"Quanto mais velho eu fico,
mais rápido eu era"
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20.3.11
24.1.11
dos pensamentos solúveis em água
Na Austrália o sertão é chamado 'Outback'.
No Brasil a Mata Atlântica cobre uma grande serra que se estende pelo litoral do sudeste.
O outback se assemelha a um gigantesto tabuleiro.
A Mata Atlântica tem um relevo acidentado, cheio de picos e grotas.
No outback existem cangurus.
Na Mata Atlântica há micos. Micos de vários tipos: preto, dourado, estrela, de cara-preta.
Pontuam o outback cidades que se formaram com gente vinda da Inglaterra.
Pipocam na Mata-Atlântica cidades que evoluíram de povoados surgidos com o avanço da colonização portuguesa.
No verão, grandes tempestades caem por lá e por cá.
Só que lá, a poça cresce pro lado, enquanto aqui, o poço cresce pro alto.
Canguru, bicho precavido, salta de banda, à medida em que as águas, morosas, vão se alargando.
Mico, bicho esperto, salta para os galhos altos, mas morre na lama quando a árvore desce o morro com as águas nervosas. Preto, dourado ou estrela, terminam afogados numa maçaroca que tudo junta, de cotia a Ecosport.
Lá, esperam o rio, vagaroso, estreitar;
Aqui, do poleiro, a trupe anda dizendo que tudo seria diferente se os micos pensassem como cangurus ingleses.
Êita trupe!
No Brasil a Mata Atlântica cobre uma grande serra que se estende pelo litoral do sudeste.
O outback se assemelha a um gigantesto tabuleiro.
A Mata Atlântica tem um relevo acidentado, cheio de picos e grotas.
No outback existem cangurus.
Na Mata Atlântica há micos. Micos de vários tipos: preto, dourado, estrela, de cara-preta.
Pontuam o outback cidades que se formaram com gente vinda da Inglaterra.
Pipocam na Mata-Atlântica cidades que evoluíram de povoados surgidos com o avanço da colonização portuguesa.
No verão, grandes tempestades caem por lá e por cá.
Só que lá, a poça cresce pro lado, enquanto aqui, o poço cresce pro alto.
Canguru, bicho precavido, salta de banda, à medida em que as águas, morosas, vão se alargando.
Mico, bicho esperto, salta para os galhos altos, mas morre na lama quando a árvore desce o morro com as águas nervosas. Preto, dourado ou estrela, terminam afogados numa maçaroca que tudo junta, de cotia a Ecosport.
Lá, esperam o rio, vagaroso, estreitar;
Aqui, do poleiro, a trupe anda dizendo que tudo seria diferente se os micos pensassem como cangurus ingleses.
Êita trupe!
18.12.10
a inutilidade dos utilitários
Enquanto a nova classe média avança sobre as TV´s de tela plana e os fogões de 5 bocas, os novos ricos se divertem ocupando as ruas com seus utilitários - agora batizados de SUV´s (Sport Utility Vehicle). São realmente enormes. Dos retrovisores de corpo inteiro, aos pneus que valem um fusca.Verdadeiros monumentos ao excesso: de irracionalidade, de individualismo, de mercadismo.
Mas, o que será que atrai tanto num SUV? Arriscaria dizer que, provavelmente, a possibilidade de dispor de suas descomunais utilidades.
É um habito antigo - acho que pelo menos desde as pirâmides dos faraós - expressar poder e status por meio da ostentação de excessos. Antes, porém, o hábito ficava restrito aos do topo - aristrocratas e sacerdotes. Já no capitalismo, como bem sabemos, sob a impessoalidade dos mercados e a dissolução de outros valores, todos podem - e talvez devam - buscar se posicionar na escala dos excessos. E nada como um SUV para rolar escada acima.
Eu também gosto. Já fui moleque e em algum rincão de minha psiquê continuo achando muito legal um carrão que enfrenta qualquer parada.
Mas, pera lá, não é como moleque que espero agir no mundo. Cada SUV que circula nas cidades é um estorvo e um enorme desperdício: de combustível, de espaço, de pneus, de paciência, etc...
Nas ruas e nos estacionamentos ocupam duas vagas; atravancam as faixas de trânsito, impedem a visão dos que vão atrás, poluem em demasia,... enfim, promovem transtornos de várias ordens, nenhum por motivo "utilitário".
E, por inúteis, acho que já é mais do que hora de se estabelecer limites e restrições à circulação desses carrões. Talvez ficassem proibidos de circular nas regiões centrais, talvez devessem pagar taxas salgadas para andar em solo urbano. IPVA por m²! Claro que nas propriedades rurais os SUVs poderiam circular livremente, mas, sabemos que provavelmente uma ínfima minoria dos que empapuçam o trânsito das metrópoles tem alguma relação com o mundo rural.
