Um pequeno detalhe faz grande diferença na execução das políticas públicas chilenas: o RUN (Registro Único Nacional).
Instituído nos anos 70, trata-se de um número que o sujeito recebe ao nascer e com o qual segue até o túmulo. Serve como seu identificador para todo e qualquer serviço público do país, além de outros tantos privados.
Com ele, resolve-se em grande medida o problema da multiplicidade de sistemas de registro de informações que se proliferam nos serviços públicos. Basta utilizar o RUN que qualquer cadastro pode ser intercambiado com os demais. Assim, se o órgão "A" precisa complementar as informações que dispõe sobre sua clientela com as informações coletadas pelo órgão "B", basta assinar um termo de cooperação, trocar os arquivos com a relação de RUNs e pronto, atualizam-se os bancos de dados.
Aos que não costumam lidar com o tema dos registros sociais a questão pode parecer bobagem, mas, pela falta de algo parecido no Brasil, perdem-se rios de dinheiro e se trabalha num cipoal que, se não mata, aleija.
De resto, tem a questão da confidencialidade das informações, que sempre é lembrada por aqueles que temem que o RUN seja jantado pelo Leviatã. A esses, é necessário dizer que de um jeito ou de outro, na Praça da Sé ou na 25 de Março, com cinquenta pratas se consegue todo e qualquer banco de dados sigiloso do país. Da Receita Federal às Casas Bahia.
A boa notícia é que o Governo Federal está anunciando para breve o Registro de Identificação do Cidadão (RIC) que deverá ser o início de um processo de unificação no Brasil. Haverá um longo caminho de integração das bases de dados, mas ao menos começamos a ceifar o cipó.
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24.8.10
22.8.10
santiagas II
Alguns posts atrás, fiz um breve relato de minha recente experiência no Chile, onde estive estudando as suas políticas sociais. Volto ao assunto, tratando com mais vagar de cada um dos temas que mais me chamaram a atenção.
Antes, uma consideração importante. A Consertación Nacional que se seguiu ao período Pinochet e durou 20 anos - interrompida só agora, com a eleição do milionário Piñera - permitiu uma continuidade de gestão rara e invejável. Como resultado, percebe-se a elevada capacidade técnica dos gestores do governo central, uma arraigada cultura de planejamento - que vem de longe, desde Carlos Mattos - com uma execução sem afogadilhos, sem depender de herosimos e com farta documentação dos procedimentos.
Mas vamos a um exemplo:
Começo pelo sistema de Oferta Preferente. Trata-se do seguinte: como bem sabem os que conhecem a gestão pública, o tema da intersetorialidade é dos mais cantados e menos praticados dentro dos governos. Não é nada fácil estabelecer parcerias programáticas horizontais entre ministérios ou secretarias. Para enfrentar essa questão, o que fez então o MIDEPLAN? Passou a ofertar aos parceiros institucionais recursos orçamentários capazes de galvanizar a intersetorialidade. Assim, por exemplo, quando o programa de apoio às famílias de alta vulnerabilidade precisa garantir um tipo de atendimento psicológico mais cuidadoso a seu público, "compra" do Ministério de Saúde o desenvolvimento de uma política diferenciada, transferindo recursos de seu orçamento ao ministério parceiro. Significa que a universalidade da saúde está comprometida? Creio que não. Trata-se tão somente de reconhecer que as condições de acesso à rede de serviços públicos não são equânimes e que, portanto, deve-se estabelecer mecanismos que facilitem o acesso àqueles que por circunstâncias diversas (incapacidade física, desconhecimento, medo, falta de recursos, constrangimento, desalento ou o que quer que seja) não chegam às portas da rede pública.
