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10.10.14

ôpa! cheiro de jabá na cozinha "aux brie" dos institutos de pesquisa

Na matéria do Portal 247 (clique aqui) já foi apontada a suspeita discrepância entre as pesquisas divulgadas ontem (09/set) pelos dois institutos (Datafolha e Ibope).

Entretanto, além do estranhíssimo descompasso entre os resultados apurados por cada instituto nas regiões do país (especialmente no Sul e Sudeste) ante uma extraordinária coincidência dos números nacionais (forte suspeita de conta de chegada), há outro indício de manipulação que me parece tão ou mais grave.

Considerando os números apresentados pelo 247, os dois institutos apontaram que, na região Nordeste, a candidata Dilma Rousseff, cuja votação no 1º turno foi de 59,6%, estaria agora com apenas 59,5% (na média entre Ibope e Datafolha) das intenções de votos (ou 65,5% dos votos válidos), enquanto Aécio Neves, que conquistou apenas 15,4% dos votos nordestinos no 1º turno, teria saltado para 31,5% (ou 34,6% dos votos válidos).

Ou seja, pelo que pretendem nos fazer crer os dois renomados institutos de pesquisa, transcorridos apenas quatro dias do 1º turno - período em que o único fato relevante foi justamente a polêmica em torno dos determinantes do voto nordestino na eleição de domingo (que para FHC seriam resultado da suposta ignorância da população do NE!), Aécio teria conquistado 19,2% das intenções de votos na região, enquanto Dilma teria avançado apenas 6%.

Ora, ora, ora.....


30.9.14

números quadrados no angu das pesquisas do dia 30

Há um conjunto de números divulgados neste dia 30 de setembro pelos dois maiores institutos de pesquisa que trazem à tona algumas discrepâncias no mínimo estranhas, em especial porque estamos a apenas 6 dias das eleições - era de se esperar que a esta altura as pesquisas estivesse mais coerentes entre si.
Segundo os números apresentados pelas pesquisas eleitorais deste dia 30 (Datafolha e Ibope) Dilma se manteve praticamente no mesmo patamar (40% no Datafolha e 39% no Ibope), enquanto Marina caiu (2 pp no Datafolha e 4 pp no Ibope), chegando a 25%, e Aécio oscilou positivamente no Datafolha (2 p.p), mas manteve-se estagnado segundo o Ibope com 19%.
Entretanto, quando se observam os resultados das pesquisas realizadas pelo mesmo Ibope por estados (veja aqui e aqui) e divulgadas também nesse dia 30, percebe-se que as intenções de voto seguiram tendências sensivelmente diferentes daquelas apresentadas no computo nacional. Dilma cresceu sensivelmente em Minas (3 pp), no RJ, (4 pp) e em SP (4 pp), além de um espetacular salto de 10 pp em Tocantins.
Como entender essa combinação de pesquisas? 
Se Dilma continua 'estagnada' próxima dos 40% nas pesquisas nacionais (Datafolha e Ibope) e cresceu nos 3 principais colégios eleitorais para além das oscilações da margem de erro (segundo o Ibope), para que os números sejam compatíveis, Dilma teria que ter caído muito nos demais estados do país. E não há nada que indique que isso esteja ocorrendo, muito pelo contrário.
Além disso, outra divergência intrigante entre as pesquisas, diz respeito às projeções de segundo turno. Enquanto no Datafolha (na qual no 1º turno Dilma tem margem mais estreita do que no Ibope) Dilma abre 8 pp sobre Marina Silva, no Ibope a sua vantagem é de apenas 4pp, configurando um curioso empate técnico.

20.9.14

uma candidatura em duas letras

Quando Karl Marx dissecou o capitalismo, encontrou em seu DNA o princípio sintético que faz seu moinho rodar: a irresistível e imperiosa necessidade de valorização do capital. Nessa sanha, sob a égide da concorrência, tudo e todos são arrebatados pelas pás do capital para que sirvam à sua voracidade infinita. Entretanto, ao mesmo tempo em que o capital depende da exploração da força de trabalho e do uso de meios de produção para dar o seu salto valorativo, seu objetivo maior é fazê-lo reduzindo ao máximo sua dependência dessas bases materiais que lhe dão sentido. Por isso, no limite, cada fração de capital que perambula pelo mundo aprontando das suas está radicalmente impregnada da utópica ideia de prescindir dos percalços e desgostos do mundo material (trabalhadores, máquinas, greves, governos, graxas, escórias, ...) e alcançar sem escalas o Nirvana da grana: lugar onde o dinheiro se transformará diretamente em dinheiro ampliado (D = D’).

Marx também notou que essa etapa olímpica, esse delírio da ambição que a todo capital inocula, ao mesmo tempo em que é o leitmotiv do sistema, ganha concretude e significado real na órbita da circulação financeira, isto é, quando se apresenta na forma de “capital a juros”. Como tal, essa fração “fictícia” da riqueza geral se imiscui na órbita (suja e imoral) da produção, mas sai dela majestosa e imaculada.

No passado, quando essa valorização do capital fictício era rotulada de usura, a sociedade não lhe conferia a melhor reputação e não era raro que banqueiros fossem vistos como sanguessugas ou parasitas sociais. 

Atualmente, porém, a própria complexidade e sofisticação dos processos de reprodução econômica trataram de obscurecer os nexos sórdidos entre as finanças e a produção, polindo os sinais de impureza que antes revelavam as máculas morais e econômicas da acumulação financeira. Agora, pura, limpinha e “reificada”, essa fração do capital desponta como a face nobre, moderna e cosmopolita da máquina de moer a que se chama capitalismo.

Não é à toa, portanto, que o “capital a juros” tenha se tornado o grande amazonas onde deságuam as angústias e inquietudes das almas de ecologistas e de moralistas de todas as cores. O “capital a juros”, por sua aparência “fictícia”, não destrói a Mata Atlântica, não emporcalha o Tietê, não consome energia de Belo Monte, não depende de subsídios do Estado, não entope as avenidas, não disputa terras indígenas, não utiliza agrotóxicos.

A alienação do indivíduo promovida por aquelas mesmas forças disruptivas do capital reduziu a civilização a uma multidão de seres cujas vontades (estimuladas pela prática frenética do consumo) são infinitamente maiores que a paciência e a capacidade de compreensão do mundo real. Tal qual o dinheiro, que busca o salto em abstrato rumo ao mais-dinheiro, o sujeito contemporâneo – à esquerda e à direita - se sente irresistivelmente atraído pela ideia de uma vida onde os fedores da produção material e dos conflitos sociais que dela decorrem não lhe alcancem as narinas e nem lhe atrapalhem o gozo.

Apressadas, desejosas e com a sensibilidade açoitada pela avalanche de informações que inundam o diálogo social, as gentes de hoje querem logo o epílogo, ou melhor, uma sucessão de êxtases, a utópica redução de experiência terrena à reprodução infinita e acelerada do esquema D=D’.

Nessa toada de tiro rápido, de vertigem hedonista e irracional, nada como uma liderança voluntarista (messiânica, por que não?) que com a voz serena das fadas prometa o reencontro com a harmonia perdida e que seja apoiada pelos dinheiros ascéticos do sistema financeiro, longe o suficiente das vergonhas do mundo.

A expressão D = D’ é, portanto, a síntese dessa miragem alienada que toma conta do Brasil nesta eleição de 2014. Em lugar do programa de 250 páginas titubeantes que a candidata Marina Silva acaba de divulgar – e corrigir, e corrigir, ... – seria melhor essa única fórmula áurea. Um salto mágico, insustentável e irracional, mas com inalcançável poder de persuasão.  

