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17.8.14

a política acertada de elevação do salário mínimo

Ainda durante a IIª Guerra, o economista polonês Michael Kalecki escreveu um notável artigo tratando dos aspectos políticos do pleno emprego. A nós, brasileiros, esse texto foi sempre instigante, mas apenas a titulo de curiosidade intelectual ou de exercício teórico, visto que nossa condição de economia subdesenvolvida fazia-se acompanhar pelo que se chamava de “excedente estrutural de mão de obra”. Na melhor das hipóteses, o pleno emprego era uma miragem no horizonte longínquo.

Nestes anos 2000, contudo, a economia brasileira passou por transformações importantes, particularmente no que diz respeito ao seu mercado de trabalho. Embora não se possa afirmar categoricamente que tenhamos alcançado o “pleno emprego” dos manuais de macroeconomia, não parece descabido dizer que em diversos segmentos do mercado de trabalho a oferta de mão de obra se aproxima do seu limite.
Nessas condições, o septuagenário artigo do Kalecki finalmente parece fazer mais sentido ao sul do equador. De fato, bastou um pouco de rigidez da oferta de trabalho para que a luta ideológica se acirrasse, aquecendo o debate em torno das políticas de emprego praticadas no período recente. A classe capitalista e seus economistas ortodoxos, percebendo seu déficit de poder de barganha, foi ao baú resgatar dogmas do liberalismo para combater as políticas de intervenção do Estado sobre as leis de mercado. Além das requentadas críticas à política fiscal, à carga tributária e outros reme-remes de ocasião, a bola da vez é a política de valorização do salário mínimo.  Ripa daqui, sarrafo dali, tem sido cada vez mais frequente nos defrontarmos com gente graúda malhando o nível atual do salário mínimo – diga-se de passagem, ainda um dos mais baixos da América Latina.

Mas não é de hoje que o salário mínimo incomoda essa gente. Não custa recordar que nos anos 90, auge do neoliberalismo no Brasil, seus arautos diziam que o instituto do salário mínimo era um elemento disfuncional de nosso mercado de trabalho, resquício anacrônico da Era Vargas, que promovia uma série de desequilíbrios em nossa economia e nas contas públicas. Quantas vezes ouvimos dizer que aumentar o salário mínimo provocaria, por um lado, uma elevação do déficit da previdência e, por outro, o crescimento da informalidade e do desemprego?

Ocorre que nos anos 2000 o que se viu foi exatamente o inverso do que propalavam os neoliberais. Desde a posse de Lula em 2003 o salário mínimo vem sendo reajustado acima da inflação, acumulando mais de 70% de ganho real, tornando-se a principal razão da queda da desigualdade registrada no período. Paralelamente, para surpresa dos manuais, as taxas de desemprego caíram a seu mais baixo nível histórico, o déficit da previdência diminuiu e - o que talvez seja o mais surpreendente - a taxa de formalização das relações de trabalho cresceu de modo ininterrupto – mesmo durante a crise de 2009!

Não deixa de ser curioso, portanto, que a despeito desse vasto conjunto de evidências a infantaria liberal esteja mais uma vez empenhada em alvejar o salário mínimo. Ante um repique no déficit da previdência - agora derivado da desoneração da folha de pagamentos, tão aclamada pela classe patronal – voltam-se as bazucas contra os ganhos salariais, como se esses fossem produzir uma catástrofe previdenciária ou fazer explodir o nível de preços no país.

Ora, ora...  Nem uma coisa, nem outra. A quem queira ser honesto em suas projeções sobre a evolução das contas da previdência é forçoso dizer que se deve obrigatoriamente desconsiderar as despesas com benefícios assistenciais, pois estas, por princípio constitucional, devem ser financiadas com recursos tributários (contribuições sociais ou transferências do Orçamento Geral da União). Ou seja, o “déficit” que aparece nas contas não é propriamente da previdência, mas sim uma despesa social meritória que a sociedade brasileira (na Constituição de 1988) achou por bem bancar. Além disso, nas projeções alarmistas que circulam pelo mercado, frequentemente são desconsiderados os efeitos do crescimento da produtividade geral da economia. A depender de como arbitraremos a distribuição do excedente econômico no futuro, teremos plenas condições para gozar nossas aposentadorias por mais tempo, sem prejuízo à saúde das contas do INSS.

Quanto ao temor de que os ganhos salariais estejam pressionando o nível geral de preços, também não é preciso mais do que uma xícara de honestidade intelectual com uma dose de conhecimento da realidade para perceber que a inflação brasileira (que no governo Dilma é a menor desde que Getúlio criou o IBGE!) permanece em nível superior ao desejado fundamentalmente por conta dos choques dos preços dos alimentos e da “indexação” residual que foi ofertada aos donos do capital (aluguéis, concessões de serviços públicos) durante o governo FHC.

Portanto, aos que andam praguejando contra a mais importante política social das últimas décadas, devagar com o andor. Não tem cabimento satanizar os aumentos do salário mínimo, até porque ainda falta muito para chegarmos a um patamar decente.

Para encerrar o assunto, talvez o melhor seja mesmo recorrer ao velho adágio lisboeta: “a palavras loucas ouvidos moucos” e ter em mente os alertas de Kalecki. Essa gente diferenciada, quando premida pelo pleno emprego, perde as estribeiras, parte para cima do Estado e tudo que lembre igualdade social. 

Artigo publicado originalmente no site Brasil Debate
http://brasildebate.com.br/a-politica-acertada-dos-aumentos-no-salario-minimo/

colossal pesquisa, tímidas soluções

Nas últimas semanas, as ideias apresentadas por Thomas Piketty em seu livro Capital in the twenty-first century se espraiaram em ritmo viral pelas redes da gente que dialoga sobre os temas econômicos ao redor do mundo. Muitas resenhas foram escritas, críticas pertinentes, louvações justas, a ponto de Paul Krugman ter afirmado que se trata de “um livro que vai mudar muito a maneira como pensamos a sociedade e o modo como fazemos economia“. Oxalá!

Como entender o enorme alvoroço provocado pelo livro de Piketty, esse pacato professor da Paris School of Economics, afinado com a ortodoxia econômica, Phd em Harvard e membro do Partido Socialista Francês?

Certamente uma das razões do entusiasmo decorre do colossal conjunto de dados sobre a desigualdade da riqueza e da renda que foram reunidos no livro e que jamais tinham sido expostos com tal amplitude à luz do dia – apesar de imaginados à sombra e sentidos nas ruas.

As conclusões que Piketty tira dos dados e as recomendações que faz, embora meritórias e certamente necessárias – como a utópica taxação da riqueza ao nível planetário e a defesa do controle de capitais – são, em certa medida, de uma singeleza que chega a ser intrigante. A começar pelo fato de que o autor, tal qual um contabilista de grande envergadura, mira apenas os resultados agregados da distribuição do produto e da renda ao longo da história do capitalismo, passando ao largo do problema central: o caráter disruptivo e incerto da dinâmica da produção e da acumulação. Embora ele reconheça, ao analisar as séries históricas, que o capitalismo só conseguiu sobreviver até aqui (transformado e reformado) graças a profundos e violentos choques exógenos que marcaram o século XX, dá de barato que o capitalismo no século XXI tende a seguir uma trajetória monótona e previsível, à qual, por injusta, ele recomenda reparos.

Não será, pois, por acidente que dois autores que indiscutivelmente revolucionaram o pensamento econômico (Marx e Keynes) são lembrados somente de forma acessória no livro de Piketty. Em sua perspectiva, as crises de reprodução do sistema não aparecem na tela (!) e o que se deve manejar são apenas os critérios de distribuição, de modo a ajustar o viés concentrador, que se revela quase como um fenômeno acidental.

