Quem acompanha a mais tempo este blog, deve ter notado que, sob o tema "cinza is beautifull", reúno os posts que tratam de lugares notáveis garimpados no enrosco das grandes cidades.
Pois, ontem, descobri mais um: o Yamaga.
Permitam-me, porém, um preâmbulo, um antepasto.
Vinte anos atrás, tranquei a faculdade e fui com minha namorada - hoje minha companheira e mãe de meus filhos - passar uma temporada em Londres. Sem falar inglês, o primeiro emprego que consegui foi como lavador de cumbuca num restaurante japonês.
Mas não era um restaurante qualquer. Era, talvez, o japonês mais "in" da cidade. A começar pela porta de entrada, sem nenhuma placa ou qualquer indicativo de que se tratava de um restaurante. Apenas uma porta preta que dava acesso ao subsolo de uma também solene loja da Maserati. Para frequentar o lugar, só com a indicação de alguém e reserva prévia. Do lado de dentro, doze mesas apenas, cada qual em sua salinha de tatame. As garçonetes, importadas do Japão, não falavam inglês. Só o gerente conhecia o idioma. Na cozinha, quatro ou cinco japoneses de facas na mão e calçados naqueles tamancos de madeira que se apoiam em duas traves. Ao lado, num beco de 2m², eu, o único ocidental, ante uma pia enorme, abarrotada dos mais variados utensílios de bambu e as infinitas cumbucas.
Era ali que eu passava meus dias, sem precisar de qualquer idioma, apenas gesticulando com a cabeça e sentido os aromas que cruzavam a janela através da qual as pequenas gueixas me passavam as cumbucas. Todos os dias, invariavelmente, chegava à minha janelinha alguma cesta de tempurás com um ou dois enormes camarões empanados, desprezados por algum cliente esnobe ou sem tempo para os prazeres. Pois eram os melhores camarões da terra.
Volto ao dia de ontem, Rua Tomás Gonzaga, bairro da Liberdade. Por indicações de amigos, sempre que estou por lá, vou ao Hinodê ou ao Gombe, dois tradicionais restaurantes japoneses apreciados pelos paulistanos. Mas, ontem, titubeamos e resolvemos nos arriscar por um local desconhecido. Por uma fresta de porta enxergamos um balcão (sushi-bar) que nos chamou a atenção. Era o Yamaga, nº66.
Sentamos, claro, no balcão, de bela e confortável madeira branca. À nossa frente, um japonês esquálido, com sete olhos, quatro braços, dezoito facas, um copo de uísque. Fui lhe pedir o cardápio e tomei um "moça traz". Virei para o lado, em busca da moça, e tomei uma baforada da cozinha.
Direto do hipotálamo me veio a lembrança do restaurante de Londres. Tantos anos depois, tantos japas visitados, me reencontro com aqueles aromas que me traziam as cumbucas.
Entusiasmados, pedimos um "combo" cada um - lá o combo é individual. Enquanto aguardávamos, apreciávamos o ambiente, os nomes de clientes cativos nas garrafas de uísque na prateleira: Sr. Park, Sr. Nakagawa, Sr. Hidetoshi, outro Naka e, acima, no canto esquerdo, Sr. Jacard - ao que me seguiu um frio na espinha.
Do centro de seu pequeno reino, o Sr.Toshiso Nonogushi comandava com poderes absolutos todas as ações da casa: "Pati, limpa mesa 3"; "Roberta, leva Teishoku"; "Pati, pega gelo Chefe". E a Pati: "O Chefe tá vermelho como um camarão". E ele: "Chefe uísque". Isso tudo, sem tirar a mão esquerda da panela de arroz, de onde preparava os bolinhos para depois cobri-los com as fatias de peixe. Aliás, no Yamaga, não são exatamente "fatias". Mais correto seria chamar de pedaços, pois o Sr. Toshiso serve o peixe em bitelos mais grossos, com estranhos cortes na diagonal - feito que só é possível graças à qualidade do peixe. Segundo ele, o segredo está na hora de comprar o peixe ("tem que ser gordo"), tarefa que, evidentemente, cabe apenas a ele.
E de fato, o peixe servido no Yamaga é muito superior ao que se come em outros lugares. Chega a ser intrigante. Como é que uma comida tão simples, com pouquíssimos ingredientes e servida crua, pode variar tanto?
E o tempurá? Ahhh, o tempurá.....
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10.7.11
10.10.10
filho de hippie, pai de metaleiro
Pausa na eleição, mas não na política. Um dia de Rock.