Aliás, um teste de proficiência para carteiras de habilitação especiais para SUVs talvez não fosse má idéia. Qual a diferença entre um pato e um marreco? Cachaço e cachaça? Entre um boi mocho e um garrote inteiro? Piçarra? Voçoroca? Não sabe? Vai pra casa de taxi.
Mas, o que será que atrai tanto num SUV? Arriscaria dizer que, provavelmente, a possibilidade de dispor de suas descomunais utilidades.
É um habito antigo - acho que pelo menos desde as pirâmides dos faraós - expressar poder e status por meio da ostentação de excessos. Antes, porém, o hábito ficava restrito aos do topo - aristrocratas e sacerdotes. Já no capitalismo, como bem sabemos, sob a impessoalidade dos mercados e a dissolução de outros valores, todos podem - e talvez devam - buscar se posicionar na escala dos excessos. E nada como um SUV para rolar escada acima.
Eu também gosto. Já fui moleque e em algum rincão de minha psiquê continuo achando muito legal um carrão que enfrenta qualquer parada.
Mas, pera lá, não é como moleque que espero agir no mundo. Cada SUV que circula nas cidades é um estorvo e um enorme desperdício: de combustível, de espaço, de pneus, de paciência, etc...
Nas ruas e nos estacionamentos ocupam duas vagas; atravancam as faixas de trânsito, impedem a visão dos que vão atrás, poluem em demasia,... enfim, promovem transtornos de várias ordens, nenhum por motivo "utilitário".
E, por inúteis, acho que já é mais do que hora de se estabelecer limites e restrições à circulação desses carrões. Talvez ficassem proibidos de circular nas regiões centrais, talvez devessem pagar taxas salgadas para andar em solo urbano. IPVA por m²! Claro que nas propriedades rurais os SUVs poderiam circular livremente, mas, sabemos que provavelmente uma ínfima minoria dos que empapuçam o trânsito das metrópoles tem alguma relação com o mundo rural.
Aliás, um teste de proficiência para carteiras de habilitação especiais para SUVs talvez não fosse má idéia. Qual a diferença entre um pato e um marreco? Cachaço e cachaça? Entre um boi mocho e um garrote inteiro? Piçarra? Voçoroca? Não sabe? Vai pra casa de taxi.
17.11.10
em solidariedade aos patrícios
Em homenagem a nossos irmãos-patrícios, que se encontram em difícil cipoal econômico, revisito o hino da Academia do Bacalhau de Coimbra que, a qualquer tempo e lugar, será sempre motivo de inspiração e alegria:
Vamos cantar à saúde de Coimbra
Academia com cartola de penacho
Sou de Coimbra
Ninguém me deita abaixo
O vinho tinto dá-me força pela medida
Academia com cartola de penacho
Sou de Coimbra
Ninguém me deita abaixo
O vinho tinto dá-me força pela medida
Teu bacalhau cheira a seiva de menina
Sou gavião vou comer esse repasto
Sou de Coimbra
Eu nunca serei casto
O vinho tinto dá-me força pela medida
Sou gavião vou comer esse repasto
Sou de Coimbra
Eu nunca serei casto
O vinho tinto dá-me força pela medida
Vestes de negro
Roupinha branca por baixo
Que é a cor da toalha desta mesa
Hoje vou comer-te esse penacho
Nem que seja uma punheta à Portuguesa
Roupinha branca por baixo
Que é a cor da toalha desta mesa
Hoje vou comer-te esse penacho
Nem que seja uma punheta à Portuguesa
Sou de Coimbra
Ninguém me deita abaixo
O vinho tinto dá-me força pela medida
Quando te como vou p’ra cima
E vou p’ra baixo
Ninguém me deita abaixo
O vinho tinto dá-me força pela medida
Quando te como vou p’ra cima
E vou p’ra baixo
autor:
Compadre João Afonso
Compadre João Afonso
8.11.10
sobre o que revelam as nuvens virtuais
Em meio ao mais intenso tiroteio da campanha eleitoral, com bolinha de papel voando pra todo lado, Túlio Vianna tuitou um desconcertante petardo:
"O Twitter faz eu gostar de pessoas que nunca vi; o Facebook faz eu odiar as que eu conheço."
Àquela altura da batalha, não tive tempo de me deter no assunto. Porém, reestabelecida a paz, é hora de voltar ao tema.
Quem navega com alguma frequência pelos dois universos (do Twitter e do Facebook) há de concordar que de fato ocorre o que sugere a frase.