Artigo publicado originalmente pelo portal Brasil Debate

28.8.14

a corrupção e o financiamento das campanhas eleitorais

Ser contra a corrupção é mais ou menos como ser a favor da vida, como defender os rios e os peixes. Uma unanimidade tão louvável quanto inócua que, se não é burra, frequentemente vem acompanhada de oportuna preguiça mental.
A imagem clássica da corrupção é aquela cena que tantas vezes se assistiu no telejornal da noite: um político ou funcionário público recebendo um pacotaço de cédulas, flagrado sorridente por uma câmera escondida que lhe expõe os caninos.
Mas infelizmente não é bem assim que a coisa funciona, pois, essa talvez seja apenas a face mais tosca das práticas de privatização do Estado que avançam aqui e em todos os rincões do mundo. Além de meios muito mais sutis, a corrupção, antes de qualquer coisa, é uma decorrência lógica e até previsível da crescente substituição de valores (éticos, morais, religiosos ou tradicionais) por preços.
No jargão do economês, dir-se-ia que se trata da precificação das normas sociais ou da redução da sociabilidade a um exercício de comparação entre custos de transação. Se fulano suborna sicrano por $ 100 e sicrano calcula que o risco de ser pego é de $ 80, então, na ausência de outros valores, não há nenhum motivo racional para imaginar que sicrano não se deixará corromper.
Esse é o drama, simples e tremendamente estúpido – como, aliás, é a crença de que a dita racionalidade instrumental é o melhor guia para erigir um mundo.
Entretanto, como nem todos os valores foram ainda substituídos por cifrões, há certamente muito a se fazer, a começar por isolar, tanto quanto for possível, a órbita das instituições políticas da racionalidade dos mercados. É por isso que o financiamento privado das campanhas deve mesmo ser proibido. Mas é importante ter em mente que esse será um passo importante, mas insuficiente. Pior, se ficar apenas nisso, é possível mesmo que se assista a uma agravamento da corrupção.
Deve-se ter claro que o que corrompe o processo eleitoral e acaba comprometendo a gestão pública é, antes de qualquer coisa, a disseminação do chamado “caixa dois”.
O problema é que, ao contrário do que se costuma imaginar, o caixa dois só existe porque os doadores (agentes do setor privado, como empresários, lobistas, representantes de instituições religiosas ou de classe, entre outros) enxergam nas campanhas eleitorais uma rara oportunidade para usar o dinheiro não declarado que mantêm guardado debaixo do colchão, na conta de um laranja ou de uma empresa offshore.
Patrocinar um deputado ou um governante é mais do que uma ótima estratégia de diversificação do portfólio. Aquela grana escusa e mal ajeitada que perambulava escondida dos filhos e dos fiscais encontra nas eleições uma rara possibilidade de abrir frentes de negócios nos anos vindouros. Se tudo funcionar, i.e, pelo menos um dos candidatos apoiados vencer, o capital retornará ampliado.
Por outro lado, para os políticos ou para os partidos não há grandes vantagens em aceitar o “caixa dois”. É obviamente muito mais interessante receber a doação de forma transparente e declará-la sem riscos aos órgãos de fiscalização. Quem exige o ilícito, o malfeito, é na maior parte das vezes o doador.
Ao político cabe escolher entre aceitar e dar um jeito de esconder ou ficar sem a grana e tentar vencer no gogó e no voto de opinião. Qualquer político com um mínimo de discernimento bem sabe o quanto deve ser incômodo carregar o patrocinador escuso ao longo dos anos de seu mandato, tendo que atender pleitos pouco republicanos e negociar com a tigrada a cada passo que queira dar no futuro.
Portanto, é preciso muito cuidado ao tratar do tema do financiamento das campanhas. Primeiro porque não são propriamente as doações legais que selam os pactos fáusticos entre interesses privados e representantes da vontade coletiva. Segundo porque na ausência do financiamento privado e do dinheiro legal – i.e, do caixa um – é plausível imaginar que os cacifes do submundo ganhem ainda maior importância, conferindo mais poderes aos Mefistófeles de plantão que mais do que nunca estarão a recordar dos acordos de outrora.
Assim, se o que se pretende é evitar que os interesses privados continuem desvirtuando os sentidos da boa política, além de acabar com o financiamento privado, é preciso também limitar e controlar com rigidez e parcimônia o volume de gastos das campanhas. Não se deveria aceitar que magos da publicidade vendam seus serviços intangíveis por fábulas de dinheiro, nem que se lance tanta parafernália midiática nas ruas durante as semanas que antecedem as eleições. Do jeito que a coisa vai, com os gastos correndo soltos e o financiamento atrás, até a famigerada Lei Falcão, dos tempos da ditadura, parecerá mais democrática.
Melhor seria saber apenas qual a proposta de cada partido, que realizações dispõem para demonstrar o acerto de seu programa e, quiçá, qual a biografia dos dirigentes que pleiteiam nossos votos. Nada além disso. Talvez todos utilizando a mesma infraestrutura (custeada pela Justiça Eleitoral), gastando o mesmo montante de recursos e, portanto, suportados por cifras equivalentes, sem financiamento privado, nem caixa um, nem dois e, oxalá, sem o espectro do Mefistófeles a nos alienar o destino.

Artigo publicado originalmente no portal Brasil Debate: http://brasildebate.com.br/a-corrupcao-e-o-financiamento-das-campanhas-eleitorais/#sthash.vs3BENgA.dpuf

17.8.14

a política acertada de elevação do salário mínimo

Ainda durante a IIª Guerra, o economista polonês Michael Kalecki escreveu um notável artigo tratando dos aspectos políticos do pleno emprego. A nós, brasileiros, esse texto foi sempre instigante, mas apenas a titulo de curiosidade intelectual ou de exercício teórico, visto que nossa condição de economia subdesenvolvida fazia-se acompanhar pelo que se chamava de “excedente estrutural de mão de obra”. Na melhor das hipóteses, o pleno emprego era uma miragem no horizonte longínquo.

Nestes anos 2000, contudo, a economia brasileira passou por transformações importantes, particularmente no que diz respeito ao seu mercado de trabalho. Embora não se possa afirmar categoricamente que tenhamos alcançado o “pleno emprego” dos manuais de macroeconomia, não parece descabido dizer que em diversos segmentos do mercado de trabalho a oferta de mão de obra se aproxima do seu limite.
Nessas condições, o septuagenário artigo do Kalecki finalmente parece fazer mais sentido ao sul do equador. De fato, bastou um pouco de rigidez da oferta de trabalho para que a luta ideológica se acirrasse, aquecendo o debate em torno das políticas de emprego praticadas no período recente. A classe capitalista e seus economistas ortodoxos, percebendo seu déficit de poder de barganha, foi ao baú resgatar dogmas do liberalismo para combater as políticas de intervenção do Estado sobre as leis de mercado. Além das requentadas críticas à política fiscal, à carga tributária e outros reme-remes de ocasião, a bola da vez é a política de valorização do salário mínimo.  Ripa daqui, sarrafo dali, tem sido cada vez mais frequente nos defrontarmos com gente graúda malhando o nível atual do salário mínimo – diga-se de passagem, ainda um dos mais baixos da América Latina.

Mas não é de hoje que o salário mínimo incomoda essa gente. Não custa recordar que nos anos 90, auge do neoliberalismo no Brasil, seus arautos diziam que o instituto do salário mínimo era um elemento disfuncional de nosso mercado de trabalho, resquício anacrônico da Era Vargas, que promovia uma série de desequilíbrios em nossa economia e nas contas públicas. Quantas vezes ouvimos dizer que aumentar o salário mínimo provocaria, por um lado, uma elevação do déficit da previdência e, por outro, o crescimento da informalidade e do desemprego?

Ocorre que nos anos 2000 o que se viu foi exatamente o inverso do que propalavam os neoliberais. Desde a posse de Lula em 2003 o salário mínimo vem sendo reajustado acima da inflação, acumulando mais de 70% de ganho real, tornando-se a principal razão da queda da desigualdade registrada no período. Paralelamente, para surpresa dos manuais, as taxas de desemprego caíram a seu mais baixo nível histórico, o déficit da previdência diminuiu e - o que talvez seja o mais surpreendente - a taxa de formalização das relações de trabalho cresceu de modo ininterrupto – mesmo durante a crise de 2009!

Não deixa de ser curioso, portanto, que a despeito desse vasto conjunto de evidências a infantaria liberal esteja mais uma vez empenhada em alvejar o salário mínimo. Ante um repique no déficit da previdência - agora derivado da desoneração da folha de pagamentos, tão aclamada pela classe patronal – voltam-se as bazucas contra os ganhos salariais, como se esses fossem produzir uma catástrofe previdenciária ou fazer explodir o nível de preços no país.