Fui ao SWU com o filho para 10 horas de rock.
E voltei tosquiado.
Fui ao SWU com o filho para 10 horas de rock.
E voltei tosquiado.
Me interessava em especial assistir aos legendários Mutantes e a boa música do Los Hermanos, grupos mais adequados aos ouvidos de um quarentão cansado.
Qual o quê? Como dizia o bom Chico.
Fui infectado pela sonzera dos 'veios'.
Primeiro, porque Os Mutantes, sob a autocrática liderança de Sergio Dias, já não mudam nem a roupa. Vestidos como nos sessenta, tocaram sem viço ou qualquer lampejo criativo. Sérgio Dias, cada vez mais ressentido, enche o saco, com uma eterna postura de reclamão. Entre hits do grupo, escolheu os mais etéreos, justamente aqueles em que, nos bons tempos, Rita Lee era a alma - para infelicidade da afinada substituta Bia. De resto, impôs duas músicas novas, que poucos tiveram a paciência de levar a sério. Ante uma platéia repleta de "air guitar players", não reviveu os inesquecíveis solos de guitarra que quarenta anos atrás colocaram Os Mutantes no topo do mundo. Foi uma pena.
Quanto aos cariocas Los Hermanos, o problema não foi exatamente com eles. Ocorre que aquela não era a praia nem a hora para a banda. Não cabiam no SWU, e estando lá, deveriam ter se apresentado antes das bandas nervosas que abriram a noite. Quando subiram ao palco, tocando suas melódicas canções, despertaram a platéia para as pernas exauridas, a bexiga cheia, o zumbido no ouvido, ... e muitos dispersaram. Apesar de que, os casais e boa parte das mulheres curtiram e até cantarolaram junto com os barbudos C.B.
Desconstruídos meus interesses, restaram-me as bandas pauleira, como dizíamos no tempo do Passat e do Corcel. E gostei do que ví.
Quem primeiro botou fogo no palco foi o ótimo grupo de Goiania, Black Drawing Chalks, com um rock pesado, de grande força. Depois, veio o Macaco Bong, de Cuiabá, que toca um rock instrumental, meio alternativo, de excelente qualidade. Eram apenas três sujeitos siderados (baixo, bateria e guitarra, sem vocal) que, por quase uma hora, mantiveram o público a alguns metros do chão.
É curioso como têm surgido boas bandas no interior do país. Depois do Angra (originário de Fóz do Iguaçu), agora essa moçada do Centro-Oeste, com um tipo de música que poderia brotar em qualquer grande metrópole cinza do planeta. É som com cara de Berlim ou Londres, só que subproduto da soja e das distâncias encurtadas pela internet e seus aparatos.
Então, vieram as bandas gringas.
Infectious Grooves, com um funk carregado, meio metal, e seu vocalista um tanto estranho, uma espécie de red-neck do B ou um Kid Vinil mais diabólico, que animou a platéia e em especial a moçada da pancadaria. Foi a senha para abrirem as rodas de bate-cabeça e o espreme-espreme entre os que queriam apenas ouvir a música.
Mais adiante, foi a vez do The Mars Volta, grupo do Texas, formado por chicanos com pinta de holandeses. Gostei bastante. Com um hard-rock psicodélico que lembra muito o Led Zeppelin - com certeza alguém já deve ter dito isso antes. O vocalista, Cedric Zavalla, embora fisicamente talvez se pareça mais com Jimmy Page, tem um timbre de voz e trejeitos afeminados muito parecidos com os de Robert Plant. E faz animadas performances no palco. Já o guitarrista e lider do grupo, Omar Rodriguez-López, escondido atrás de sua boina preta, toca no melhor estilo Jimmy Page, fazendo solos delirantes, na linha de Dazed and Confused ou lemmon Song. À dupla, que faz a alma do grupo, acompanham outros ótimos músicos, apoiados por um sujeito que, à beira de um PC, cuida dos efeitos espaciais que permeiam os solos e nos fazem pensar em Marte. Muito bom.
E, finalmente, para terminar a noite, o explosivo e incendiário Rage Against The Machine. Além da música agressiva, algo entre o hip-hop e o heavy metal, o grupo se notabiliza pela militância política de esquerda. Tanto o vocalista Zack de La Rocha, financiador declarado da guerrilha Zappatista, quanto o extraordinário guitarrista Tom Morello, um filho de ex-guerrilheiro do Quênia, formado em ciências políticas em Harward, provocam como nunca ví a gana de suas platéias. Com um som nervoso e pegado e letras incendiárias, misturam revolução com desobediência civil, e protestos da melhor cepa. Em poucos minutos, fizeram cair a grade de proteção que os separava da platéia e, ironicamente, foram vítimas das machines: as caixas de som pifaram por 15 minutos, esfriando o sangue dos endiabrados do palco e do gramado. Mas não deixaram por menos, no final - que ouvi do estacionamento - deixaram rolar a Intenacional Socialista enquanto se preparavam para o bis. Vida longa para essa banda porreta.