Nesse sentido, seu pensamento estaria mais próximo do direito do que da economia política crítica, pois se debruça fundamentalmente sobre o tema da propriedade e da partição da renda e quase nada tem a dizer sobre o engenho que transforma, aliena e reinventa as forças produtivas sob a égide do capital. Além disso, se por um lado a perspectiva de Piketty se aproxima à de Keynes quando imagina um equilíbrio de longo prazo com baixo dinamismo - e que, portanto, não atende à coletividade (para o primeiro devido à desigualdade e para o segundo devido ao desemprego) - por outro, em muito se distancia dela no que tange ao enfrentamento do problema. Enquanto Keynes vai se dedicar a encontrar meios que alterem ex-ante a dinâmica capitalista para que se alcance uma taxa de crescimento que garanta o pleno emprego, Piketty se debruça apenas sobre os artifícios ex-post que poderiam mitigar a desigualdade.

Mas não é apenas na ausência de diálogo com a teoria econômica crítica que reside a simplicidade do argumento de Piketty. Outro tema crucial de seu livro é a atual impotência dos mecanismos meritocráticos, incapazes de garantir uma distribuição de renda mais equânime e, ao mesmo tempo, permitir a diferenciação dos indivíduos e os estímulos para o progresso. Segundo ele, dada a crescente concentração da riqueza no bolso de pouquíssimas famílias, a saudável competição entre os homens tem sido maculada na origem e, portanto, urge recriar ou instituir mecanismos políticos – tributos – que reestabeleçam condições mais isonômicas para a peleja e assim tracionem a meritocracia, recolocando o capitalismo numa toada mais justa e democrática.

Tudo bem, nada a objetar, muito pelo contrário. Contudo, é ruidosa a ausência de qualquer menção ao fato de que a tributação é sim fundamental, não apenas para reconduzir em condições de igualdade o plantel à arena, mas, essencialmente, porque o produto e a renda são fenômenos sociais, e como tal devem ser distribuídos. A apropriação privada, mesmo que sirva de motor para o progresso e esteja na base da dinâmica que concentra e revoluciona os meios de produção é, desde sempre, um artifício, e não um desfecho mecânico que corresponde ao grau de contribuição de cada indivíduo para a coletividade.

Entre as muitas resenhas do livro de Piketty que estão na praça, apontam-se também outras simplificações problemáticas de sua abordagem - como, por exemplo, o excessivo determinismo econômico (cuja expressão maior é reduzir o problema do capitalismo à persistência de r>g, onde r é a taxa de retorno do capital e g é a taxa de crescimento do produto) e a pouca atenção às especificidades nacionais e históricas dos países que compõem a economia global. Embora não retirem o mérito do grande panorama da desigualdade no mundo do capital, essas críticas são, sem dúvida, pertinentes e reforçam a impressão de que, pelo menos no que tange ao século XXI, o livro lança mão de um aparato metodológico quase naif.

Mas, vá saber...? Não seriam esses aspectos táticos de um Piketty estrategista?

Exaltando os valores republicanos da democracia burguesa (o espectro da Revolução de 1789 ronda as páginas do livro) e sem se desviar do esperanto mercadista, um mérito inegável de Capital in the twenty-fist century é ter conseguido semear no centro do gramado verde do mainstream econômico uma cisma quase existencialista, qual seja: mesmo que tudo funcione comme Il faut, estará tudo dando errado.

Artigo publicado originalmente na revista Carta Capital, edição nº 800, pp 50-51, 16/05/2014.
http://www.unicamp.br/unicamp/clipping/2014/05/19/colossal-pesquisa-timidas-solucoes.

a nova dimensão paulista

Há alguns anos, a NASA divulgou imagens da Terra vista de noite. Belíssimas. Em meio ao azulão profundo, a costa leste dos EUA e a Europa aparecem como constelações vibrantes, espécie de Via Lactea do progresso. Abaixo do equador, porém, esparsos pontos de luz revelam o descompasso do desenvolvimento. As nações periféricas brilham muito menos, também aos olhos dos satélites.

No Brasil, onde por extensas regiões não se enxerga uma única piscadela, apenas na costa sudeste se percebe uma concentração de luzes comparável àquela que se espraia pelo mundo desenvolvido. Num formato que lembra o de uma mão aberta, nota-se que, a partir de uma mancha larga, estendem-se cinco raios, como dedos, cada qual apontando para uma direção do interior. Trata-se do estado de São Paulo: a megalópole sobre o planalto e, sobre as pegadas bandeirantes, os cinco eixos de economia pujante.
E o que nos dizem essas cicatrizes que se avistam do céu?

Contam-nos que as tecnologias da IIª Revolução Industrial (o aço, a eletricidade, o petróleo, o motor a combustão, o automóvel, etc.), que dinamizaram o capitalismo no século XX, também se fizeram presentes por aqui e transformaram profundamente essa região do país. Sobre um tabuleiro fertilizado pelo dinheiro do café, ergueu-se no estado de São Paulo o palco maior da industrialização brasileira.
Efeito reflexo, as forças concêntricas da acumulação capitalista fizeram cristalizar neste mesmo estado os grandes polos do poder contemporâneo: as finanças, os boards das corporações, os órgãos de imprensa, os sindicatos, os partidos políticos.

Quanto aos raios que se estendiam para o interior, indicavam que as punções do desenvolvimento capitalista se desdobraram para algumas importantes regiões do estado, induzidas por investimentos governamentais que trataram de instalar polos industriais em pontos estratégicos do mapa estadual, articulando as fontes de matéria prima aos setores industriais que se irradiavam desde a capital. Foram estes, por exemplo, os casos da região de Campinas, que além de uma refinaria de petróleo (em Paulínia), recebeu diversos centros de tecnologia e pesquisa (CTI, Telebrás, CPQD, Sincrotron, Unicamp, etc.) ou de São José dos Campos, agraciada com outra refinaria e investimentos relacionados à tecnologia aeroespacial (CTA, ITA, Embraer).

No litoral, o porto de Santos, outra resultante do passado cafeeiro, serviu e foi servido pelo vigor da industrialização. Continua sendo o maior porto da América do Sul, responsável pela movimentação de 25% de nosso comércio exterior e por onde passam mais de 1/3 do PIB brasileiro.

Por tudo isso, esse grandioso passado colocou São Paulo como estrela maior do desenvolvimento nacional. Mas o Brasil mudou. A profunda crise que atingiu a economia brasileira nos anos 80 e que resultou em duas décadas de estagnação econômica foi mais ainda uma crise paulista. A outrora locomotiva da nação tem caminhado a taxas mais modestas do que o resto do país. Entre 2002 e 2010, enquanto a taxa média de crescimento do PIB brasileiro foi de 4,1%, ao ano, a de São Paulo ficou em 3,6%. Claro que São Paulo ainda é - e por muito tempo será - o mais importante estado do país. Mas as últimas três décadas revelam que está em curso um processo de desconcentração do parque produtivo nacional, seja por mérito das políticas de desenvolvimento experimentadas em outras regiões do país, seja pela passividade da condução política no estado. De 1985 para 2009 a participação de São Paulo no PIB nacional caiu de 37,6% para 33,4%. Em relação à indústria manufatureira, a queda foi ainda mais abrupta: de 52%, para 42%.

Isso, porém, não deve ofuscar outra tendência importante que se observa na dinâmica interna do estado: enquanto o ritmo de desenvolvimento arrefece na capital, ao interior do estado reserva-se ainda um horizonte com grande potencial de desenvolvimento.

A capital e seu entorno dão claros sinais de fadiga. O gigantismo e a complexidade que caracterizam essa enorme metrópole indicam que talvez se tenha aproximado daquilo que os economistas consideram como uma situação sujeita a “rendimentos decrescentes de escala”. Ou seja, quanto maior é, pior fica.

