brilho da sua primorosa prosa.
Mais desprendido na internet, é uma delícia e cai como um trago de conhaque às onze, quando a zueira já foi vencida.

Seguindo pelos velhos, vamos logo a um morto. Julio Cortazar, excelente nos livros, aparece na blogosfera acompanhado da própria voz. É muito bom. Gosto especialmente de ouvir o conto "mas sobre escaleras", que talvez sirva para resumir o que a internet nos proporciona hoje. Não estamos inventando nada muito diferente do que sempre fizemos - contar, escrever, ouvir, palpitar - só que talvez, agora o façamos como alguém que 'sobe de costas para os degraus', e isto torna tudo diferente.

Já no campo dos que tratam de literatura, inevitável mencionar o quase popstar Idelber Avelar, do Biscoito. Para quem não sabe, o Idelber, além de timoneiro desse blog campeão de audiência, é Professor de literatura latinoamericana na Universidade Tulane, em New Orleans (EUA).
Entre os muitos assuntos de que trata com maestria, criou o que chama de Clube de Leitura, onde apresenta previamente um texto de algum autor de destaque, marca uma data para o retorno, e a partir de uma primeira interpretação que ele apresenta, abre o blog para comentaristas, que surgem aos montes, reunindo uma multipliciade de pontos de vista e de janelas sobre o texto. É mais ou menos como faziam nossas professoras de ginásio, só que em escala amplificada, com gente que se encontra justamente porque gosta da brincadeira.

Outros que merecem destaque: o blog "Ao Mirante, Nelson", onde Nelson Moraes abusa como ninguém destes novos meios de linguagem; o blog "consenso, só no paredão", mantido por Alexandre Nodari, que mescla debates teóricos e políticos com experiências literárias interessantes; o blog do Antonio Prata, que publica as suas crônicas semanais e, por fim, para os que já sangraram de amor, valem as visitas semanais ao blog "o carapuceiro", do infernal Xico Sá.

26.6.09

um + trezentos

Talvez alguns dos que por aqui vagueiam tenham notado que, aos bocados, venho reciclando a lista de blogs que compartilho na chamada Redondeza, ali ao lado ==>.

Acontece que, enquanto blogueiros cansados abandonam a brincadeira, muita gente boa tem surgido nestes rincões virtuais; muito mais do que somos capazes de acompanhar.

Pois hoje trago a baila mais dois.

Comecemos pelo "Trezentos".
Trata-se de um blog coletivo, que reúne trezentos..., trocentos sujeitos "inclassificáveis", de sangue nervoso, que militam pelo software livre, pelos copylefts, pelo uso e reuso da internet como forma de compartilhar projetos e conteúdos, de fomentar experiências colaborativas e de arreganhar recantos e recatos.

Proprietários do mundo intelectual, temei-os!

Um outro blog que recomendo é o "Pensamento Divergente". Caso distinto do anterior: é assinado por apenas um único e particular sujeito, o jornalista Ruy Fernando Barboza.
Mas, como o anterior, é também espaço onde se compartilha da boa verve, onde se cuida de espantar o senso comum e a inteligência graça.

Devo dizer que nesse caso, não são apenas as qualidades do blog que me faz divulgá-lo. Também tenho uma dívida antiga com o Ruy Barboza - velho amigo de meu pai.

Explico-me.

O Ruy é um desses sujeitos que encarnam a simpatia na terra. Tem um sorriso farto, bonachão, um tipo desses meio Chico Buarque, que, como ele mesmo diz, não cabe botar defeito.

Até aí, nada de novo. Estes tipos existem mesmo, nos ajudam até a exercitar nossa modéstia, a decifrar nossa pequenez, a enfiar a viola no saco e, se bom senso houver, manter nossas mulheres a uma distância segura.

O que de fato me chamou atenção na história do Ruy Barboza foi a sua decisão de, a uma certa altura da vida, deixar de ser simpático. Cortou a barba, trocou de profissão e pendurou o sorriso.

Ele não faz a menor idéia, mas aquilo constituiu um marco na construção da minha passagem para a vida adulta. Em plena adolescência, eu, que me degladiava com uma timidez inata, um sorriso - quando muito - amarelo, uma barba esquálida, me senti aliviado pela sabedoria do ex-simpático Ruy.

Era isso! Quem disse que devo ser simpático? Por que pautar a vida por este jogo narcísico? Por que entregar aos outros a chave da minha existência?

Enfim, embora sequer tivesse ido com o milho, me regozijei logo com a pamonha. Tomando emprestado o álibi do Ruy - que naquele tempo me soava revolucionário e libertário - abdiquei do sorriso, das fanfarronices sociais, das concessões desnecessárias e resolvi ser seco, direto e sem sal.

Obviamente, quebrei a cara - quanto mais por que soube que o Ruy Barbosa voltou à sua natureza simpática, deixou os devaneios de lado e hoje sorri bonachão, inclusive pela internet.