No twitter, onde os vínculos se estabelecem a partir de mensagens curtas - com no máximo 140 caracteres - nossa tendência é nos instalarmos numa espécie de 'cluster' virtual , um emaranhado de pessoas que têm em comum o interesse por determinados temas. Ou seja, a escolha dos pares é definida principalmente a partir do conteúdo das mais diversas mensagens que nos chegam.
Já no Facebook, onde os nexos se dão a partir das redes de relacionamentos prévios que cada um possui - familiares, colegas de trabalho, amigos de escola, torcedores do time, vizinhos de bairro, etc. - constroi-se um 'cluster' que tem como fator de união as várias dimensões sociais de cada um de nós. Aqui, partimos do mundo real para nos reunir no virtual.
Comparando os dois 'mundos', os dois 'clusters' ou as duas 'nuvens', como queiram, descobre-se que nossa identidade é muito maior com os 'fulanos' do twitter do que com a larga família que nos rodeia no Facebook.
Bobagem? Talvez, mas creio que uma bobagem reveladora.
Com esses aparatos da internet, podemos hoje contatar gente de órbitas que desconhecemos em absoluto, captando de cada qual apenas aquilo que de comum tem conosco. Caem por terra os monopólios sociais, os limites físicos, os preconceitos étnicos, as hierarquias culturais, e tocamos diretamente um outro que sequer podemos saber se existe de fato, onde está ou que apito toca. Mas, apesar disso, compartilhamos algum ponto de vista, temos alguma afinidade, talvez única e ligeira, mas suficiente para ampliar nossos nexos com o mundo.
Se admitirmos que nossa existência é fundamentalmente uma resultante de nossas experiências comunicativas, então podemos dizer que - potencialmente ao menos - essas novas experiências de comunicação nos habilitam a expandir exponencialmente nossa existência. Notem bem, não penso exatamente no aspecto quantitativo, mas no fato de que os campos semânticos que nos servem de substrato para pensar e existir são intensa e irremediavelmente contaminados e, portanto, alargados a limites que não somos capazes sequer de antever.
Por outro lado, quando olhamos para nossa turma no Facebook, encontramos um monte de gente que nos é cara, grandes amigos, rostos saudosos. Mas, nesse ambiente virtual, explicitam-se os anacronismos daquelas relações, cujo amálgama descobrimos não ser exatamente as afinidades como supúnhamos, mas antes a escolha entre aqueles que, no limite, frequentam nosso estamento. No Facebook, com o auxílio da tecnologia, somos capazes de reunir todas as nossas patotas, de diferentes épocas e lugares. Mas, ali se revela o peso e a força da 'nossa' sociedade. A idéia abstrata de que somos um suporte de relações sociais nos diz bom dia.
12.10.10
instrucciones para experimentos em dias ocos
Para um feriado, nada como as exatas instrucciones de Julio Cortazar.
No vídeo abaixo, en su próprio timbre, nos orienta como fazer para subir uma escada ao revés.
Como deverão notar, é assunto de especial utilidade em dias ocos.
Antes, porém, algumas considerações necessárias:
Recomendações para a presente Instruccion: considerando a lassidão e a indolência que a muitos de nós domina e contamina nos dias ocos, é recomendável que aqueles que se dispuserem a reproduzir o experimento sugerido e tão bem orientado por Cortazar, reservem especial atenção ao derradeiro degrau, quando um leve toque descuidado do calcanhar poderá jogar por terra as percepções colhidas nas etapas anteriores do ensaio e - o que pode ser ainda mais grave - jogar ao solo o próprio sujeito do experimento.
A relevância e especificidade do derradeiro degrau, independentemente de quantos mais possuir a escada, decorre do fato de que nele se sobrepõem três aspectos críticos, a saber:
1º) ter-se-á, lógica e necessariamente, atingido o pavimento com maior distância em relação ao solo, o que significa dizer que, estando correta a canção popular que afirma que "quanto maior o coqueiro, maior o tombo", não haverá tombo maior do que o possível no referido degrau;
2º) como o último degrau é, necessariamente, um ponto de transição para um plano horizontal, dever-se-a estar atento à mudança abrupta das circunstâncias, o que não é algo trivial como pode parecer àqueles que estão acostumados a subir escadas de frente e que, portanto, tendem a subestimar este momentum crítico do experimento;
3º) como é frequente acontecer em outras modalidades de deslocamentos em que há clareza por parte do agente a respeito dos pontos de partida e de chegada, há uma natural e compreensível tendência ao relaxamento da atenção no segmento final da jornada, o que amplifica de maneira aguda os riscos de acidentes. No caso em tela, significa dizer que apenas um ou dois milímetros do solado do calcanhar que deixem de ser erguidos como vinham sendo nos degraus anteriores serão suficientes para provocar um desequilíbrio crítico do agente que, dadas as circunstâncias descritas nos itens (1) e (2), produzirão uma queda de consequências imprevisíveis e certamente indesejáveis.
