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19.8.12

Sopro na veia

Porque é domingo, o sol tá sangrando o pasto, o frango tá no tacho, é hora de sopro na veia: Brassroots!!!



Brassroots by Brassroots on Grooveshark

Gemini Rising by Brassroots on Grooveshark

8.6.11

celular zen

E não é que, circulando por esse mundo virtual, me deparo com um post escrito por meu pai, Nivaldo Manzano, em blog alheio, indicando essa linda peça publicitária criada, no Japão, para o lançamento de um celular de madeira.

Vejam o vídeo abaixo, uma proeza tipicamente oriental. Em meio a uma floresta tranquila, num xilofone pra lá de comprido, uma bolinha de maneira, movida apenas pela gravidade e com o tempo ditado pela inclinação e comprimento de cada tecla-degrau, executa a singela melodia de "jesus, alegria dos homens" de Bach.

31.3.11

'carne de vaca', uma expressão anacrônica

Segundo os entendidos, a dita carne de vaca - tão abundante em nossas paragens que virou expressão a indicar algo rotineiro e sem qualidades especiais - deve se tornar uma iguaria, coisa como caviar ou escargot. O despertar dos orientais para o mundo do consumo, dizem, tornará o bife cada vez mais caro e raro; o jeito será revisitar as partes menos nobres do gado, que vínhamos esnobando nas últimas décadas.


Nessa toada, por exemplo, ressuscitei recentemente, com grande sucesso aqui em casa, a saudosa brachola - aquele bife enrolado e cozido no molho de tomate - que faz a alegria de qualquer espaguete, ou mesmo de um desenganado arrozinho. Na mesma linha, outro prato candidato à emergência é o Ossobuco. Saboroso, saudável e barato, têm a vantagem de também distrair a clientela. 


Pois, aproveito a boa hora para compartilhar uma receita de Ossobuco que me chegou clandestina. Antes, porém, um aviso: assim que o Camboja completar a sua industrialização, repasso a receita de sopa de pedras (he, he, he.....)




Ossobuco braseado
Por Licínia de Campos 
Nutricionista, integrante do comitê técnico do Serviço de Informação da Carne (www.sic.org.br)