16.8.10
santiagas
Após 7 dias mergulhado em Santiago estudando o sistema de proteção social chileno, ressalto algumas das impressões que considero mais relevantes:
1) Nos 20 anos de Consertação Nacional (pós-Pinochet), houve um grande desenvolvimento institucional; é impressionante a qualidade de planejamento e gestão nas estruturas gerenciais do governo central;
2) Foi possível garantir continuidade às políticas públicas, que seguiram uma trajetória coerente e de progressivo aperfeiçoamento;
3) Para garantir a difícil arte da intersetorialidade, de que tanto se fala no setor público, foi utilizada - nas áreas sociais - uma criativa estratégia de pactuação política, onde o órgão interessado em estabelecer uma ação com apoio dos demais, oferta a cada parceiro um tanto de seu orçamento, "comprando" para o seu público alvo o atendimento diferenciado ou especializado de que necessita;
4) A dicotomia "universalização x focalização" não é apropriada para compreender a realidade chilena. O Estado chileno, apesar de ter sido um dos mais destacados representantes do neoliberalismo, oferece um amplo cardápio de serviços públicos que, comparado ao Brasil, é bastante generoso em alguns aspectos (todo chileno tem direito a uma habitação; 100% dos lares têm água tratada e rede de esgoto; 100% têm acesso à energia elétrica; todos têm direito a 12 anos de ensino gratuito - e todas as crianças estão na escola, entre outros);
5) As políticas públicas de menor abrangência são a Saúde (que cobre 73% da população) e a Previdência (que depois da reforma da Bachelet garante pelo menos uma aposentadoria básica a todos os trabalhadores);
6) No final da década de 90, ao notar que o elevado crescimento do PIB não era suficiente para melhorar as condições de vida dos 5% mais pobres, o MIDEPLAN (ministério responsável pelas políticas de assistência social) deu início ao programa CHILE SOLIDÁRIO, que logrou grande êxito ao definir uma estratégia bastante singular de intervenção familiar. Focalizado para os 5% mais vulneráveis - definidos segundo um ranqueamento amplo que considera 7 dimensões da vida das pessoas - o programa Chile Solidário se destaca pelos seguintes aspectos:
- Todas as famílias com pontuação inferior à linha de corte, são visitadas semanalmente por um Agente Social (com formação superior) que define um plano de ação com a família para que ela acesse à rede de proteção social. A partir do plano, o agente visita semanalmente a família durante dois anos, acompanhando e ajudando no alcance das metas.
- Durante esses dois anos, a família recebe um bônus mensal em dinheiro para que possa ter melhores condições de acesso à rede de serviços sociais;
- Após esse período de dois anos (conhecido como Programa Puente), as visitas do Agente Social se tornam menos frequentes e o bônus diminui de valor.
- Além disso, existem programas similares para alguns públicos específicos: idosos que vivem sem companhia de familiares; crianças de 0 a 4 anos, para as quais são aprofundados os diagnósticos e as intervenções, considerando desde aspectos de saúde, como também cognitívos, psicológicos, etc.; crianças cujo pai ou mãe estejam presos, garantindo não só apoio psicosocial à família, mas também auxiliando no estabelecimento e manutenção do vínculo dos filhos com o pai preso - o mais interessante, é que o Apoiador Familiar ajuda a família a elaborar um caderno de mensagens que vai dos filhos para o pai preso e vice-versa, de tal forma que se mantenham em contato durante o cumprimento da pena. Assim, tanto filhos podem ter o sentimento de perda diminuído, quanto os país na prisão permanecem vinculados à família, ajudando na superação da solidão e ampliando as possibilidades de reinserção na sociedade.
Enfim, é muito interessante olhar de perto a tal "focalização" a la chilena. A meu ver, não se trata de limitar o acesso universal, como pode sugerir uma análise mais apressada. Trata-se de ir à unidade familiar e estabelecer, caso a caso, os nexos necessários para que o seu desenvolvimento - em amplo sentido - seja o melhor possível. Creio que essa abordagem é especialmente importante para países como nosotros, que partem de uma estrutura social muito heterogênea, em que a simples garantia de direitos e serviços universais não é condição suficiente para que a oferta dos serviços públicos seja acessada de maneira equânime pelos distintos grupos sociais.
E fica a dúvida quanto ao novo governo. Há uma evidente tensão entre os gestores, quanto a sinais de reformas "market friendly" em andamento. Os próximos meses deverão ser especialmente reveladores dos novos ventos. A conferir.