De fato, há diversos indícios que apontam para o crescente transbordamento econômico em direção ao interior de São Paulo. Hoje, metade da riqueza produzida anualmente no estado de São Paulo é procedente do interior, algo próximo de R$ 700 bilhões e que corresponde a 1/6 do PIB nacional.

Por sua vez, quando nos detemos a observar o interior, notamos que o desenvolvimento econômico que catapultou o estado no último século produziu também lá uma divisão bastante nítida: a banda de cima e a banda de baixo do Rio Tietê. Na de baixo (lado sul),
atravessada pelos eixos da Castelo Branco e da Regis Bitencourt, percebe-se o predomínio de municípios mais pobres, cujas populações têm menor escolaridade e menor expectativa de vida e, portanto, com um padrão de vida mais característico das nações em subdesenvolvidas. Nessa região, prevalecem ainda as atividades agrícolas, com forte crescimento das áreas de reflorestamento, voltadas à produção de celulose e, portanto, não há vetores econômicos que nos autorizem imaginar uma guinada produtiva da região nos próximos anos.

Já na banda de cima (lado norte) se encontram os municípios de maior riqueza, com melhores índices de escolaridade e de longevidade. Os paulistas que ali habitam vivem numa região de grande prosperidade que, em muitos aspectos, lhes permite gozar de um padrão de vida semelhante ao dos países desenvolvidos. E é por essa banda norte do estado que atravessam os três mais reluzentes eixos avistados do satélite: o da Via Dutra (sobre o Vale do Paraíba), o da Anhanguera (passando por Campinas até Ribeirão Preto) e o da Rodovia Washington Luiz, (que se estende até S. José do Rio Preto).

Ciente das particularidades dessa região e de seu grande potencial econômico articulado aos negócios da capital, o governo paulista instituiu em 2008 uma nova unidade territorial denominada “macrometrópole”. Trata-se de um polígono que reúne as regiões metropolitanas de Campinas, de São José dos Campos e a Grande São Paulo. E é certamente desse importante bloco regional que deverão emergir as forças que induziram o novo desenvolvimento que o país espera experimentar nas próximas décadas. Primeiro, porque depois de anos de inanição, há um número considerável de projetos de infraestrutura que deverão impactar fortemente essa área - vale mencionar, por exemplo, a ampliação de Viracopos, que deverá se tornar o maior hub da América Latina, atendendo a 70 milhões de passageiros/ano, ou ainda a construção do Trem de Alta Velocidade, com enorme efeito multiplicador sobre a produtividade regional. Em segundo lugar, porque com o avanço da exploração do pré-sal, estima-se que além do grande impulso econômico sobre a região litorânea (de Peruíbe a Caraguatatuba), deverá haver ainda uma convergência econômica e tecnológica entre esse setor e o aeroespacial, visto que os desafios relacionados à demanda por equipamentos de acesso remoto e controle à distância são comuns a ambos. Por fim, em função dessa região contar com grande concentração de universidades e centros de pesquisa, espera-se que as exigências de inovação que necessariamente decorrerão da retomada do desenvolvimento do país farão convergir nesse polígono empreendimentos capitalistas com elevada capacidade de gerar de valor agregado, devolvendo ao estado de São Paulo o dinamismo que as últimas décadas lhe tiraram.

Artigo publicado originalmente na Revista Meio&Mensagem, edição de maio de 2012.

financeirização, pero no mucho

Nas últimas semanas, por ocasião das comemorações do 1º de maio, passaram pelo Brasil importantes intelectuais europeus que agitaram o debate a respeito do futuro do trabalho no Brasil e no mundo. Ouvir e debater com figuras como as que aqui estiveram (Guy Standing, Pierre Salama, Gérard Duménil, entre outros) é sempre uma ótima oportunidade para sair da zona de conforto e nos obrigarmos a conhecer outras possibilidades de distribuição das peças no tabuleiro. Por mais que as maravilhas online tenham encurtado as distâncias e facilitado enormemente o acesso ao conhecimento, o tete a tete continua fundamental. É também no cafezinho, nas expressões faciais, nos embates entre palestrante e plateia que se revelam as nuances, os interditos, as ênfases que complementam o pensamento e a visão de mundo de cada autor.
Entretanto, experiências como essas também revelam como o olhar do centro, na maioria das vezes, persiste enviesado, contrabandeando para a periferia esquemas de interpretação com ambições totalizantes que são permeados de preconceitos e conclusões inapropriadas.  Não raro a carapuça não nos veste.
Pois me parece que tenha sido esse o caso com as ideias que trouxe na bagagem o ilustre Pierre Salama. Importante crítico da mundialização financeira, Salama esteve no Brasil e na América Latina a fim de difundir seus estudos sobre os impactos da financeirização na vida de nossotros.
O tema da financeirização é, sem dúvida, inescapável a quem queira compreender os diversos aspectos das transformações que se processam na dinâmica de acumulação capitalista ao redor do mundo, à qual nenhuma nação pode escapar. A pressão exercida pela classe dos acionistas em um ambiente econômico global aberto, cada vez mais instável e incerto, encurta dramaticamente o horizonte temporal para os investimentos produtivos, em prejuízo da produção, do emprego e das políticas nacionais. Sob o efeito da ampliação da concorrência intercapitalista em escala global, a exploração do trabalho se intensifica e os casos de regressão social se multiplicam, sem que ninguém saiba ao certo como resistir à dieta do capital.
Salama chegou por aqui imbuído da tarefa de anunciar a nós, brasileiros, que é chegada a 25ª hora: após a crise de 2008, a financeirização estaria finalmente aterrizando em nossas paragens e com ela emerge um conjunto de obstáculos por demais complexos para serem enfrentados pelo Estado Nacional. A prova? A minguada tração macroeconômica que se revela no Brasil desde 2011. Segundo ele, estamos experimentando, com algum atraso, a mesma hipertrofia dos acionistas que há algum tempo empurra a Europa e outras nações desenvolvidas para a estagnação.
Será?
Será que uma suposta mudança de comportamento dos acionistas ou dos CEOs das empresas que atuam no Brasil poderia ser a causa de nosso baixo dinamismo? Não caberia antes perguntar se alguma vez na história do Brasil nosso desenvolvimento esteve associado ao “animal spirit” da classe capitalista? Aliás, rigorosamente, é possível encontrar uma classe capitalista em nosso país?
Até onde sei, o capitalismo brasileiro prescindiu - não por gosto, mas por precisão - do “burguês empreendedor” e foi sempre um artifício gestado e embalado a duras penas pelo Estado Nacional. Assim, não parece muito razoável invocar a perda do que nunca tivemos como fator explicativo dos nossas atuais dificuldades econômicas.
Em realidade, a mediocridade de nossas taxas de investimento e de crescimento do PIB resulta, antes de tudo, de problemas muito mais concretos e evidentes: a manutenção de uma taxa de câmbio valorizada e de uma taxa de juros proibitiva que, em um só tempo, deprime o consumo, inviabiliza o investimento e diminui a envergadura da ação fiscal.
É certo que em defesa dos argumentos de Salama, alguém poderá dizer que esse arranjo macroeconômico que sabota o desenvolvimento brasileiro atual decorre, em última instância, da pressão política exercida pela classe rentista sobre o governo de plantão. É verdade, sem dúvida a causa é essa, mas isso não pode ser interpretado como “financeirização”, nem como uma proeminência do mercado de capitais sobre as outras formas de financiamento da acumulação capitalista. Para bem ou para mal, talvez estejamos ainda em uma etapa anterior do desenvolvimento.
As contradições e disfuncionalidades de nossa macroeconomia são, essencialmente, expressões de um arranjo político cujo centro de gravidade é ainda o patrimonialismo, sustentado sem cerimônia por uma elite econômica que sempre teve grande aversão ao risco capitalista e não abre mão dos ganhos fáceis obtidos por meio de instrumentos jurídicos lastreados em receitas fiscais (títulos da dívida pública; contratos de concessão; contratos de fornecimento e prestação de serviços ao setor público).
A financeirização, portanto, é ainda um aspecto marginal em nosso problemático desenvolvimento, útil para explicar diversas inovações gerenciais que afetam negativamente as relações de trabalho, mas que não se traduz - pelo menos por ora - em causa fundamental de nossa perda de dinamismo.
Muito pelo contrário, o Brasil talvez seja um contraexemplo que deveria servir de inspiração para aqueles que se assustam com o apagamento do Estado Nacional. Na contramão de boa parte do mundo desenvolvido, temos conseguido manejar as políticas públicas com razoável soberania e, só não o fazemos melhor, por conta do arcaísmo da política doméstica, muito mais próxima do Brasil colônia do que das impessoais finanças internacionais do século 21.
Em tempo: nos dias que vão, é sempre prudente guardar alguma distância dos argumentos por demais internacionalistas. É com eles que a extrema esquerda costuma confraternizar com o ultraliberalismo econômico, em prejuízo dos projetos nacionais.