Ossobuco em italiano significa osso com um furo, uma referência ao orifício preenchido de tutano localizado no centro da peça, retirada do corte transversal da perna traseira do bovino. É um corte que contempla músculo, osso e tutano e confere ao prato alto nível de valor nutricional e cálcio. É uma especialidade milanesa, braseada com hortaliças, vinho branco e caldo. Quase sempre leva como guarnição a gremolata, que é um tempero à base de salsinha, dente de alho picado bem miúdo e uma colher de chá de casca de limão siciliano ralada, que deve ser salpicado por cima da carne. 
Há dois tipos de ossobuco: na versão mais antiga, o ossobuco in bianco é aromatizado com canela, folha de louro e gremolata; já na versão moderna, e mais popular, inclui tomates, cenouras, salsão e cebola, c om a gremolata opcional.
O ingrediente básico desse prato é relativamente barato e muito saboroso. Como o processamento é feito por braseamento, o corte rijo se torna macio. O que significa brasear? Do termo francês braiser, é uma combinação de métodos de cocção, que utiliza calor seco e úmido. Normalmente, o alimento é refogado em alta temperatura e depois finalizado em uma panela com tampa (ou pressão) com quantidade variável de líquidos. O brasear se baseia em calor, tempo e umidade para quebrar o rijo tecido conectivo, o colágeno da carne, revelando-se um método ideal para cozimento de cortes rijos. O cozimento lento ou em panela de pressão são expressões do brasear, como por exemplo, o lagarto assado de panela. 
A maioria dos braseados segue os mesmos passos básicos. O alimento a ser braseado é primeiramente selado, até ter sua superfície dourada e seu sabor incrementado. Se o alimento não liberar seus próprios sucos, acrescenta-se então uma pequena quantidade de líquido, que inclui quase sempre um elemento ácido, como tomates, cerveja ou vinho, adicionado à panela, e complementado com caldo. A panela é então tampada e o alimento cozido em fervura bem lenta, até a carne ficar tenra. O líquido resultante do cozimento é finalizado para criar um molho. 
Um braseado de sucesso deve intermediar os sabores dos alimentos cozidos com o líquido do cozimento. Esse método de cocção dissolve o colágeno da carne em gelatina, enriquecendo e dando corpo ao líquido. Brasear é um método econômico, pois permite o uso de cortes rijos e mais baratos e eficientes, pois emprega uma só panela para cozinhar uma refeição completa.
Por causa de sua origem italiana, o ossobuco in bianco é tradicionalmente servido com risotto alla milanese, mas o corte bovino também pode ser acompanhado por purê de batatas ou polenta. Algumas vezes é servido com macarrão. 
Uma receita simples do ossobuc o alla milanese pode ser feita com seis ossobucos aparados, com cerca de 250 gramas cada, uma colher de chá rasa de sal, uma pitada de pimenta do reino, um quarto de xícara de farinha de trigo, uma colher de sopa de azeite de oliva, uma xícara de cebola média picada, meia xícara de cenoura bem picada, meia xícara de salsão bem picado, duas fatias de toucinho cru em cubos, uma xícara de vinho branco seco, uma xícara de caldo de legumes, 450 g de tomates inteiros sem pele, picados.
O ossobuco deve ser temperado com metade do sal e a pimenta e empanado na farinha de trigo. Numa panela despeja-se uma colher e meia de azeite e se refogam, em fogo médio, três ossobucos, dourando-os de todos os lados. Devem ser retirados da panela após 8 minutos e reservados numa travessa. Repete-se o procedimento com mais uma colher e meia de azeite, desta vez, adicionando-se a cebola, cenoura, salsão e o toucinho, refogando-os por 5 minutos ou até as hortaliças ficarem macias . Em seguida, adiciona-se o vinho branco, cozinhando-se por mais cinco minutos ou até o líquido quase evaporar. Adiciona-se o sal restante, o caldo e os tomates. Volta-se com o ossobuco à panela, até o caldo ferver. Tampa-se a panela, abaixa-se o fogo e cozinha-se em fervura lenta por duas horas ou até a carne ficar macia. 
Essa receita é uma reformulação da receita tradicional e tem por objetivo torná-la mais leve e menos calórica (358 kcal). Mesmo assim, não considero a receita original altamente calórica (cerca de 450 kcal). É um mito achar que o ossobuco é muito calórico. É um corte extremamente nutritivo e por ter o tutano, é rico em colágeno, que é responsável pela reposição de tecido muscular para crianças, adolescentes e idosos.

25.3.11

zizo vivo

Hoje vou de mata atlântica. De um pedaço dela, de sua porção localizada no extremo sul do estado de São Paulo, na bela região do Ribeira. Mais precisamente, no município de São Miguel Arcanjo.

A história começa no acinzentado ano de 1969, entre os meses de setembro e outubro. D. Quinha, mãe de oito, é avisada que o corpo de seu filho de 24 anos foi encontrado morto a bala na cidade de São Paulo. Era o Zizo, que tinha partido para estudar engenharia na USP. "Abatido" feito caça.

29 anos mais tarde, em 1998, uma segunda notícia de Zizo chega a São Miguel: a justiça brasileira determinara uma indenização de R$ 120 mil por reconhecer que Luiz Fogaça Balboni fora assassinado pelas forças do Estado, isto é, pelos capangas do Delegado Fleury.

Que surpresa! D. Quinha, seu marido Luiz e os sete irmãos, jamais souberam as razões da morte de Zizo. Fora encontrado morto a bala, ponto. Mas agora a história de Zizo volta à tona. Através dos autos processuais, descobrem que Zizo havia entrado para a clandestinidade - militava  na ALN - e que foi morto durante uma ação de "expropriação" a uma agência bancária na Alameda Santos, São Paulo. Seu parceiro na operação sobreviveu, foi interrogado e contou os detalhes: chegaram ao ponto de encontro na hora marcada, mas identificaram um carro suspeito parado próximo à agência. Tentaram fugir, mas os caras saíram atirando. Zizo foi atingido e seu parceiro escapou. Ferido, preso e levado ao hospital, Zizo morreu.