Por fim, uma palavra sobre o público.
É verdade que era uma noite com sabor de sangue, mas gostei de ver a moçada rockeira destes dias de hoje. São muito diferentes da minha geração. Gente com cara boa e cabeça aberta, com um espírito meio libertário, mas sem porraloquice. Ao contrário do que se costuma dizer por aí, o rock de hoje me parece mais politizado e o público muito mais atento e crítico. Talvez seja uma decorrência do novo mundo inaugurado pelos arquivos em MP3 e a internet, que furaram as gravadoras e suas pautas musicais.
Qual o quê? Como dizia o bom Chico.
Fui infectado pela sonzera dos 'veios'.
Primeiro, porque Os Mutantes, sob a autocrática liderança de Sergio Dias, já não mudam nem a roupa. Vestidos como nos sessenta, tocaram sem viço ou qualquer lampejo criativo. Sérgio Dias, cada vez mais ressentido, enche o saco, com uma eterna postura de reclamão. Entre hits do grupo, escolheu os mais etéreos, justamente aqueles em que, nos bons tempos, Rita Lee era a alma - para infelicidade da afinada substituta Bia. De resto, impôs duas músicas novas, que poucos tiveram a paciência de levar a sério. Ante uma platéia repleta de "air guitar players", não reviveu os inesquecíveis solos de guitarra que quarenta anos atrás colocaram Os Mutantes no topo do mundo. Foi uma pena.
Quanto aos cariocas Los Hermanos, o problema não foi exatamente com eles. Ocorre que aquela não era a praia nem a hora para a banda. Não cabiam no SWU, e estando lá, deveriam ter se apresentado antes das bandas nervosas que abriram a noite. Quando subiram ao palco, tocando suas melódicas canções, despertaram a platéia para as pernas exauridas, a bexiga cheia, o zumbido no ouvido, ... e muitos dispersaram. Apesar de que, os casais e boa parte das mulheres curtiram e até cantarolaram junto com os barbudos C.B.
Desconstruídos meus interesses, restaram-me as bandas pauleira, como dizíamos no tempo do Passat e do Corcel. E gostei do que ví.
Quem primeiro botou fogo no palco foi o ótimo grupo de Goiania, Black Drawing Chalks, com um rock pesado, de grande força. Depois, veio o Macaco Bong, de Cuiabá, que toca um rock instrumental, meio alternativo, de excelente qualidade. Eram apenas três sujeitos siderados (baixo, bateria e guitarra, sem vocal) que, por quase uma hora, mantiveram o público a alguns metros do chão.
É curioso como têm surgido boas bandas no interior do país. Depois do Angra (originário de Fóz do Iguaçu), agora essa moçada do Centro-Oeste, com um tipo de música que poderia brotar em qualquer grande metrópole cinza do planeta. É som com cara de Berlim ou Londres, só que subproduto da soja e das distâncias encurtadas pela internet e seus aparatos.
Então, vieram as bandas gringas.
Infectious Grooves, com um funk carregado, meio metal, e seu vocalista um tanto estranho, uma espécie de red-neck do B ou um Kid Vinil mais diabólico, que animou a platéia e em especial a moçada da pancadaria. Foi a senha para abrirem as rodas de bate-cabeça e o espreme-espreme entre os que queriam apenas ouvir a música.
Mais adiante, foi a vez do The Mars Volta, grupo do Texas, formado por chicanos com pinta de holandeses. Gostei bastante. Com um hard-rock psicodélico que lembra muito o Led Zeppelin - com certeza alguém já deve ter dito isso antes. O vocalista, Cedric Zavalla, embora fisicamente talvez se pareça mais com Jimmy Page, tem um timbre de voz e trejeitos afeminados muito parecidos com os de Robert Plant. E faz animadas performances no palco. Já o guitarrista e lider do grupo, Omar Rodriguez-López, escondido atrás de sua boina preta, toca no melhor estilo Jimmy Page, fazendo solos delirantes, na linha de Dazed and Confused ou lemmon Song. À dupla, que faz a alma do grupo, acompanham outros ótimos músicos, apoiados por um sujeito que, à beira de um PC, cuida dos efeitos espaciais que permeiam os solos e nos fazem pensar em Marte. Muito bom.
