19.10.10

para quem ainda tem dúvida

Copio abaixo o texto de Ricardo Horta (publicado originalmente no blog O Biscoito Fino e a Massa).
Ricardo reuniu um grande número de informações e links que respondem aos argumentos falaciosos que tem sido usados contra a candidatura Dilma. Há também muitos links (em azul) que dão acesso a textos e informações complementares.
Se você conhece outras pessoas que ainda não decidiram em quem votar, encaminhe o texto. Com a palavra, Ricardo Horta:
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Esta mensagem é dedicada a você, eleitor consciente e crítico, cujo voto é fundamentado em argumentos, que ainda está indeciso. 

Ela é dividida em tópicos para facilitar: você pode ir direto onde lhe interessa.

Tudo o que será exposto nesta mensagem terá dados e respectivas fontes (clique nos links), diferentemente de tantos spams eleitorais e correntes apócrifas que surgem por aí. 

Se você discordar de algo - o que é perfeitamente legítimo - o debate poderá se dar em cima de evidências, em vez de boatos e achismos.

Os argumentos defendidos são:

Tópico 1: Não é verdade que houve "aparelhamento da máquina administrativa" na Era Lula;

Tópico 2: Não é verdade que "houve mais corrupção no governo Lula"; pelo contrário, os últimos 8 anos foram marcados por um combate inédito a esse mal;

Tópico 3: Não é verdade que "a economia foi bem no governo Lula só porque este não mudou a política econômica de FHC";

Tópico 4: Não é verdade que o governo Lula "enfraqueceu as instituições democráticas"; pelo contrário, hoje elas são muito mais vibrantes e sólidas;

Tópico 5: A campanha de José Serra é baseada nas fanáticas campanhas da direita norte-americana, daí o perigo de referendá-la com seu voto.



Tópico 1: Não é verdade que houve "aparelhamento da máquina administrativa" na Era Lula;
Você já deve ter ouvido por aí, tantas vezes, que o PT e o governo Lula "aparelharam o Estado", usando dos cargos em comissão para empregar amigos, apaniguados e militantes, certo? 

Pois bem, então lhe perguntamos: quantos são esses cargos em comissão no Poder Executivo federal? São 200 mil, 80 mil, 20 mil? Você faz ideia de qual é esse número preciso?

Primeiramente, acesse este documento aqui: o Boletim Estatístico de Pessoal do Ministério do Planejamento, última edição, de julho deste ano.

Vejamos: na página 33, você pode ver que há hoje, no Executivo federal, um total de 570 mil servidores civis na ativa.

Os ocupantes de DAS (cargos de direção e assessoramento superior) são 21,6 mil (página 107).

Porém, os de recrutamento amplo, ou seja, aqueles que foram nomeados sem concurso, sem vínculo prévio com a administração, são quase 6 mil (página 109), ou pouco mais de 1% do total de servidores civis. Se você considerar apenas os cargos que são efetivamente de chefia (DAS 4, 5 e 6), não chegam a mil e quinhentos.

Parece bem menos do que se diz por aí, não é mesmo? Agora vamos lá: para que servem esses cargos? Não custa dizer o óbvio: em democracias contemporâneas, o grupo que ganha o poder via eleições imprime ao Estado as suas orientações políticas. Em alguns países, o número de comissionados é maior (caso dos EUA); em outros, menor (como na Inglaterra). É natural que seja assim. 

O que dizem os estudos internacionais sérios sobre a máquina administrativa brasileira? Vá aqui e baixe um estudo da OCDE sobre o tema. No Sumário Executivo, você verá que o Brasil não tem servidores públicos em excesso, embora o contingente de servidores esteja em expansão e ficando mais caro; que há necessidade de servidores sim, para atender às crescentes demandas sociais; que uma boa gestão de RH é essencial para que isso se concretize; e que o governo federal deve ser elogiado pelos seus esforços em construir um funcionalismo pautado pelo mérito.

Vamos então falar de meritocracia? O que importa é que o governo Lula perseguiu uma política de realização de concursos e de valorização do servidor público concursado sem precedentes. Basicamente, com os novos concursos, a força de trabalho no serviço público federal retomou o mesmo patamar quantitativo de 1997. A maior parte dos cargos criados pelo PT, porém, foi para a área de educação: para as universidades e institutos técnicos já existentes ou que foram criados. Volte no Boletim Estatístico e veja a página 90, sobre as novas contratações em educação. Houve muitos concursos para Polícia Federal e advocacia pública, além de outras áreas essenciais para o bom funcionamento do Estado.