Ora, ora...  Nem uma coisa, nem outra. A quem queira ser honesto em suas projeções sobre a evolução das contas da previdência é forçoso dizer que se deve obrigatoriamente desconsiderar as despesas com benefícios assistenciais, pois estas, por princípio constitucional, devem ser financiadas com recursos tributários (contribuições sociais ou transferências do Orçamento Geral da União). Ou seja, o “déficit” que aparece nas contas não é propriamente da previdência, mas sim uma despesa social meritória que a sociedade brasileira (na Constituição de 1988) achou por bem bancar. Além disso, nas projeções alarmistas que circulam pelo mercado, frequentemente são desconsiderados os efeitos do crescimento da produtividade geral da economia. A depender de como arbitraremos a distribuição do excedente econômico no futuro, teremos plenas condições para gozar nossas aposentadorias por mais tempo, sem prejuízo à saúde das contas do INSS.

Quanto ao temor de que os ganhos salariais estejam pressionando o nível geral de preços, também não é preciso mais do que uma xícara de honestidade intelectual com uma dose de conhecimento da realidade para perceber que a inflação brasileira (que no governo Dilma é a menor desde que Getúlio criou o IBGE!) permanece em nível superior ao desejado fundamentalmente por conta dos choques dos preços dos alimentos e da “indexação” residual que foi ofertada aos donos do capital (aluguéis, concessões de serviços públicos) durante o governo FHC.

Portanto, aos que andam praguejando contra a mais importante política social das últimas décadas, devagar com o andor. Não tem cabimento satanizar os aumentos do salário mínimo, até porque ainda falta muito para chegarmos a um patamar decente.

Para encerrar o assunto, talvez o melhor seja mesmo recorrer ao velho adágio lisboeta: “a palavras loucas ouvidos moucos” e ter em mente os alertas de Kalecki. Essa gente diferenciada, quando premida pelo pleno emprego, perde as estribeiras, parte para cima do Estado e tudo que lembre igualdade social. 

Artigo publicado originalmente no site Brasil Debate
http://brasildebate.com.br/a-politica-acertada-dos-aumentos-no-salario-minimo/

o espectro de jânio quadros

Há um incômodo ranço no ar. Os dias que correm não repetem nem coincidem exatamente com as notas históricas do período conhecido como "4ª República", que vai de 1946 a 1964. Contudo, observadas as tônicas e as ordens dos compassos, é possível encontrar algum paralelismo entre a toada dos últimos 20 anos e aquela que marcou o período democrático que se seguiu ao fim da IIª Guerra .


Senão, vejamos.

No primeiro compasso (Governo Dutra, 1946-1950), tal qual no período FHC (1995-2002), tivemos a marca do liberalismo, do internacionalismo, da ortodoxia econômica e do descompromisso com os interesses populares. Rejeitados pelas urnas, não conseguiram fazer seus sucessores e deram lugar a governos de presidentes carismáticos (Getúlio entre 1951-54, Lula entre 2003-10), apoiados pelas camadas populares, ambíguos na macroeconomia e que deixaram como principais marcas: os aumentos do salário mínimo, as apostas no petróleo nacional (GV criou a Petrobras, Lula descobriu e avançou com o Pré-Sal), o impulso do BNDE(S) (GV foi seu criador e Lula lhe multiplicou por três os fundos para financiamento).

Entre os governos JK e Dilma, outras similitudes são possíveis, a despeito dos diferentes contextos internacionais e dos resultados muito mais expressivos do governo do primeiro. Em ambos, se pode notar o planejamento estatal como eixo estruturante dos respectivos governos (muito mais exitoso no Plano de Metas do que no PAC), além da preocupação com a expansão da infraestrutura ou ainda o vento favorável dos investimentos estrangeiros diretos para cobrir déficits crescentes nas transações correntes. Outro traço que marca os dois períodos é o desconforto da sociedade com as instituições públicas (sistema tributário, sistema político, códigos jurídicos, etc,) e os impasses que encerram.

Finalmente, avançando pelos compassos, o ano eleitoral de 2014 também dá mostras de preocupante similaridade com o ano de 1960. Aqueles impasses institucionais e a descrença na política que deles decorrem abrem um perigoso vazio político. Em sessenta, no campo da situação, o vazio advinha da ausência de um nome de peso para dar curso ao desenvolvimento praticado por GV e JK; em 2014, embora haja uma candidata da situação, (infelizmente) ela não é vista pela maioria do eleitorado como o nome ideal para dar sequência aos projetos iniciados por Lula. Além disso, então como agora, uma pequena oposição orgânica, embora estridente e fortemente apoiada por uma imprensa reacionária e liberal, não dispõe também de um nome forte capaz de polarizar a disputa com o governo de plantão. Em 1960 (quando a eleição era em turno único) decidiram apoiar um aventureiro que talvez pudesse quebrar a a espinha do varguismo. Hoje, com dois turnos, lançam um candidato para cumprir tabela, mas certamente estarão juntos de qualquer outro que tenha a chance de interromper o avanço dos governos petistas.

E não mais que de repente, como que por obra de um Deus Ex-Machina a martelar a história, uma reviravolta trágica alça Marina Silva como um novo Jânio a navegar pelo limbo político.

E muitas são as semelhanças entre os dois:

1º) são personalistas e inorgânicos: não ascenderam politicamente de nenhuma classe ou agrupamento político específico, nem sequer dispunham de uma estrutura partidária robusta ou de um projeto claro de país.
2º) o discurso moralista: Jânio e sua vassourinha sintetizavam a perspectiva de uma classe média desorganizada que se via ameaçada pelo fantasma do estatismo e pelas notícias de corrupção que acompanhavam o trajeto desenvolvimentista. Marina Silva, prescinde da vassoura e com aura de beata se apresenta impoluta, predestinada e messiânica a defender a harmonia idílica do mesozoico.
3) Ambos emergiram do povo: professores de ensino secundário, antíteses da figura do político oligarca que habita o imaginário da opinião média; voluntaristas, destemidos e desconectados das entranhas funcionais que fazem andar a sociedade.

Por tamanha similitude, não há exagero em imaginar os que riscos de crise institucional que se materializaram com Jânio também poderão vir à tona em uma hipotética vitória de Marina Silva. Sem estrutura partidária, sem vínculos orgânicos, sem um projeto de país, Marina Silva representa uma aventura messiânica incapaz de dar conta da complexidade econômica, social e política de um país como o Brasil. Sua vitória seria disruptiva e uma ameaça concreta para o esforço de retomada do desenvolvimento que, a duríssimas penas, temos perseguido nos últimos 12 anos.

18.8.13

Brisa Certa

Na medida em que vai decantando o processo de catarse social que ganhou as ruas do país em junho passado, restam alguns espasmos de indignação expressos na síntese radical da tática Black Bloc.
Afinal, quem são esses caras?
Analistas de variadas cepas se esforçam para encaixar “os caras” em seus esquemas de interpretação do mundo, frequentemente reservando a eles o recanto das ovelhas negras.
Não parece mesmo fácil decifrar essa moçada que, desde logo, não se considera sequer como um grupo homogêneo ou um ‘movimento’, mas tão somente uma tática efêmera, uma combustão espontânea do tal ‘sentimento difuso de indignação’.
Pois bem, apesar de muito já ter sido dito a respeito, arrisco um tanto mais.
Tomemos emprestado o veio aberto pelo Prof. Belluzzo em artigo recente na Carta Capital(24/06). O dito sentimento de indignação resultaria em última instância de nossa condição de “condenados à liberdade”. Desde que em algum momento da história remota fomos fisgados pelo ideal da transcendência libertária, lutamos e nos acotovelamos obcecados pela miragem da autodeterminação do indivíduo, a mãe das utopias.
Se assim for – e acredito que seja – estamos também condenados a rechaçar toda e qualquer interpretação de nossa realidade que carregue algum traço normativo. Tal como um adolescente frente à autoridade, vivemos uma cruzada secular de rejeição a enredos que de alguma forma resultem na pré-determinação de nossos atos. E é esse precisamente o ethos que caracteriza a esquerda: a crítica radical e a negação das certezas.
Pois é nesse tênue e fugidio veio que navega a intuição dos Black Blocs. Filhos de uma época em que as grandes narrativas já não afloram, de uma cultura que não tem mais tempo, de uma experiência hedonista e utilitária, essa galera prima pelo uso de atalhos e tem pressa de chegar ao cerne: os bancos, os símbolos do alto consumo, a polícia, a mídia, as instituições obstruídas pela norma e pela demagogia.
Claro que não lhes faltam acusações. Dizem alguns que são anarquistas, outros que são fascistas, filhos de uma classe média sem norte, narcisos em busca de sentido, ou apenas consumidores frustrados.
Não creio. Se bem observarmos, nas manifestações desses hereges de nossa época as bandeiras são todas “brisas certas”, como usam dizer. Apontam suas câmeras e marretas aos nódulos desse sistema que tudo devora. E surpreendentemente, ao contrário dos tais coxinhas ou de udenistas de esquerda que, de verde e amarelo, se misturam aos chamamentos da rede Globo, a turba de encapuzados do Black Bloc, caótica ou acéfala, não se voltou contra as instituições que efetivamente representam conquistas sociais, nem tampouco se opuseram aos partidos e governos que enxergam como aliados no processo de transcendência libertária.
Sem postulados, destituídos de normas e cartilhas, não incorrem no erro fratricida que desde sempre fez das facções de esquerda os maiores inimigos das facções de esquerda.
Crítica em estado puro, livre de pretensões iluministas ou teleológicas, a tática Black Bloc é apenas e tão somente esquerda.

