15.3.11

terremoto econômico racional

Enquanto japoneses se dedicam à terrível tarefa de contar os mortos e dimensionar a catástrofe, economistas em terra firme já começam a 'precificar' os impactos da tragédia sobre o futuro. De olho no balancete, ativo contra passivo, já tem gente imaginando a prosperidade que virá, decorrência lógica do esforço de reconstrução que obrigatoriamente acontecerá assim que as chacoalhadas diárias amainarem.

De fato, considerando que o Japão possui reservas mais do que suficientes para cobrir os prejuízos e que, ademais, tem condições de se endividar a custos bastante baixos, é de se esperar que, passado um período de susto e queda da produção, as taxas de investimentos deverão saltar a níveis elevados, com importantes impactos sobre a produtividade e o nível de atividade no país. Como nas tragédias de Eurípedes, depois de 20 anos de estagnação, sobre a tumba de milhares de compatriotas, os Japoneses deverão retomar a proeminência econômica que tiveram em épocas passadas.

Mas, esse roteiro de tombo seguido de retomada não só é manjado, como tem sido responsável por boas, embora amargas, lições de macroeconomia - esta mesma, aliás, é filha direta do cataclisma econômico que atingiu o centro da economia mundial nos anos 30 do século XX.

A questão crucial, entretanto, é saber por que os governantes e seus assessores econômicos não se antecipam aos desastres e lançam mão dos instrumentos de política econômica de que dispõem para mover os paquidermes cansados nos quais costumam se transformar as economias ditas maduras?

Como entender que patotas como as de Obama, Summers, Zapattero, Geithner, Strauss Kann, Trichet, etc. não se habilitam a mexer os pauzinho e mover os capitais empossados rumo aos investimentos produtivos?

Em nome da metafísica dos mercados equilibrados, do benfazejo sopro da livre escolha que antes deprime do que bem aloca os recursos na produção, - gerando renda e trabalho - esses senhores de renome se omitem covardemente de suas atribuições de 'condottieri', preferindo o gradualismo do cotidiano chinfrim e, quem sabe, uma tragédia redentora como a que atinge agora o Japão.

Haja ideologia!

12.3.11

mantega à direita de sarkozy

Assim como nos anos 70 o mercado de petróleo serviu de veículo para processos especulativos que absorviam e se alimentavam da liquidez internacional - denominada em eurodólares - a onda de valorização das commodities que assusta o mundo hoje parece cada vez mais ser um processo de mesma natureza, agora porém amplificado pelo avanço da liberalização financeira desde aquela remota década de 70.

Em artigo publicado no site Carta Maior (clique aqui), o Prof. Belluzzo demonstra com brilhantismo os intrincados nexos que vinculam a explosão dos preços dos alimentos à frouxidão bancária e à lassidão monetária que faz o moinho girar e mata gente de fome pelos cantos do planeta. A habitual educação do professor, no entanto, provavelmente impediu que ele fizesse menção ao fato de que lamentavelmente o Ministro Guido Mantega votou contra a proposta de Sarkozy, que sugeria ao G20 criar mecanismos que restringissem as especulações com commodities. Mantega, por oportunismo ou miopia, foi a favor do livre jogo dos mercados, esses mesmos que provocam tsunamis sobre a atividade produtiva.

10.3.11

sus: muito está feito; muito por se fazer

Gastão Wagner analisa a pesquisa sobre o Sistema de Indicadores de Percepção Social sobre Saúde do IPEA
Entrevista concedida ao site da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz).
O Sistema de Indicadores de Percepção Social (Sips) sobre saúde do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) foi divulgado recentemente e revela que a população, sobretudo a parcela que usa os serviços da saúde pública, avalia positivamente o SUS.  De acordo com o estudo, isso não significa que os usuários do sistema não tenham críticas; eles querem, por exemplo, mais profissionais atuando. Nesta entrevista, o médico e professor do departamento de saúde coletiva da Unicamp, Gastão Wagner, analisa os dados da pesquisa e conclui: os indicadores "confirmam que o SUS é uma política pública importante e prioritária e que os governos precisam dar mais atenção à saúde". Para ele, os dados indicam também qual deve ser a prioridade para os gestores do SUS: a Estratégia Saúde da Família, em um sistema mais integrado e regionalizado.

O Sips sobre saúde, divulgado pelo Ipea recentemente, mostrou, que de uma forma geral, a população avalia positivamente o SUS. O que esse dado revela sobre a importância de  um sistema universal de saúde no Brasil?
Esse dado e alguns outros demonstram a importância do SUS para assegurar o direito à saúde e o atendimento de uma parte importante da população. Mostra também como, apesar dos problemas, o SUS consegue desempenhar um papel positivo. Isso confirma que o SUS é uma política pública importante e prioritária e que os governos precisam dar mais atenção à saúde.

De acordo com a pesquisa, a população considera como pontos positivos do SUS o fato de o atendimento ser gratuito e universal, mas estes são justamente os princípios do Sistema. A partir desse dado, podemos analisar se de fato a população entende a saúde como um direito?
A pesquisa não investigou isso, não fica claro se a população toma a saúde como um direito. Então, não podemos tirar uma conclusão sobre isso, mas há alguns dados interessantes. A população, ao mesmo tempo que elogia, também aponta problemas no SUS: a falta de médicos, as filas, a espera, a dificuldade de acesso a especialistas e exames. Além disso, a pesquisa confirmou o dado de que quem usa o SUS confia mais e o valoriza mais do que a classe média e a elite que não usam, que têm um preconceito sobre o SUS. Outro aspecto interessante é que quem usa o SUS avalia melhor a Saúde da Família do que os outros serviços; depois vem o atendimento especializado, e lá em baixo está o atendimento em pronto-socorro e postos de saúde tradicionais. Isso demonstra que a população não é tonta. Na Saúde da Família faltam médicos, mas quem tem acesso sabe que o atendimento tende a ser melhor, de mais qualidade do que o do pronto-socorro. Eu achei isso muito significativo, e é uma coisa que várias autoridades vêm negando, em vários estados do Brasil: cidades como Rio de Janeiro e São Paulo têm priorizado a extensão do acesso através do pronto-atendimento em vez de uma atenção primária decente de Saúde da Família. Essa pesquisa é um sinal de alerta. Se por um lado há falta de médicos, não adianta encher de pronto-atendimentos, não adianta colocar médico de plantão 12 horas fazendo consultas feito loucos e dando remédios.