O governo Lula regulamentou os concursos na área federal (veja os arts.10 a 19 deste Decreto),recompôs as carreiras do ciclo de gestão, dotou as agências reguladoras de técnicos concursados (veja a página 92 do Boletim Estatístico), sendo que nos tempos de Fernando Henrique, elas estavam ocupadas por servidores ilegalmente nomeados.

E então? você ainda acha que houve inchaço da máquina pública? Dê uma olhada nos dados deste estudo aqui.

E os tucanos, que alegam serem exímios na gestão pública? O que têm para mostrar?

Nos tempos de FHC, o contingenciamento levou à sistemática não realização de concursos. Para atender às demandas de serviço, a Esplanada nos Ministérios se encheu de terceirizados, temporários e contratados via organismos internacionais, de forma ilegal e irregular. Eramdezenas de milhares deles. Em 2002, apenas 30 servidores efetivos foram nomeados! O governo Lula teve de reverter isso, daí a realização de tantos concursos públicos.

Você sabia? O Estado de São Paulo, governado por José Serra, tem proporcionalmente mais ocupantes de cargos em comissão por habitante do que o governo federal. 

E os técnicos, concursados, como são tratados por lá? Bem, eles não estão muito felizes com o Serra não. 

Talvez porque as práticas que o PSDB mais condena no governo federal sejam justamente aquelas que eles praticam no governo estadual...



Tópico 2: Não é verdade que "houve mais corrupção no governo Lula do que no FHC"; pelo contrário, os últimos 8 anos foram marcados por um combate inédito a esse mal;
Muitos eleitores revelam a sua insatisfação com o governo Lula enumerando casos como o mensalão, as sanguessugas, Erenice Guerra, Waldomiro Diniz, Correios. Porém, uma memória que não seja curta pode se lembrar de casos como SUDAM, SUDENE, Anões do Orçamento, mensalão da reeleição, SIVAM, etc, para ponderar que mais do que exclusividade deste ou daquele governo, escândalos de corrupção são um mal da nossa cultura política.

Cientistas sociais sabem que é muito difícil "medir" a corrupção. Como a maior parte dela nunca vem à tona, não chega a ser descoberta, noticiada e investigada, nunca se tem uma noção clara do quanto um governo é realmente corrupto. O que importa, então, é o que um governo faz para combater essa corrupção. E nisso, o governo Lula fica muito bem na fita.

Vamos começar pela Polícia Federal. Logo no início do governo, foi feita uma limpeza no órgão (até a revista Veja chegou a publicar uma elogiosa reportagem de capa). Desde então, foram realizados uma série de megaoperações contra corruptos, traficantes de drogas, máfias de lavagem de dinheiro, criminosos da Internet e do colarinho branco (veja uma relação dessas operações aqui). Só em 2009, foram 281 operações e 2,6 mil presos. Desde 2003, foram quase dois mil servidores públicos corruptos presos. Quem compara os números não pode negar que aPF de FHC não agia, e que a PF de Lula tem uma atuação exemplar.

E a Controladoria-Geral da União? Inicialmente, FHC criou a tímida Corregedoria-Geral da União. Foi Lula que, a partir de 2003, realizou concursos públicos para o órgão e expandiu sua atuação. Hoje, a CGU é peça-chave no combate à corrupção. Graças ao seu trabalho, quase 3 mil servidores corruptos já foram expulsos. A CGU contribuiu no combate ao nepotismo e zela pelo emprego das verbas federais via sorteios de fiscalização. E o Portal da Transparência, você conhece? Aquele "escândalo" do mau uso dos cartões corporativos só apareceu na imprensa porque todos os gastos das autoridades estavam acessíveis a um clique do mouse na Internet.

Vamos ficar nesses casos, mas poderíamos citar muitos outros: o fortalecimento do TCU como órgão de controle, um Procurador-Geral da República que não tem medo de peitar o governo (o do FHC era chamado de "engavetador-geral da República", lembra-se?), o Decreto contra o nepotismo no Executivo Federal. Numa expressão, foi o governo Lula quem "abriu a tampa do esgoto".

Se uma pessoa acreditar menos numa mídia que é claramente parcial, e mais nas evidências, a frase "o governo Lula foi o mais republicano da nossa história" deixará de parecer absurda. Que tal abrir a cabeça para isso?