Este artigo foi publicado originalmente no site da Fundação Perseu Abramo, em 19/05/2014
http://novo.fpabramo.org.br/content/financeirizacao-pero-no-mucho

29.6.13

mais uma vez, ainda, pelo começo

(esclarecimento necessário: este texto é um auto-plágio de um artigo que publiquei em março de 2004 na revista Caros Amigos. Fiz apenas alguns ajustes pontuais, atualizando as datas e alguns fatos. Infelizmente, tantos anos se passaram e o tema volta a fazer sentido)

Duas ou três semanas de asfalto e vinagre foram suficientes para azedar o sabor de prosperidade econômica que há quase dez anos embalava os brasileiros, o governo e o PT.

Porém, muito mais grave do que as fraturas políticas que a crise traz à tona é que um eventual fracasso do atual governo significará muito mais do que o tropeço de um partido ou de um programa político econômico. Não afetará somente nossa vida daqui por diante, mas marcará drasticamente a nossa vida pretérita, nossos tantos anos de construção de uma alternativa para este país.

Como muitas vezes nos ensina a história, o sentido das coisas, o rumo dos processos sociais e políticos são definidos de frente para trás – de hoje para ontem. São os eventos do presente que magicamente dão sentido às trajetórias e escolhas do passado e essas, por sua vez, só podem ser plenamente compreendidas a partir do seu desfecho. Sem ele, não seriam mais do que eventos fortuitos, largados ao acaso, ao lado de tantos mais.

É como quando damos o primeiro beijo na namorada. Resgatando na memória, identificamos naquela festa da escola, ou naquele olhar no retrovisor, um encanto que só poderia desaguar no grande amor de hoje. Ou também no futebol, quando tabelamos desde o nosso campo de defesa numa triangulação predestinada a encher a rede, num belíssimo gol de placa. Mas, quantos foram as tabelinhas desperdiçadas pelo centroavante fominha? E quantos olhares em quantos retrovisores não passaram de olhares nos retrovisores?

Para que nossa arte, nossa labuta, faça algum sentido, é imprescindível que de algum jeito consigamos conectar o presente a nossas ambições de ontem. Se não para construir o futuro - como gostamos de acreditar - talvez para amalgamar o passado. 

Pois é com isso que o governo atual e a Presidente Dilma estão lidando. Tenhamos participado mais ou menos ativamente da política nos últimos 30 anos, temos que reconhecer que o PT foi o portador da caneta que parecia predestinada a ligar os pontos de nossa história. Os chumbos da ditadura, a luta pelas Diretas-Já, os desenhos do Henfil, a Constituinte do Dr Ulisses, o Lula-lá, o impeachement do Collor, o sufoco do FHC,... todo esse amontoado de vida só comporá um roteiro inteligível se, ao fim, formos capazes de desaguar em algum mar. Aquele leito caudaloso, expressão talvez das duras escarpas que nos acompanharam ao longo do tempo, não deveria terminar assim, absorvido pela areia da costa, empapuçando um mangue que parece infinito.

Sem um mar, não haverá rio, nem córregos, nem nascentes. 

25.6.11

a moratória que revigora

Enquanto o clima de tensão pré-colapso se espraia entre os europeus, a prestigiosa e conservadora revista The Economist publicou dias atrás em seu site uma nota acabrunhada sobre um estudo no qual são analisados vários casos de moratória de dívidas soberanas (os ditos defaults). Comparando diferentes experiências desde 1999, o tal estudo aponta que, ao contrario do que costumam vaticinar os 'analista do mercado', o desempenho econômico dos países que declararam moratória melhora sensivelmente no período pós-calote.


De fato, como se observa no gráfico acima, com exceção de economias cronicamente inviáveis (Belize, Camarões ou Granada), em todas as demais as taxas de crescimento do PIB pós-calote  (em azul escuro) dão um salto quando comparadas às taxas pré-calote (em azul claro).

Veja-se, por exemplo, como melhorou a vida de nossos vizinhos uruguaios: nos anos que antecederam ao default, amargavam uma recessão que se aproximava de -3% do PIB; declarada a moratória, o PIB só faz crescer, a uma taxa quase chinesa, que hoje já é superior a 8% ao ano.

Mas os números divulgados pela The Economist não revelam apenas esse caráter virtuoso das moratórias. Deixam claro também que são justamente as baixas taxas de crescimento do PIB que muitas vezes levam os países à situação de insolvência. Dessa perspectiva, a decisão de não pagar é o último ato de uma tragédia anunciada e representa apenas o momento de acerto de contas com o passado. Baixado o pano, o país estará livre para a retomada do crescimento em uma nova base, com menor endividamento e menores riscos.

Curiosamente, não li nem ouvi nossos mídia-ligeiras tocarem no assunto.
Pois, market-friendly que são, deveriam estar mais atentos ao jogo.Tais números apenas atestam o que há muito sabemos: trata-se de capitalismo em estado bruto - capital en su tinta! Moral à parte, uma vez declarado o default, a nação ex-caloteira é rapidamente perdoada e abre-se terra virgem a novas rodadas de acumulação capitalista. O apetite dos homens se encarrega do resto.

7.6.11

e quantos dias trabalhamos para o rentismo?

É impressionante como os mídia-ligeira se derretem pelo tema "dias de trabalho necessários para pagar impostos". Em 25 de maio passado, se dedicaram com afinco a divulgar uma campanha patrocinada pelas Associações Comerciais, na qual alguns postos de gasolina se dispuseram a vender combustíveis descontando o valor dos impostos do preço final do produto. Segundo os patrocinadores do ato, tratava-se de uma estratégia para chamar a atenção do público sobre o peso da carga tributária sobre a renda nacional (PIB). Supostamente, a data escolhida demarcava o tanto de dias de trabalho que, em média, nós brasileiros dedicamos a custear o setor público.

Mas se esqueceram de dizer a verdade - o que é deplorável e muito grave, considerando que o assunto é da maior relevância e que, ao contrário do que repercutem os mídia-ligeira, os números trombeteados estão muito distantes da realidade.

Para analisar o peso do setor público sobre a economia deveriam retirar da conta todas aquelas despesas que correspondem a transferências de recursos que apenas são intermediados pelo setor estatal. 

Como se pode observar na figura abaixo (baseada em estudo do IPEA), todas as fatias em tons de azul correspondem a pagamentos realizados pelos órgãos públicos que se destinam a bolsos privados (15,3%). É o caso, por exemplo, das aposentadorias do setor privado (6,9%), das aposentadorias do setor público (4,7%), do FGTS, do Bolsa Família, Subsídios, etc. Não faz o menor sentido dizer que trabalhamos para pagar estas despesas sem considerar que, a depender da nossa condição social (aposentado, desempregado, invalido, etc), receberemos esses recursos de volta.    