Com quase trinta anos de atraso, D. Quinha descobre seu filho. Que orgulho! Agora finalmente entendia porque, na última vez em que o Zizo esteve em casa, pediu à mãe que cantasse 'Sussuarana'. Era a morte que sussurrava.

Família larga, terra pequena, todos se sensibilizaram ao conhecer a heróica história de Zizo. Como mantê-la viva? Como devolver a Zizo uma parte do sonho que o embalou?

A indenização!

Tinham R$ 120 mil. Divididos, ajudariam pouco na vida de cada um dos irmãos. Preferiram comprar um pedaço de mata virgem. Zizo e seus irmão passaram a infância enfronhados naqueles matos, e nada melhor do que um pedaço de mata para guardar viva a história de Zizo.

Assim, com o dinheiro da indenização e muita colaboração e dedicação dos familiares, criaram então o Parque do Zizo, uma reserva particular de mata atlântica, com 300ha, que recebe escolas e turistas para compartilhar o mundo e os sonhos do Zizo - que, dizem, vez ou outra assobia por lá junto com a passarinhada.

17.3.11

o mais cabaço dos suingues

Os anos 80 foram pródigos em extravagâncias sentimentaloides. Nas roupas, nos cabelos, nas músicas, abusava-se dos recursos artificiais e dos sentimentos fáceis para marcar a contra-reforma dos costumes e assim, talvez, expurgar o que restava de hippie ou de punk no sangue das gentes.

E foi justamente naquela década que vivi a adolescência e, confesso, ouvi e gostei de músicas que só o velho esquema dos jabás das FMs explica (será?). De Radio Taxi e sua Pequena Eva a Supertramp e outros do gênero, era um ramerame atrás do outro. Raspando o tacho daqueles tempos tristes, de agonia da ditadura, em que nem o Palestra Itália ajudava, e quando a revista Playboy mostrava apenas os seios, creio que o símbolo maior do suingue insosso e bem comportado foi o grupo The Alan Parsons Project, uma espécie de trilha sonora para tardes de chuva e de braço direito cansado.

Segue, não sei bem por que, um vídeo do grupo

25.11.10

seria o melhor solo de todos os tempos?

Meu cunhado, Fernando, grande virtuose na guitarra, manda esse vídeo com um portentoso solo de Gary Moore.

Há quem diga que é o melhor solo de todos os tempos. Confira. E, se discordar, favor mostrar as cartas.

23.11.10

milão em 22 dias

Caríssimos visitantes, nesse mês de novembro este Pífano que vos informa registrou o recorde de visitas: mil em 22 dias.

Não é lá muita coisa, tem blogueiro por aí que registra 10 mil visitas por hora, ou até mais.
Porém, considerando que o tema de fundo aqui é a árida economia e, pra piorar, economia do B, até que é um bocado de gente compartilhando essa bagaça.

Aproveito a data para convidar os amigos leitores a participarem mais ativamente do blog. A tarefa de bater o ponto aqui todo dia não é fácil e seria uma enorme satisfação ter mais gente tocando o debate.
Se aqui estamos é porque, provavelmente, compartilhamos certa visão de mundo, mesmo que alguns ainda insistam em torcer por agremiações esportivas de qualidade discutível.

Pra animar a data, um vídeo de um pífano bem tocado. Valeu!