E, finalmente, para terminar a noite, o explosivo e incendiário Rage Against The Machine. Além da música agressiva, algo entre o hip-hop e o heavy metal, o grupo se notabiliza pela militância política de esquerda. Tanto o vocalista Zack de La Rocha, financiador declarado da guerrilha Zappatista, quanto o extraordinário guitarrista Tom Morello, um filho de ex-guerrilheiro do Quênia, formado em ciências políticas em Harward, provocam como nunca ví a gana de suas platéias. Com um som nervoso e pegado e letras incendiárias, misturam revolução com desobediência civil, e protestos da melhor cepa. Em poucos minutos, fizeram cair a grade de proteção que os separava da platéia e, ironicamente, foram vítimas das machines: as caixas de som pifaram por 15 minutos, esfriando o sangue dos endiabrados do palco e do gramado. Mas não deixaram por menos, no final - que ouvi do estacionamento - deixaram rolar a Intenacional Socialista enquanto se preparavam para o bis. Vida longa para essa banda porreta.
Por fim, uma palavra sobre o público.
É verdade que era uma noite com sabor de sangue, mas gostei de ver a moçada rockeira destes dias de hoje. São muito diferentes da minha geração. Gente com cara boa e cabeça aberta, com um espírito meio libertário, mas sem porraloquice. Ao contrário do que se costuma dizer por aí, o rock de hoje me parece mais politizado e o público muito mais atento e crítico. Talvez seja uma decorrência do novo mundo inaugurado pelos arquivos em MP3 e a internet, que furaram as gravadoras e suas pautas musicais.
13.8.10
ligúria de santiago
Santiago é cinza, tem todos os atributos de metrópole, mas, por algum infortúnio, meus raros momentos de lazer desaguavam sempre em arapucas para turistas ou para cosmopolitas basbaques.
Até que cheguei ao Ligúria (clique, vale a pena).
Bar antigo, com um ritmo moderadamente nervoso, garçons ágeis, bons rocks ao fundo, vinhos ótimos e baratos, cervejas boas e comidinhas como se deve. Muito bom!
Bar antigo, com um ritmo moderadamente nervoso, garçons ágeis, bons rocks ao fundo, vinhos ótimos e baratos, cervejas boas e comidinhas como se deve. Muito bom!
Poderia até apostar que a turma do Pirajá tirou do Ligúria as idéias materializadas no bom bar Astor (de São Paulo). Com a diferença que o Ligúria é de verdade.
30.6.10
a tasca
Não estou bem certo se deveria incluir Fortaleza sob o marcador "cinza is beautifull". Porém, a ocorrência gastronômica a que farei menção não poderia ficar de fora, então forço a mão e incluo a cidade ensolarada entre os cenários urbanos que inspiram o rótulo.
O acontecido foi um polvo à lagareira (na brasa, acompanhado de batatas ao murro, alho assado, cebola assada e pimentão) que comi no aprazível restaurante "A Tasca do Marquês", na simpática Rua dos Tabajaras, nº 429, na Praia de Iracema.
Para quem não conhece o local, trata-se de um casario restaurado, onde, num entroncamento de ruelas, três imigrantes - um italiano, um espanhol e um português, disputam com seus três respectivos restaurantes, um em cada esquina, o gosto da freguesia que passa por lá.
Só estive na "Tasca", e não tenho porque conhecer os outros. O polvo de que falei, além de delicioso e bem servido, deve estar entre os mais baratos do país: apenas R$ 27,00 o prato. E, de quebra, uma portuguesada lascada se reúne nas mesas do Tasca, completando o cenário lusitano.
ET: atenção para as segundas-feiras. É naquele trecho que ocorre o forró do Pirata, festa arretada que junta turistas e coisa e tal num dos principais eventos noturnos de Fortaleza. Portanto, se o interesse for gastronômico, evite as segundas. Se for farra, esteja lá.
O acontecido foi um polvo à lagareira (na brasa, acompanhado de batatas ao murro, alho assado, cebola assada e pimentão) que comi no aprazível restaurante "A Tasca do Marquês", na simpática Rua dos Tabajaras, nº 429, na Praia de Iracema.
Para quem não conhece o local, trata-se de um casario restaurado, onde, num entroncamento de ruelas, três imigrantes - um italiano, um espanhol e um português, disputam com seus três respectivos restaurantes, um em cada esquina, o gosto da freguesia que passa por lá.