Outros artigos interessantes sobre o assunto:
- Vandalismos (Pedro Serrano)
- Black Bloc é a resposta à violência policial (André Takahashi)

29.6.13

mais uma vez, ainda, pelo começo

(esclarecimento necessário: este texto é um auto-plágio de um artigo que publiquei em março de 2004 na revista Caros Amigos. Fiz apenas alguns ajustes pontuais, atualizando as datas e alguns fatos. Infelizmente, tantos anos se passaram e o tema volta a fazer sentido)

Duas ou três semanas de asfalto e vinagre foram suficientes para azedar o sabor de prosperidade econômica que há quase dez anos embalava os brasileiros, o governo e o PT.

Porém, muito mais grave do que as fraturas políticas que a crise traz à tona é que um eventual fracasso do atual governo significará muito mais do que o tropeço de um partido ou de um programa político econômico. Não afetará somente nossa vida daqui por diante, mas marcará drasticamente a nossa vida pretérita, nossos tantos anos de construção de uma alternativa para este país.

Como muitas vezes nos ensina a história, o sentido das coisas, o rumo dos processos sociais e políticos são definidos de frente para trás – de hoje para ontem. São os eventos do presente que magicamente dão sentido às trajetórias e escolhas do passado e essas, por sua vez, só podem ser plenamente compreendidas a partir do seu desfecho. Sem ele, não seriam mais do que eventos fortuitos, largados ao acaso, ao lado de tantos mais.

É como quando damos o primeiro beijo na namorada. Resgatando na memória, identificamos naquela festa da escola, ou naquele olhar no retrovisor, um encanto que só poderia desaguar no grande amor de hoje. Ou também no futebol, quando tabelamos desde o nosso campo de defesa numa triangulação predestinada a encher a rede, num belíssimo gol de placa. Mas, quantos foram as tabelinhas desperdiçadas pelo centroavante fominha? E quantos olhares em quantos retrovisores não passaram de olhares nos retrovisores?

Para que nossa arte, nossa labuta, faça algum sentido, é imprescindível que de algum jeito consigamos conectar o presente a nossas ambições de ontem. Se não para construir o futuro - como gostamos de acreditar - talvez para amalgamar o passado. 

Pois é com isso que o governo atual e a Presidente Dilma estão lidando. Tenhamos participado mais ou menos ativamente da política nos últimos 30 anos, temos que reconhecer que o PT foi o portador da caneta que parecia predestinada a ligar os pontos de nossa história. Os chumbos da ditadura, a luta pelas Diretas-Já, os desenhos do Henfil, a Constituinte do Dr Ulisses, o Lula-lá, o impeachement do Collor, o sufoco do FHC,... todo esse amontoado de vida só comporá um roteiro inteligível se, ao fim, formos capazes de desaguar em algum mar. Aquele leito caudaloso, expressão talvez das duras escarpas que nos acompanharam ao longo do tempo, não deveria terminar assim, absorvido pela areia da costa, empapuçando um mangue que parece infinito.

Sem um mar, não haverá rio, nem córregos, nem nascentes. 

10.10.12

manifesto em defesa da civilização*


Vivemos hoje um período de profunda regressão social nos países ditos desenvolvidos. A crise atual apenas explicita a regressão e a torna mais dramática. Os exemplos multiplicam-se. Em Madri uma jovem de 33 anos, outrora funcionária dos Correios, vasculha o lixo colocado do lado de fora de um supermercado. Também em Girona, na Espanha, diante do mesmo problema a Prefeitura mandou colocar cadeados nas latas de lixo. O objetivo alegado é preservar a saúde das pessoas. Em Atenas, na movimentada Praça Syntagma situada em frente ao Parlamento, Dimitris Christoulas, químico aposentado de 77 anos, atira contra a própria cabeça numa manhã de quarta-feira. Na nota de suicídio ele afirma ser essa a única solução digna possível frente a um Governo que aniquilou todas as chances de uma sobrevivência civilizada. Depois de anos de precários trabalhos temporários o italiano Angelo di Carlo, de 54 anos, ateou fogo a si próprio dentro de um carro estacionado em frente à sede de um órgão público de Bologna.

Em toda zona do euro cresce a prática medieval de anonimamente abandonar bebês dentro de caixas nas portas de hospitais e igrejas. A Inglaterra de Lord Beveridge, um dos inspiradores do Welfare State, vem cortando recorrentemente alguns serviços especializados para idosos e doentes terminais. Cortes substantivos no valor das aposentadorias e pensões constituem uma realidade cada vez mais presente para muitos integrantes da chamada comunidade europeia. Por toda a Europa, museus, teatros, bibliotecas e universidades públicas sofrem cortes sistemáticos em seus orçamentos. Em muitas empresas e órgãos públicos é cada vez mais comum a prática de trabalhar sem receber. Ainda oficialmente empregado é possível, ao menos, manter a esperança de um dia ter seus vencimentos efetivamente pagos. Em pior situação está o desempregado. Grande parte deles são jovens altamente qualificados.

A massa crescente de excluídos não é um fenômeno apenas europeu. O mesmo acontece nos EUA. Ali, mais do que em outros países, a taxa de desemprego tomada isoladamente não sintetiza mais a real situação do mercado de trabalho. A grande maioria daqueles que hoje estão empregados ocupam postos de trabalhos precários e em tempo parcial concentrados no setor de serviços. Grande parte dos postos mais qualificados e de melhor remuneração da indústria de transformação foi destruída pela concorrência chinesa.

Nesse cenário, a classe média vai sendo espremida, a mobilidade social é para baixo e o mercado de trabalho vai ficando cada vez mais polarizado no país das oportunidades. No extremo superior, pouquíssimos executivos bem remunerados que têm sua renda diretamente atrelada ao mercado financeiro. No extremo inferior, uma massa de serviçais pessoais mal pagos sem nenhuma segurança, que vivem uma realidade não muito diferente dos mais de 100 milhões que recebem algum tipo de assistência direta do Estado. O Welfare State, ao invés de se espalhar pelo planeta, encampando as tradicionais hordas de excluídos, encolhe, aumentando a quantidade de deserdados.

Muitos dirão que essa situação será revertida com a suposta volta do crescimento econômico e a retomada do investimento na indústria de transformação nestes países. Não é verdade. É preciso aceitar rapidamente o seguinte fato: no capitalismo, o inexorável progresso tecnológico torna o trabalho redundante. O exponencial aumento da produtividade e da produção industrial é acompanhado pela constante redução da necessidade de trabalhadores diretos. Uma vez excluídos, reincorporam-se – aqueles que o conseguem – como serviçais baratos dentro de um circuito de renda comandado pelos detentores da maior parcela da riqueza disponível. Por isso mesmo, a crescente desigualdade de renda é funcional para explicar a dinâmica desse mercado de trabalho polarizado.