17.11.10

em solidariedade aos patrícios




Em homenagem a nossos irmãos-patrícios, que se encontram em difícil cipoal econômico, revisito o hino da Academia do Bacalhau de Coimbra que, a qualquer tempo e lugar, será sempre motivo de inspiração e alegria:




Vamos cantar à saúde de Coimbra
Academia com cartola de penacho
Sou de Coimbra
Ninguém me deita abaixo
O vinho tinto dá-me força pela medida
Teu bacalhau cheira a seiva de menina
Sou gavião vou comer esse repasto
Sou de Coimbra
Eu nunca serei casto
O vinho tinto dá-me força pela medida
Vestes de negro
Roupinha branca por baixo
Que é a cor da toalha desta mesa
Hoje vou comer-te esse penacho
Nem que seja uma punheta à Portuguesa
Sou de Coimbra
Ninguém me deita abaixo
O vinho tinto dá-me força pela medida
Quando te como vou p’ra cima
E vou p’ra baixo

autor:
Compadre João Afonso

15.11.10

boca chiusa




Autor: 
Carlos Latuff















                                                            



Autor: Angeli











Autor: não identificado






       Autor: Paulo Emamnuel 




     



          

 Autor: não identificado



















Autor: Caco Galhardo

27.10.10

grande dia vermelho

É 27 de Outubro! Dia de festa! E não é de hoje não!

Na foto abaixo, uma síntese pra lá de especial de um enredo que só faz melhorar.

Como já devem ter notado, o cara de barba é o Lula, que no domingo ensolarado, dia 27 de outubro de 2002, dia de eleição, era anunciado pela imprensa do mundo todo (aqui a foto saiu no Estadão) como o metalúrgico de esquerda que se elegeria presidente do Brasil.

O que não sabiam os incautos é que o moleque simpático que Lula ergueu nos braços era meu filho Pedro, ("o futuro nas mãos") que furou o bloqueio dos jornalistas com uma bandeira do PT para conseguir uma assinatura.

Clic! Cravaram o Pedro, o Lula, o PT, a esperada vitória da esquerda na mesma moldura.



Acha pouco?

Era dia 27, aniversário do Lula e, de quebra, dia de aniversário de meu namoro com a mãe do Pedro, a Maria Clara, que comecei a paquerar na eleição de 89, a quem tasquei um beijo numa festa "das bruxas", antecipada providencialmente para o cabalístico 27 de outubro.

É, pois, dia de grande alegria nessas bandas de cá!  Um grande viva a todos!

25.10.10

pra nunca perder esse riso largo

É meus amigos, essa eleição já deu o que tinha que dar; já tá todo mundo meio moído, de saco-cheio.

Pra desatarrachar os nervos, sugiro uma música cucafresca, no melhor estilo alienado dos setenta.

O vídeo, muito bem bolado e criativo, apresenta uma versão mais rockeira da música "cuide-se bem", um baita sucesso de Guilherme Arantes, de 1976. Na versão do vídeo, quem toca é o quarteto Pedra.

24.10.10

eu vejo a barra do dia surgindo

Em tempo de baforadas fascistas, que supúnhamos insignificantes em nosso país, copio a bela letra de Julinho de Adelaide, herói maroto dos tempos de ditadura, que vem fazendo sucesso na internet nesta véspera de carnaval.
Para ouvir a belíssima canção, na voz deliciosa de Nara Leão, clique aqui. É de arrepiar. 
E vale ver também (clique aqui ) o trecho do filme "Quando o Carnaval Chegar" (1972) de Cacá Diegues, onde Chico Buarque canta a música de mesmo nome, numa cena surreal e hilária, sambando ao lado de Hugo Carvana que ostenta seu bigodon e um terno rosa.   


Quando o Carnaval Chegar
De Julinho de Adelaide (pseudônimo de Chico Buarque)
Quem me vê sempre parado, 
Distante garante que eu não sei sambar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar



Eu tô só vendo, sabendo,
Sentindo, escutando e não posso falar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu vejo as pernas de louça
Da moça que passa e não posso pegar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Há quanto tempo desejo seu beijo
Molhado de maracujá...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
E quem me ofende, humilhando, pisando,
Pensando que eu vou aturar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
E quem me vê apanhando da vida,
Duvida que eu vá revidar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu vejo a barra do dia surgindo,
Pedindo pra gente cantar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu tenho tanta alegria, adiada,
Abafada, quem dera gritar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar...