Tópico 3: Não é verdade que "a economia foi bem no governo Lula só porque este não mudou a política econômica de FHC";
Quando se fala em política macroeconômica implantada por FHC, refere-se geralmente ao tripécâmbio flutuante, regime de metas de inflação e superávit primário. Vamos poupar o leitor do economês: basicamente, o preço do real em relação ao dólar não é fixo, flutuando livremente; o Banco Central administra os juros para manter a inflação dentro de um patamar; e busca-se bons resultados nas transações com o exterior para pagar as contas do governo.

Nem sempre foi assim, nem mesmo no governo FHC: até 1998, o câmbio era fixo. Todo mundo se lembra que, em janeiro de 1999, a cotação do dólar, que valia pouco mais de um real, subitamente dobrou. Talvez não se lembre que isso ocorreu porque FHC tinha mantido artificialmente o câmbio fixo durante 1998, para ganhar a sua reeleição - que teve um custo altíssimo para o país - e logo depois, vitorioso, mudou o regime cambial (no que ficou conhecido como "populismo cambial"). O regime de metas de inflação foi adotado só depois disso. Ou seja, FHC não só não adotou uma mesma política macroeconômica o tempo em que esteve no Planalto, como também deu um "cavalo-de-pau" na economia, que jogou o Brasil nos braços do FMI, para ser reeleito. 

Que política macroeconômica de FHC então é essa, tão "genial", que o Lula teria mantido? A estabilidade foi mantida, sim, e a implementação do Plano Real pode ser atribuída ao governo FHC (embora Itamar Franco, hoje apoiador de Serra, discorde disso). 

Mas Lula fez muito mais do que isso. A inflação não voltou: as taxas de inflação foram mantidas, entre 2003 e 2008, num patamar inferior ao do governo anterior. E com uma diferença: a estagnação econômica foi substituída por taxas de crescimento econômico bem maiores, comredução da dívida pública.

A alta do preço das commodities no mercado externo favoreceu esse quadro (reduzindo a inflação de custos), mas não foi tudo. O crescimento da economia também foi favorecido pelo crescente acesso ao crédito: em 2003, foi criado o crédito consignado, para o consumo de massa de pessoas físicas - e deu certo, puxando o crescimento do PIB; o BNDES se tornou um agente importantíssimo na concessão de crédito de longo prazo (veja esta tabela), induzindo outros bancos a paulatinamente fazerem o mesmo. 

Os aumentos reais do salário mínimo e os benefícios do Bolsa Família foram decisivos para umaqueda da desigualdade social igual não se via há mais de 40 anos: foi a ascensão da classe C. 

Isso tudo é inovação em relação à política econômica de FHC.

E quando bateu a crise? Aí o governo Lula foi exemplar. Ao aumentar as reservas em dólar desde o princípio do governo, dotou o país de um colchão de resistência essencial. Os aumentos reais do salário mínimo e o bolsa família possibilitaram que o consumo não se retraísse e a economia não parasse - o mercado interno segurou as pontas enquanto a crise batia lá fora. E, seguindo o receituário keynesiano - num momento em que os economistas tucanos sugeriam o contrário - aumentou os gastos do governo como forma de conter o ciclo de crise. Deu certo. E a receita do nosso país virou motivo de admiração lá fora.

No meio da pior crise global desde a de 1929, o Brasil conseguiu criar milhões de empregos formais. Provamos que é possível crescer, num momento de crise, respeitando direitos trabalhistas, sendo que a agenda do PSDB era flexibilizá-los para, supostamente, crescer.

Você ainda acha que tucanos são ótimos de economia e petistas são meros imitões? 

Então vamos ao argumento mais poderoso: imagens valem como mil palavras. 

Dedique alguns minutos a este vídeo, e depois veja se você estaria feliz se Serra fosse presidente quando a crise de 2008/2009 tomou o Brasil de assalto.

Se você tem mais interesse nessa discussão, baixe este documento aqui e veja como andam os indicadores econômicos do Brasil neste período de crescimento, inflação baixa e geração de empregos.



Tópico 4: Não é verdade que o governo Lula "enfraqueceu as instituições democráticas"; pelo contrário, hoje elas são muito mais vibrantes e sólidas;
Mostramos no tópico 2 que os órgãos de controle e combate à corrupção se fortaleceram no governo Lula. Além deles, os outros Poderes continuaram sendo independentes do Executivo. O Legislativo não deixou de ser espaço de oposição ao governo (que Arthur Virgílio não me deixe mentir), e lhe impôs ao menos uma derrota importante. O Judiciário... bem, além de impor ao governo derrotas, como no caso da Lei de Anistia, está no momento julgando o caso do mensalão, o que dispensa maiores comentários.