PS: como aperitivo, um microconto excepcional do sujeito:

INTERESSES
Acorrentado prometeu, implorou por ajuda.
Abutre:
- Corrente dura, fígado macio.

23.6.09

imiscuir-se pela brasiliana



Há uma semana, roda na internet a "Brasiliana-USP", uma extraordinária coleção de livros, folhetos, periódicos, manuscritos, mapas e imagens sobre a história e a cultura do Brasil - em breve (provavelmente 2010), o acervo físico estará disponível em um belo prédio (veja desenho acima), localizado ao lado da FFLCH na USP.

O ponto de partida é o acervo doado em 2006 pelo industrial e bibliógrafo José Mindlin. Entre as preciosidades reunidas por ele, ao longo de uma vida de obstinado rato de biblioteca, estão: uma das mais completas coleções de obras dos séculos 16 ao 19 escritas por viajantes do interior do Brasil; o mais completo acervo sobre o período de domínio holandês no Brasil; coleções raríssimas de revistas científicas dos séculos 19 e 20; primeiras edições de diversas obras dos principais autores da literatura brasileira; coleções completas de diversos jornais do começo do século 20; mapas; gravuras e outras cositas saborosas - na versão digital e sem mofo.

Mas a Brasiliana é mais do que um acervo digital de obras raras. Constitui uma importante iniciativa de democratização da cultura, comprometida com acesso gratuito e software livre.

Embora a versão disponível (1.0) seja a de testes e a maior parte do acervo ainda não esteja digitalizada, a Brasiliana já é um marco na digitalização de bibliotecas no Brasil. Com as tecnologias que serão incorporadas ao projeto, será possível realizar análises das estruturas (gramaticais, lexicais, semânticas) dos textos, permitindo que se viaje através da história dos textos e das palavras.

E.T.: a "Brasiliana" é uma iniciativa que teve como mentor, de alma bandeirante, o Prof. István Jancsó, profundo conhecedor da História do Estado no Brasil e que reúne uma equipe multidisciplinar, com profissionais de diferentes institutos e faculdades da USP, dentre os quais minha companheira Maria Clara.

15.6.09

a coisa aos olhos de Saramago


A recente eleição ao Parlamento Europeu trouxe à luz espectros políticos que muitos julgavam extintos. Assim como ocorreu no entreguerras do século passado, o roteiro de liberalismo econômico seguido de crise financeira faz ranger os dentes xenófobos, dando fome a aventureiros de direita que nem nos piores pesadelos conseguimos imaginar. Atento ao mal cheiro, o escritor José Saramago tem escrito regularmente em seu blog (clique ali => na Redondeza) alertando sobre o perigo que nos espreita.
Vai abaixo um texto dele tratando do assunto. Aos que visitarem o blog do tal, sugiro um outro artigo - Paradoxal - sobre o mesmo espanto político destes dias.

A Coisa Berlusconi

Não vejo que outro nome lhe poderia dar. Uma coisa perigosamente parecida a um ser humano, uma coisa que dá festas, organiza orgias e manda num país chamado Itália. Esta coisa, esta doença, este vírus ameaça ser a causa da morte moral do país de Verdi se um vómito profundo não conseguir arrancá-la da consciência dos italianos antes que o veneno acabe por corroer-lhes as veias e destroçar o coração de uma das mais ricas culturas europeias. Os valores básicos da convivência humana são espezinhados todos os dias pelas patas viscosas da coisa Berlusconi que, entre os seus múltiplos talentos, tem uma habilidade funambulesca para abusar das palavras, pervertendo-lhes a intenção e o sentido, como é o caso do Pólo da Liberdade, que assim se chama o partido com que assaltou o poder. Chamei delinquente a esta coisa e não me arrependo. Por razões de natureza semântica e social que outros poderão explicar melhor que eu, o termo delinquente tem em Itália uma carga negativa muito mais forte que em qualquer outro idioma falado na Europa. Foi para traduzir de forma clara e contundente o que penso da coisa Berlusconi que utilizei o termo na acepção que a língua de Dante lhe vem dando habitualmente, embora seja mais do que duvidoso que Dante o tenha utilizado alguma vez. Delinquência, no meu português, significa, de acordo com os dicionários e a prática corrente da comunicação, “acto de cometer delitos, desobedecer a leis ou a padrões morais”. A definição assenta na coisa Berlusconi sem uma prega, sem uma ruga, a ponto de se parecer mais a uma segunda pele que à roupa que se põe em cima. Desde há anos que a coisa Berlusconi tem vindo a cometer delitos de variável mas sempre demonstrada gravidade. Além disso, não só tem desobedecido a leis como, pior ainda, as tem mandado fabricar para salvaguarda dos seus interesses públicos e particulares, de político, empresário e acompanhante de menores, e quanto aos padrões morais, nem vale a pena falar, não há quem não saiba em Itália e no mundo que a coisa Berlusconi há muito tempo que caiu na mais completa abjecção. Este é o primeiro-ministro italiano, esta é a coisa que o povo italiano por duas vezes elegeu para que lhe servisse de modelo, este é o caminho da ruína para onde estão a ser levados por arrastamento os valores que liberdade e dignidade impregnaram a música de Verdi e a acção política de Garibaldi, esses que fizeram da Itália do século XIX, durante a luta pela unificação, um guia espiritual da Europa e dos europeus. É isso que a coisa Berlusconi quer lançar para o caixote do lixo da História. Vão os italianos permiti-lo?