Nota: a foto é do fotógrafo catalão Chema Madoz

12.10.10

instrucciones para experimentos em dias ocos

Para um feriado, nada como as exatas instrucciones de Julio Cortazar.
No vídeo abaixo, en su próprio timbre, nos orienta como fazer para subir uma escada ao revés.
Como deverão notar, é assunto de especial utilidade em dias ocos.
Antes, porém, algumas considerações necessárias:

Recomendações para a presente Instruccion: considerando a lassidão e a indolência que a muitos de nós domina e contamina nos dias ocos, é recomendável que aqueles que se dispuserem a reproduzir o experimento sugerido e tão bem orientado por Cortazar, reservem especial atenção ao derradeiro degrau, quando um leve toque descuidado do calcanhar poderá jogar por terra as percepções colhidas nas etapas anteriores do ensaio e - o que pode ser ainda mais grave - jogar ao solo o próprio sujeito do experimento.

A relevância e especificidade do derradeiro degrau, independentemente de quantos mais possuir a escada, decorre do fato de que nele se sobrepõem três aspectos críticos, a saber:

1º) ter-se-á, lógica e necessariamente, atingido o pavimento com maior distância em relação ao solo, o que significa dizer que, estando correta a canção popular que afirma que "quanto maior o coqueiro, maior o tombo", não haverá tombo maior do que o possível no referido degrau;

2º) como o último degrau é, necessariamente, um ponto de transição para um plano horizontal, dever-se-a estar atento à mudança abrupta das circunstâncias, o que não é algo trivial como pode parecer àqueles que estão acostumados a subir escadas de frente e que, portanto, tendem a subestimar este momentum crítico do experimento;

3º) como é frequente acontecer em outras modalidades de deslocamentos em que há clareza por parte do agente a respeito dos pontos de partida e de chegada, há uma natural e compreensível tendência ao relaxamento da atenção no segmento final da jornada, o que amplifica de maneira aguda os riscos de acidentes. No caso em tela, significa dizer que apenas um ou dois milímetros do solado do calcanhar que deixem de ser erguidos como vinham sendo nos degraus anteriores serão suficientes para provocar um desequilíbrio crítico do agente que, dadas as circunstâncias descritas nos itens (1) e (2), produzirão uma queda de consequências imprevisíveis e certamente indesejáveis.

Obs: é forçoso lembrar que a hipótese, mencionada em outro dito popular, de que "para baixo todo santo ajuda" não se aplica ao contexto do experimento supracitado. Vale dizer: imprecisões no uso de dizeres populares, muitas vezes inócuas e até charmosas, podem adicionar gravames em escala crescente quando se está praticando jogos lógicos que lançam mão da inversão de sentidos.


10.10.10

filho de hippie, pai de metaleiro

Pausa na eleição, mas não na política. Um dia de Rock.
Fui ao SWU com o filho para 10 horas de rock. 
E voltei tosquiado.

Me interessava em especial assistir aos legendários Mutantes e a boa música do Los Hermanos, grupos mais adequados aos ouvidos de um quarentão cansado. 


Qual o quê? Como dizia o bom Chico. 
Fui infectado pela sonzera dos 'veios'.


Primeiro, porque Os Mutantes, sob a autocrática liderança de Sergio Dias, já não mudam nem a roupa. Vestidos como nos sessenta, tocaram sem viço ou qualquer lampejo criativo. Sérgio Dias, cada vez mais ressentido, enche o saco, com uma eterna postura de reclamão. Entre hits do grupo, escolheu os mais etéreos, justamente aqueles em que, nos bons tempos, Rita Lee era a alma - para infelicidade da afinada substituta Bia. De resto, impôs duas músicas novas, que poucos tiveram a paciência de levar a sério. Ante uma platéia repleta de "air guitar players", não reviveu os inesquecíveis solos de guitarra que quarenta anos atrás colocaram Os Mutantes no topo do mundo. Foi uma pena.