1) Nos 20 anos de Consertação Nacional (pós-Pinochet), houve um grande desenvolvimento institucional; é impressionante a qualidade de planejamento e gestão nas estruturas gerenciais do governo central;
2) Foi possível garantir continuidade às políticas públicas, que seguiram uma trajetória coerente e de progressivo aperfeiçoamento;
3) Para garantir a difícil arte da intersetorialidade, de que tanto se fala no setor público, foi utilizada - nas áreas sociais - uma criativa estratégia de pactuação política, onde o órgão interessado em estabelecer uma ação com apoio dos demais, oferta a cada parceiro um tanto de seu orçamento, "comprando" para o seu público alvo o atendimento diferenciado ou especializado de que necessita;
4) A dicotomia "universalização x focalização" não é apropriada para compreender a realidade chilena. O Estado chileno, apesar de ter sido um dos mais destacados representantes do neoliberalismo, oferece um amplo cardápio de serviços públicos que, comparado ao Brasil, é bastante generoso em alguns aspectos (todo chileno tem direito a uma habitação; 100% dos lares têm água tratada e rede de esgoto; 100% têm acesso à energia elétrica; todos têm direito a 12 anos de ensino gratuito - e todas as crianças estão na escola, entre outros);
5) As políticas públicas de menor abrangência são a Saúde (que cobre 73% da população) e a Previdência (que depois da reforma da Bachelet garante pelo menos uma aposentadoria básica a todos os trabalhadores);
6) No final da década de 90, ao notar que o elevado crescimento do PIB não era suficiente para melhorar as condições de vida dos 5% mais pobres, o MIDEPLAN (ministério responsável pelas políticas de assistência social) deu início ao programa CHILE SOLIDÁRIO, que logrou grande êxito ao definir uma estratégia bastante singular de intervenção familiar. Focalizado para os 5% mais vulneráveis - definidos segundo um ranqueamento amplo que considera 7 dimensões da vida das pessoas - o programa Chile Solidário se destaca pelos seguintes aspectos:
- Todas as famílias com pontuação inferior à linha de corte, são visitadas semanalmente por um Agente Social (com formação superior) que define um plano de ação com a família para que ela acesse à rede de proteção social. A partir do plano, o agente visita semanalmente a família durante dois anos, acompanhando e ajudando no alcance das metas.
- Durante esses dois anos, a família recebe um bônus mensal em dinheiro para que possa ter melhores condições de acesso à rede de serviços sociais;
- Após esse período de dois anos (conhecido como Programa Puente), as visitas do Agente Social se tornam menos frequentes e o bônus diminui de valor.
- Além disso, existem programas similares para alguns públicos específicos: idosos que vivem sem companhia de familiares; crianças de 0 a 4 anos, para as quais são aprofundados os diagnósticos e as intervenções, considerando desde aspectos de saúde, como também cognitívos, psicológicos, etc.; crianças cujo pai ou mãe estejam presos, garantindo não só apoio psicosocial à família, mas também auxiliando no estabelecimento e manutenção do vínculo dos filhos com o pai preso - o mais interessante, é que o Apoiador Familiar ajuda a família a elaborar um caderno de mensagens que vai dos filhos para o pai preso e vice-versa, de tal forma que se mantenham em contato durante o cumprimento da pena. Assim, tanto filhos podem ter o sentimento de perda diminuído, quanto os país na prisão permanecem vinculados à família, ajudando na superação da solidão e ampliando as possibilidades de reinserção na sociedade.
Enfim, é muito interessante olhar de perto a tal "focalização" a la chilena. A meu ver, não se trata de limitar o acesso universal, como pode sugerir uma análise mais apressada. Trata-se de ir à unidade familiar e estabelecer, caso a caso, os nexos necessários para que o seu desenvolvimento - em amplo sentido - seja o melhor possível. Creio que essa abordagem é especialmente importante para países como nosotros, que partem de uma estrutura social muito heterogênea, em que a simples garantia de direitos e serviços universais não é condição suficiente para que a oferta dos serviços públicos seja acessada de maneira equânime pelos distintos grupos sociais.
E fica a dúvida quanto ao novo governo. Há uma evidente tensão entre os gestores, quanto a sinais de reformas "market friendly" em andamento. Os próximos meses deverão ser especialmente reveladores dos novos ventos. A conferir.
13.8.10
ligúria de santiago
Santiago é cinza, tem todos os atributos de metrópole, mas, por algum infortúnio, meus raros momentos de lazer desaguavam sempre em arapucas para turistas ou para cosmopolitas basbaques.