Porém, além destas transferências diretas, há uma outra importante porção de recursos públicos que se destina a custear os encargos da dívida pública (os famigerados Juros) que, em 2008, representaram 5,6% do PIB ou 21 dias de trabalho. E, é bom lembrar, que esses 21 dias de suor de cada um de nós destinam-se a manter cheios os bolsos dos 0,5% dos brasileiros que estão sentados no topo da pirâmide - estima-se que cada um desses abençoados recebam aproximadamente R$ 12 mil por mês a título de remuneração dos títulos públicos que mantém em suas carteiras.

Ou seja, retirando tudo que se refere apenas a movimentação de dinheiro entre bolsos privados (transferências diretas + juros), o que resta efetivamente para custear as despesas públicas corresponde apenas a 14,9% do PIB (ou 54 dias de trabalho). É tão somente com esses recursos - chamados de Carga Tributária Líquida - que os três níveis de governo pagam as despesas do SUS, das universidades e escolas públicas, da justiça, da segurança pública, das forças armadas, do legislativo, dos portos, das estradas, do metrô, e tudo mais. 

Portanto, se tivessem algum compromisso com a verdade ou um mínimo de responsabilidade com o país, os mídia-ligeira deveriam fazer o seu carnaval com as Associações Comerciais lá pelo dia 23 de fevereiro e podiam inclusive mostrar tudo que se faz com esse tantinho de dias que se destina a custear o nosso setor estatal.

Em suma: de cada 2,5 dias que suamos a camisa para sustentar o governo, suamos um outro para sustentar um punhado de endinheirados que flanam nas asas dos títulos públicos. 
Com o que será que devemos nos indignar?

PS: para uma comparação internacional, veja o documento do IPEA clicando aqui.                    

3.6.11

sobram razões para a saída de palocci

No início de 2004, quando Lula completava seu primeiro ano de governo, escrevi para o Correio da revista Caros Amigos um artigo que apontava para a excessiva e inaceitável ortodoxia econômica capitaneada pelo então todo poderoso Ministro da Fazenda, Antônio Palocci. Brinquei que caminhávamos para uma situação inusitada - que chamei de o Péssimo de Pareto - na qual nada mais podia piorar sem que alguém fosse beneficiado (ou seja, o Ministro havia maximizado as possibilidades de piora, algo que nem o mais tarado economista ousara pensar).

Pois não é que o renitente Palocci continua encravado no seio dos mandatos petistas, como uma cunha  a garantir os interesses do rentismo e do mercadismo nas instâncias decisórias do país. Se resta algo de ideologia de esquerda na coalizão governista, Palocci deveria ser sacado do governo de imediato, não apenas pelos desvios de sua estratégia de alavancagem pecuniária, mas principalmente pelas inúmeras demonstrações de conservadorismo econômico, que tanto prejudicam e sabotam a rara oportunidade de um governo que navega entre o desenvolvimentismo e o progresso social.

Aos que duvidam ou não se recordam das ações de Palocci na defesa dos interesses rentistas, segue uma lista das mais notáveis:

1. Lutou politicamente para ampliar e tornar definitiva a DRU (Desvinculação das Receitas da União), com o que pretendia ter a liberdade para utilizar os recursos da Seguridade Social para pagamento de despesas financeiras (juros)

2. Foi um militante convicto da autonomia do Banco Central, tese que alimenta o sonho liberal e que em última instância significa transferir o coração da política econômica a uma instituição apartada da política, sobre a qual, portanto, a sociedade não tem qualquer ascendência.

3. Lutou para criar uma lei que obrigasse o governo a alcançar um déficit nominal próximo de zero, ou seja, seria sempre necessário garantir um superávit primário (saldo fiscal antes das despesas financeiras) suficientemente elevado para arcar com os encargos financeiros da dívida pública.

4. Enquanto esteve no governo Lula, conduziu os bancos públicos tal qual bancos privados, abrindo mão do enorme potencial de indução que têm sobre os setores produtivos e de um importante instrumento de regulação indireta dos seus concorrentes no mercado bancário.

Por outro lado, sua saída do governo Lula, creditada ao episódio do extrato do caseiro, alterou sensivelmente a condução macroeconômicas, produzindo resultados bastante positivos para o país: queda da taxa selic; redução do superávit primário; elevação do patamar de crescimento do PIB; aumento das reservas internacionais; redução das taxas de desemprego; crescimento da participação dos bancos públicos no mercado bancário; queda da TJLP para até 4,5% a.a.; duplicação das operações de crédito do BNDES; retomada dos investimentos em infraestrutura (PAC I e II); entre outras mais.

Enfim, o matreiro ex-prefeito de Ribeirão Preto arrasta consigo um caminhão de motivos que justificam o seu expurgo. A seu favor, vende a idéia de que é ele quem faz a ponte com a mão invisível do mercado, um poder que ninguém vê e nem sabe o quanto é forte, mas que segundo seus amigos é fundamental para garantir a governabilidade. 

Às favas! Pura conversa. O vigor de Lula no pós-mensalão (sem o Palocci) e a vitória de Dilma num ambiente de absoluta hostilidade financiada pelos mercadistas parece demonstrar que essa gente não manda tanto quanto costumam alardear seus porta-vozes.

Já vai tarde.

10.5.11

éh...., me passou


É bastante conhecida a expressão de Sergio Buarque de Holanda que, no livro "Visões do Paraíso", chamou de "procissão de milagres" a ocorrência de sucessivos ciclos econômicos que marcaram a história de nosso país.

Recentemente, tratei desse tema em sala de aula.

Dias depois, ao aplicar uma prova e questionar os alunos sobre os determinantes de nossa industrialização, um inspirado aluno se sai com uma tirada inusitada, nem de todo equivocada:

a causa da industrialização? "o vácuo de milagres"

18.4.11

a vida é sonho

Nasça o homem sabendo que
Todo esse império deve ser por ele 
Conquistado ou perdido.

A frase, de Calderon de La Barca, da peça "A Vida é Sonho", serve bem ao excelente artigo do indignado Rubens Ricúpero, publicado ontem na Folha, no qual ele manifesta sua perplexidade não só com a promiscuidade dos agentes econômicos que levaram países inteiros à bancarrota, mas principalmente com a "ausência de indignação moral" de todos, que continuam tocando a vida como se nada tivesse acontecido, assistindo ao desmonte das instituições do bem estar social, como se fosse um desígnio de deus.