Quanto aos cariocas Los Hermanos, o problema não foi exatamente com eles. Ocorre que aquela não era a praia nem a hora para a banda. Não cabiam no SWU, e estando lá, deveriam ter se apresentado antes das bandas nervosas que abriram a noite. Quando subiram ao palco, tocando suas melódicas canções, despertaram a platéia para as pernas exauridas, a bexiga cheia, o zumbido no ouvido, ... e muitos dispersaram. Apesar de que, os casais e boa parte das mulheres curtiram e até cantarolaram junto com os barbudos C.B.


Desconstruídos meus interesses, restaram-me as bandas pauleira, como dizíamos no tempo do Passat e do Corcel. E gostei do que ví.


Quem primeiro botou fogo no palco foi  o ótimo grupo de Goiania, Black Drawing Chalks, com um rock pesado, de grande força. Depois, veio o Macaco Bong, de Cuiabá, que toca um rock instrumental, meio alternativo, de excelente qualidade. Eram apenas  três sujeitos siderados (baixo, bateria e guitarra, sem vocal) que, por quase uma hora, mantiveram o público a alguns metros do chão. 


É curioso como têm surgido boas bandas no interior do país. Depois do Angra (originário de Fóz do Iguaçu), agora essa moçada do Centro-Oeste, com um tipo de música que poderia brotar em qualquer grande metrópole cinza do planeta. É som com cara de Berlim ou Londres, só que subproduto da soja e das distâncias encurtadas pela internet e seus aparatos.


Então, vieram as bandas gringas. 


Infectious Grooves, com um funk carregado, meio metal, e seu vocalista um tanto estranho, uma espécie de red-neck do B ou um Kid Vinil mais diabólico, que animou a platéia e em especial a moçada da pancadaria. Foi a senha para abrirem as rodas de bate-cabeça e o espreme-espreme entre os que queriam apenas ouvir a música.


Mais adiante, foi a vez do The Mars Volta,  grupo do Texas, formado por chicanos com pinta de holandeses. Gostei bastante. Com um hard-rock psicodélico que lembra muito o Led Zeppelin - com certeza alguém já deve ter dito isso antes. O vocalista, Cedric Zavalla, embora fisicamente talvez se pareça mais com Jimmy Page, tem um timbre de voz e trejeitos afeminados muito parecidos com os de Robert Plant. E faz animadas performances no palco. Já o guitarrista e lider do grupo, Omar Rodriguez-López, escondido atrás de sua boina preta, toca no melhor estilo Jimmy Page, fazendo solos delirantes, na linha de Dazed and Confused ou lemmon Song. À dupla, que faz a alma do grupo, acompanham outros ótimos músicos, apoiados por um sujeito que, à beira de um PC, cuida dos efeitos espaciais que permeiam os solos e nos fazem pensar em Marte. Muito bom.


E, finalmente, para terminar a noite, o explosivo e incendiário Rage Against The Machine. Além da música agressiva, algo entre o hip-hop e o heavy metal, o grupo se notabiliza pela militância política de esquerda. Tanto o vocalista Zack de La Rocha, financiador declarado da guerrilha Zappatista, quanto o extraordinário guitarrista Tom Morello, um filho de ex-guerrilheiro do Quênia, formado em ciências políticas em Harward, provocam como nunca ví a gana de suas platéias. Com um som nervoso e pegado e letras incendiárias, misturam revolução com desobediência civil, e protestos da melhor cepa. Em poucos minutos, fizeram cair a grade de proteção que os separava da platéia e, ironicamente, foram vítimas das machines: as caixas de som pifaram por 15 minutos, esfriando o sangue dos endiabrados do palco e do gramado. Mas não deixaram por menos, no final -  que ouvi do estacionamento - deixaram rolar a Intenacional Socialista enquanto se preparavam para o bis. Vida longa para essa banda porreta.