Até que cheguei ao Ligúria (clique, vale a pena).
Bar antigo, com um ritmo moderadamente nervoso, garçons ágeis, bons rocks ao fundo, vinhos ótimos e baratos, cervejas boas e comidinhas como se deve. Muito bom!
Bar antigo, com um ritmo moderadamente nervoso, garçons ágeis, bons rocks ao fundo, vinhos ótimos e baratos, cervejas boas e comidinhas como se deve. Muito bom!
Poderia até apostar que a turma do Pirajá tirou do Ligúria as idéias materializadas no bom bar Astor (de São Paulo). Com a diferença que o Ligúria é de verdade.
15.6.09
a coisa aos olhos de Saramago
A recente eleição ao Parlamento Europeu trouxe à luz espectros políticos que muitos julgavam extintos. Assim como ocorreu no entreguerras do século passado, o roteiro de liberalismo econômico seguido de crise financeira faz ranger os dentes xenófobos, dando fome a aventureiros de direita que nem nos piores pesadelos conseguimos imaginar. Atento ao mal cheiro, o escritor José Saramago tem escrito regularmente em seu blog (clique ali => na Redondeza) alertando sobre o perigo que nos espreita.
Vai abaixo um texto dele tratando do assunto. Aos que visitarem o blog do tal, sugiro um outro artigo - Paradoxal - sobre o mesmo espanto político destes dias.
A Coisa Berlusconi
Não vejo que outro nome lhe poderia dar. Uma coisa perigosamente parecida a um ser humano, uma coisa que dá festas, organiza orgias e manda num país chamado Itália. Esta coisa, esta doença, este vírus ameaça ser a causa da morte moral do país de Verdi se um vómito profundo não conseguir arrancá-la da consciência dos italianos antes que o veneno acabe por corroer-lhes as veias e destroçar o coração de uma das mais ricas culturas europeias. Os valores básicos da convivência humana são espezinhados todos os dias pelas patas viscosas da coisa Berlusconi que, entre os seus múltiplos talentos, tem uma habilidade funambulesca para abusar das palavras, pervertendo-lhes a intenção e o sentido, como é o caso do Pólo da Liberdade, que assim se chama o partido com que assaltou o poder. Chamei delinquente a esta coisa e não me arrependo. Por razões de natureza semântica e social que outros poderão explicar melhor que eu, o termo delinquente tem em Itália uma carga negativa muito mais forte que em qualquer outro idioma falado na Europa. Foi para traduzir de forma clara e contundente o que penso da coisa Berlusconi que utilizei o termo na acepção que a língua de Dante lhe vem dando habitualmente, embora seja mais do que duvidoso que Dante o tenha utilizado alguma vez. Delinquência, no meu português, significa, de acordo com os dicionários e a prática corrente da comunicação, “acto de cometer delitos, desobedecer a leis ou a padrões morais”. A definição assenta na coisa Berlusconi sem uma prega, sem uma ruga, a ponto de se parecer mais a uma segunda pele que à roupa que se põe em cima. Desde há anos que a coisa Berlusconi tem vindo a cometer delitos de variável mas sempre demonstrada gravidade. Além disso, não só tem desobedecido a leis como, pior ainda, as tem mandado fabricar para salvaguarda dos seus interesses públicos e particulares, de político, empresário e acompanhante de menores, e quanto aos padrões morais, nem vale a pena falar, não há quem não saiba em Itália e no mundo que a coisa Berlusconi há muito tempo que caiu na mais completa abjecção. Este é o primeiro-ministro italiano, esta é a coisa que o povo italiano por duas vezes elegeu para que lhe servisse de modelo, este é o caminho da ruína para onde estão a ser levados por arrastamento os valores que liberdade e dignidade impregnaram a música de Verdi e a acção política de Garibaldi, esses que fizeram da Itália do século XIX, durante a luta pela unificação, um guia espiritual da Europa e dos europeus. É isso que a coisa Berlusconi quer lançar para o caixote do lixo da História. Vão os italianos permiti-lo?
José Saramago, junho 2009
.