E como o senhor avalia as prioridades do Brasil para o SUS hoje? Qual o lugar da Estratégia da Saúde da Família nacionalmente?
Eu sinto que na última campanha nacional [eleições 2010], em vários estados, a ênfase maior de vários governadores foi nas tais Unidades de Pronto Atendimento, as UPAs. A presidente prometeu 500 unidades pelo Brasil, e essa é a política que predomina também na prefeitura de São Paulo e no Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo, a Saúde da Família tem muita dificuldade de inserção do médico, de carreira, problemas de expansão, chegou aos 40 %, 50 % de expansão e não sai disso. Tem um problema de expansão muito grande aqui no Sul, no Sudeste e no Centro-oeste. Nesse sentido é que a pesquisa é um alerta muito importante, mas eu creio que o Ministério da Saúde e as secretarias estaduais de saúde ainda não deram uma solução adequada para a qualificação e expansão da Saúde da Família. Há um impasse de financiamento, de modelo, que está muito rígido, com problemas de pessoal. Mas a pesquisa indica que o caminho é por aí e que a Saúde da Família tem que ser priorizada.

Uma das principais melhorias sugeridas pela população na pesquisa é o aumento do número de médicos. Como o senhor avalia a política atual do país para a formação e manutenção desses profissionais atuando no SUS?
A Estratégia de Saúde da Família, onde falta muito médico também, e até os ambulatórios ficaram a cargo das prefeituras, e as prefeituras sozinhas, sem uma política de apoio financeiro, aposentadoria, de educação permanente, de formação do Ministério da saúde e das secretarias estaduais, não conseguem resolver esse problema da política de pessoal. Se deixarmos cada município se virar, se não conseguirmos fazer concursos de carreiras pelo menos estaduais, com fundos e financiamentos entre o Ministério e as secretarias estaduais e com gestão municipal, teremos muita dificuldade de consolidar a Saúde da Família, e também os ambulatórios de especialidades. Está faltando psiquiatra nos Caps [Centro de Atenção Psicossocial] e não se consegue profissionais; faltam também anestesistas nos hospitais, profissionais na terapia intensiva, inclusive pediatras. E não é falta de formação , porque temos expansão desse mercado: bastante enfermeiros, bastante médicos, bastante odontólogos. A dificuldade é a carreira do SUS que não está atrativa, porque é muito irregular, há muita contratação ilegal, precária, salários abaixo do mercado. Então, estamos tendo uma dificuldade de fixação, não é nem o número de profissionais. O que falta, do ponto de vista da formação, é a residência., As vagas de residência na Saúde da Família, multiprofissionais para médicos e enfermeiros principalmente, está muito abaixo do necessário. Então, como a Saúde da Família é uma política fundamental , é preciso investir muito em residência nessa área, aumentar seis, oito vezes o número de alunos. Mas, para fazer isso tem que melhorar o mercado, tem que ter capacidade de absorção, tem que criar o interesse para os profissionais se dedicarem a essa carreira do SUS. Outra coisa é que a Estratégia de Saúde da Família está muito isolada da rede; fala-se muito hoje em rede, mas a Saúde da Família fica num canto. No mundo inteiro, para se fixar um médico, o médico de família - que se chama generalista por aí afora - tem prioridade para dar o plantão no pronto-atendimento, para participar da enfermaria, porque uma porcentagem pequena dos médicos pensa em trabalhar a vida toda na atenção primária. Então, as estratégias são de trabalhar com a ideia de sistema, de rede: fazer com que não só os pacientes, mas também os profissionais e as equipes circulem. No Brasil se fala muito em rede, mas como a Saúde da Família está a cargo dos municípios e os hospitais e centros de referência são das secretarias estaduais, nós não temos rede de fato, a integração é muito baixa, isso tudo tem dificultado. Mas considero a pesquisa uma boa avaliação do SUS, indica rumos e indica que o que foi feito está tendo um resultado positivo reconhecido pela população.

Atualmente, há processos em curso de mudança de gestão do SUS e administração do sistema pelo setor privado. Mas isso enfrenta resistência por parte de grupos organizados de trabalhadores e pesquisadores da saúde que veem estes processos como tentativas de desmantelamento e privatização do SUS. Essa avaliação da população revelada pelo Sips da importância do SUS ser gratuito pode se contrapor a essa corrente de privatização?
Defender a gratuidade e o caráter público em alguma medida é positivo. Mas isso não indica que a população rechace a privatização, até porque, na verdade, é uma semiprivatização, porque uma fundação privada e uma organização social não têm direito de cobrar da população. Elas têm dupla porta, outras coisas, mas o grosso do atendimento das Organizações Sociais [OSs] no Rio e em São Paulo, por exemplo, é gratuito.  Os hospitais também continuam gratuitos, então, essa privatização tem mais a ver com a gestão.

E como o senhor avalia estes processos de mudança de gestão do SUS com as OS e fundações de direito privado?
Tem aí um aspecto ideológico que faz parte do programa neoliberal e liberal, que é de diminuir a área estatal, pública, com um certo descrédito na gestão estatal e pública. Existe esse lado ideológico, mas tem também um lado que são a inércia e a incapacidade do SUS de fazer a sua reforma administrativa, de construir as suas carreiras, com avaliação, pagamento adequado, progressão por mérito, criação de rede, integração. São 20 anos de SUS e nós avançamos muito pouco na reforma de gestão. A atenção primária continua isolada, cada hospital é autônomo. Aí no Rio de Janeiro, por exemplo, o Hospital Geral de Bonsucesso não tem nada a ver com a Rede Teias de Manguinhos. O Hospital é estatal, a rede Teias é uma OS, mas é uma organização social da Fiocruz, pública e não tem nada a ver. E essa não é uma exceção, é a regra em todo o país. Então, essa inércia vai dando impaciência na população, que quer um desempenho de gestão adequado, quer produtividade, qualidade, quer diminuir fila, e boa parte da fila no Brasil é problema de gestão, não é nem de capacidade instalada. Não temos avaliação de risco, não há ninguém que se responsabilize para garantir o acesso imediato de quem tem um diagnóstico de risco, por exemplo. Então é muito mais um problema de gestão, ainda que haja um problema de acesso também. Não tem informatização da rede até hoje unificada, é um absurdo isso, o quanto já gastamos em informatização! Alguém que está na Saúde da Família, por exemplo, não sabe onde há vaga para tratar de câncer e também não tem acesso imediato se ele achar que tem o diagnóstico, como acontece em Portugal, na Espanha, em vários outros países. Então, a alternativa a essa privatização, que é apresentada como alternativa gerencial, é avançarmos nas diretrizes do SUS, não apenas na universalidade e gratuidade, mas na regionalização, nar avaliação de risco. O SUS municipal não tem saída, ele precisa ser regionalizado, com vários municípios, uma rede unificada, gestão unificada, se não vamos fragmentar o SUS mais ainda com essas OSs, fundações. E isso não é uma saída.