12.4.11

excelente artigo de delfim netto

Publicado originalmente no jornal Valor, do dia 12/04/2011

Custo/benefício e legítima defesa
Na organização do universo, Deus foi muito duro com os "cientistas sociais", dentre os quais se destacam os economistas. Para benefício desses últimos, entretanto, construiu um "homem" que age com racionalidade limitada num espaço permanentemente preenchido pela incerteza. Para superá-la abriga-se na imitação e nos costumes. Com um legítimo processo de abstração, esquecemos as expressões "limitada" e a "incerteza" e construímos uma hipótese poderosa: o homem age a partir de um cálculo racional absoluto, obedece a incentivos, procura maximizar os seus benefícios e não tem relação com outros homens. Como já suspeitava (numa nota de rodapé) o ilustre Thomas Robert Malthus (1766-1834), isso abria espaço para entendê-lo aplicando o cálculo diferencial criado por Newton (1642-1727).
E não deu outra! O conhecimento da economia avançou dramaticamente explorando aquela hipótese, até assumir o respeitável grau de "rainha" das ciências sociais. A "ciência" criada por Adam Smith exagerou: predou primeiro a psicologia e depois exerceu seu imperialismo sobre a antropologia, a arqueologia, o direito, a geografia, a história, a sociologia e a política! Enquanto isso ela mesma estava sendo predada pela bela e irresistível matemática! Foi um porre que durou pelo menos um século e meio. Terminou quando exagerou na formulação do "equilíbrio geral" num espaço topológico. Isso deu nascimento a uma revisão da hipótese básica. Redirecionou a observação e o estudo sobre a realidade em que se forma o comportamento do agente econômico, absorvendo e reintegrando o conhecimento das ciências sociais que havia predado.
Não há ciência capaz de recomendar ou não a liberdade de capitais
Nada é mais indicador desse movimento, renovador, do que está acontecendo, por exemplo, com relação à liberdade de capitais. No acordo de Bretton Woods (depois de uma penosa e longa discussão teórica) ela praticamente foi interditada; foi construída lentamente depois que o "gold standard" foi definitivamente destruído pela desvalorização do dólar com relação ao ouro no início dos anos 70 e foi consagrada quando o poder político nos EUA passou, de novo, às mãos do sistema financeiro (como acontecera antes de 1929). Iniciou-se na década dos 80 do século passado, a desmontagem da regulação construída nos anos 30. É um fato interessante que no Consenso de Washington, nos anos 80 do mesmo século, apesar da insistência do FMI, ela nunca foi reconhecida.
Agora, em menos de duas semanas, o FMI modificou a sua posição. Admite que em circunstâncias específicas o seu controle pode ser uma das "ferramentas" da política econômica dos países que estão sofrendo com a supervalorização das suas moedas. Esses, de fato não devem assistir passivamente à erosão de sua base industrial sujeita à competição desleal de países mais "espertos". A resposta imediata veio do organizado e poderosíssimo "lobby" financeiro, o "think-tank" Institute of International Finance, de Washington, financiado pelo sistema financeiro internacional, pela boca do seu economista-chefe, o sr. Phillips Suttle. Referindo-se diretamente ao real nos ensinou que sua valorização está associada ao desempenho e às perspectivas positivas da economia brasileira (o que é uma premissa verdadeira) e que, portanto, deveria ser vista com a maior naturalidade. Logo, admitir e lidar com essa realidade seria um instrumento mais útil do que a imposição de controles sobre o movimento de capitais (o que, infelizmente, é uma conclusão que não decorre da premissa).
O que é evidente nessa discussão? Que ninguém dispõe de uma "teoria científica" para recomendar ou não a liberdade de capitais. Além do mais, nenhuma pesquisa empírica feita com métodos estatísticos robustos pode resolvê-la. Trata-se, na mais benigna das hipóteses, de uma recomendação "normativa" que pode ou não ser útil, mas que, evidentemente, é contaminada por interesses. É uma questão cuja resposta depende das circunstâncias internas e externas de cada país. Dizer, como disse o sr. Suttle (e dizem alguns de nossos melhores economistas), que deixar o câmbio flutuar "naturalmente" é a melhor solução para nosso problema, não tem maior valor "científico". É apenas uma opinião, como todas as outras (inclusive a minha), ditada por diferentes visões do mundo. Afinal, deveria ser óbvio que a "liberdade de movimento de capitais" não está escrita nas "leis naturais" imutáveis da organização do universo.
Parece difícil de entender como ainda não tenhamos internalizado em nossas consciências:
1º) que a macroeconomia (inclusive seus mais recentes modelos) tinha muito pouca coisa a dizer sobre como funciona, de verdade, a economia real. Ela também é mais "normativa" (isto é, expressa mais a vontade de como o sistema deveria funcionar do que como ele funciona) do que "científica" e;
2º) que o aparato econométrico que às vezes aparentemente a sustenta (a "calibração") é terrivelmente deficiente para levar a qualquer conclusão segura. Aliás não deveria haver surpresa: a ciência só avança quando falha!
Ao contrário, portanto, da ideia que as políticas macroprudenciais são uma volta ao passado, elas simplesmente indicam nossa perplexidade com a tragédia a que levou a aparente sofisticação financeira. O momento não é de afirmações apodíticas, apoiadas numa ciência que não existe, mas de avaliação cuidadosa da relação custo/benefício, no curto e no longo prazo, das medidas que estamos tomando em legítima defesa...
Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento

5.4.11

a perda de um grande historiador do pensamento econômico

Em 26 de fevereiro passado, morreu o pensador, sociólogo e economista canadense Gilles Dostaler que, entre outras destacadas obras, escreveu a que pode ser considerada a melhor biografia de J.M Keynes (Keynes and his battles) e que soube reconhecer no pensamento de Keynes a singularidade de suas idéias, sem reduzi-lo ou mistificá-lo.
 Reproduzo abaixo um artigo escrito em sua homenagem, que traduzi de forma um tanto mequetrefe do original em francês.

Em memória de Gilles Dostaler
Gilles Bourque, Bernard Élie, Robert Nadeau, Jean-Marc Piotte, Stéphane Pallage - professores, Universidade do Quebec em Montreal Le Devoir, 7 de Março de 2011, p. UM 6.

Gilles Dostaler pode ser considerado como um dos mais importante historiadores do pensamento econômico, não só em Quebec, Canadá, mas também no mundo acadêmico internacional.
Gilles Dostaler soube dissociar sua pesquisa de seu engajamento político e social. Desde seus anos de faculdade, ele foi um intelectual comprometido e ativo nos debates da sociedade. Na década de 1960, ele foi o primeiro membro do conselho editorial da Parti Pris, ("Tendência") uma revista mensal mantida por jovens intelectuais que teve um impacto considerável à época. Ele foi um dos primeiros a vincular a ascensão do movimento nacionalista na formação da nova classe média canadense, consequência do desenvolvimento de instituições do fordismo e do Estado-Providência.
Juntou-se à revista Socialism do Quebec  na década de sessenta, revista criada em 1964. Após ter feito campanha pelo RIN, ele foi um dos fundadores da CEI (comissão pela independência e pelo  socialismo), grupo dedicado a promover a independência do Quebec e à idéia do socialismo democrático. Foi também um dos organizadores da McGill francessa, que tornou-se famosa como  parte de um movimento mais amplo, reinvindicando a criação de novas instituições acadêmicas francófonas, após o que foram criadas na Universidade do Quebec em Montréal e na rede universitária do Quebec.
Jovem economista, ele esteve envolvido ativamente na organização de cooperativas de economia doméstica,  primeiras associações de consumidores do Quebec.
Endereço alternativo
Após estudos de doutoramento em Paris, tornou-se professor do departamento de sociologia, I’UQAM (1975) antes de se mudar para o departamento de ciências econômicas (1979). Durante a segunda metade da década de 1970, ele foi vice-presidente e presidente do sindicato dos professores da Universidade do Quebec e presidente do comitê de greve de professores de 1976. Ele também foi membro do Conselho Executivo da Federação Nacional de Professores do Quebec (1976-1978), membro do Comitê de Coordenação dos Cem, em 1980, que deu origem ao breve ‘Movimento Socialista’ liderado por Marcel Pepin.
No final dos anos 1970, Gilles Dostaler foi um dos fundadores da Associação de Economia Política (EPA) e foi seu primeiro presidente. A EPA tinha como objetivo difundir um discurso econômico alternativo e a crítica ao pensamento "neoliberal", que se tornaria, em seguida, mais e mais dominante.
Mais recentemente, Gilles Dostaler foi muito ativo no desenvolvimento da economia coletiva, dando  continuidade à sua vontade de contribuir para a disseminação do discurso econômico "alternativo" e de debates críticos junto à sociedade.
Com uma produção científica reconhecida internacionalmente, a produção de Gilles Dostaler é impressionante: não menos de dez livros traduzidos em várias línguas, cerca de 30 artigos nos principais periódicos de sua área, outros 30 capítulos de livros, uma dúzia de colaborações regulares em várias revistas e obras coletivas. Desde 2002, ele assinou no jornal francês Alternatives Éconómiques uma emocionante série sobre os principais autores de economia.
Nos últimos anos, o trabalho de Gilles Dostaler esteve centrado no pensamento de John Maynard Keynes. Economista, filósofo, filantropo, Keynes inspirou as políticas intervencionistas da década de 1930 para a superação da grande depressão. Além de O Pensamento Econômico depois de Keynes (com Michel Beaud), de 1993, Éditions du Seuil, Gilles Dostaler dedicou vários livros ao pensamento de Keynes, incluindo Keynes e suas batalhas (Albin Michel, 2005) traduzido para várias línguas, incluindo inglês, espanhol, árabe e japonês; Capitalismo e Pulsão de Morte (com Bernard Maris), também publicado pela Albin Michel, em 2009 e Keynes, para Além da Economia, com Thierry Magnier em 2009. Estes livros, que tiveram uma impressionante repercussão, são uma novidade vibrante.