15.2.09
a decadência mexicana

Cresce na imprensa o número de notícias dando conta da decadência econômica e social observada no México (veja-se, por exemplo, matéria no Estadão de hoje). Ao longo dos últimos anos, principalmente a partir do avanço de governos de viés liberal e do acordo de livre comércio firmado com os EUA (Nafta), avança no país o desmantelamento de seu tecido nacional, com crescente distanciamento político e econômico entre suas classes e suas principais regiões. Mais recentemente, em seus maiores centros urbanos, cresceu dramaticamente os níveis de violência e a instituciuonalização do crime organizado ligada ao tráfico de drogas, que transferiu seus núcleos de poder da Colômbia para as cidades mexicanas.
No cinema, uma mostra trágica desta nova era mexicana é o filme La Zona, (Zona do Crime), de 2007, que retrata a fragilidade do Estado ante uma elite liberal, arrogante e cosmopolita e um mar de pobres a habitar as margens inóspitas da economia maquiladora.
E é especialmente reveladora a trajetória mexicana (incensada pelos nossos mídia-ligeira) se a compararmos com a trajetória argentina (malhada pelos quatro ventos). Alinhados como emergentes promissores há dez anos, os dois países seguiram rumos distintos nesta primeira década do século XXI e hoje parece obvia a muito mais confortável situação da Argentina (apesar da crise momentânea) ante a deterioração profunda que afeta a sociedade mexicana.
30.1.09
uma boa análise da ousada macroeconomia argentina
Desde quando bateu o fundo do poço em 2003 e elegeu para a presidência um desconhecido governador patagônico, a Argentina tem trilhado uma ousada e exitosa política econômica, cujas premissas "demodê" são o interesse nacional e a retomada da autonomia sobre as políticas macroeconômica (fiscal, cambial e monetária)
Por aqui, lamentavelmente, o que nos traz a imprensa são os cacuetes peronistas do casal Kirshner, que supostamente caminham por um populismo desenvolvimentista retrograda e cucaracha - sabemos bem que nossa imprensa prefere o frescor cosmopolita da Casa das Garças e de seus economistas planilheiros, arautos do fim do Estado-nação e da bem-aventurada liberdade de movimentação dos capitais.
Pois bem, como são raras as vozes divergentes e esclarecidas sobre o assunto, reproduzo abaixo o artigo do economista Paulo Gala (FGV) com uma acurada análise da trajetória da economia argentina nas últimas duas décadas. Lamento apenas não ter conseguido reproduzir a tabela (mencionada no texto).
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O Modelo Argentino
Paulo Gala
Valor Econômico, 30/01/2009.
A Argentina é hoje na América Latina o país que pratica o modelo macroeconômico mais próximo do chinês. A estratégia de câmbio competitivo, juro real baixo e superávits fiscais tem gerado resultados muito positivos do ponto de vista de crescimento e dinâmica de dívida interna e externa, apesar dos conhecidos problemas com a inflação. A tabela abaixo mostra um resumo dos resultados macro do país desde os anos 90. O primeiro período foi marcado pelo plano de conversibilidade e busca da estabilização de preços e teve como consequência uma grande sobrevalorização do peso que acabou resultando na crise argentina de 2002. O segundo caracteriza-se pela tentativa de recuperação do crescimento e níveis de emprego no país, através da manutenção da taxa de câmbio real num nível competitivo e fomento de poupança interna e investimento.
No primeiro período, que vai de 1993 a 2001, observa-se que a estratégia de crescimento com poupança externa, câmbio sobrevalorizado e taxas de juros elevadas acabou por produzir um baixíssimo nível de poupança interna (14,7) e uma forte dependência de poupança externa para financiar gastos públicos e consumo interno. A taxa de investimento permaneceu baixa na casa dos 18%. O segundo período foi marcado por um enorme aumento da poupança interna de 14,7% do PIB para 24%. O investimento aumentou em dois pontos percentuais e a poupança pública passou a 3,6% do PIB. A poupança externa se tornou negativa, ou seja, a Argentina passou a trabalhar com superávits em conta corrente para reduzir sua dívida externa. Como explicar tal mudança?