Mas como garantir que, mudando a gestão para que ela seja mais regionalizada, os problemas de desintegração não persistam?
Criando uma rede única. O hospital aí de Bonsucesso [Rio de Janeiro], por exemplo: ele tem que estar dentro da gestão regional de toda a rede básica do entorno. Alguém tem que comandar isso tudo, fazer o planejamento, avaliação e tem que prestar contas para o mesmo gestor regional. Temos que ter carreiras. O médico de família poderia dar plantão no pronto-socorro desse hospital ou nas UPAs dessa região, o enfermeiro também. O SUS, apesar do nome, sistema único, é um sistema fragmentado, não é bem um sistema, é um semi-sistema com um grau de fragmentação muito grande, que as OSs e fundações estão ampliando. A gente já tinha a fragmentação município, estado, Ministério da saúde, e também dentro do município, onde a diretoria de atenção primaria é uma, de hospitais é outra, de aids é outra, de saúde mental é outra. E no estado é a mesma coisa. A gestão do SUS tem que ser territorial, regional, no mundo inteiro é assim. A atenção primária senta junto com os hospitais no mesmo território e região, a saúde mental da mesma região. O pessoal fica falando em rede de saúde mental, em rede de linha de cuidado, mas não é isso. E aí, como temos muita deficiência de gestão, de carreira, de regionalização, aparece uma saída mágica que é: ´vamos colocar mecanismos de gestão privada, de OSs, de fundação privada, contratação por CLT, quem não trabalha a gente põe para fora´. Isso aumenta o poder do gestor, óbvio; diminui o poder das corporações; e aí fazem metas, produtividades, os pacientes têm que ficar internados só quatro dias na clínica médica, se passar disso perde-se dinheiro, os médicos perdem dinheiro, as enfermeiras, o hospital. Então, pegam meta da gestão privada, de fábrica de automóvel, de banco, de restaurante e colocam no setor saúde tentando responder a esta crise de gestão que tem outra complexidade. Então, são duas alternativas que estão em jogo.

Como este quadro interfere no crescimento da mercantilização da saúde?
Aconteceu uma coisa no Brasil que fiquei surpreendido, mas com o crescimento econômico é esperado. Como o SUS está empacado, o setor privado, de saúde suplementar, cresceu muito, ele tem 50% do recurso financeiro. Então, para fisioterapeuta, médico, enfermeiro, o SUS não é o único mercado de trabalho. Por isso essa falta de gente,  ainda que seja pouca gente para ser atendida - cerca de 24% da população brasileira - há muito dinheiro. É a mesma quantidade de recursos do SUS, que é distribuída para os profissionais de saúde trabalharem atendendo menos gente, com menores condições de trabalho. Então, esse crescimento do setor privado é preocupante, ameaça o SUS e ameaça inclusive do ponto de vista ideológico e cultural. Quem não está ainda no seguro privado tem sonho de entrar. Aí na Fiocruz deve ter um plano privado de saúde, o Ministério da saúde tem também, este é um sentimento da nova camada de trabalhadores, das chamadas classe C e D. Apesar de o pessoal gostar de o SUS ser gratuito, do ponto de vista da luta cultural e ideológica, estamos mais fracos.

E como se contrapor a esse processo do ponto de vista político e ideológico?
Tem que melhorar o SUS, divulgar direito as formas de atendimento e resolver todas essas coisas que eu estou falando. Eu falei da necessidade de se priorizar a Estratégia de Saúde da Família, mas eu vou falar uma coisa que dificulta essa legitimidade cultural: o governo brasileiro designa quem é o seu enfermeiro e médico de família, então, a liberdade de escolha é muito baixa. Na Inglaterra e na Espanha, a população pode escolher na região, no distrito de saúde, entre 20 e 30 equipes. Outro exemplo: nós queremos que o pré-natal seja feito na Saúde da Família, só que o médico de família não faz o parto. Quem hoje em dia, que vai adquirindo cidadania e consciência, não quer que o médico que fez o pré-natal seja quem acompanhe o parto? O SUS tem que pensar nisso. Nós não estamos mais trabalhando apenas com miseráveis, mas com pessoas que começam a lutar por qualidade de vida, por humanização. Um dos programas prioritários do governo federal agora é sobre a saúde materno-infantil, com a intenção de priorizar esse atendimento. Está correto, tem que priorizar mesmo, mas não pode ser só o acesso. Como é que o médico que faz o pré-natal poderá acompanhar a maternidade? Como é que o SUS irá pagar? Com a visão que nós temos de quatro horas de trabalho, jornada, bater ponto, salário fixo, fica difícil, porque em todos os países com sistemas universais, o honorário é variável, se o profissional faz três partos ganha tanto, se faz um só por mês, ganha outro tanto. Então, é preciso pensar em outras coisas para criar legitimidade cultural sem privatização; é todo um caminho a ser feito.

E como a população desses países vê o sistema de saúde?
Isso varia muito de país para país e varia também conforme a época. Tem época que o sistema avança, recua, isso é dinâmico, mas em geral os sistemas nacionais europeus e o cubano são muito bem avaliados. E quando há alguma ameaça, a opinião pública e os trabalhadores defendem o sistema contra alguma restrição. As pesquisas são muito variáveis. Na Inglaterra é lei, eles fazem a cada quatro anos um relatório que se chama Black report, um "informe negro", eles chamam de negro porque fala dos problemas do sistema, mas isso para defender o sistema. A população fala, há também dados técnicos, de infecção hospitalar, filas, tempo de espera, mortalidade, divulgam tudo e tornam tudo transparente exatamente para defender. Esconder os problemas, ao contrário do que muito marqueteiro pensa, não ajuda o amor da gente pelas políticas públicas. Então, esse hábito seria uma outra forma de o SUS ganhar legitimidade. Por exemplo, abrir as filas, quais são as filas? Onde tem fila? O que se pode fazer para acabar com elas? Tornar transparente uma por uma e isso virar um problema público. Qual é a fila para o câncer de mama? Qual é a fila para o diagnóstico, para o tratamento? Qual é a fila para reabilitação física do AVC [Acidente Vascular Cerebral]? Então, acho que todos estes são mecanismos de legitimação, de vincular a gestão à qualidade e à ideia de controle social. Esta ideia na teoria é muito forte no SUS, mas ficou limitada às conferências, com a militância profissional, que são os mesmos de sempre, que perdeu potência, e isso é outro problema.