Renovação do problema
Para Gilles Dostaler, não se consegue entender a formação do pensamento de um autor sem estudar todos os aspectos de sua vida. No caso de Keynes, ele não deixou nada de lado. Ele teve acesso privilegiado aos seus arquivos no King’s College, em Cambridge, leu cada uma de suas cartas, através de seus diários, seus escritos de juventude, estudou suas contradições, seu amor, sua sexualidade.
Gilles Dostaler realmente revolucionou a metodologia da história do pensamento econômico. A nova abordagem que ele desenvolveu progressivamente em seus muitos estudos consiste em articular uma síntese global de dois modelos de  análise distintos, que aqui se faz uma breve apresentação.
O primeiro desses modelos é uma reconstrução contextual das teorias econômicas: cada economista que contribuíu para a evolução do pensamento econômico de forma um pouco original não pode ser perfeitamente inteligível, de acordo com que postulou Gilles Dostaler, se o contexto social, político e cultural em que trabalhou não for totalmente reconstruído.
O pensamento de um economista  pode ser entendido apenas se for examinado o seu ambiente intelectual (como, por exemplo, suas parcerias intelectuais, seus gostos culturais, suas ligações políticas) se nós traçarmos meticulosamente seu trajeto (as perguntas a que foi submetido, as leituras que fez, as pessoas marcantes que conheceu), numa busca para  compreender sua integralidade, isto é, não só como um pensador, mas antes como um ser humano.
Em segundo lugar, Gilles Dostaler tinha a intenção de tirar rigoroso proveito das ferramentas desenvolvidas nas análises epistemológicas contemporâneas. Para Gilles Dostaler, cada um dos principais marcos da evolução do pensamento econômico podem ser explicados se reconhecermos o que ocorre como pano de fundo das rupturas  fundamentais com as formas anteriores de pensamento. O desafio, então, é tentar entender por que Marx rompe de forma radical com Ricardo e com os clássicos, por que Keynes também rompe com os clássicos e com os neoclássicos e por que, enfim,  um economista como Hayek, mais atento do que qualquer outro ao tema dos  limites cognitivos do agente econômico, trata de destacar de forma quase obsessiva a impraticabilidade de uma economia centralmente planejada.

O homem
Todos aqueles que o conheceram puderam testemunhar que, por trás do pesquisador rigoroso, havia um homem atencioso e carismático, um homem engajado, sempre militando por uma sociedade melhor, um homem que amava a vida em todas as suas dimensões.
O câncer, contra o qual ele lutou, não lhe tirou em nada o prazer para viver com grande intensidade cada momento. Se ele gostava de mergulhar nos arquivos de autores ilustres, Gilles Dostaler amava igualmente fazer uma refeição ou brigar com um salmão no rio de Gaspésie. Ele também era um grande fã de touradas. A caça e a pesca foram artes que permitiram-lhe inscrever-se no equilíbrio entre homem e natureza e de lembrar-lhe quanto somos pequenos ante esse mundo que nos hospeda.

31.3.11

enfim, o pós-autismo?

Embora a data não inspire comemorações, segue uma análise alvissareira sobre a renovação das idéias econômicas

Por Luiz Nassif

O fim dos "cabeças de planilha"

Na semana passada, o seminário “Repensando a política macroeconômica”, organizada pelo FMI com os economistas David Romer, Joe Stiglitz e Michael Spence e com seu economista-chefe Olivier Blanchard ,decretou oficialmente o fim da era dos “cabeças de planilha” - tipo de analista que contaminou o mercado financeiro nas últimas décadas, com simplificações que desmoralizaram o que se entendia por ciências econômicas.

Munidos de suas planilhas, e com conhecimento insuficiente em política, análise setorial, ciências sociais, psicologia social, e mesmo correlações básicas de economia, esses economistas julgaram ter descoberto o equilíbrio universal, o fim dos riscos sistêmicos. Qualquer questionamento à sua falsa ciência era tratado com superior desprezo.

O encontro promovido pelo FMI é a pá de cal nesse tipo de pensamento cabeção, primário, manipulador, insuficiente.

Um dos princípios era a visão monofásica de que cada instrumento de política econômica deveria visar apenas um objetivo.
Por exemplo, para inflação em alta, aumento das taxas básicas de juros. Esse aumento impactava a dívida pública, apreciava o real, causava desequilíbrio nas contas externas que, mais à frente, provocava uma maxidesvalorização do real que comprometia o próprio combate à inflação.
Pouco importava: juros só devem se preocupar com a inflação.

Às vezes o aquecimento do consumo se dava em um setor específico. A situação poderia se resolver com uma restrição ao financiamento àquele setor. Mas as “boas práticas” diziam que apenas os juros poderiam ser.

Anos atrás, monetaristas brasileiros – da melhor escola de Chicago – alertavam para os erros da política de metas inflacionárias.
Define-se uma meta, mede-se a expectativa dos agentes econômicos. Se estiver acima da meta, aumentam-se os juros. Os monetaristas alertavam que nesse modelo não se levava em conta o excesso de liquidez (de moeda) na economia.
Consequência: esse excesso formou bolhas especulativas por todos os poros do sistema financeiro internacional, resultando na grande crise de 2008.

Esse pensamento manipulador criava um agente financeiro imaginário, racional que por si só seria capaz de coibir qualquer abuso do sistema financeiro internacional, permitindo abrir mão de qualquer regulação. Se uma instituição abusasse, se algum ativo estivesse muito caro, os investidores simplesmente trocariam por outras instituições ou ativos, regulando automaticamente o mercado.
Era uma miragem, como se todo investidor fizesse cálculos complexos, análises de risco, arbitragens.

Nas instituições financeiras, havia cálculos infernais mostrando que quando despencasse a cotação do ativo 1, haveria um aumento na cotação do ativo 2, de tal maneira que aplicando em ambos o risco tenderia a zero.
Imbecis, sem nenhuma noção do que uma crise sistêmica provocava no mercado. Quando sobrevinha a crise, caía o ativo 1. Para cobrir sua posição naquele mercado, o banco vendia o ativo 2, provocando também sua queda e assim por diante.

Havia muito mais erros nessas formulações. Nunca foram combatidos porque criaram uma cadeia improdutiva de juros e especulação.
Só a crise para repor o conhecimento econômico no seu devido lugar

27.3.11

passagens de ônibus: fim da picada ou começo da mordida?

Sabemos todos que as grandes cidades brasileiras estão travando por conta do uso irracional do automóvel particular. O mais grave, contudo, é que sabemos disso há décadas, e continuamos comprando carros, construindo avenidas e viadutos e, sabendo cada vez mais.