José Saramago, junho 2009


.

28.5.09

um hai kai

A guitarra dorme
Na poltrona velha
A música escorre

27.4.09

lugosofia

Dica do Carlos Paulo: um cordel do Miguezim da Princesa historiando a saga filharesca do Bispo-Amante-Presidente Lugo.

REGIME DE ENGORDA NO PARAGUAI

Miguezim de Princesa


I

No Lago Ipacaraí
Tem algo novo no ar:
Apesar de toda a crise,
Da fome em todo lugar,
Podem segurar a saia:
As mulheres paraguaias
Tão dando pra engordar.


II

Depois que Fernando Lugo,
Um bispo bem avançado,
Conquistou a Presidência
De um país atrasado,
Virou um deus-nos-acuda
Com tanta mulher buchuda
Por tudo quanto é estado.


III

Parece até que o bispo
Não tinha tempo pra rezar:
Vivia de fazer política
E também de namorar.
E, quanto mais discursava,
A batina levantava
Para a vida melhorar.


IV

Quando a mocinha chegava,
Contrita a se confessar,
O olho dele brilhava
Como bola de bilhar.
Dando conselho, dizia:
Vamos lá na sacristia
Crescer e multiplicar.


V

Meus filhos e minhas filhas,
Propagava no sermão,
Quem inventou camisinha
Tinha negócio com o Cão,
Come papel de bombom
E não sabe como é bom
O calor da fricção.


VI

Viu uma índia guarani
Lavando as coisas, nuazinha,
Cancelou quatro comícios,
Se perdeu na ladainha,
A batina arrebentou,
Disse é agora que eu vou
Furunfar sem camisinha.


VII

Numa noite em Assunção,
Se agarrou com Viviana;
Em Pedro Juan Caballero,
Depois de uma carraspana
Do carnal ficar ;virado,
Ficou três dias afogado
Na paixão de Damiana.


VIII

A Igreja não permite
Ao sacerdote casar,
Porque os bens da Igreja
Nenhum cristão pode herdar,
Mas com mulher sem sossego
Uma sessão de descarrego
Ninguém há de censurar.


IX

Dizem que ele faz milagre:
Quem quiser engravidar
É só cruzar a fronteira,
Uma confissão agendar.
Não é como Pernambuco,
Que tem um bispo caduco
Que só sabe excomungar.


X

De uma coisa tenham certeza:
Batina nunca foi saia,
Sêmen de padre faz gente,
Bispo também faz gandaia,
Tomara não apareça
Uma mula sem cabeça
Na bandeira paraguaia.

22.4.09

o frango que interessa

Até o dia que nos interessa, o frango que aqui interessa era apenas um entre os tantos que viviam pelo quintal.

Sentados no terraço e vendo no horizonte o sol dobrar os vincos de quem passava pela estrada, esperávamos a coragem para enfrentar a volta. Falamos de queijo, de esterco, futebol... Até que, vindo não se sabe de onde, o frango que nos interessa cruzou o terreiro, arrastando em seu esporão esquerdo uma sacola do Supermercado Motta.

Assustado com a persistência de seu "predador" – naquele instante, apenas a sacola plástica - o frango seguia num zigue-zague alucinado, tentando redobrar a passada da perna direita a cada vez que dele se aproximava a esquerda. Entre nós, não mais se falava; esperávamos pelo rompimento da alça da sacola para que pudéssemos seguir com o tempo.

Mas a peleja, já insólita, ganhou ares trágicos quando a cadela parda que se estendia por debaixo do tanque perdeu o humor e partiu para cima da sacola, ou, sabe-se lá..., talvez do frango.

Mergulhando sobre os arbustos e arrastando poeira por todo o lado, o frango, já nas últimas, fugindo agora da sacola e da cadela (creio que nesta precisa ordem), vislumbrou então uma brecha na cerca.

Numa guinada súbita e desesperada, fintou a cadela e rompeu para o lado do asfalto.

Vindo não me lembro bem de onde, uma Kombi que descia destranbelhada cruzou pelo retão. No parachoque traseiro, um pedaço de plástico, uma sacola com as letras estripadas do Supermercado Motta.

24.3.09

verve


A diferença entre o otimista e o pessimista?

o primeiro acha este o melhor dos mundos; o segundo tem certeza