E as conferências tem tido resolutividade?
Elas perderam muito peso, a minha análise é que da 11ª para cá elas são quase um risco n´água, uma coisa da burocracia interna, perdeu muita força política, inclusive de interferir na gestão, na sociedade. Este ano é ano de conferência, o conselho nacional está em discussão, vários conselhos municipais estão emperrados, outros funcionam. Então, temos que pensar o que fazer, e, por exemplo, este Black report é uma forma de controle social fundamental, sai dos conselheiros e vai para a sociedade inteira. Esta pesquisa do Ipea tem este papel, precisa ser divulgada e comentada, tanto os aspectos positivos quanto os negativos.
Entrevista publicada no site da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz).

26.2.11

sobre a dominação de classes



"Uma classe dominante é tanto mais forte e mais perigosa em sua dominação quanto mais for capaz de assimilar os homens mais importantes das classes dominadas"

        Karl Marx, em "O Capital", Livro III, Cap. 36.



Em tempo: a frase é oportuna para pensar sobre as insurgências políticas que têm ocorrido nos países árabes.

25.2.11

pausa para o café

Uma












Mais Uma












Mais Outra













Outra









Ainda mais uma








Ainda outra


    












E, finalmente, a definitiva!
               

24.1.11

dos pensamentos solúveis em água

Na Austrália o sertão é chamado 'Outback'.
No Brasil a Mata Atlântica cobre uma grande serra que se estende pelo litoral do sudeste.

O outback se assemelha a um gigantesto tabuleiro.
A Mata Atlântica tem um relevo acidentado, cheio de picos e grotas.

No outback existem cangurus.
Na Mata Atlântica há micos. Micos de vários tipos: preto, dourado, estrela, de cara-preta.

Pontuam o outback cidades que se formaram com gente vinda da Inglaterra.
Pipocam na Mata-Atlântica cidades que evoluíram de povoados surgidos com o avanço da colonização portuguesa.

No verão, grandes tempestades caem por lá e por cá.

Só que lá, a poça cresce pro lado, enquanto aqui, o poço cresce pro alto.

Canguru, bicho precavido, salta de banda, à medida em que as águas, morosas, vão se alargando.
Mico, bicho esperto, salta para os galhos altos, mas morre na lama quando a árvore desce o morro com as águas nervosas. Preto, dourado ou estrela, terminam afogados numa maçaroca que tudo junta, de cotia a Ecosport.

Lá, esperam o rio, vagaroso, estreitar;
Aqui, do poleiro, a trupe anda dizendo que tudo seria diferente se os micos pensassem como cangurus ingleses.

Êita trupe!

21.1.11

os novos crentes e suas máquinas amestradas

Tenho um tanto de amigos e de colegas que, por vício de formação ou viés de alma, são entusiastas desta Era dos Algoritmos: estão certos de que estamos na soleira do dia em que os programas de computadores serão capazes de  equacionar os principais entraves da vida humana na terra. Os cada vez mais poderosos algoritmos construídos por matemáticos obcecados deverão nos disponibilizar crescente capacidade de processamento de informações complexas e, consequentemente, de previsibilidade do futuro. Os exemplos, dizem, já estão à solta: diga ao algoritmo com que gastas seu dinheiro que ele lhe confidenciará quanto tempo deverá durar o seu casamento; conte-lhe os detalhes de um roteiro de filme (ainda no papel!) que ele lhe dará a bilheteria; delegue seus tostões à sua administração, pois terás maximizado de forma sobrehumana os teus rendimentos.

Midas, perto dessas maravilhas, é pinto.

E, convenhamos, de fato os produtos desses "pensamentos maquinados" já nos ajudam em tantas esferas da vida que devíamos talvez aceitar resignados os presságios de um mundo completamente equacionado, livre de riscos e contratempos. Restaría-nos, talvez, surfar hedonisticamente sobre as suas delícias. Gozo do primeiro ao último minuto.

Porém, problemas filosóficos à parte - ex: como apreciar o bom, sem conhecer o ruim? - não tenho como compartilhas do entusiasmo dos amigos crentes quando o assunto é a economia.

Em primeiro lugar, porque, no limite, economia é tão somente 'política', isto é, seu objeto é o mundo que desejamos. Portanto, não se trata de equacionar problemas complexos entre a oferta e a demanda do presente, mas sim de eleger estratégias de desenvolvimento cujos resultados afetam heterogeneamente os distintos grupos sociais no futuro. Justificar porque uns se sairão melhor do que outros é questão de arte política, de convencimento ideológico, e não vejo algoritmo capaz de harmonizar as diferentes visões de mundo que habitam as mentes de uns e de outros. Mas, sei que muitos - principalmente no time dos crédulos - não se sensibilizam com a órbita da política. Imaginam que poderá ser pacificada, assim que os obstáculos da vida prática forem vencidos pelo poder das TI's.

Passemos então a um segundo argumento. Vamos baixar a bola e aceitar a economia como um simples jogo entre ofertantes e demandantes. Vamos também dar de barato que, não fossem as interferências exôgenas - políticas - e as imperfeições decorrentes de falhas informacionais, seria possível imaginar um super algoritmo capaz de indicar o nível ótimo de produção a preços ótimos  e que, portanto, deveria satisfazer ao conjunto dos viventes (pobre Midas!). Estaria vencido o problema econômico?

Suspeito que não. Chegaríamos a um velho paradoxo, que aos pensadores econômicos mais atentos  - lembro-me por exemplo de Schumpeter - já incomodava muito antes do desenvolvimento das maquinetas. A questão é que, se o tal super algoritmo for capaz de incorporar todas as variáveis que afetam os mercados e indicar, em tempo real, volumes e preços ótimos, estaria extinto o lucro (chamado de extraordinário) e não haveria mais motivação para o investimento capitalista. Nesse delirante mundo automatizado, qualquer mudança de parâmetro ou qualquer inovação tecnológica seria imediatamente incorporada ao algoritmo, dissipando seu potencial gerador de lucro e distribuindo  seus benefícios de forma homogênea e instantâneaao conjunto do mercado.

Um modo mais prático de pensar no problema é imaginar que o google desenvolva um aplicativo que permita processar a totalidade das variáveis que afetam a valorização das ações na Bolsa de NY. Ao disponibilizar seus resultados à internet, produziria uma paralisia geral dos negócios, visto que todos os agentes econômicos se posicionariam do mesmo lado do mercado (comprador ou vendedor).

Curioso, né não? Em nome dos mercados e da suas supostas impessoalidade e isonomia, descobriríamos que as leis de mercado só podem funcionar quando a diferença e as condições desiguais permitam vislumbrar vantagens exclusivas e, portanto, induzam à incessante troca de posições.

Outra possibilidade seria descobrirem que o tal algoritmo também responde pelo nome de 'socialismo'.

4.1.11

dilma larga com boa vantagem

Tentando moderar o otimismo, elaborei um quadro comparando os times que começaram jogando nos governos de Lula (em 2003) e de Dilma (2011).