E a imprensa? Ela foi silenciada, calada, em algum momento? Uma imagem vale por mil palavras - clique aqui.

O que se vê, na verdade, é o oposto. Foi o Estadão, que se diz guardião da liberdade, quemcensurou uma articulista por escrever este texto, favorável ao voto em Dilma.

Neste vídeo, uma discussão sobre as verdadeiras ameaças à liberdade de expressão.

Sobre democracia, é impossível não abordar um tema que foi tratado à exaustão neste ano de 2010: o terceiro Plano Nacional dos Direitos Humanos, PNDH-3. 

Muito se escreveu sobre seu caráter "autoritário", sobre a "ameaça" que ele representaria à democracia. Pouco se escreveu sobre o fato de ele ser não uma lei, mas um Decreto do Poder Executivo, incapaz, portanto, de gerar obrigações em relação a terceiros. Não se falou que se tratava de uma compilação de futuros projetos de governo, que teriam que passar pelo crivo do Poder Legislativo. Não foi mencionado que ele não partiu do governo, mas de uma Conferência Nacional, que reuniu os setores da sociedade civil ligados ao tema. E pior, a imprensa deliberadamente omitiu que seus pontos polêmicos já estavam presentes nos Planos de Direitos Humanos lançados no governo FHC.

Duvida? Leia este texto e este aqui. Ou ainda, veja com seus próprios olhos: neste link, os três PNDH's.

Olha lá, por exemplo, a temática do aborto no PNDH-2, de 2002 (itens 179 e 334).

Por fim: você realmente acha que um governo que traz a sociedade civil para discutir em Conferências Nacionais, para, a partir delas, formular políticas públicas, é antidemocrático? Pense nisso.


Tópico 5: A campanha de José Serra é baseada nas fanáticas campanhas da direita norte-americana, daí o perigo de referendá-la com seu voto.
Quem acompanhou as eleições de 2004 e 2008 para a Presidência dos Estados Unidos sabe quais golpes baixos o Partido Republicano - aquele mesmo, conservador, belicista, ultrarreligioso - utilizou para tentar desqualificar os candidatos do Partido Democrata. Em 2004, John Kerry foipintado como o "flip flop", o "duas caras". Em 2008, lançaram-se dúvidas sobre a origem de Obama: questionaram se ele era mesmo americano, ou se era muçulmano, etc. Em comum, uma campanha marcada pelo ódio, pela boataria na Internet, pela disseminação do medo contra o suposto comunismo dos candidatos da esquerda e a ameaça que representariam à democracia e aos valores cristãos.

Você nota aí alguma coincidência com a campanha de José Serra, a partir de meados de setembro de 2010? 

Não? 

Então vamos compilar algumas acusações, boatos e promessas que surgiram nas ruas, na internet, na televisão e nos jornais, com o objetivo de desconstruir a imagem da candidata adversária, ao mesmo tempo em que tentam atrair votos com base em mentiras e oportunismo.

Campanha terceirizada:
Panfletos pregados em periferias associaram a candidatura de Dilma a tudo o que, na ótica conservadora, ameaça a família e os bons costumes;
Panfletos distribuídos de forma apócrifa disseram que Dilma é assassina, terrorista e bandida, com argumentos dignos da época da Guerra Fria;
E você acha que isso foi iniciativa isolada de apoiadores, sem vínculo com o comando central da campanha? Sinto lhe informar, mas não é o caso: é o PSDB mesmo que financiou e fomentou esse tipo de campanha de baixo nível.