Diante desse quadro, uma pergunta torna-se inevitável: estamos nós, hoje, vivendo uma crise que nega os princípios fundamentais que regem a vida civilizada e democrática? E se isso for verdade: quanto tempo mais a humanidade suportará tamanha regressão?

A angústia torna-se ainda maior quando constatamos que as possibilidades de conforto material para a grande maioria da população deste planeta são reais. É preciso agradecer ao capitalismo, e ao seu desatinado desenvolvimento, pela exuberância de riqueza gerada. Ele proporcionou ao homem o domínio da natureza e uma espantosa capacidade de produzir em larga escala os bens essenciais para as satisfações das necessidades humanas imediatas. Diante dessa riqueza, é difícil encontrar razões para explicar a escassez de comida, de transporte, de saúde, de moradia, de segurança contra a velhice, etc. Numa expressão, escassez de bem estar!

Um bem estar que marcou os conhecidos “anos dourados” do capitalismo. A dolorosa experiência de duas grandes guerras e da depressão pós 1929, nos ensinou que deveríamos limitar e controlar as livres forças do mercado. Os grilhões colocados pela sociedade na economia explicam quase 30 anos de pleno emprego, aumento de salários e lucros e, principalmente, a consolidação e a expansão do chamado Estado de Bem Estar Social. Os direitos garantidos pelo Estado não deveriam ser apenas individuais, mas também coletivos. Vale dizer: sociais. Dessa maneira, ao mesmo tempo em que o direito à saúde, à previdência, à habitação, à assistência, à educação e ao trabalho eram universalizados, milhares de empregos públicos de médicos, enfermeiras, professores e tantos outros eram criados.

O Welfare State não pode ser interpretado como uma mera reforma do capitalismo, mas sim como uma grande transformação econômica, social e política. Ele é, nesse sentido, revolucionário. Não foi um presente de governos ou empresas, mas a consequência de potentes lutas sociais que conseguiram negociar a repartição da riqueza. Isso fica sintetizado na emergência de um Estado que institucionalizou a ética da solidariedade. O individuo cedeu lugar ao cidadão portador de direitos. No entanto, as gerações que cresceram sob o manto generoso da proteção social e do pleno emprego acabaram por naturalizar tais conquistas. As novas e prósperas classes médias esqueceram que seus pais e avós lutaram e morreram por isso. Um esquecimento que custa e custará muito caro às gerações atuais e futuras. Caminhamos para um Estado de Mal Estar Social!

Essa regressão social começou quando começamos a libertar a economia dos limites impostos pela sociedade, já no início dos anos 70. Sob o ideário liberal dos mercados, em nome da eficiência e da competição, a ética da solidariedade foi substituída pela ética da concorrência ou do desempenho. É o seu desempenho individual no mercado que define sua posição na sociedade: vencedor ou perdedor. Ainda que a grande maioria das pessoas seja perdedora e não concorra em condições de igualdade, não existem outras classificações possíveis. Não por acaso o principal slogan do movimento Occupy Wall Street é “somos os 99%”. Não por acaso, grande parte da população espanhola está indignada.

Mesmo em um país como o Brasil, a despeito dos importantes avanços econômicos e sociais recentes, a outrora chamada “dívida social” ainda é enorme e se expressa na precariedade que assola todos os níveis da vida nacional. Não se pode ignorar que esses caminhos tomados nos países centrais terão impactos sob essa jovem democracia que busca, ainda, universalizar os direitos de cidadania estabelecidos nos meados do século passado nas nações desenvolvidas.

Como então acreditar que precisamos escolher entre o caos e austeridade fiscal dos Estados, se essa austeridade é o próprio caos? Como aceitar que grande parte da carga tributária seja diretamente direcionada para as mãos do 1% detentor de carteiras de títulos financeiros? Por que a posse de tais papéis que representam direitos à apropriação da renda e da riqueza gerada pela totalidade da sociedade ganham preeminência diante das necessidades da vida dos cidadãos? Por que os homens do século XXI submetem aos ditames do ganho financeiro estéril o direito ao conforto, à educação e à cultura?

As respostas para tais questões não serão encontradas nos meios de comunicação de massa. Os espaços de informação e de formação da consciência política e coletiva foram ocupados por aparatos comprometidos com a força dos mais fortes e controlado pela hegemonia das banalidades. É mais importante perguntar o que o sujeito comeu no café da manhã do que promover reflexões sobre os rumos da humanidade.

A civilização precisa ser defendida! As promessas da modernidade ainda não foram entregues. A autonomia do indivíduo significa a liberdade de se auto-realizar. Algo impensável para o homem que precisa preocupar-se cotidianamente com sua sobrevivência física e material. Isso implica numa selvageria que deveria ficar restrita, por exemplo, a uma alcateia de lobos ferozes. Ao longo dos últimos de 200 anos de história do capitalismo, o homem controlou a natureza e criou um nível de riqueza capaz de garantir a sobrevivência e o bem estar de toda a população do planeta. Isso não pode ficar restrito para uma ínfima parte. Mesmo porque, o bem estar de um só é possível quando os demais à sua volta encontram-se na mesma situação. Caso contrário, a reação é inevitável, violenta e incontrolável. A liberdade só é possível com igualdade e respeito ao outro. É preciso colocar novamente em movimento as engrenagens da civilização.

*este manifesto é uma iniciativa de um grupo de professores e pensadores do campo das ciências humanas.


28.8.12

Esquerda para boi dormir

A competente Rose Guglielminetti tratou em seu blog (leia aqui) de um suposto acirramento da tensão entre o PT e o PSB em torno da questão do uso da imagem da Dilma. Segundo a blogueria, poderia ser um indicativo da antecipação do clima que deverá se instaurar na eleição presidencial de 2014. E ela deva ter razão.

Entretanto, em seu comentário, a Rose nos conta também que "alguns militantes de esquerda ligados a Jonas" criticam a postura do PT em relação a seus aliados. 

Mas aí eu fico me perguntando: "militantes de esquerda ligados ao Jonas"? Quem serão eles? Onde estarão escondidos? 

É bom lembrar que o Jonas tem seus quatro costados de direita. 

Durante muitos anos o Jonas foi do PSDB de Campinas e só saiu da legenda porque a fila de candidatos a prefeito no PSDB era grande e ele estava na rabeira. Além disso, depois dos sucessivos fracassos do Carlão Sampaio, a rejeição ao PSDB na cidade cresceu muito, de tal forma que o insistente deputado Jonas foi trocando de carapuça e hoje, apesar do vice tucanaço, se apresenta como homem de um partido que carrega o socialismo no nome e que faz parte da base do governo Dilma no congresso.
Só que até as andorinhas das calçadas campineiras sabem bem que o PSB da cidade pode ser tudo, menos de esquerda. Há muitos anos se reduziu a uma legenda ônibus, que serve de meio de condução para políticos que, por qualquer razão, estão sem espaço para trafegar em seus partidos de origem.

Mas então, se os "militantes de esquerda" não estão no PSB, onde mais estariam? Alguém certamente haverá de me lembrar que devem estar no PCdoB. Será? 

Eu até que respeito o PCdoB, restam ainda algumas lideranças nacionais importantes e, em Campinas, tenho vários amigos no partido. Porém, sejamos francos, é possível chamá-los de esquerda? Faz algum sentido dizer que é de esquerda um partido que se alia a uma coligação inventada pelo Sr. Alckmin? Pensemos com serenidade. O governador de São Paulo, chegado na Opus Day, arauto das privatizações, negação in corpore da política e autor da tragédia de Pinheirinho não estaria muito mais bem caracterizado como um homem da ultra-direita? Suspeito que se vivesse nos EUA, muito provavelmente estamparia seu carisma de chuchu nas fileiras infames do Tea Party ou até na odiosa Ku-Klux-Klan. 

Como aceitar então a ideia estapafúrdia de que há vida inteligente à esquerda de Alckmin? Na melhor das hipóteses, seus pares são profissionais da política que se movem de acordo com seus cálculos particulares e suas estratégias de micropoder. O resto é conversa para boi dormir.