A cada nome, dei nota de 1 a 5, de acordo com os seguintes critérios:

1 = péssimo, lamentável;
2 = fraco, ruinzinho;
3 = não ajuda, nem atrapalha.
4 = bom nome, mas tinha gente melhor.
5 = ótimo, melhor impossível.

Como poderão notar, quando atribuí as notas não considerei apenas o nome ou a biografia de cada um, mas, a sua adequação ao cargo. Muitos, inclusive, começaram numa posição, foram remanejados no governo Dilma e tiveram suas notas alteradas. Além disso, considerei também o peso político dos sujeitos, de tal maneira que um cara bom, mas sem força, pode valer menos que um ruinzinho com cacife. Somei todos e comparei os totais: o time de Lula (2003) alcançou 95 pontos enquanto o de Dilma chegou a 124.

Ou seja, segundo a agência My Buttons & Buttons, o time inicial de Dilma é 31% superior ao que começou jogando com Lula.

Claro que esse diferencial era mais do que esperado. Trata-se de um governo de continuidade - bidestilado - e que, portanto, herda de Lula os quadros de melhor desempenho, mais maduros e experimentados. Também conta a favor de Dilma o crescimento dos partidos de centro esquerda no congresso e a aliança política com o PMDB, fatores que, somados, reduziram a dependência das siglas nanicas e os riscos de chantagens da oposição.

Considerando que se deve acrescentar a esse salto qualitativo da equipe um cenário econômico e social muito mais favorável que aquele encontrado por Lula em 2003, dá pra dizer que Dilma tem tudo para fazer um excelente governo. Suspeito até que, pelo seu perfil e suas características pessoais - aparentemente ela é do tipo que cresce quando provocada - o cargo lhe fará crescer a aura de estadista.

Há, portanto, razões "objetivas" para o otimismo. Vejam o quadro abaixo e façam suas apostas.

18.12.10

a inutilidade dos utilitários

Enquanto a nova classe média avança sobre as TV´s de tela plana e os fogões de 5 bocas, os novos ricos se divertem ocupando as ruas com seus utilitários - agora batizados de SUV´s (Sport Utility Vehicle).  São realmente enormes. Dos retrovisores de corpo inteiro, aos pneus que valem um fusca.Verdadeiros monumentos ao excesso: de irracionalidade, de individualismo, de mercadismo.

Mas, o que será que atrai tanto num SUV? Arriscaria dizer que, provavelmente, a possibilidade de dispor de suas descomunais utilidades.

É um habito antigo - acho que pelo menos desde as pirâmides dos faraós - expressar poder e status por meio da ostentação de excessos. Antes, porém, o hábito ficava restrito aos do topo - aristrocratas e sacerdotes. Já no capitalismo, como bem sabemos, sob a impessoalidade dos mercados e a dissolução de outros valores, todos podem - e talvez devam - buscar se posicionar na escala dos excessos. E nada como um SUV para rolar escada acima.

Eu também gosto. Já fui moleque e em algum rincão de minha psiquê continuo achando muito legal um carrão que enfrenta qualquer parada.
Mas, pera lá, não é como moleque que espero agir no mundo. Cada SUV que circula nas cidades é um estorvo e um enorme desperdício: de combustível, de espaço, de pneus, de paciência, etc...
Nas ruas e nos estacionamentos ocupam duas vagas; atravancam as faixas de trânsito, impedem a visão dos que vão atrás, poluem em demasia,... enfim, promovem transtornos de várias ordens, nenhum por motivo "utilitário".

E, por inúteis, acho que já é mais do que hora de se estabelecer limites e restrições à circulação desses carrões. Talvez ficassem proibidos de circular nas regiões centrais, talvez devessem pagar taxas salgadas para andar em solo urbano. IPVA por m²! Claro que nas propriedades rurais os SUVs poderiam circular livremente, mas, sabemos que provavelmente uma ínfima minoria dos que empapuçam o trânsito das metrópoles tem alguma relação com o mundo rural.

Aliás, um teste de proficiência para carteiras de habilitação especiais para SUVs talvez não fosse má idéia. Qual a diferença entre um pato e um marreco? Cachaço e cachaça? Entre um boi mocho e um garrote inteiro? Piçarra? Voçoroca? Não sabe? Vai pra casa de taxi.

9.12.10

combate à pobreza é benção para o sul maravilha

O atual presidente do IPEA, Prof. Márcio Pochmann, escreveu excelente artigo sobre os desafios que estão colocados ao Brasil, num momento em que se abrem possibilidades inéditas de consolidação de nosso desenvolvimento nacional. Trata de questões cruciais, pelo que me atrevo a dizer que é leitura obrigatória para quem se interessa pelo assunto (clique aqui para ler )

Contudo, destaco abaixo um trecho do texto, que não se refere especificamente à questão do desenvolvimento, mas que trata da destinação dos recursos da seguridade social no Brasil.

Como lamentavelmente assistimos durante a campanha eleitoral que recém terminou, o bom momento que vive o nordeste brasileiro fez arder os humores das gentes reacionárias que se aboletam no chamado sul maravilha. A grande transformação econômica e social que se verifica no nordeste do país,  promovida por um conjunto de iniciativas do governo Lula  - e que garantiram enorme votação à candidata governista na região - foi tratada pelos portavozes do sul/sudeste como se tivesse ocorrido em detrimento do desenvolvimento das demais regiões do país. Não foram poucos os gritos e muito mais numerosos os ecos que alardearam a drenagem de recursos do sul/sudeste para o norte/nordeste. Junto com a retórica econômica, difundiram-se ainda preconceitos que sugeriam uma disputa entre um sul moderno e dinâmico versus um nordeste atrasado e letárgico.

Quanta bobagem e que ignorância imperdoável que essa gente ilustrada de Higienópolis e adjacências carrega na papada!

Como bem mostra o artigo do Pochmann (e a economista Tânia Bacelar também tratou do assunto, sob outra perspectiva - leia aqui) os dinheiros fáceis que supostamente sustentam a bonomia e dão vida longa ao atraso são destinados na sua gigantesca porção - pasmem - ao rico sul maravilha. Nada menos do que 1 em cada 4 reais que são pagos a título de seguridade social (previdência + assistência social) vão para os bolsos de paulistas!

Vejam o que os números citados pelo presidente do IPEA nos contam:

"as famílias pertencentes aos estados mais ricos da Federação absorvem a maior parte do fundo público comprometido com transferências monetárias. Assim, a região Sudeste consome 50% do total dos recursos anualmente comprometidos com as transferências previdenciárias e assistenciais da seguridade social, dos quais 23,5% vão para São Paulo, 13,7% para o Rio de Janeiro e 10,9% para Minas Gerais. A descoberta dessas novidades no interior da dinâmica econômica brasileira atual impõe a reavaliação da eficácia dos velhos pressupostos da política macroeconomia tradicional. A economia social sustenta, hoje, parcela significativa do comportamento geral da demanda agregada nacional, além de garantir a considerável elevação do padrão de vida dos brasileiros, sobretudo daqueles situados na base da pirâmide social"


 Pois, que se calem os ignorantes, destas terras bandeirantes!