Obs: é forçoso lembrar que a hipótese, mencionada em outro dito popular, de que "para baixo todo santo ajuda" não se aplica ao contexto do experimento supracitado. Vale dizer: imprecisões no uso de dizeres populares, muitas vezes inócuas e até charmosas, podem adicionar gravames em escala crescente quando se está praticando jogos lógicos que lançam mão da inversão de sentidos.
No vídeo abaixo, en su próprio timbre, nos orienta como fazer para subir uma escada ao revés.
Como deverão notar, é assunto de especial utilidade em dias ocos.
Antes, porém, algumas considerações necessárias:
Recomendações para a presente Instruccion: considerando a lassidão e a indolência que a muitos de nós domina e contamina nos dias ocos, é recomendável que aqueles que se dispuserem a reproduzir o experimento sugerido e tão bem orientado por Cortazar, reservem especial atenção ao derradeiro degrau, quando um leve toque descuidado do calcanhar poderá jogar por terra as percepções colhidas nas etapas anteriores do ensaio e - o que pode ser ainda mais grave - jogar ao solo o próprio sujeito do experimento.
A relevância e especificidade do derradeiro degrau, independentemente de quantos mais possuir a escada, decorre do fato de que nele se sobrepõem três aspectos críticos, a saber:
1º) ter-se-á, lógica e necessariamente, atingido o pavimento com maior distância em relação ao solo, o que significa dizer que, estando correta a canção popular que afirma que "quanto maior o coqueiro, maior o tombo", não haverá tombo maior do que o possível no referido degrau;
2º) como o último degrau é, necessariamente, um ponto de transição para um plano horizontal, dever-se-a estar atento à mudança abrupta das circunstâncias, o que não é algo trivial como pode parecer àqueles que estão acostumados a subir escadas de frente e que, portanto, tendem a subestimar este momentum crítico do experimento;
3º) como é frequente acontecer em outras modalidades de deslocamentos em que há clareza por parte do agente a respeito dos pontos de partida e de chegada, há uma natural e compreensível tendência ao relaxamento da atenção no segmento final da jornada, o que amplifica de maneira aguda os riscos de acidentes. No caso em tela, significa dizer que apenas um ou dois milímetros do solado do calcanhar que deixem de ser erguidos como vinham sendo nos degraus anteriores serão suficientes para provocar um desequilíbrio crítico do agente que, dadas as circunstâncias descritas nos itens (1) e (2), produzirão uma queda de consequências imprevisíveis e certamente indesejáveis.
Obs: é forçoso lembrar que a hipótese, mencionada em outro dito popular, de que "para baixo todo santo ajuda" não se aplica ao contexto do experimento supracitado. Vale dizer: imprecisões no uso de dizeres populares, muitas vezes inócuas e até charmosas, podem adicionar gravames em escala crescente quando se está praticando jogos lógicos que lançam mão da inversão de sentidos.
3.9.10
28.8.10
1.8.10
das propagandas do último ato
"exame de fezes"!!!!.
... quilômetros à frente, quase chegando na ponte Rio-Niterói, um outdoor informa:
"No mundo, ainda há muita coisa para resolver, venha estudar na Uni....."!!!
8.5.10
alô, visitante desconhecido
Observando pelo "sitemeter," noto que de um mesmo IP, acessado em Montain View, California, há uma elevado número de visitas a esse blog infame.
Alguém sabe do que se trata? Será um endereço para o qual convergem outros mais? Uma fã distante cujo marido ciumento não lhe permite revelar a identidade? Ou seria a CIA monitorando blogueiros incautos do terceiro mundo?
Alguém sabe do que se trata? Será um endereço para o qual convergem outros mais? Uma fã distante cujo marido ciumento não lhe permite revelar a identidade? Ou seria a CIA monitorando blogueiros incautos do terceiro mundo?
8.4.10
em suma, o capital
Sereno, conduzindo a bola a passos largos e trocando passes precisos - sim, leitor, como fazia o maestro Ademir da Guia - o professor Belluzzo protagonizou na noite de ontem mais um excelente seminário sobre "O Capital" de Marx.
Partiu do debate sobre a relação entre capital produtivo e capital financeiro (ou taxa de lucro e taxa de juros), que compõe o Livro III, e que tanta confusão provoca.