Só estive na "Tasca", e não tenho porque conhecer os outros. O polvo de que falei, além de delicioso e bem servido, deve estar entre os mais baratos do país: apenas R$ 27,00 o prato. E, de quebra, uma portuguesada lascada se reúne nas mesas do Tasca, completando o cenário lusitano.
ET: atenção para as segundas-feiras. É naquele trecho que ocorre o forró do Pirata, festa arretada que junta turistas e coisa e tal num dos principais eventos noturnos de Fortaleza. Portanto, se o interesse for gastronômico, evite as segundas. Se for farra, esteja lá.
27.6.10
o doce do papa
Andando a ermo em busca de um bom churrasco curitibano, cheguei pela graça d'algum deus a uma escondida casa de chá de origem polonesa, onde experimentei a kremòwka.
Meu plano era apenas tomar um café para espantar o frio e um pão de queijo para suprir a falta de churrasco, mas, assim que entrei no Kawiarnia Krakowiak (Clique aqui para saber mais) me dei conta de que seria mais sábio consultar o polonês que fazia contas atrás do balcão. E no balcão, um doce folhado que de cara me encantou:
- "um desses".
Ao que o polaco me respondeu:
- "o preferido do Papa?".
- "Sim, um desses".
Meus caros, tenho que concordar com o Papa. O tal kremòwka é realmente delicioso. Nada sofisticado: massa folhada com recheio de nata. Mas, aquele que fazem no tal Kawiarnia Krakowiak é de longe o melhor que já comi. Feito com nata trazida da "colônia" e massa folhada caseira. Muito bom! Wzniosly! zdumiewający!!!
Obs: a foto da casa é de Janaina Calaça
Meu plano era apenas tomar um café para espantar o frio e um pão de queijo para suprir a falta de churrasco, mas, assim que entrei no Kawiarnia Krakowiak (Clique aqui para saber mais) me dei conta de que seria mais sábio consultar o polonês que fazia contas atrás do balcão. E no balcão, um doce folhado que de cara me encantou:
- "um desses".
Ao que o polaco me respondeu:
- "o preferido do Papa?".
- "Sim, um desses".
Meus caros, tenho que concordar com o Papa. O tal kremòwka é realmente delicioso. Nada sofisticado: massa folhada com recheio de nata. Mas, aquele que fazem no tal Kawiarnia Krakowiak é de longe o melhor que já comi. Feito com nata trazida da "colônia" e massa folhada caseira. Muito bom! Wzniosly! zdumiewający!!!
Obs: a foto da casa é de Janaina Calaça
15.2.10
a proeza do seo waldir
Em Barão Geraldo (bairro onde vive a Unicamp) Seo Waldir conseguiu o que parecia impossível. Em 1999, estacionou uma kombi velha numa praça que vivia ao deus dará, plantou umas mudas de árvore, montou umas poucas mesinhas de sucata e começou a vender garapa e água de coco.
Passados dez anos, a praça ganhou nome - Praça do Coco - a kombi foi substituída por um belo quiosque de bambu que vende sucos, pastéis, garapa e outros afins; diversos brinquedos de madeira fazem a alegria da criançada do bairro; uma feira de artesanato se avizinhou do quiosque aos sábados e, recentemente, um pequeno palco foi erguido para receber espetáculos culturais ao ar livre - inclusive filmes.
Teimoso, Seo Waldir fez uma revolução. Desde o ano passado, vem "roubando" lojas e bares do pequeno shopping center do bairro - o Tilli Center. Quem poderia dizer? Enquanto em outras paradas são os shoppings que sugam o comércio de rua, em Barão, as ruas arborizadas que contornam a Praça do Coco vão gradativamente esvaziando o shopping, trazendo a moçada de volta à rua e à praça
Nesse carnaval, como que em uma consagração, a Praça foi o ponto de referência de diversos blocos de rua que, embalados pela espírito do Seo Waldir, demonstraram a enorme vitalidade cultural de Barão Geraldo - provavelmente o bairro com maior número de Pontos de Cultura do país.
Saravá Seo Waldir!
8.2.10
dica de hotel no rio
Passei apenas três dias na cidade, o suficiente para revigorar meu encanto por aquela terra.
Escolhi pousar no velho Hotel Regina, que acaba de ser restaurado e modernizado. Que beleza! Localizado no bairro do Catete (na quadra do palácio), em uma rua de apenas um quarteirão (R. Ferreira Viana), trata-se de um simpático e recôndito hotel de 1922, onde dizem inclusive ter morado o então deputado federal Juscelino Kubitschek, durante os anos 1936/37.