Ao longo dessas décadas, enquanto agonizamos encalacrados, pudemos ouvir no radio os analistas econômicos dizerem que o setor público é um péssimo gestor e que subsídios de qualquer natureza devem ser banidos: produzem distorções nos sistemas de preços, dão fôlego a empresas incompetentes e constituem uma via azeitada para a corrupção. Recado: os serviços de utilidade pública devem ser transferidos, na forma de concessão, a empresas privadas e os preços devem ser determinados de acordo com as regras de mercado, isto é, devem cobrir os custos efetivos e ainda garantir uma margem de lucro que seja empregada em novos investimentos e ainda remunere o capital. Simples, cristalino, imune aos desvios morais e ao apetite particularista que caracteriza a alma humana.

Só que o simplismo dos economistas de rádio, o espírito sabujo dos mídia-ligeira, faz questão de esconder que, embora de fácil digestão, as leis de mercado falham tremendamente quando é preciso conciliar interesses de curto e de longo prazo ou quando se trata de definir o preço de um bem público - como é a passagem de ônibus. Exemplos: para a empresa de ônibus, quanto mais cheio o ônibus, maior a rentabilidade - para o cidadão e a cidade, pior; se o ônibus é caro e lotado, o cidadão lutará para conquistar um carrinho - comprando o carro, entupira mais a cidade, elevando o tempo dos trajetos, aumentando o custo para as empresas de ônibus que buscarão aumentar as passagens, dando novo impulso para o cidadão comprar um carro; etc..., etc...

Mas os problemas não são apenas esses. O preço das passagens não pode ser tratado como um custo individual a ser arcado pelo consumidor-cidadão numa relação mercantil com o empresário de ônibus. Custos elevados de transportes resultam em gigantesca e incomensurável ineficiência para o conjunto da sociedade: além da obvia perda de tempo de quem gasta horas do dia encalacrado, recursos que poderiam ser despendidos em outras atividades são sugados pelo realismo tarifário do transporte público.

Um exemplo escandaloso dessa irracionalidade se encontra, por exemplo, no peso dos custos de transportes nos cursos de qualificação profissional. Como sabem bem os mídia-ligeira, há no país uma urgente necessidade de capacitação da mão-de-obra, fato que não só restringe o nosso desenvolvimento, como dificulta o acesso dos mais pobres ao mercado de trabalho, obstruindo a ascensão social. Pois bem, os governos, utilizando recursos que provém da folha de pagamento das  empresas, financia, através de diferentes órgãos (MTE, MEC, Sistema S, etc), inúmeros cursos profissionalizantes voltados às populações  mais vulneráveis. Com isso, pagam-se professores, materiais didáticos, aluguel de salas de aula, lanches, despesas administrativas e... , em alguns poucos casos, vale-transporte. Quando faltam recursos para o transporte, a evasão nos cursos cresce significativamente, afetando principalmente os que mais precisam. Ficam os remediados, somem os lascados. Quando é pago o vale-transporte, de 30 a 50% dos recursos são empregados na compra das passagens, em detrimento do pagamento a professores e outros recursos pedagógicos.

Alguém haverá de dizer: mas não se pode oferecer desconto nas passagens de ônibus?

Em coro, gestores públicos e privados ecoarão os dogmas ensinados pelos mídia-ligeira, condenando os subsídios, lembrando que o sistema já carrega o peso dos descontos a idosos e estudantes secundaristas. Tudo em nome da eficiência alocativa, da racionalidade microeconômica do mercado de transportes.

Não fosse tão arraigada e difundida esta miopia, faria todo o sentido do mundo arrecadar tributos sobre outras fontes (grandes fortunas, pedágios urbanos, heranças, renda superior a 50 salários-mínimos, movimentação bancária, etc...) e subsidiar as passagens dos transportes coletivos, baixando o seu preço de forma radical. Numa só tacada, desafogaríamos o bolso dos que mais necessitam e reduziríamos a pressão sobre o trânsito das grandes cidades.

Haja ideologia!

23.3.11

promiscuidade 24 quilates

Finalmente consegui assistir ao documentário Inside Job, de Charles Ferguson.

Excelente!

Todos que têm algum interesse em compreender as forças que movem a sociedade e a economia contemporânea devem assistí-lo.

Reunindo um conjunto de entrevistas com personagens-chave da chamada crise do subprime que se alastrou a partir do setor bancário dos EUA em 2008, o arguto Ferguson conseguiu depoimentos inacreditáveis, nos quais renomados economistas se portam como sacos de batatas, gaguejam e perdem a compostura ante um repórter que apenas os coloca diante de sua própria criatura.

É muito didática a explicitação dos canais de promiscuidade que soldaram com absoluta eficácia os interesses financeiros e as instituições reguladoras (incluso governos). E àqueles que vivem a apontar o dedo para a corrupção política, certamente será ainda mais relevante conhecer a monstruosa corrupção branca que está na base da arquitetura financeira que dá fôlego aos bussines de hoje.

Abundam calhordas e sujeitos inescrupulosos que recebem gorjetas de centenas de milhões de dólares; mas o filme tem o mérito de deixar claro que não se trata apenas de uma questão moral ou de um desvio de conduta localizado no tempo. Fica evidente que se trata de um problema estrutural do capitalismo atual: sem uma regulamentação que restrinja fortemente a livre movimentação de capitais, não parece possível imaginar que a sociedade pare em pé.

PS: 
(1) entre outras coisas, o filme demonstra também o embuste que é o governo Obama, completamente entregue aos mesmos personagens que desde os anos oitenta se encarregam de alimentar a banca. 
(2) Louve-se os movimentos iniciais do governo Dilma que, pela primeira vez desde a redemocratização, montou uma diretoria do Banco Central constituída 100% de servidores da instituição. É o mínimo que se espera para a equipe de um órgão que, entre outras, tem a missão de vigiar o sistema financeiro.

A imagem acima é do fotografo Chema Madoz 

15.3.11

terremoto econômico racional

Enquanto japoneses se dedicam à terrível tarefa de contar os mortos e dimensionar a catástrofe, economistas em terra firme já começam a 'precificar' os impactos da tragédia sobre o futuro. De olho no balancete, ativo contra passivo, já tem gente imaginando a prosperidade que virá, decorrência lógica do esforço de reconstrução que obrigatoriamente acontecerá assim que as chacoalhadas diárias amainarem.

De fato, considerando que o Japão possui reservas mais do que suficientes para cobrir os prejuízos e que, ademais, tem condições de se endividar a custos bastante baixos, é de se esperar que, passado um período de susto e queda da produção, as taxas de investimentos deverão saltar a níveis elevados, com importantes impactos sobre a produtividade e o nível de atividade no país. Como nas tragédias de Eurípedes, depois de 20 anos de estagnação, sobre a tumba de milhares de compatriotas, os Japoneses deverão retomar a proeminência econômica que tiveram em épocas passadas.

Mas, esse roteiro de tombo seguido de retomada não só é manjado, como tem sido responsável por boas, embora amargas, lições de macroeconomia - esta mesma, aliás, é filha direta do cataclisma econômico que atingiu o centro da economia mundial nos anos 30 do século XX.

A questão crucial, entretanto, é saber por que os governantes e seus assessores econômicos não se antecipam aos desastres e lançam mão dos instrumentos de política econômica de que dispõem para mover os paquidermes cansados nos quais costumam se transformar as economias ditas maduras?

Como entender que patotas como as de Obama, Summers, Zapattero, Geithner, Strauss Kann, Trichet, etc. não se habilitam a mexer os pauzinho e mover os capitais empossados rumo aos investimentos produtivos?

Em nome da metafísica dos mercados equilibrados, do benfazejo sopro da livre escolha que antes deprime do que bem aloca os recursos na produção, - gerando renda e trabalho - esses senhores de renome se omitem covardemente de suas atribuições de 'condottieri', preferindo o gradualismo do cotidiano chinfrim e, quem sabe, uma tragédia redentora como a que atinge agora o Japão.

Haja ideologia!