De cara, uma observação fundamental: a forma de reprodução do capital a juros (D-D'), antes de representar uma anomalia ou uma hipertrofia do processo de acumulação capitalista, é a expressão suprema de seu aperfeiçoamento. Diz o Belluzzo: "é como capital a juros que o capital se aproxima de seu conceito"
Portanto, ao contrário do que advogam muitos interpretes do capitalismo atual, entre o capital produtivo e o capital financeiro há uma evidente relação funcional, em que o primeiro se subordina ao segundo. Assim, não cabe reduzir a acumulação financeira a uma função de mediação entre fundos de crédito a alimentar a acumulação produtiva. Ao contrário, é a expectativa de rendimentos da esfera financeira (por isso capital fictício) que viabiliza as inversões produtivas e, em última instância, a taxa de lucro.Nesse sentido, o conceito de "financeirização", empregado para caracterizar o capitalismo das últimas três décadas, deve ser entendido apenas como atinente ao fato de que se verifica uma crescente amplificação da diferença funcional entre o capital a juros e o capital produtivo.
Ora, isto posto, cabe refletir sobre quais as bases materiais de tal processo de acumulação. Se a taxa de juros é determinada pela expectativa de renda descontada do futuro ao valor presente e se é essa, em última instância, que determina o volume de inversões produtivas, e portanto, a taxa de lucro presente, pode-se dizer que, quanto mais avança o capitalismo em seus aspectos financeiros, mais o capital se despreende de suas bases materiais. Dito de outra forma, se é o capital fictício que conduz a economia e se esse se orienta por uma relação especular (especulativa) quanto ao futuro (por isso fictício para Marx e radicalmente incerto para Keynes), podemos dizer que à medida que se desenvolve, o capital de desmaterializa. Ou seja, tendencialmente o capital se desvincula do presente, de significados ex-ante, vira um espectro de sí mesmo e -como bem complementou o colega Renato -se aproxima do puro movimento/processo. Um símbolo abstrato da qualidade de não ter sentido, o fetiche em torno de substâncias em eterna e radical mutação, a cristalização abstrata do efêmero.
É mole?
- Interrompidos a tempo de fazer uma última refeição, deixamos o que resta (...) do debate para uma próxima.
Partiu do debate sobre a relação entre capital produtivo e capital financeiro (ou taxa de lucro e taxa de juros), que compõe o Livro III, e que tanta confusão provoca.
De cara, uma observação fundamental: a forma de reprodução do capital a juros (D-D'), antes de representar uma anomalia ou uma hipertrofia do processo de acumulação capitalista, é a expressão suprema de seu aperfeiçoamento. Diz o Belluzzo: "é como capital a juros que o capital se aproxima de seu conceito"
Portanto, ao contrário do que advogam muitos interpretes do capitalismo atual, entre o capital produtivo e o capital financeiro há uma evidente relação funcional, em que o primeiro se subordina ao segundo. Assim, não cabe reduzir a acumulação financeira a uma função de mediação entre fundos de crédito a alimentar a acumulação produtiva. Ao contrário, é a expectativa de rendimentos da esfera financeira (por isso capital fictício) que viabiliza as inversões produtivas e, em última instância, a taxa de lucro.Nesse sentido, o conceito de "financeirização", empregado para caracterizar o capitalismo das últimas três décadas, deve ser entendido apenas como atinente ao fato de que se verifica uma crescente amplificação da diferença funcional entre o capital a juros e o capital produtivo.
Ora, isto posto, cabe refletir sobre quais as bases materiais de tal processo de acumulação. Se a taxa de juros é determinada pela expectativa de renda descontada do futuro ao valor presente e se é essa, em última instância, que determina o volume de inversões produtivas, e portanto, a taxa de lucro presente, pode-se dizer que, quanto mais avança o capitalismo em seus aspectos financeiros, mais o capital se despreende de suas bases materiais. Dito de outra forma, se é o capital fictício que conduz a economia e se esse se orienta por uma relação especular (especulativa) quanto ao futuro (por isso fictício para Marx e radicalmente incerto para Keynes), podemos dizer que à medida que se desenvolve, o capital de desmaterializa. Ou seja, tendencialmente o capital se desvincula do presente, de significados ex-ante, vira um espectro de sí mesmo e -como bem complementou o colega Renato -se aproxima do puro movimento/processo. Um símbolo abstrato da qualidade de não ter sentido, o fetiche em torno de substâncias em eterna e radical mutação, a cristalização abstrata do efêmero.
É mole?
- Interrompidos a tempo de fazer uma última refeição, deixamos o que resta (...) do debate para uma próxima.
18.3.10
um infortúnio, um merchandise
Por outro lado, em meu degredo, tive a fortuna de desfrutar do valor de uso de uma singela mercadoria que este mundo do capital é capaz de ofertar.
Seguindo o conselho de um amigo, comprei um barril de Heineken, de 5 litros, que me fez desarmar o espírito, até então amargurado pelo dia torto. E aconselho fortemente que experimentem a citada mercadoria, com fetiche e tudo.