Ótima escolha. Em uma esquina está a estação de metrô do Catete, de onde em alguns minutos se vai ao centro velho ou a Copacabana e Ipanema (que agora também tem metrô). Na outra extremidade, o lindo Parque do Flamengo (aterro), com belas opções de caminhada entre os jardins projetados por Burle Marx.
E como que para tornar ainda maior a aura do lugar, soube que foi nesta pequena rua que nasceu o grande Cartola.
Como se não bastasse, a pé, indo em direção ao Largo do Machado, são várias as opções de botequins e restaurantes de primeiríssima: a cervejaria Devassa, o centenário restaurante Lamas e o boteco Manuel e Joaquim, entre tantos outros menos famosos.
Mas, francamente, estando no Regina, meu favorito é o Boteco Belmonte, instalado desde 1952 no mesmo cantinho, de frente para o aterro, a talvez umas dez providenciais quadras do hotel. Ali se faz botecagem como se deve. O chop, claro, desce liso. De tanto em tanto, um garçon passa com uma assadeira repleta de petiscos pra lá de saborosos - sugiro o pastel de camarão, recheado apenas com camarões ou uma das famosas empadas, que se desmancharão ao primeiro toque.
Se quiser fazer uma refeição, não perca o polvo na grelha, com brócolis e batatas assadas.
Prato raro, coisa de português de tamancas, o polvo vem crocante por fora, salpicado de alho, e por dentro macio como um peixe. De resto, tudo ali conspira para bons papos.
Um brinde ao Rio de Janeiro!
4.8.09
minhas férias
Muita calma. Obviamente não vou contar aqui o que fiz nas últimas quatro semanas.
Mas aviso que minha passagem por Salvador (Bahia), bem como as revolvidas lembranças de Montevideo (propiciadas pela leitura Gracias por el fuego, de Mario Benedetti), me servirão de pauta para um tanto de posts futuros, que vou acumulando sob o rótulo "cinza is beautifull". Nada como uma cidade grande.
Por ora, tenho ainda pouco a dizer. Talvez, apenas, que acarajé bom mesmo é com caruru - coisa que a maioria das barracas não oferecem - e que melhor ainda é o da bahiana sem rótulo (nem Dinha, nem Cira) que monta sua barraca na frente do Farol da Barra, à esquerda de quem olha para o farol.
25.4.09
as delícias da rádio trânsito
Paulistano, afastado do ninho ao cair na vida, não conhecia ainda as tais rádios que se dedicam a falar exclusivamente do trânsito de minha terra.
Que maravilha! Sem me dar conta, me deixei levar pela insana e frenética narrativa do caos que é transmitida ao vivo pelas ondas da tal "Sulamérica Trânsito" (FM 92,1). Como num filme de ficção científica, sob o comando de um onisciente radialista, uma equipe de repórteres (todas mulheres) espalhadas pelos cantos da cidade informa em tempo real as condições do trânsito, os acidentes, as rotas de fuga, etc.
"O corpo do motoboy já foi resgatado pelo SAMU e a pista da esquerda da via expressa já está fluindo normalmente"; ..."A equipe do CET tenta resgatar dois mendigos que estão na beira do Rio Pinheiros e a curiosidade dos motoristas já provoca um engarrafamento desde a Euzébio Matoso"; ..."Na João Dias, uma equipe de manutenção bloqueia a pista do canteiro central para fazer a pintura das guias"; ..."Como toda sexta-feira, a entrada para a Castelo, de quem vêm pela Marginal Tietê, já começa a parar e a fila chega à ponte do Piqueri"; ..."Liberadas as duas vias do Elevado Costa e Silva".
Para completar, direto do olho do furacão, ouvintes sabidos dão dicas a partir de celulares.
Enfim, depois de alguns minutos bombardeado por frases como aquelas, sentia-me como que assistindo minha cidade de cima, de um google earth da vida, torcendo para que o pulso voltasse a dar sinais na 23 de maio ou que a Av Aricanduva fosse liberada para quem vem da Vila Carrão - bairro que, aliás, sequer sei bem onde fica.
Mas a cidade estava lá, emaranhada, fluindo e refluindo, me fazendo imaginar como sair do sufoco se estivesse na Verador José Diniz ou na Rua Clélia para quem vem da Pompéia.
E no centro deste sim city concreto o comandante supremo, aboletado em seu QG, monitorando números, paineis e telefonêmas, fazia sínteses primorosas da situação geral do trânsito, demonstrando invejável conhecimento de cada palmo deste tabuleiro e recomendando alternativas precisas aos desvalidos motoristas.