3.12.10

com bola murcha, meirelles acerta

Mais do que oportunas as medidas anunciadas hoje pelo Banco Central. Aliás, tardias.

Ao ampliar o compulsório bancário (ou seja, restringir o uso dos depósitos bancários como capital para empréstimos) o BC reduz a necessidade de elevação dos juros oficiais (taxa Selic) no futuro.

É de se lamentar apenas a maneira safada que a imprensa trata do assunto. O Estadão, por exemplo, deu a seguinte manchete: "BC diz que juro ao consumidor pode subir", quando deveria esclarecer que, ao reduzir a disponibilidade de crédito para o consumo, através do aumento do compulsório, o governo está abrindo a possibilidade de reduzir a taxa de juros dos títulos públicos.

Alguém poderá argumentar que não há diferença substancial entre subir a Selic e ampliar o compulsório, já que ambas as medidas visam frear o consumo e assim reduzir a pressão inflacionária. Mas, essa é apenas meia parte da história. O fundamental a ser dito é que, ao optar pelo uso do compulsório (constrição quantitativa), o governo abre a possibilidade de enfrentar a inflação sem provocar valorização do câmbio. E sabemos bem que essa relação selic-câmbio é hoje a mais grave ameaça à economia brasileira. Com a selic alta, atraímos capitais estrangeiros, valorizamos o real, perdemos exportações, ampliamos importações e, no final das contas, reduzimos o nível de emprego e a renda no país.

Claro que os jornalões, os mídia-ligeira e seus mais importantes patrocinadores (os bancos) vão gritar e fazer o possível para apresentar a solução anunciada hoje como indesejável e prejudicial para o público. A via do compulsório bancário reduz a amplitude dos capitais administrados pelos bancos e, com isso, diminuem seus lucros. Para o mercado financeiro, é sempre muito mais interessante que o governo lhes reduza o compulsório e cuide de frear o consumo via aumento da taxa selic. Com isso, mesmo que percam clientes na ponta do crédito, podem direcionar o "excesso de capital" para os títulos públicos e faturar numa nice o juros pagos pelo governo. O problema é que, como não podem contar essa história de forma clara, resta-lhes tergiversar e confundir o público.

Nossa sorte é que, a essa altura do campeonato, é só isso que lhes resta.

30.11.10

sobre a prática do futuro

Reproduzo abaixo um texto de Artur Araújo que sintetiza com aguda perspicácia os desafios políticos que nos reserva o futuro. Creio que a temática explorada por ele é a questão mais importante para as esquerdas brasileiras e para que possamos seguir por um desenvolvimento econômico e social que não descambe para o populismo liberal-conservador.

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A hora e a vez dos partidos

Artur Araújo

“Antes nós tínhamos idéias e não tínhamos votos; agora temos votos e não temos idéias.”
(citado por Marco Aurélio Garcia, em entrevista ao “Le Monde Diplomatique”)

“A metade da sabedoria [...] de nossos estadistas se baseia em supostos que foram verdadeiros, ou parcialmente verdadeiros, em sua época, mas que agora são cada vez menos verdadeiros, à medida que passam os dias. Temos que inventar uma nova sabedoria para uma nova época. E, entretanto, devemos - se havemos de fazer algo de bom - parecer heterodoxos, incômodos, perigosos e desobedientes com os que nos têm forjado.”
(Lord Keynes, “Essays in Persuasion”)