Costumam dizer que, apesar dos pesares, o capitalismo, em sua frenética destruição criativa, nos presenteia com avanços e inovações que em muito melhoram nossa estada na terra. Citam sempre os casos de progressos da medicina ou da odontologia, das agruras que escapamos com a descoberta da penicilina ou das enormes possibilidades de conhecimento proporcionadas por tecnologias como a internet, etc.., etc... etc.... É verdade, é certo que tudo isso é de grande relevância, mas é também irrefutável que o barrilzinho da Heineken, alojado na geladeira de casa, é um esplendoroso produto deste capitalismo que nos arrodeia.
Meus caros, diria mesmo que chegaram ao "ótimo de Pareto" do mundo da cerveja - se mexer, alguém sairá perdendo.
O barril, após 10 horas de repouso entre as verduras, o leite e a manteiga, funciona como um relógio suiço, sem fazer feio ante as melhores choppeiras de bar.
Simples: com o puxar de um disco verde, dá-se vazão ao chopp da Heineken, saboroso - a meu ver, bem melhor que a própria cerveja da marca - sem qualquer conservante, aditivo ou coisa que o valha.
Perfeito! Não a ponto de abonar a besta fera, mas mais do que suficiente para deitar as traças do cotidiano.
11.8.09
biscoito à deriva
Uma nota triste:
Idelber Avelar anunciou ontem o seu blogcídio - temporário - alegando razões profissionais para hibernar o blog “biscoito fino e a massa”.
Obviamente, tem ele todo o direito e é perfeitamente compreensível que após cinco anos de intensa atividade resolva parar para respirar.
Entretanto, para quem navega na blogosfera a notícia não deixa de ser triste. Idelber inspirou muitos blogs e o "biscoito", assim como o blog do Nassif, era uma espécie de ponto de encontro virtual dos blogueiros. Era lá que 'tomávamos nossa cachaça'.
Além disso, impossível não mencionar o primoroso talento com que escrevia os posts, quase diários. Sempre inteligente, antenado, à esquerda e de rara sensatez, o “biscoito” teve papel importante em alguns episódios recentes: orientando os que perderam o rumo em New Orleans, durante o furacão Catrina; informando, como nenhum órgão da imprensa nacional foi capaz, sobre a incrível eleição de Obama ou fazendo campanhas como a de rejeição ao AI-5 digital.
Imprescindível destacar também o “clube de leituras”, com deliciosos exercícios literários, compartihando com o mundão sofisticadas análises de textos de autores latino-americanos, como se estivéssemos em um debate numa sala de aula sem paredes.
É verdade, tenho que reconhecer, que lamentavelmente o blog tinha um viés atleticano, mas nada que comprometesse o principal. Como o galo não ajudava, não houve grandes prejuízos.
É uma pena, seja pela ausência, seja por revelar as dificuldades que persistem.
Vá ser gouche nesta vida, Idelber. Mas volte, nem que seja no dia em que o Atlético vier a ser campeão!
P.S.: de qualquer modo, o link para o "Biscoito" permanecerá na "Redondeza", ali à direita. Além de seu significado histórico, mesmo inativo, contém um rico acervo de temas, suas análises e muitos palpites.
9.7.09
sombra no radar
Meus caros, serão dez dias de recesso. Chego amanhã à Ponta Negra, braço de serra que entra pelo mar e guarda um mundo que já se foi. Sem telefone, sem CEP, sem carro, luz, internet, celular, tv.
Se, só se a maré permitir, um ou outro barqueiro conseguem chegar.
Não deve ser por acaso que se chama Ponta Negra. É o que restou à margem dos satélites da google.
Se preciso, ligamos da pedra alta que, cravada no meio da areia, serve de pouso aos urubus, de puleiro pra criançada e de cabine telefônica aos que ainda tiverem bateria no celular.
De resto, tem cerveja gelada, PF de peixe frito e,.... uma vaguidão só.
Se, só se a maré permitir, um ou outro barqueiro conseguem chegar.
Não deve ser por acaso que se chama Ponta Negra. É o que restou à margem dos satélites da google.
Se preciso, ligamos da pedra alta que, cravada no meio da areia, serve de pouso aos urubus, de puleiro pra criançada e de cabine telefônica aos que ainda tiverem bateria no celular.
De resto, tem cerveja gelada, PF de peixe frito e,.... uma vaguidão só.
9.3.09
2 CV
20.1.09
trilha sonora de minha geração
Depois de longo recesso, volto ao blog animado pela música. Sempre a música...
Cada vez mais me convenço que, noves fora, só a música vale a pena.
O caso é que assisti o filme-documentário "Titãs - a vida até parece uma festa". Para quem viveu a juventude paulistana da década de oitenta, é uma ótima oportunidade para botar em dia as emoções rockeiras empoeiradas.