Sei que me perdi nas informações da rádio e só me dei conta de que dela não mais precisava quando já estava chegando em Campinas e o rádio começou a falhar. Uma pena!
Aterrizei do voo panorâmico pela minha São Paulo, lembrei de ruas que há muito não passo e conheci outras que nunca passarei. Durante aquelas horas de Rádio Trânsito, São Paulo ficou pequena, coube num mapa cinzento e - confesso com constrangimento, - me tocou mais do que outras prosas modernistas.
Que maravilha! Sem me dar conta, me deixei levar pela insana e frenética narrativa do caos que é transmitida ao vivo pelas ondas da tal "Sulamérica Trânsito" (FM 92,1). Como num filme de ficção científica, sob o comando de um onisciente radialista, uma equipe de repórteres (todas mulheres) espalhadas pelos cantos da cidade informa em tempo real as condições do trânsito, os acidentes, as rotas de fuga, etc.
"O corpo do motoboy já foi resgatado pelo SAMU e a pista da esquerda da via expressa já está fluindo normalmente"; ..."A equipe do CET tenta resgatar dois mendigos que estão na beira do Rio Pinheiros e a curiosidade dos motoristas já provoca um engarrafamento desde a Euzébio Matoso"; ..."Na João Dias, uma equipe de manutenção bloqueia a pista do canteiro central para fazer a pintura das guias"; ..."Como toda sexta-feira, a entrada para a Castelo, de quem vêm pela Marginal Tietê, já começa a parar e a fila chega à ponte do Piqueri"; ..."Liberadas as duas vias do Elevado Costa e Silva".
Para completar, direto do olho do furacão, ouvintes sabidos dão dicas a partir de celulares.
Enfim, depois de alguns minutos bombardeado por frases como aquelas, sentia-me como que assistindo minha cidade de cima, de um google earth da vida, torcendo para que o pulso voltasse a dar sinais na 23 de maio ou que a Av Aricanduva fosse liberada para quem vem da Vila Carrão - bairro que, aliás, sequer sei bem onde fica.
Mas a cidade estava lá, emaranhada, fluindo e refluindo, me fazendo imaginar como sair do sufoco se estivesse na Verador José Diniz ou na Rua Clélia para quem vem da Pompéia.
E no centro deste sim city concreto o comandante supremo, aboletado em seu QG, monitorando números, paineis e telefonêmas, fazia sínteses primorosas da situação geral do trânsito, demonstrando invejável conhecimento de cada palmo deste tabuleiro e recomendando alternativas precisas aos desvalidos motoristas.
Sei que me perdi nas informações da rádio e só me dei conta de que dela não mais precisava quando já estava chegando em Campinas e o rádio começou a falhar. Uma pena!
Aterrizei do voo panorâmico pela minha São Paulo, lembrei de ruas que há muito não passo e conheci outras que nunca passarei. Durante aquelas horas de Rádio Trânsito, São Paulo ficou pequena, coube num mapa cinzento e - confesso com constrangimento, - me tocou mais do que outras prosas modernistas.
7.12.08
porteñas, como no?

Não estou entre aqueles brasileiros que exercitam sua autoestima rivalizando com los hermanos argentinos. Ufanismos à parte, bastam algumas horas em Buenos Aires para reconhecer que em matéria de saber 'viver a urbe' os caras estão passos largos à frente.
Pois em recente viagem por lá, passei por alguns recantos especialíssimos, que compartilho aqui.
Comecemos pelo pouso: um muito charmoso hotel, cujo nome é a data de construção da casa: "1890". Tipo bed&breakfast (ou Boutique), com apenas seis apartamentos alinhados ao longo de um corredor-jardim, é uma construção típica das casas de tradição ibérica do século XIX. O lugar é realmente lindo, e tem como dona uma artista plástica de muito bom gosto que precisou fazer da casa da família uma fonte de renda. Recomendo em especial o apartamento "camélias brancas". A um casal enamorado não faltará nada.

Depois de enebriados pelas camélias do 1890, sugiro atravessar a pesada porta de madeira negra que leva à Rua Salta. Virar à direita e, apenas alguns passos depois, batam na portinha tímida de um restaurante chamado Aramburu (fica no nº 1074). Não se deixem despertar. Apenas sigam as doces orientações da garçonete de cabelos vermelhos. Aramburu é o nome do chef, que ao fundo do salão faz das suas, cozinhando cositas inusitadas, meio ao estilo da tal cozinha molecular (que valoriza a combinação de texturas, sabores e reações bioquímicas).