E alguém ainda há de dizer: e o PPS?

20.8.12

Diga-me com quem andas...

A cidade de Campinas, assim como outras tantas do Brasil, viu avançar nos últimos anos os lançamentos imobiliários destinados a todos os públicos e gostos. Embalados pelos incentivos fiscais concedidos pelo governo federal para estimular a construção civil - e incorporar milhões de trabalhadores ao mercado de trabalho - e pela maior oferta de crédito, construtoras e incorporadoras saíram à caça de boas oportunidades de fazer dinheiro.

Caberia a cada município definir as diretrizes urbanas, regular as áreas de expansão e investir na infraestrutura necessária para que esse bem facejo dinamismo do ramo imobiliário resultasse num processo virtuoso de melhoria das condições gerais de vida da população. Contudo, lamentavelmente, em muitas cidades falou mais alto o interesse dos negócios imobiliários. Em conluio com autoridades municipais, conseguiram aprovar a toque de caixa empreendimentos de alta rentabilidade, passando por cima de normas ambientais, dos planos diretores e das boas práticas de planejamento que deveriam orientar a expansão das cidades.

E foi esse o caso de Campinas, como ficamos sabendo à medida em que assessores e a própria esposa do ex-prefeito Dr. Hélio foram denunciados pelo Ministério Público, acusados de receber vantagens em troca da facilitação a projetos imobiliários. Foi um trauma para a cidade que pouco antes havia dado grande voto de confiança ao então prefeito, reelegendo-o com quase 70% dos votos em 2008. Como consequência, Campinas mergulhou numa crise política profunda, que paralisou a gestão e culminou com a cassação do prefeito e se vice e com a eleição indireta do então presidente da Câmara, o vereador Pedro Serafim.

Passados menos de seis meses, entretanto, o cidadão campineiro assiste a um novo lance inusitado desta relação promíscua entre o chefe do executivo municipal e os negócios do setor imobiliário. Como revela uma ampla reportagem publicada no jornal Valor Econômico de hoje (leia aqui), desde que assumiu em abril de 2012, a gestão de Serafim tem se notabilizado, de um lado, por "destravar" projetos viários que fazem a alegria de grandes empreendedores imobiliários e, de outro, por usar sua base na Câmara para "frear a tramitação do projeto de zoneamento urbano da cidade" (Valor Econômico, p. A10, 20/08/2012).

É mais um capítulo da tragédia política que atinge a cidade há décadas. Torço para que seja o último.



18.8.12

Porque Pochmann é favorito em Campinas

Há grande ansiedade entre aqueles que vivem mais antenados ao mundo político quanto à atual letargia do processo eleitoral. Faltando 50 dias para o primeiro turno, as cidades parecem ainda não ter despertado para a disputa. Fora um ou outro cavalete mal ajambrado nas ruas ou um carro de som estridente, a eleição teima em não pegar.

Em Campinas, onde acompanho mais de perto, a situação não parece diferente. À parte meia dúzia de celerados que esgrimam a retórica na internet e nos botecos, aqui também a indiferença e incerteza é que dão o tom.

Contudo, como bem analisa o cientista político Antônio Lavareda (veja matéria do Valor aqui), o cenário deve mudar radicalmente com o Horário Eleitoral Gratuito, que começa neste dia 21 de agosto. Analisando eleições municipais de anos anteriores, Lavareda ressalta o fato de que, ao contrário do que ocorre nas eleições para governador ou para presidente, nas eleições municipais a propaganda de TV tem um impacto muito maior, chagando a entregar 9 pontos por semana para candidatos iniciantes que disputaram as eleições de 2008. Por ser realizada "solteira" (diferente das outras), a eleição para prefeito reserva um tempo de TV e rádio muito mais extenso aos candidatos e um número muito superior de inserções diárias (os tais "spots"),  produzindo frequentemente reviravoltas inesperadas num curto espaço de tempo. Além disso, eu acrescentaria que, diferentemente do que acontece na disputa para governador ou presidente, na eleição para prefeito as surpresas são maiores também porque, com frequência, o pleito é disputado por candidatos que partem de condições muito desiguais. É principalmente nas cidades que os novatos iniciam sua trajetória política e, portanto, os candidatos que carregam "recall" de eleições anteriores, ao mesmo tempo em que partem de uma situação aparentemente confortável (são os únicos que são conhecidos dos eleitores), ficam expostos ao "efeito novidade", sem ter tempo suficiente para esgrimar com o adversário em ascensão.

Pois, em Campinas vivemos exatamente uma situação como essa. De um lado, dois candidatos tradicionais, vinculados a grupos políticos que parasitam a política local há décadas e, de outro, o candidato do PT, Márcio Pochmann, ainda desconhecido da grande maioria da população, mas que tem uma trajetória claramente diferente de seus principais concorrentes, com uma biografia notável, com passagens relevantes no mundo acadêmico e na gestão federal.

Mas, será que tudo isso basta para considerar a candidatura do Márcio como favorita?

Eu diria que sim, se levarmos em conta um outro importante aspecto que caracteriza o atual pleito em Campinas. Por conta de décadas de gestões marcadas por crises e turbulências, o cidadão campineiro, mais do que em outras cidades do país, manifesta um claro desejo de mudança na política local e, mais do que nunca, pretende votar em alguém que seja capaz de trazer sangue novo à esfera municipal e compromisso com a coisa pública. E, conforme apontam os oráculos das "qualis" (pesquisas qualitativas que são feitas com diferentes grupos sociais para avaliar um candidato ou uma situação), o eleitor campineiro deseja votar na eleição do dia sete de outubro em alguém que tenha exatamente o perfil do candidato do PT. A questão é que, até o presente momento, o eleitor não o conhece e, portanto, não teve a oportunidade de vincular as qualidades que espera de um candidato à pessoa Márcio Pochmann.

A partir desta semana, porém, esse vínculo começará a se estabelecer e, tenho certeza, será a fagulha necessária para alçar a candidatura Márcio Pochmann à vitória.

3.6.11

sobram razões para a saída de palocci

No início de 2004, quando Lula completava seu primeiro ano de governo, escrevi para o Correio da revista Caros Amigos um artigo que apontava para a excessiva e inaceitável ortodoxia econômica capitaneada pelo então todo poderoso Ministro da Fazenda, Antônio Palocci. Brinquei que caminhávamos para uma situação inusitada - que chamei de o Péssimo de Pareto - na qual nada mais podia piorar sem que alguém fosse beneficiado (ou seja, o Ministro havia maximizado as possibilidades de piora, algo que nem o mais tarado economista ousara pensar).

Pois não é que o renitente Palocci continua encravado no seio dos mandatos petistas, como uma cunha  a garantir os interesses do rentismo e do mercadismo nas instâncias decisórias do país. Se resta algo de ideologia de esquerda na coalizão governista, Palocci deveria ser sacado do governo de imediato, não apenas pelos desvios de sua estratégia de alavancagem pecuniária, mas principalmente pelas inúmeras demonstrações de conservadorismo econômico, que tanto prejudicam e sabotam a rara oportunidade de um governo que navega entre o desenvolvimentismo e o progresso social.

Aos que duvidam ou não se recordam das ações de Palocci na defesa dos interesses rentistas, segue uma lista das mais notáveis:

1. Lutou politicamente para ampliar e tornar definitiva a DRU (Desvinculação das Receitas da União), com o que pretendia ter a liberdade para utilizar os recursos da Seguridade Social para pagamento de despesas financeiras (juros)

2. Foi um militante convicto da autonomia do Banco Central, tese que alimenta o sonho liberal e que em última instância significa transferir o coração da política econômica a uma instituição apartada da política, sobre a qual, portanto, a sociedade não tem qualquer ascendência.

3. Lutou para criar uma lei que obrigasse o governo a alcançar um déficit nominal próximo de zero, ou seja, seria sempre necessário garantir um superávit primário (saldo fiscal antes das despesas financeiras) suficientemente elevado para arcar com os encargos financeiros da dívida pública.

4. Enquanto esteve no governo Lula, conduziu os bancos públicos tal qual bancos privados, abrindo mão do enorme potencial de indução que têm sobre os setores produtivos e de um importante instrumento de regulação indireta dos seus concorrentes no mercado bancário.