Por fim, uma palavra sobre o público. 
É verdade que era uma noite com sabor de sangue, mas gostei de ver a moçada rockeira destes dias de hoje. São muito diferentes da minha geração. Gente com cara boa e cabeça aberta, com um espírito meio libertário, mas sem porraloquice. Ao contrário do que se costuma dizer por aí, o rock de hoje me parece mais politizado e o público muito mais atento e crítico. Talvez seja uma decorrência do novo mundo inaugurado pelos arquivos em MP3 e a internet, que furaram as gravadoras e suas pautas musicais.  

18.3.10

um infortúnio, um merchandise

Por problemas mecânicos - do carro - não pude participar do Seminário dos professores da Facamp desta quarta. É uma grande pena, pois o Prof. Belluzzo daria continuidade ao debate sobre "O Capital".

Por outro lado, em meu degredo, tive a fortuna de desfrutar do valor de uso de uma singela mercadoria que este mundo do capital é capaz de ofertar.

Seguindo o conselho de um amigo, comprei um barril de Heineken, de 5 litros, que me fez desarmar o espírito, até então amargurado pelo dia torto. E aconselho fortemente que experimentem a citada mercadoria, com fetiche e tudo.

Costumam dizer que, apesar dos pesares, o capitalismo, em sua frenética destruição criativa, nos presenteia com avanços e inovações que em muito melhoram nossa estada na terra. Citam sempre os casos de progressos da medicina ou da odontologia, das agruras que escapamos com a descoberta da penicilina ou das enormes possibilidades de conhecimento proporcionadas por tecnologias como a internet, etc.., etc... etc.... É verdade, é certo que tudo isso é de grande relevância, mas é também irrefutável que o barrilzinho da Heineken, alojado na geladeira de casa, é um esplendoroso produto deste capitalismo que nos arrodeia.

Meus caros, diria mesmo que chegaram ao "ótimo de Pareto" do mundo da cerveja - se mexer, alguém sairá perdendo.

O barril, após 10 horas de repouso entre as verduras, o leite e a manteiga, funciona como um relógio suiço, sem fazer feio ante as melhores choppeiras de bar.

Simples: com o puxar de um disco verde, dá-se vazão ao chopp da Heineken, saboroso - a meu ver, bem melhor que a própria cerveja da marca - sem qualquer conservante, aditivo ou coisa que o valha.

Perfeito! Não a ponto de abonar a besta fera, mas mais do que suficiente para deitar as traças do cotidiano.

8.12.09

a liberdade em marx

Depois de mais de um mês de recesso, volto à carga com as reflexões colhidas nos seminários do IPECH/Facamp.
Como anunciado anteriormente, estamos caminhando com os pensamentos do "jovem Marx", fazendo a leitura de "A Ideologia Alemã" e do "Manifesto".

Está claro que Marx buscava a transcendência libertária do indivíduo. Mas, de que liberdade falava e como alcançá-la são questões de trato bastante difícil:

Primeiro, porque não se trata de buscar uma liberdade idealizada. Como diz logo no início do capítulo II da Ideologia Alemã

"...não é possível conseguir uma libertação real a não ser no mundo real e com meios reais; ... não se pode abolir a escravatura sem a máquina a vapor. (...) a libertação é um ato histórico, não um ato de pensamento".

Segundo, porque se a libertação só é concebível através da atividade concreta (o Trabalho) e esta se processa num contexto de crescente divisão social do trabalho - esta, uma usina de desigualdades - então têm-se um processo contraditório em que os interesses particulares haverão de se subordinar aos interesses gerais (contradição que se expressa nas lutas travadas no seio do Estado). Noutros termos: a cooperação, que recorrentemente nos abre a possibilidade de superação das necessidades materiais, por sua potência, ganha autonomia (se naturaliza) e nos sacrifica a liberdade (nos aliena).