Aceitamos a sugestão do vinho e a 45 pesos (algo como 25 reias) tomei o melhor que já havia experimentado: um "Trumpeter" (syrah&malbec) da Família Rutini. Mousse de fígado de coelho, petiscos da esquerda para a direita (sim, a ordem importa), carré de cordeiro com não sei que molho, .... E, na mesa ao lado, dois casais arquétipos da terra: homens barrigudos de costeletas aparadas, mulheres de roupa acetinada, empetecadas como a Presidenta Cristina. Quanto ao preço, bastante razoával: Maria e eu pagamos algo como 80 reais (160 pesos).
E, para um outro dia, quando já estiver dispersa a memória do Aramburu, a sugestão é comer uma carne como se deve. Trata-se de um pequeno restaurante especializado em carnes, o La Brigada, comandado por um açougueiro que - dizem - é ainda hoje o responsável pelo corte das peças. Segundo lemos em um guia, se não me engano do jornal la Nacion, entre os portenhos o La Brigada é considerado o de melhor carne. E, meus caros, o La Brigada tem a melhor carne. Eu provei.
Antes de mais nada, este é o lugar para se experimentar as míticas mollejas (seriam glândulas salivares? pâncreas? ninguém sabe e quem sabe não diz), muito saborosas. Depois, depois?... depois é escolher uma das opções de carne e se deixar levar pelos sucos rojos. É estritamente recomendável pedir o especial da casa, corte "descoberto" pelo dono, que a ninguém conta o segredo. Vem à mesa inteiro (do tamanho de uma picanha) e é solenemente "fatiado" com uma colher de prata pelo garçon.
Ao sair do La Brigada, que tem dois endereços no coração de San Telmo, sugiro... qualquer coisa.
5.8.08
dica de taxi em brasília

Diferente em tudo, nossa capital federal é servida por taxistas que também destoam daqueles que circulam pelas outras grandes cidades brasileiras. A começar pelo posicionamento político. Em geral, os de Brasília me parecem menos reacionários - principalmente se comparados aos de São Paulo - e, creio eu, menos acomodados. Talvez pela falta de esquina, falta de semáforo ou sabe-se lá do que, no DF taxista não tem cara de "chofer de praça"; lá os caras têm o bicho-carpinteiro.
Quase todos vieram de longe, fizeram de tudo, falaram com todos e estão com planos de fazer isto ou aquilo mais.
Pois em minha última visita à infinita burocracia da esplanada, tive a sorte de ser taxiado por uma destas figuras.
Até a primeira parada, o sujeito - já de idade avançada - seguiu mudo.
Porém, ao estacionar em frente ao prédio do CNPq, me disse que ficaria aguardando para seguir até o próximo escaninho.
- pois bem, volto em vinte minutos. Informei.
Voltei em 15, ao que o taxista respondeu:
- 20 minutos de paulista!
Era a deixa. Perguntei de onde vinha e ele soltou uma conversaiada que seguiu pelo dia. Entre um protocolo e outro, toque o taxista - agora Seu Agábio - a nos guiar por aqueles avenidões. Bela figura!
Seu Agábio, falava com um sotaque cearense da porra, mas era boliviano o cabra (?).
Vinte irmãos. Todos homens. Todos vivos. 10 cearenses, 10 bolivianos.
- minha mãe tá vivinha, com 96. Nunca foi no médico, nem sabe de injeção.
E mora onde?
- num povoado próximo a Xapurí.
- Xapurí no Acre? do Chico Mendes?
- Conheci bem o Chico mendes. Disse o taxista - Tocava com ele.
- E o senhor tocava o que?
- Toco! Acordeon. Cabei de voltar da itália. Fui lá comprar um novo, amarelo e branco, 32 mil reais, para mim que tenho carteira de músico. Fosse outro, pagava 72.
- Mas então o senhor continua tocando.
- Toco todo dia, sem falhar. Gravei ano passado um disco lá na cidade de vocês. É meu quinto disco.
E na toada do Seu Agábio do Acordeon, líder do grupo de forró pé de serra, Banda Fortaleza, chegamos à área de desembarque.
Por força de nossos ofícios, a prosa interrompeu-se.
Mas, voltando à Brasília, ligo ao Seu Agábio (9997-8670) para continuar o convercê, do ponto em que paramos: o sumiço dos tocadores de "oito baixo". Acordeonzinho pequeno e difícil, que troca a nota da ida para a volta do fole e que ninguém mais se arvora a apreender.
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