Os antecedentes, resultados e desdobramentos das eleições brasileiras de 2010 exigem acrescentarmos às categorias “Estado” e “Nação” – chaves essenciais do ciclo iniciado em 2003 – os Partidos Políticos, como instrumento insubstituível para a continuidade e aprofundamento das tarefas de caráter democrático e popular a que se lançaram as forças progressistas no país.
Do ponto de vista destas forças políticas o processo eleitoral e a geografia social do voto permitem realçar três componentes. O primeiro é um crescente esgotamento do ciclo dos “bolsos e estômagos”; o segundo, a possibilidade de reabertura da interlocução com a intelligentsia; o terceiro é o “desafio jovem”.
O cenário conjuntural de início do governo Dilma, por sua vez, coloca em pauta dois outros elementos: a “arbitragem econômica” e o encerramento do período marcado pelo protagonismo pessoal de Lula.
A combinação destes cinco aspectos anuncia o início de novo período, em que aos partidos caberá papel em muito diverso e superior ao até agora deles exigido.
Redução de miséria absoluta; integração de enormes contingentes ao mundo do consumo; e um ciclo virtuoso de crescimento do emprego, da renda do trabalho e dos lucros marcaram o Brasil, notadamente a partir de 2006. Estas foram as bases objetivas das vitórias eleitorais das esquerdas e dos níveis inigualados de aprovação de seus governos.
Tais fenômenos, no entanto, são também os responsáveis pela criação de uma nova gama de interesses e aspirações no eleitorado, como que um “preço do sucesso”.
As camadas médias “tradicionais” - particularmente das regiões sul e sudeste e em parte significativa do cinturão agrícola do centro-oeste e norte - manifestam preocupações nítidas com a afluência dos “de baixo” e nem os ganhos econômicos que vêm experimentando são suficientes para superar suas desconfianças em relação às políticas em curso.
Ainda não vêem no desenvolvimento sustentável calcado na expansão do mercado interno e na presença ativa do Estado um caminho que lhes assegure seu “lugar ao sol”. Ou, no mais das vezes, ainda se mostram prisioneiras do Brasil da casa-grande & senzala e temem perdas de relevância e status.
Já a mal denominada “nova classe média”, ainda que tenha se mantido majoritariamente ao lado das forças governistas, dá mostras de baixa “fidelização”, incipiente politização e fragilidades que permitem sua manipulação religiosa ou ideológica.
Perigosas, por reducionistas, as metáforas na análise política podem, no entanto, estabelecer imagens úteis. Os assalariados brasileiros, oriundos de qualquer desses segmentos (ou do proletariado “clássico”), terão seus corações e mentes crescentemente disputados, no curto e médio prazos, por dois possíveis “modelos” de sociedade: as alternativas “americana” ou “européia”.
A alternativa “americana” – centrada no mercado; no indivíduo; na focalização das ações sociais; e na redução do Estado aos seus mínimos patamares – seduz nossa mídia, a direita nativa e frações expressivas das camadas médias “tradicionais”. É como um “veio natural” para o desdobramento da conjuntura e organização do futuro nacional e pode vir a ser síntese das aspirações dos recém-chegados ao consumo.
A rota “européia” – alicerçada em Estado regulador e intervencionista; em sociedade com alto grau de organização e ação coletivas; na universalização dos programas sociais; e no contínuo balizamento dos mercados – é uma opção a que se deve convencer a sociedade brasileira, particularmente a “nova classe média”, que tem alcançado seu novo patamar de consumo e cidadania exatamente por efeito de políticas desse corte.
Os casos da juventude e da intelligentsia são também vitais.
Quanto à primeira, basta lembrar que, em 2014, eleitores da faixa etária dos 16 aos 28 anos nunca terão experimentado, pessoalmente, a realidade de governos neoliberais e seu convencimento não se dará pela antítese do passado, mas pela perspectiva do futuro que se lhes ofereça.
O mundo acadêmico, das artes e da cultura, estratégico na batalha de idéias e na construção de hegemonia, só se manterá cético em relação à via “americana” se lhe for oferecido mais que o mero susto que a radicalização à direita da campanha de Serra provocou.
Tais tarefas não se executam trilhando solitariamente nenhum dos caminhos até agora adotados: o apelo comparativo ao passado recente; a repercussão de ganhos materiais (os “estômagos e bolsos”) ou um chamamento abstrato à solidariedade e ao progresso. Exigem muito mais.
Exigem, centralmente, a explicitação de um “Projeto de Brasil”, compreensível, factível, articulado e gerador de entusiasmo social efetivo. E falar em projeto é, antes de tudo, falar de partidos, instrumentos sine qua non para tanto.
É também no campo partidário que se encontra a chave de articulação das outras duas características conjunturais:
a) a complexa tarefa de arbitragem macro e microeconômica que o cenário externo (principalmente) e os próprios desequilíbrios econômicos internos colocam em pauta (redução de juros; reequilíbrio cambial; controle inflacionário; recuperação da capacidade investidora do Estado e do capital nacional; crescente demanda por recursos públicos para programas sociais universais; as consequentes alternativas tributárias; etc.);
b) a substituição dos mecanismos de representação política, centrados na figura do presidente da República, por alternativas mais “despersonalizadas” e institucionais.
A superação dos desequilíbrios econômicos, ainda mais em cenário internacional crítico, não será fruto de “golpes de mão” – do ippon tão pregado por Collor e tão ao gosto de economistas de poltrona – mas de um longo e monótono ciclo de medidas pontuais, ainda que com ponto de mira: o aumento da participação da renda do trabalho na renda nacional; o financiamento dos serviços e obras públicas; e a geração contínua de poupança pública e privada que financie o desenvolvimento da nação.
Essa delicada arbitragem diuturna exige muito além do que possam fornecer um corpo técnico ou a vontade monocrática da presidenta. É uma tarefa política em sua mais ampla acepção, é uma tarefa partidária por excelência. Se a isso se soma a saída de cena do “partido em forma de gente”, que Lula corporificou no último período, mais clara se coloca a exigência dos novos tempos.
Esta é a hora e a vez dos partidos.

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Como complemento ao debate e pensando nas peças que deverão compor essa arquitetura do futuro, sugiro também um texto que escrevi recentemente "a hora e a vez da classe média".

27.11.10

austeridade fiscal é o nome do blefe

Na Folha de hoje, na seção Tendências/Debates (pg A3), dois economistas respondem se o governo Dilma precisa fazer um ajuste fiscal. 

De cara, já há uma certa malandragem na formulação da pergunta. Ao leitor desavisado, pode parecer que o governo brasileiro gasta mais do que arrecada e que, portanto, chegou a hora da austeridade. Ora, desde o primeiro ano de mandato Lula vem colecionando superávitis fiscais primários e, com isso, tem feito cair a relação dívida pública/PIB, cuja dimensão é sempre utilizada pelos economistas de mercado para explicar os juros altos - importante lembrar que Lula derrubou essa relação de 54% para 37% e que hoje, por conta da crise de 2008, ela é de apenas 41%, uma das menores entre as grandes economias mundiais.

Nas respostas, encontramos um economista que diz SIM ao ajuste fiscal - Guilherme da Nóbrega, do banco Itaú - e outro que é colocado do lado contrário - do NÃO - que, na verdade, argumenta que o ajuste fiscal já vem sendo feito e que, além disso, não há relação mecânica entre ajuste fiscal e queda dos juros, como faz crer a maioria dos analistas da velha mídia. É digno de nota o fato de que no duelo, o sujeito que diz SIM é funcionário de um banco, cuja rentabilidade é tanto maior quanto mais elevados forem os juros. No lado do NÃO, temos um professor de economia da Unicamp, escola que se destaca por pensar o desenvolvimento de longo prazo.

Reproduzo abaixo os dois textos (SIM e NÃO). Antes, porém, devo dizer que na argumentação do economista do Itaú há um falseamento gritante da história econômica brasileira. Ao buscar as razões do crescimento da dívida pública e do sucateamento do estado brasileiro, ele omite dois momentos cruciais: a crise da dívida no início dos anos 80, cuja causa foi a agressiva política de juros altos dos EUA, e a sobrevalorização do real na década de 90 - estratégia conhecida como "populismo cambial" - que multiplicou por 13 a dívida pública brasileira. Outro aspecto curioso do argumento do SIM fiscal é que projetam para os anos futuros a situação de 2009 e 2010 e concluem que essa tendência levará ao descontrole das contas públicas. Pura falácia. 2009 e 2010 foram anos atípicos, pois o governo teve que abrir mão de impostos e ampliar gastos para enfrentar a crise externa que solapava o mundo. Como sabemos, houve grande êxito nessa estratégia que, contudo, não se repetirá em 2011 simplesmente porque pelo menos no Brasil já retomamos o curso normal da economia. Vamos aos textos.

Tomei apenas a liberdade de grifar alguns trechos de cada autor. 