Por outro lado, sua saída do governo Lula, creditada ao episódio do extrato do caseiro, alterou sensivelmente a condução macroeconômicas, produzindo resultados bastante positivos para o país: queda da taxa selic; redução do superávit primário; elevação do patamar de crescimento do PIB; aumento das reservas internacionais; redução das taxas de desemprego; crescimento da participação dos bancos públicos no mercado bancário; queda da TJLP para até 4,5% a.a.; duplicação das operações de crédito do BNDES; retomada dos investimentos em infraestrutura (PAC I e II); entre outras mais.

Enfim, o matreiro ex-prefeito de Ribeirão Preto arrasta consigo um caminhão de motivos que justificam o seu expurgo. A seu favor, vende a idéia de que é ele quem faz a ponte com a mão invisível do mercado, um poder que ninguém vê e nem sabe o quanto é forte, mas que segundo seus amigos é fundamental para garantir a governabilidade. 

Às favas! Pura conversa. O vigor de Lula no pós-mensalão (sem o Palocci) e a vitória de Dilma num ambiente de absoluta hostilidade financiada pelos mercadistas parece demonstrar que essa gente não manda tanto quanto costumam alardear seus porta-vozes.

Já vai tarde.

29.5.11

jovem pra quê?



Na última sexta, estive no Fórum Social do ABCD, participando de um debate sobre o tema "Juventude e Trabalho". Tema difícil, afinal, mesmo nas nações ditas desenvolvidas, o desemprego juvenil é extremamente elevado e a falta de perspectiva para os jovens tem provocado movimentos de contestação bastante virulentos que se espraiam pela Europa (como o grupo denominado "jovens sem futuro" que, surgido na França, inspirou o movimento M15 que toma conta das praças da Espanha).

O que dizer aos jovens? Que mundo temos a oferecer àqueles que chegam cheios de vontade e energia à vida adulta?

Em tese, seria desejável que conseguíssemos postergar a entrada dos jovens no mercado de trabalho. Primeiro, porque não há razão para lançar um indivíduo em sua plenitude vital e criativa às linhas de montagem, às aborrecidas tarefas de escritórios ou mesmo às responsabilidades e preocupações da vida profissional. Segundo, porque no capitalismo, para bem ou para mal, há inexorável redução da necessidade de trabalho vivo e, consequentemente, eliminação de empregos. Se assim é, parece razoável que os cada vez mais escassos postos de trabalho sejam ocupados por trabalhadores maduros, mais necessitados, com maiores obrigações financeiras, etc.

Porém, pergunte aos jovens se gostam da idéia. Tirante um ou outro mais cuca fresca, os jovens em geral são ávidos para reduzir sua dependência em relação à família e, mais do que isto, muitos vivem contando os dias para terminar a intragável escola e cair na vida. E o trabalho, um emprego qualquer que seja, de entregador de pizza ou de atendente de telemarketing, é o caminho mais curto a ser seguido.

O que fazer? Como resolver esse dilema tão característico de nosso tempo?

Claro que não tenho resposta a esse assunto e desconfio que a sociedade contemporânea levará ainda um tanto de tempo lidando com o problema. Contudo, uma coisa me parece imprescindível. Não será possível manter a juventude fora do mundo do trabalho sem que se ofereça uma alternativa concreta para a qual possa canalizar o impulso fáustico (vontade de potência e sede de sentido) que, com maior ou menor intensidade, habita o espírito de quem acaba de virar gente. É preciso, portanto, reinventar o mundo do não-trabalho ou do pré-trabalho. O modelo de escola que aí está já há muito que não serve, mas apesar de muito se falar a respeito, pouco - ou quase nada - se tem conseguido mudar. Cada vez mais as escolas se configuram como um fardo e repaginar a velha e tradicional escola só faz aumentar a distância para alguma solução.

Enfim, tal como concluí minha participação no Fórum, acho que a temática "Trabalho e Juventude" talvez seja prematura. Deve ser precedida de outra reflexão: quem são os jovens de hoje? Para depois se avançar sobre qual a educação que cabe a essa juventude. Só então fará sentido falar em "postergação" do mundo do trabalho.

PS: E sobre a reinvenção da escola, tema que conheço pouco, tenho apenas um palpite a dar. Creio que é preciso trilhar o caminho da educação com sentido. A essa geração plasmada na velocidade, na busca rápida pelo satisfação, na relação utilitária com o mundo, é urgente tornar a educação um fim em si mesma, algo que tenha sentido per se, e que, portanto, não se configure apenas como um meio para conquistas futuras - como passar no vestibular ou se preparar para uma profissão promissora.
E, nesse sentido, por estranho que possa parecer à primeira vista, creio que são as escolas técnicas que mais se aproximam dessa proposta. Como são obrigadas a focar o ensino em alguma especialização do mundo do trabalho, permanecem mais coladas a aspectos concretos do aprendizado, resultando numa experiência mais carregada de sentido e que, por isso, permite um avanço maior inclusive nas disciplinas mais etéreas.

24.5.11

um debate oportuno

Nada como um catedrático, autor de gramáticas, fundador do Museu da Língua Portuguesa e, portanto, autoridade inquestionável sobre o assunto, para deixar claro os aspectos desconsiderados pelos doutos que, ignorantes e banhados em naftalina, saem por aí clamando pela "norma culta", como se a questão se resumisse a um debate jacobino.

É sintomático que uma polêmica como essa tenha surgido alguns dias após o episódio da "gente diferenciada". Plasmam-se no mesmo caldo de cultura, de uma classe dominante que vira e mexe se espanta com os novos bárbaros que emergem dos buracos de metrô, que consomem de maneira frenética ou que "assassinam" a 'norma culta' a três por quatro.

Para surpresa dessa gente reacionária, do jeito que a coisa vai, acabaremos falando como os franceses, que, como ensina o Prof. Ataliba, não pronunciam o "s" há séculos e que, a despeito do desvio, continuam encantando a trupe dos iguais.

2.5.11

identidades sociais e ressentimento psicológico

Nesta palestra de Maria Rita Kehl (copiada em 4 videos no youtube - clique abaixo) uma interessante perspectiva do significado do "ressentimento" na psique da sociedade contemporânea. Mais interessante ainda, porque a conhecida psicanalista e professora da PUC-SP parte da interpretação do indivíduo - portanto, uma abordagem clínica - para chegar a uma interpretação das "identidades sociais" em nossa época, e, mais do que isso, de alguns traços constitutivos da sociedade brasileira.

A palestra, que fez parte do programa Café Filosófico (CPFL/Cultura), resulta de um livro escrito pela psicanalista, denominado simplesmente "Ressentimento" (Editora Casa do Psicólogo, 2004), onde ela avança com muita originalidade sobre o significado de certas máculas em nossa memória social (como a escravidão e a ditadura militar) como constitutivas do imaginário da política brasileira. Infelizmente, o livro está esgotado, mas o vídeo da palestra serve bem para apresentar os argumento fundamentais da autora.

18.4.11

a vida é sonho

Nasça o homem sabendo que
Todo esse império deve ser por ele 
Conquistado ou perdido.

A frase, de Calderon de La Barca, da peça "A Vida é Sonho", serve bem ao excelente artigo do indignado Rubens Ricúpero, publicado ontem na Folha, no qual ele manifesta sua perplexidade não só com a promiscuidade dos agentes econômicos que levaram países inteiros à bancarrota, mas principalmente com a "ausência de indignação moral" de todos, que continuam tocando a vida como se nada tivesse acontecido, assistindo ao desmonte das instituições do bem estar social, como se fosse um desígnio de deus.