Mais do que qualquer outra banda, a batida dos Titãs marcou a cadência de minha adolescência à vida adulta.
Sonífera Ilha no rádio do carro, dirigindo clandestino, dava carona às amigas de minha irmã, cevando os primeiros capítulos de meu futuro casório.
Mais tarde, nas noites de Radar Tantã, rabo de galo amplificando a batida tribal de Cabeça Dinossauro, os brados de 'Polícia para quem precisa de polícia', de "Lugar Nenhum" (nenhuma pátria me pariu) - era quase tudo que um adolescente precisava para passar os dias.
Aos vinte, já torpedeado pelos anos Collor, as frustrações universitárias, a vida desregrada, as primeiras gastrites, nada como "saia de mim, pelo suor, tudo que sei de cor" ou "O pulso ainda pulsa,... o corpo ainda é pouco".
FHC, pau no Estado, neoliberalismo, era hora de chutar o balde, grunhir em vez de falar. "Titanomachina" foi o som possível.
Mas o mundo não caiu. Veio o primeiro filho, o primeiro emprego de gente, o IPTU, o cartório,...era hora de "Domingo", de "Saber Viver", de "Epitáfio", "Isso", arremedo burguês de uma geração que não foi, que chamaram de "geração X", mas que poderia ser Titã.
Cada vez mais me convenço que, noves fora, só a música vale a pena.
O caso é que assisti o filme-documentário "Titãs - a vida até parece uma festa". Para quem viveu a juventude paulistana da década de oitenta, é uma ótima oportunidade para botar em dia as emoções rockeiras empoeiradas.
Mais do que qualquer outra banda, a batida dos Titãs marcou a cadência de minha adolescência à vida adulta.
Sonífera Ilha no rádio do carro, dirigindo clandestino, dava carona às amigas de minha irmã, cevando os primeiros capítulos de meu futuro casório.
Mais tarde, nas noites de Radar Tantã, rabo de galo amplificando a batida tribal de Cabeça Dinossauro, os brados de 'Polícia para quem precisa de polícia', de "Lugar Nenhum" (nenhuma pátria me pariu) - era quase tudo que um adolescente precisava para passar os dias.
Aos vinte, já torpedeado pelos anos Collor, as frustrações universitárias, a vida desregrada, as primeiras gastrites, nada como "saia de mim, pelo suor, tudo que sei de cor" ou "O pulso ainda pulsa,... o corpo ainda é pouco".
FHC, pau no Estado, neoliberalismo, era hora de chutar o balde, grunhir em vez de falar. "Titanomachina" foi o som possível.
Mas o mundo não caiu. Veio o primeiro filho, o primeiro emprego de gente, o IPTU, o cartório,...era hora de "Domingo", de "Saber Viver", de "Epitáfio", "Isso", arremedo burguês de uma geração que não foi, que chamaram de "geração X", mas que poderia ser Titã.
18.11.08
como especular sem capital: uma receita banal
Há um tanto de tempo que tiro meu sustento das aulas de economia brasileira e do trabalho insano na prefeitura. Tem dias, que são 16 horas direto, parando apenas para almoçar. Nesse meio tempo, foram raras as vezes que não terminei o mês pendurado no cheque especial.

Enquanto isso, um aluno meu, que ralava de dia em uma empresa de telefonia e fazia contabilidade à noite, resolveu se arriscar no mercado de ações. Não tinha experiência com o assunto, nem muito menos capital.
Então como começar?
O sujeito encontrou uma brecha.
Aproveitando-se de uma promoção do Banco Real, que concedia a clientes universitários 12 dias mensais de cheque especial sem cobrança de juros, ele sacava de sua conta no Real, depositava em outro banco e de lá aplicava o dinheiro em operações diárias de compra e venda de ações. Passados os doze dias, transferia de volta o valor sacado ao Banco Real, cobria o cheque especial e aguardava o mês seguinte.
Passados umas tantas levas de 12 dias, escolado e com o caixa reforçado por recursos próprios (fruto dos rendimentos anteriores), o cara tem hoje um capital de algumas dezenas de milhares de Reais, criados a partir do vento.
Elementar! Estupidamente Simples! Viu o cavalo passar arreado e pulou em cima.
Será que foram as aulas de economia?

Enquanto isso, um aluno meu, que ralava de dia em uma empresa de telefonia e fazia contabilidade à noite, resolveu se arriscar no mercado de ações. Não tinha experiência com o assunto, nem muito menos capital.
Então como começar?
O sujeito encontrou uma brecha.
Aproveitando-se de uma promoção do Banco Real, que concedia a clientes universitários 12 dias mensais de cheque especial sem cobrança de juros, ele sacava de sua conta no Real, depositava em outro banco e de lá aplicava o dinheiro em operações diárias de compra e venda de ações. Passados os doze dias, transferia de volta o valor sacado ao Banco Real, cobria o cheque especial e aguardava o mês seguinte.