A meu ver uma das principais explicações encontra-se na alteração do regime macroeconômico. A mudança para um padrão de câmbio competitivo que estimula exportações e produção doméstica teve como conseqüência o aumento da renda e lucros que são a principal fonte de poupança interna. A utilização da capacidade instalada ociosa e o aumento do emprego e da produtividade decorrentes do aumento da demanda por exportações e investimento geraram produção e renda capazes de estimular a poupança doméstica. Com uma taxa média de crescimento próxima a 8% entre 2003 e 2008, o regime macro da Argentina do segundo período privilegiou o crescimento da renda interna em detrimento do endividamento externo, que foi a base do modelo nos anos 1993-2001. É certo também que logo na entrada do plano de conversibilidade houve crescimento forte, mas depois de 1994 as taxas passaram a ser baixas e instáveis, devido ao modelo de inserção financeira escolhido pelo país.
Muitos países passaram pelo mesmo tipo de dinâmica na Ásia e América Latina nos anos 90, com destaque para o Brasil. China e Índia foram provavelmente os que menos sofreram já que tiveram uma inserção diferenciada como agora faz a Argentina. Alguns economistas tem argumentado que o modelo chinês não poderia ser implementado no Brasil ou América Latina devido aos baixos níveis de poupança doméstica. Assumem que os altos níveis de poupança interna e superávits em conta corrente são decorrência da baixa propensão individual a consumir dos chineses e não de um resultado do arranjo macroeconômico do país com câmbio competitivo e juros baixos. O caso argentino é interessante pois mostra que é possível sim aumentar a poupança doméstica na América Latina. Basta que o regime macroeconômico seja adequado.
No caso latino-americano, e especialmente no argentino, as sucessivas crises cambiais dos últimos anos podem ser explicadas pelas tentativas de crescimento puxado pelo consumo e excessiva utilização de poupança externa. Sobrevalorizações do câmbio real e salários artificialmente elevados resultam numa "insuficiência" de poupança interna e déficit em conta corrente, sendo a Argentina dos anos 90 um exemplo paradigmático. Como mostram os dados da tabela, o problema da "insuficiência de poupança" da Argentina estava na sobrevalorização cambial e não em supostos hábitos de consumo.
O Modelo Argentino
É certo que o aumento no preço de commodities e a aceleração da economia mundial contribuíram muito para o desempenho recente argentino. Mas não podemos nos esquecer que muitos outros países passaram pelo mesmo período apresentando resultados piores em termos de crescimento, contas públicas e externas, como foi o caso brasileiro. Ou seja, a política macro doméstica faz a diferença como bem aponta o caso argentino. Quanto ao problema da inflação, que de fato é muito relevante, o erro argentino repousa principalmente no manejo da política fiscal. Ao praticar um câmbio real muito competitivo e uma taxa de juros real baixa, toda a responsabilidade sobre o controle da inflação recai sobre a política fiscal. Para manter os preços sob controle o governo argentino deveria ter praticado um superávit fiscal muito maior e não tentar "controlar" a inflação pela via da maquiagem de índices.
Para concluir, vale mencionar uma possível lição positiva do caso argentino para o Brasil. Ao contrário do que pensam muitos economistas brasileiros, a poupança interna não é uma variável exógena, que independe da política econômica. Uma política macroeconômica adequada é capaz de estimular a formação de poupança interna, evitando dinâmicas de endividamento e crise no setor público e externo. A Argentina sofrerá certamente com a crise, especialmente por conta de sua dependência de preços elevados de commodities e de exportações de manufaturados para o Brasil. Mas sua opção de integração financeira mais autônoma na economia mundial ajudará a atenuar os efeitos financeiros da crise. Os superávits em conta corrente e a melhora das contas públicas ajudarão a amortecer o que vem pela frente. Ao contrário do Brasil e leste europeu que já vinham operando com déficits em conta corrente, o comportamento argentino se aproximará mais dos asiáticos que preservaram seus superávits externos nos últimos anos.
Paulo Gala é professor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas.
7.12.08
porteñas, como no?

Não estou entre aqueles brasileiros que exercitam sua autoestima rivalizando com los hermanos argentinos. Ufanismos à parte, bastam algumas horas em Buenos Aires para reconhecer que em matéria de saber 'viver a urbe' os caras estão passos largos à frente.
Pois em recente viagem por lá, passei por alguns recantos especialíssimos, que compartilho aqui.