Oportunismo religioso:
- José Serra distribuiu panfletos em igrejas, associando seu nome a Jesus Cristo; 
- José Serra pagou campanhas de telemarketing para associar o nome de Dilma ao aborto;
- Até hino em igreja evangélica o Serra cantou;
- José Serra começou a ir a missas constantemente, de forma tão descarada que chamou atenção dos fiéis;

Promessas de campanha oportunistas:
- O PSDB criticou o Bolsa Família durante boa parte do governo Lula; mas agora, José Serra propõe o 13º do Bolsa Família;
- O PSDB defende a bandeira da austeridade fiscal e da contenção dos gastos públicos - foi no governo FHC que se criou o "fator previdenciário"; mas para angariar votos, Serra prometeu um salário mínimo de 600 reais e reajuste de 10% para os aposentados;
- O PSDB criticou o excesso de Ministérios criados por Lula, mas nesta campanha, Serra já falou que vai criar mais Ministérios;
- O DEM do vice de Serra ajuizou ação no STF contra o ProUni, mas agora diz que defende o programa;
- O PSDB se pintou de verde para atrair os eleitores de Marina no 1º turno, mas é justamente o partido de preferência da bancada ruralista e dos desmatadores da Amazônia;

Incoerência nas acusações:
- Serra acusou a Dilma de ser duas caras, mas ele mesmo entrou em contradição sobre suas relações com o assessor Paulo Preto;
- Serra tentou tirar votos de Dilma dizendo que ela era favorável ao aborto, sendo que ele, como Ministro, regulamentou a prática no SUS;
- Mônica Serra chamou Dilma de "assassina de crianças", sendo que ela mesma já teve que promover um aborto;
- José Serra nega que seja privatista, mas já foi defensor das privatizações, tendo o governo FHC a deixado a Petrobras em frangalhos;
- Serra acusa Dilma de esconder seu passado, mas ele mesmo esconde muita coisa;
- A campanha de Serra lança dúvidas sobre o passado de resistência de Dilma, mas omite que dois dos seus principais apoiadores, Fernando Gabeira e Aloysio Nunes Ferreira, pegaram em armas na resistência contra a ditadura, e que ele, Serra, também militou numa organização do tipo;
- Serra associa Dilma a figuras controversas como Renan Calheiros, Fernando Collor e José Sarney, mas esconde o casal Roriz, Roberto Jefferson, Paulo Maluf, ACM Neto, Orestes Quércia e outros apoiadores nada abonadores. Aliás, antes do Indio da Costa (que aliás pertence a uma família de tutti buona gente), quem era cotado para vice dele era o Arruda, do mensalão do DEM, lembra-se?

Isso sem citar os boatos que circulam nas ruas, nos ônibus, nas conversas de bar e entre taxistas.

E então: você ainda acha que a campanha de Serra é propositiva, digna, limpa? Um candidato que se vale de expedientes tão sujos para chegar ao poder merece o seu voto? 



Por fim: então por que votar em Dilma Rousseff?

Se você está disposto a dar uma chance para Dilma nestas eleições e quer saber bons motivos para tanto, remetemos aos três textos abaixo. 

http://napraticaateoriaeoutra.org/?p=7171

http://www.amalgama.blog.br/10/2010/para-voce-que-nao-votou-na-dilma/ (especialmente para quem votou em Marina no 1º turno)

http://www.revistaforum.com.br/blog/2010/10/10/frei-betto-dilma-e-a-fe-crista/ (se você acha que a questão religiosa importa, quando bem utilizada no debate eleitoral)

Boa leitura e boa reflexão: e um desejo para que a campanha, doravante, seja marcada pelo debate de projetos de país, propostas concretas e dados, não por calúnias, boatos e achismos.

18.10.10

o polvo que a veja esconde atende pelo nome de din-din

Na página A7 do jornal Valor Econômico de hoje (leia aqui) uma reportagem muito esclarecedora sobre os vícios que vão se cristalizando na medida em que os processos eleitorais se repetem e se institucionalizam no país.

O fato é que o dinheiro fala cada vez mais alto. De acordo com os dados do TSE analisados pelo jornal, 70% dos eleitos para a Câmara Federal estão entre os maiores arrecadadores em seus respectivos estados. Ou seja, há uma evidente correlação entre dinheiro de campanha e voto. Além disso, como também chama a atenção a reportagem, os candidatos que já vinham de um mandato, conseguem angariar mais apoios financeiros e, portanto, tem chances significativamente maiores de se elegerem.

É claro que isso não é novidade para ninguém. É mais do que sabido que cada voto tem um custo e, tendo como pagar, quase sempre se consegue eleger. Mas o que chama a atenção na matéria é o peso que essa relação dinheiro-voto vai ganhando na política brasileira, independentemente de região do país ou de cor política de cada candidatura. Tem candidato montado no dinheiro em todos os partidos.

É um sinal que deveria servir de alerta àqueles que prezam pela democracia e um motivo a mais para a urgência de uma reforma política. Nos próximos anos, tudo indica que o Brasil viverá um ciclo de prosperidade, com condições de desenvolvimento econômico e social jamais vistos.