Passados umas tantas levas de 12 dias, escolado e com o caixa reforçado por recursos próprios (fruto dos rendimentos anteriores), o cara tem hoje um capital de algumas dezenas de milhares de Reais, criados a partir do vento.
Elementar! Estupidamente Simples! Viu o cavalo passar arreado e pulou em cima.
Será que foram as aulas de economia?
30.10.08
the caw is going to the swamp, again!

Não. Não é da crise que pretendo falar. É da notícia do jornal Le Monde (traduzida pelo UOL), informando que a pint (medida de volume que corresponde a 0,568 litros, preferencialmente de cerveja), consagrado nos PUBs e responsável por esquentar ainda mais a breja inglesa, poderá ser substituída por uma nova medida, equivalente a 2/3 de pint.
Não me parece sensato. Os ingleses deveriam levar mais a sério suas esquisitices, sob pena de perderem o pouco charme que quiçá lhes resta.
Anos atrás, desativaram os ônibus duble-deck vermelhos. Antes, já haviam abandonado os taxis garbosos de teto alto e cor negra. Os 'orelhões' (também vermelhos e protegidos da chuva e do vento) se modernizaram e hoje são futuristas e azul celeste. Seus times de futebol, famosos pelo estilo chuveirinho (bola para o alto na grande área e, quem sabe, alguém faz alguma coisa?), estão sendo comprados pelos capos do crime internacional e transformados em hordas de estrangeiros bons de bola. Sumiram os grandiloquentes empates de 7 a 7 e hoje imperam as vitórias por 2 a 1 ou 1 a 0.
Coisa de louco esses britânicos. Mandaram no mundo, e hoje desvanecem como uma republiqueta chinfrim, com o agravante de que não contam com belas praias, comida boa, muchachas buenas, sol,... nem bananas.
6.9.08
5.8.08
dica de taxi em brasília

Diferente em tudo, nossa capital federal é servida por taxistas que também destoam daqueles que circulam pelas outras grandes cidades brasileiras. A começar pelo posicionamento político. Em geral, os de Brasília me parecem menos reacionários - principalmente se comparados aos de São Paulo - e, creio eu, menos acomodados. Talvez pela falta de esquina, falta de semáforo ou sabe-se lá do que, no DF taxista não tem cara de "chofer de praça"; lá os caras têm o bicho-carpinteiro.
Quase todos vieram de longe, fizeram de tudo, falaram com todos e estão com planos de fazer isto ou aquilo mais.
Pois em minha última visita à infinita burocracia da esplanada, tive a sorte de ser taxiado por uma destas figuras.
Até a primeira parada, o sujeito - já de idade avançada - seguiu mudo.
Porém, ao estacionar em frente ao prédio do CNPq, me disse que ficaria aguardando para seguir até o próximo escaninho.
- pois bem, volto em vinte minutos. Informei.
Voltei em 15, ao que o taxista respondeu:
- 20 minutos de paulista!
Era a deixa. Perguntei de onde vinha e ele soltou uma conversaiada que seguiu pelo dia. Entre um protocolo e outro, toque o taxista - agora Seu Agábio - a nos guiar por aqueles avenidões. Bela figura!
Seu Agábio, falava com um sotaque cearense da porra, mas era boliviano o cabra (?).
Vinte irmãos. Todos homens. Todos vivos. 10 cearenses, 10 bolivianos.
- minha mãe tá vivinha, com 96. Nunca foi no médico, nem sabe de injeção.
E mora onde?
- num povoado próximo a Xapurí.
- Xapurí no Acre? do Chico Mendes?
- Conheci bem o Chico mendes. Disse o taxista - Tocava com ele.
- E o senhor tocava o que?
- Toco! Acordeon. Cabei de voltar da itália. Fui lá comprar um novo, amarelo e branco, 32 mil reais, para mim que tenho carteira de músico. Fosse outro, pagava 72.
- Mas então o senhor continua tocando.
- Toco todo dia, sem falhar. Gravei ano passado um disco lá na cidade de vocês. É meu quinto disco.
E na toada do Seu Agábio do Acordeon, líder do grupo de forró pé de serra, Banda Fortaleza, chegamos à área de desembarque.
Por força de nossos ofícios, a prosa interrompeu-se.
Mas, voltando à Brasília, ligo ao Seu Agábio (9997-8670) para continuar o convercê, do ponto em que paramos: o sumiço dos tocadores de "oito baixo". Acordeonzinho pequeno e difícil, que troca a nota da ida para a volta do fole e que ninguém mais se arvora a apreender.
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