Comecemos pelo pouso: um muito charmoso hotel, cujo nome é a data de construção da casa: "1890". Tipo bed&breakfast (ou Boutique), com apenas seis apartamentos alinhados ao longo de um corredor-jardim, é uma construção típica das casas de tradição ibérica do século XIX. O lugar é realmente lindo, e tem como dona uma artista plástica de muito bom gosto que precisou fazer da casa da família uma fonte de renda. Recomendo em especial o apartamento "camélias brancas". A um casal enamorado não faltará nada.

Depois de enebriados pelas camélias do 1890, sugiro atravessar a pesada porta de madeira negra que leva à Rua Salta. Virar à direita e, apenas alguns passos depois, batam na portinha tímida de um restaurante chamado Aramburu (fica no nº 1074). Não se deixem despertar. Apenas sigam as doces orientações da garçonete de cabelos vermelhos. Aramburu é o nome do chef, que ao fundo do salão faz das suas, cozinhando cositas inusitadas, meio ao estilo da tal cozinha molecular (que valoriza a combinação de texturas, sabores e reações bioquímicas).
Aceitamos a sugestão do vinho e a 45 pesos (algo como 25 reias) tomei o melhor que já havia experimentado: um "Trumpeter" (syrah&malbec) da Família Rutini. Mousse de fígado de coelho, petiscos da esquerda para a direita (sim, a ordem importa), carré de cordeiro com não sei que molho, .... E, na mesa ao lado, dois casais arquétipos da terra: homens barrigudos de costeletas aparadas, mulheres de roupa acetinada, empetecadas como a Presidenta Cristina. Quanto ao preço, bastante razoával: Maria e eu pagamos algo como 80 reais (160 pesos).
E, para um outro dia, quando já estiver dispersa a memória do Aramburu, a sugestão é comer uma carne como se deve. Trata-se de um pequeno restaurante especializado em carnes, o La Brigada, comandado por um açougueiro que - dizem - é ainda hoje o responsável pelo corte das peças. Segundo lemos em um guia, se não me engano do jornal la Nacion, entre os portenhos o La Brigada é considerado o de melhor carne. E, meus caros, o La Brigada tem a melhor carne. Eu provei.
Antes de mais nada, este é o lugar para se experimentar as míticas mollejas (seriam glândulas salivares? pâncreas? ninguém sabe e quem sabe não diz), muito saborosas. Depois, depois?... depois é escolher uma das opções de carne e se deixar levar pelos sucos rojos. É estritamente recomendável pedir o especial da casa, corte "descoberto" pelo dono, que a ninguém conta o segredo. Vem à mesa inteiro (do tamanho de uma picanha) e é solenemente "fatiado" com uma colher de prata pelo garçon.
Ao sair do La Brigada, que tem dois endereços no coração de San Telmo, sugiro... qualquer coisa.
14.9.08
olha o uruguai aí minha gente!!!
Não é a toa que em recente viagem a Montevideo, sentia-se que pairava no ar um certo espírito de bem-aventurança. Segundo informa a Agência Reuters, o PIB uruguaio cresceu nada menos que 13,1% nos primeiros 6 meses de 2008, sobre igual período de 2007. É um numero e tanto, de fazer inveja a chinês.
Sob o camando do socialista Tabaré Vázquez, este é o quarto ano de crescimento acelerado da economia uruguaia (cresceu 7% nos últimos três anos), puxado principalmente pela exportação de carne, pela produção de celulose e pelo turismo de negócios (Montevideo é uma das cidades que mais recebe congressos científicos no mundo).
Na foto acima, o belo prédio da Sede do Parlamento do Mercosul em Montevideo.
25.8.08
montevideo

Em suma, deliciosa a cidade de Montevideo. Rincão esquecido, de povo muito amável, acolhedor e de rica cultura.
Como na própria história de formação do Uruguai, me parece que o espírito uruguaio se localiza em algum ponto entre a cordialidade brasileira e a altivez argentina, herdando talvez os melhores traços de cada cultura. Outra deliciosa marca de Montevideo é o ritmo de vida mais cadenciado. Não notei grandes aglomerados, grandes entroncamentos, buzinas ou cidadãos estressados pelas ruas.