Essa dependência integral (do indivíduo em relação à sociedade), que caminha na direção de uma cooperação histórico-mundial dos indivíduos (divisão do trabalho em escala planetária), ao mesmo tempo em que leva ao limite os poderes de domínio de uns contra os outros, lança a oportunidade de controle consciente desse poder, libertando os indivíduos da "fixação a uma atividade social"e dando-lhes capacidade de fruição consciente e voluntária das atividades produtivas/criativas. É isso que chamará comunismo, uma sociedade que elimina a divisão social do trabalho e com ela a propriedade privada.

É impressionante o vigor do pensamento de Marx ante a realidade histórica atual. O caminhar dos modos de produção rumo a uma História Mundial parece evidente, assim como o poder resultante da intensificação do processo de divisão do trabalho o torna cada vez mais alheio aos indivíduos que lhe dão substância.

Contudo, do debate suscitado pela leitura de Marx, emerge como problema crucial a questão do controle consciente daquele poder emanado da divisão do trabalho. Como esperar que nos tempos atuais haja uma convergência de interesses entre os não-proprietários a ponto de reivindicarem o controle do Estado e, a partir dele, o interesse comunitário? É possível fazê-lo ante um mundo em que a "consciência" foi apropriada por interesses particulares, onde os meios de comunicação dissolvem os interesses de classe (derivados da divisão do trabalho) e reorganiza a sociedade de acordo com padrões de consumo?

Acredito que seguiremos por essas questões no caminhar dos Seminários. Por ora, é só.


17.8.09

gracias por el fuego


Na última mensagem que enviei ao biscoito, sugeri ao Idelber Avelar que fizesse uma seção do Clube de Leituras comparando o livro "O Estrangeiro", de Albert Camus, com o livro "Gracias por el fuego", de Mario Benedetti.

Porém, algumas horas depois, eu e uma pá de gente caiu das teclas ao saber que o Idelber cometia seu blogcidio (vide post abaixo).

E agora? Agora tento eu aqui um arremedo de clube de leitura.

O que me fez pensar na comparação entre os dois livros foi o fato de que ambas as narrativas conduzem os seus protagonistas a uma inescapável sina homicida. Atordoados pela existência, pela escassez de sentido da vida, pelo absurdo do cotidiano, caminham para um crime que parece inevitável e que em cada qual se resolve a seu modo.

Até aí, nada de novo, são muitos os enredos que percorrem toadas semelhantes, com punsões de morte surgindo a partir de um protagonista crescentemente atormentado.
Mas, no caso dos dois a que me refiro, a comparação me parece especialmente interessante (e certamente poderia ser feita entre outros personagens parecidos) justamente porque, enquanto para Ramon Bundiño (de Benedetti) o caminho para o assassinato é pavimentado pelo excesso de nexos, por uma vida encharcada de sentidos, de determinações familiares, históricas e sociais (muito se trata da história da nação uruguaia), e só a morte resta como saída, para Mersault (protagonista de O Estrangeiro), a angústia existencial que lhe autoriza o crime decorre da fragilidade dos nexos que amarram o seu cotidiano, da forma fortuita com que é empurrados para o dia de amanhã, da porosidade das circunstâncias que, a depender do sol ou do barulho, são razões para a morte tanto quanto as de Ramon.

Justamente porque não compartilham das mesmas razões (ou melhor, porque suas razões têm naturezas quase opostas) mas vivem um descolamento da existência semelhante e se encontram motivados para um mesmo fim é que o paralelo entre os dois livros me pareceu rico.

Haveria ainda outra dimensão a contrapor os dois livros - a relação do indivíduo com o seu país - mas não me atrevo a tanto, até porque lembro menos de como isso permeava a narrativa de O Estrangiro, que li já faz um bom tempo.

Mas fica aí a sugestão. A quem interessar, fazer a leitura desses dois livros e se aprofundar na análise dos dois personagens.

26.6.09

zé do Caroço

Êta samba bom. Criação da grande Leci Brandão, entoado pelo Seu Jorge, que junto ao falecido João Nogueira, considero das melhores vozes para o ofício de sambista.