12.4.11

excelente artigo de delfim netto

Publicado originalmente no jornal Valor, do dia 12/04/2011

Custo/benefício e legítima defesa
Na organização do universo, Deus foi muito duro com os "cientistas sociais", dentre os quais se destacam os economistas. Para benefício desses últimos, entretanto, construiu um "homem" que age com racionalidade limitada num espaço permanentemente preenchido pela incerteza. Para superá-la abriga-se na imitação e nos costumes. Com um legítimo processo de abstração, esquecemos as expressões "limitada" e a "incerteza" e construímos uma hipótese poderosa: o homem age a partir de um cálculo racional absoluto, obedece a incentivos, procura maximizar os seus benefícios e não tem relação com outros homens. Como já suspeitava (numa nota de rodapé) o ilustre Thomas Robert Malthus (1766-1834), isso abria espaço para entendê-lo aplicando o cálculo diferencial criado por Newton (1642-1727).
E não deu outra! O conhecimento da economia avançou dramaticamente explorando aquela hipótese, até assumir o respeitável grau de "rainha" das ciências sociais. A "ciência" criada por Adam Smith exagerou: predou primeiro a psicologia e depois exerceu seu imperialismo sobre a antropologia, a arqueologia, o direito, a geografia, a história, a sociologia e a política! Enquanto isso ela mesma estava sendo predada pela bela e irresistível matemática! Foi um porre que durou pelo menos um século e meio. Terminou quando exagerou na formulação do "equilíbrio geral" num espaço topológico. Isso deu nascimento a uma revisão da hipótese básica. Redirecionou a observação e o estudo sobre a realidade em que se forma o comportamento do agente econômico, absorvendo e reintegrando o conhecimento das ciências sociais que havia predado.
Não há ciência capaz de recomendar ou não a liberdade de capitais
Nada é mais indicador desse movimento, renovador, do que está acontecendo, por exemplo, com relação à liberdade de capitais. No acordo de Bretton Woods (depois de uma penosa e longa discussão teórica) ela praticamente foi interditada; foi construída lentamente depois que o "gold standard" foi definitivamente destruído pela desvalorização do dólar com relação ao ouro no início dos anos 70 e foi consagrada quando o poder político nos EUA passou, de novo, às mãos do sistema financeiro (como acontecera antes de 1929). Iniciou-se na década dos 80 do século passado, a desmontagem da regulação construída nos anos 30. É um fato interessante que no Consenso de Washington, nos anos 80 do mesmo século, apesar da insistência do FMI, ela nunca foi reconhecida.
Agora, em menos de duas semanas, o FMI modificou a sua posição. Admite que em circunstâncias específicas o seu controle pode ser uma das "ferramentas" da política econômica dos países que estão sofrendo com a supervalorização das suas moedas. Esses, de fato não devem assistir passivamente à erosão de sua base industrial sujeita à competição desleal de países mais "espertos". A resposta imediata veio do organizado e poderosíssimo "lobby" financeiro, o "think-tank" Institute of International Finance, de Washington, financiado pelo sistema financeiro internacional, pela boca do seu economista-chefe, o sr. Phillips Suttle. Referindo-se diretamente ao real nos ensinou que sua valorização está associada ao desempenho e às perspectivas positivas da economia brasileira (o que é uma premissa verdadeira) e que, portanto, deveria ser vista com a maior naturalidade. Logo, admitir e lidar com essa realidade seria um instrumento mais útil do que a imposição de controles sobre o movimento de capitais (o que, infelizmente, é uma conclusão que não decorre da premissa).
O que é evidente nessa discussão? Que ninguém dispõe de uma "teoria científica" para recomendar ou não a liberdade de capitais. Além do mais, nenhuma pesquisa empírica feita com métodos estatísticos robustos pode resolvê-la. Trata-se, na mais benigna das hipóteses, de uma recomendação "normativa" que pode ou não ser útil, mas que, evidentemente, é contaminada por interesses. É uma questão cuja resposta depende das circunstâncias internas e externas de cada país. Dizer, como disse o sr. Suttle (e dizem alguns de nossos melhores economistas), que deixar o câmbio flutuar "naturalmente" é a melhor solução para nosso problema, não tem maior valor "científico". É apenas uma opinião, como todas as outras (inclusive a minha), ditada por diferentes visões do mundo. Afinal, deveria ser óbvio que a "liberdade de movimento de capitais" não está escrita nas "leis naturais" imutáveis da organização do universo.
Parece difícil de entender como ainda não tenhamos internalizado em nossas consciências:
1º) que a macroeconomia (inclusive seus mais recentes modelos) tinha muito pouca coisa a dizer sobre como funciona, de verdade, a economia real. Ela também é mais "normativa" (isto é, expressa mais a vontade de como o sistema deveria funcionar do que como ele funciona) do que "científica" e;
2º) que o aparato econométrico que às vezes aparentemente a sustenta (a "calibração") é terrivelmente deficiente para levar a qualquer conclusão segura. Aliás não deveria haver surpresa: a ciência só avança quando falha!
Ao contrário, portanto, da ideia que as políticas macroprudenciais são uma volta ao passado, elas simplesmente indicam nossa perplexidade com a tragédia a que levou a aparente sofisticação financeira. O momento não é de afirmações apodíticas, apoiadas numa ciência que não existe, mas de avaliação cuidadosa da relação custo/benefício, no curto e no longo prazo, das medidas que estamos tomando em legítima defesa...
Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento

31.3.11

enfim, o pós-autismo?

Embora a data não inspire comemorações, segue uma análise alvissareira sobre a renovação das idéias econômicas

Por Luiz Nassif

O fim dos "cabeças de planilha"

Na semana passada, o seminário “Repensando a política macroeconômica”, organizada pelo FMI com os economistas David Romer, Joe Stiglitz e Michael Spence e com seu economista-chefe Olivier Blanchard ,decretou oficialmente o fim da era dos “cabeças de planilha” - tipo de analista que contaminou o mercado financeiro nas últimas décadas, com simplificações que desmoralizaram o que se entendia por ciências econômicas.

Munidos de suas planilhas, e com conhecimento insuficiente em política, análise setorial, ciências sociais, psicologia social, e mesmo correlações básicas de economia, esses economistas julgaram ter descoberto o equilíbrio universal, o fim dos riscos sistêmicos. Qualquer questionamento à sua falsa ciência era tratado com superior desprezo.

O encontro promovido pelo FMI é a pá de cal nesse tipo de pensamento cabeção, primário, manipulador, insuficiente.

Um dos princípios era a visão monofásica de que cada instrumento de política econômica deveria visar apenas um objetivo.
Por exemplo, para inflação em alta, aumento das taxas básicas de juros. Esse aumento impactava a dívida pública, apreciava o real, causava desequilíbrio nas contas externas que, mais à frente, provocava uma maxidesvalorização do real que comprometia o próprio combate à inflação.
Pouco importava: juros só devem se preocupar com a inflação.

Às vezes o aquecimento do consumo se dava em um setor específico. A situação poderia se resolver com uma restrição ao financiamento àquele setor. Mas as “boas práticas” diziam que apenas os juros poderiam ser.

Anos atrás, monetaristas brasileiros – da melhor escola de Chicago – alertavam para os erros da política de metas inflacionárias.
Define-se uma meta, mede-se a expectativa dos agentes econômicos. Se estiver acima da meta, aumentam-se os juros. Os monetaristas alertavam que nesse modelo não se levava em conta o excesso de liquidez (de moeda) na economia.
Consequência: esse excesso formou bolhas especulativas por todos os poros do sistema financeiro internacional, resultando na grande crise de 2008.

Esse pensamento manipulador criava um agente financeiro imaginário, racional que por si só seria capaz de coibir qualquer abuso do sistema financeiro internacional, permitindo abrir mão de qualquer regulação. Se uma instituição abusasse, se algum ativo estivesse muito caro, os investidores simplesmente trocariam por outras instituições ou ativos, regulando automaticamente o mercado.
Era uma miragem, como se todo investidor fizesse cálculos complexos, análises de risco, arbitragens.

Nas instituições financeiras, havia cálculos infernais mostrando que quando despencasse a cotação do ativo 1, haveria um aumento na cotação do ativo 2, de tal maneira que aplicando em ambos o risco tenderia a zero.
Imbecis, sem nenhuma noção do que uma crise sistêmica provocava no mercado. Quando sobrevinha a crise, caía o ativo 1. Para cobrir sua posição naquele mercado, o banco vendia o ativo 2, provocando também sua queda e assim por diante.

Havia muito mais erros nessas formulações. Nunca foram combatidos porque criaram uma cadeia improdutiva de juros e especulação.
Só a crise para repor o conhecimento econômico no seu devido lugar