Aliás, curiosamente, não é fácil encontrar relógios em lugares públicos no Uruguai. No saguão dos hotéis não se sabe que horas são em Paris, NY, ou sequer em Montevideo.
Também não existem totens luminosos informando as horas entre mensagens dos bancos, nem nas praças ou restaurantes. O Comércio não tem hora para começar suas atividades (entre 9 e 10 a depender de cada comerciante) nem hora para encerrar. Bares e restaurantes vão até madrugada, mas podem fechar mais cedo, a depender do dia, do clima.
Cultos, informados e sem maiores dilemas a resolver, é possível encontrar dois uruguaios jogando xadrez à noite na calçada gelada da Av. 18 de Julho (Av. São João deles) ou tomando el mate dentro da cabine da caminhoneta enquanto o sol se põe.
Nos muros, outro traço curioso: diferente daqui, onde virou mania pichar sem dizer nada, lá quem picha conta com leitores bem formados (veja a foto acima) e usa muito dos muros para manifestações políticas.
Se estiver por lá em algum domingo, visite a feira que parte de frente ao prédio central da universidade pública (na 18 de Julho), onde se vê e se vende de tudo: de velharias impensáveis como garrafas de cerveja vazias, a tarântulas de aquário, sofás e pimentões variados. Aproveite e pare em alguma esquina para comer o tal "chivito" que lá - diferentemente da Argentina, onde significa cabrito - corresponde a um belo sanduiche, recheado de um tanto de boas cositas.
E não se esqueça, para acompanhar, uma Patricia de litro.
19.8.08
uruguaianas II
Falemos um pouco de politica. Aqui tembèm quem està no poder è uma coalizao de centro-esquerda, comandada pelo presidente Tabarè Vasquez que, ao que tudo indica, està muito bem avaliado. O Uruguai, que tem na exportacao de carne a principal fonte de riqueza e no turismo a segunda, vive um bom momento econômico, com o PIB crescendo a 7% a.a., desde 2005. E vejam que loucura, por conta das vacas gordas (lieteralmente) hà um movimento polìtico, que reùne TODOS os partidos do paìs, que pede a reconducao de Tabarè atè 2015. Pode um negòcio desses? Jà imaginaram isso no Brasil? Tucanos, demos, petistas e outros mais reunidos todos na mesma barca?
Realmente este è um paìs peculiar!
Realmente este è um paìs peculiar!
18.8.08
uruguaianas
País curioso este Uruguai. Foi abandonado pela história e nos dá a impressao de que a vida aqui roda na banguela, sem grande ímpeto produtivista, numa fleuma de curva de rio.
Na enorme Rambla (avenida costeira) que margeia Montevideo, pais e filhos passam o domingo pescando no vento frio, sem que de fato haja peixe. Mas isso nao parece importar muito.
Come-se muito bem, bebe-se melhor ainda, em restaurantes simpáticos e saudosos da "belle epòque", que tornou estas terras uma civilizaçao à moda europeia ja nas primeiras décadas do século XX. A fama de que sao um povo simpatico, amável, se confirma a cada prosa. Só nao a merecem os motoristas de taxi, que por alguma razao estrutural - creio que o vidro blindado que separa o taxista dos passageiros é que azeda o ambiente - sao estupidos e mal humorados.
Em compensaçao, a cerveja tem o sugestivo nome de Patricia, as carnes sao excelentes e as livrarias abundantes.
Na enorme Rambla (avenida costeira) que margeia Montevideo, pais e filhos passam o domingo pescando no vento frio, sem que de fato haja peixe. Mas isso nao parece importar muito.
Come-se muito bem, bebe-se melhor ainda, em restaurantes simpáticos e saudosos da "belle epòque", que tornou estas terras uma civilizaçao à moda europeia ja nas primeiras décadas do século XX. A fama de que sao um povo simpatico, amável, se confirma a cada prosa. Só nao a merecem os motoristas de taxi, que por alguma razao estrutural - creio que o vidro blindado que separa o taxista dos passageiros é que azeda o ambiente - sao estupidos e mal humorados.
Em compensaçao, a cerveja tem o sugestivo nome de Patricia, as carnes sao excelentes e as livrarias abundantes.
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