NÃO


Não é preciso superavit acima da meta

FRANCISCO LUIZ C. LOPREATO

A aproximação da posse de Dilma Rousseff trouxe de volta o coro a favor de forte ajuste fiscal.
A alegação dos que defendem essa tese é a de que a política fiscal do governo Lula colocou em risco as contas públicas e pressionou a inflação, ou que o aumento substancial do superavit primário implicará forte queda da dívida e dos juros.
Vejamos esses pontos. Primeiro, a situação fiscal é aceitável, bem melhor do que em períodos anteriores, e a inflação pouco acima do centro da meta não parece estar associada à expansão da demanda provocada por excesso de gasto público. Além disso, a dívida pública líquida (41% do PIB) é uma das menores em relação à dos principais países do mundo.
Segundo, a queda acelerada da dívida pública, com o aumento do superavit primário, pode ter efeito positivo na taxa de juros, mas não se deve esperar baixa expressiva enquanto não houver a separação entre o sistema monetário e o de dívida pública. O atual patamar de taxa de juros está atrelado à forma "sui generis" de convivência desses dois mercados.
O problema se arrasta desde o período de alta inflação e, caso não seja eliminado por meio de reformas envolvendo alterações na remuneração da poupança e o provável abandono dos títulos indexados à Selic, dificilmente a taxa de juros cairá além do nível alcançado no período crítico da crise mundial, e as dificuldades de alongar os prazos de financiamento continuarão a existir.
O principal alvo da crítica, na verdade, não aparece de modo explícito. O que de fato se questiona é a decisão do governo Lula de alterar a lógica da política fiscal e a estratégia de desenvolvimento.
O retorno do Estado como ator central na articulação de novas frentes de investimento levou à reestruturação dos instrumentos fiscais e financeiros de apoio à ação do setor público, exigindo o fortalecimento dos bancos de crédito oficiais, o revigoramento das empresas públicas e a ampliação dos incentivos fiscais.
A candidata Dilma apresentou proposta de governo semelhante.
Espera-se que mantenha a posição ativa do Estado e ainda trate de recuperar a força do planejamento e da política industrial. Um ajuste fiscal severo vai contra essas ideias e coloca em risco a continuidade do programa de investimentos.
Mas, por outro lado, é importante que a manutenção do projeto vencedor das eleições não signifique descontrole das contas públicas. Não há esse risco. A provável redução do ritmo de reajustes do salário mínimo trará reflexos positivos no resultado da previdência social, e outros gastos devem seguir o mesmo caminho.
Além disso, a nova equipe econômica já se comprometeu com a estabilidade fiscal e com a redução da dívida pública, mantendo nível adequado de superavit primário.
O valor proposto para o saldo primário (3,1% do PIB) e um crescimento médio da ordem de 5% do PIB garantem a redução sustentada do peso da dívida pública no decorrer do próximo mandato presidencial, sobretudo se vier a ocorrer reforma capaz de dar fim ao entrelaçamento entre mercado monetário e de dívida pública, abrindo espaço para a queda da taxa de juros.
Enfim, o momento da economia brasileira é favorável e não requer a adoção de rígido programa de austeridade fiscal; basta levar adiante a política de defesa do crescimento e sustentar o compromisso de não deteriorar as contas públicas em nome da expansão econômica.

FRANCISCO LUIZ C. LOPREATO é professor do Instituto de Economia da Unicamp e autor do livro "O Colapso das Finanças Estaduais e a Crise da Federação" (editora Unesp, 2002).




SIM

Oportunidade imperdível
GUILHERME DA NÓBREGA

Há muito a se comemorar nos resultados fiscais do Brasil. De maneira inédita na história recente, o governo pode fazer política fiscal anticíclica como resposta a uma grave crise.
Apesar da perda de receita e da queda do superavit primário, preservou-se a solvência. Pode-se até reduzir temporariamente alguns impostos. Havia gordura.
Em 2009, por causa da crise, a arrecadação praticamente não cresceu. Já o gasto continuou a subir, mais ou menos no mesmo ritmo acelerado dos últimos anos. O superavit primário (antes de juros), que até então andava na casa dos 4% do PIB, caiu para 2,1% do PIB.
Em 2010, com a recuperação da economia, a receita felizmente voltou a crescer. O gasto, porém, se acelerou. Não fossem receitas extraordinárias e alguma criatividade contábil, o resultado primário teria se mantido no mesmo nível fraco de 2009. Computados os extras, deve chegar a 3% do PIB.
O novo governo já anunciou a intenção de manter o superavit nesse nível em 2011. Sem receitas extraordinárias e criatividade, porém, só chegará lá se reduzir fortemente o crescimento dos gastos. O esforço, contudo, é necessário e tende a ser bem recompensado.
O conforto que vivemos desde 2009 é resultado de longa e paciente preparação. Se formos ver bem, essa história começa na exaustão fiscal do começo dos anos 80. Ali encerrou-se o ciclo de crescimento tocado pelo setor público nos anos 70, do qual foram protagonistas as empresas estatais, o gasto público, o crédito público subsidiado, a proteção tarifária e as grandes obras.
Quaisquer que fossem os seus méritos, o modelo dos anos 70 deixou uma herança fiscal indesejável -nos números e, principalmente, na precariedade institucional. Sobraram limitadíssimos instrumentos de gestão. Era preciso agir.
Em 1986 criou-se, finalmente, uma secretaria do Tesouro. Por essa época se eliminou o relacionamento privilegiado que o Banco do Brasil tinha com o Banco Central. Depois de idas e vindas, o Ministério do Planejamento se consolidou no papel de gestor orçamentário.
As privatizações eliminaram despesas e simplificaram a gestão. O enxugamento do sistema bancário público revelou alguns esqueletos e evitou muitos outros. A Lei de Responsabilidade Fiscal trouxe capacidade de controle e mais previsibilidade.
Mesmo restando muito a fazer, a construção de conjunto mínimo de instituições fiscais é, sem exagero, uma das mais importantes conquistas de nossa história recente.
Para ela contribuíram sucessivos governos, o Congresso, o Judiciário, a opinião publica. Se não resolvemos todos os problemas, ao menos sabemos onde a maioria deles está. A melhor política fiscal está no centro da transformação que nos deu juros mais baixos, horizontes mais largos, mais produtividade, mais crescimento. Não é pouco.
O novo governo terá, de imediato, a oportunidade de mostrar que faz parte dessa trajetória. A piora fiscal de 2009 era plenamente justificável. A ausência de melhora em 2010 (a não ser pelos eventos extraordinários) criou a dúvida sobre seu compromisso com a história que construímos ao longo desses muitos anos.
Empenhar-se para entregar de fato um superavit primário superior a 3% do PIB, "sem exceções", será fundamental para dar corpo ao discurso oficial, confirmando a natureza anticíclica dos fracos resultados de 2009 e 2010.
No plano conjuntural, contribuirá para desacelerar a economia, reduzindo o risco de inflação e a eventual necessidade de o Banco Central subir juros. De perspectiva mais longa, o compromisso permanente com o nível e a qualidade do gasto público é o caminho para assegurar que o Brasil continuará a se beneficiar de juros mais baixos, horizontes mais largos e estabilidade.
Não é fácil chegar lá, mas a oportunidade de tentar é imperdível.

GUILHERME DA NÓBREGA é economista do banco Itaú Unibanco.