Nossa "janela de oportunidade" é resultante dos seguintes fatores: num momento em que sobra capital e faltam oportunidades de negócios no mundo desenvolvido, nós somos uma avenida de possibilidades a ser explorada e, por isso, já estamos atraindo capital estrangeiro em volume elevado e crescente; temos um mercado interno de massas recém descoberto, ávido e crescente; temos e teremos cada vez mais o bem-aventurado Pré-Sal que, além de uma espécie de apólice de seguro quanto à solvência externa do país no futuro, já impacta os investimentos industriais de diversos setores importantes; nossa mão-de-obra com uma distribuição etária em "proporção áurea" também nos permite equacionar da melhor maneira a disponibilidade de mão-de-obras às demandas do mercado de trabalho e à saúde financeira do sistema previdenciário. Enfim, com tudo isso, podemos esperar por anos fervilhantes, mas devemos estar atentes aos riscos políticos e institucionais dessa conjuntura rósea. Entre esses, a crescente pressão dos interesses financeiros na esfera política é dos mais críticos, o que torna inadiável e crucial restringir ao máximo os nexos entre dinheiro e votos. Não avançaremos rumo à consolidação democrática do país se, especialmente nesse cenário de bonança, o capital se mantiver como pólo magnético a definir o rumo dos votos no país. E, por isso, me parece que a melhor alternativa é implementar no curto prazo o financiamento exclusivamente público das campanhas e, de outro lado, estabelecer  restrição ao tipo e volume de despesas por parte dos candidatos.

Entre outros mais, esses temas são fortes razões para eleger a candidata Dilma no próximo dia 31, quando estarão em jogo, não só mais um mandato de quatro anos, mas um mandato especialíssimo, durante o qual se definirão aspectos fundamentais de nosso desenvolvimento nacional. Um erro nesse momento crítico, como eleger um candidato claramente autoritário e com notório desprezo pelas demandas sociais e democráticas, repercutirá provavelmente durante muitos outros mandatos e postergará por décadas a sonhada conquista da autodeterminação de nosso país.

14.10.10

compare as receitas tucana x petista para enfrentar a crise



O vídeo, divulgado originalmente pelo RSurgente, demonstra com todas as cores o oportunismo de Serra e dos tucanos durante o período da crise internacional de 2008. Ver e ouvir Serra dizendo que "os tucanos não sabem jogar contra" é cômico e esclarecedor.

Em poucas palavras: o vídeo por sí só é mais do que suficiente para orientar aqueles que ainda estão em dúvida quanto a quem votar no dia 31 de outubro.

13.10.10

desemprego friccional? agora?

Peter Diamond, Dale Mortesen e Christopher Pissarides foram laureados com o Prêmio Nobel de Economia de 2010 por seus estudos sobre o "desemprego friccional". 
Poucos temas são tão irrelevantes quanto esse, principalmente quando se considera as atuais circunstâncias econômicas mundiais. 


Para quem não é do ramo é bom dizer que "desemprego friccional" é o nome que se dá à parte do desemprego que resulta do desencontro temporário entre trabalhadores e empregadores. Ex: um engenheiro naval que mora em Natal (RN) e que esteja desempregado pode levar algum tempo para descobrir que em São Gonçalo (RJ) estão precisando urgentemente de engenheiros navais, ou, um caso mais trivial, o azulegista do bairro A não sabe que a aposentada do bairro B quer ladrilhar a sua varanda. Enquanto os candidatos aos empregos não se encontram com aqueles que demandam sua força de trabalho, dá-se a situação de desemprego friccional.


O que os nobres economista fizeram foi sofisticar a análise sobre as tais fricções, suas causas e seus combates. Porém, cabe lembrar que essa modalidade de desemprego só tem alguma significância quando se supõe que o desemprego involuntário se aproxima de zero. Quando está sobrando engenheiro ou azulegista - quase sempre - o desemprego friccional é piada de mau gosto.


Portanto, beira o nonsense dar luz a esse assunto quando no mundo real problemas de emprego de muito maior gravidade e amplitude jogam para escanteio grandes contingentes de trabalhadores. Na Espanha, um em cada cinco trabalhadores está sem emprego; nos EUA se estima que nos próximos dez anos as taxas de desemprego permanecerão acima dos dois dígitos e a OIT anuncia que no último ano foi registrado o maior contingente de desempregados da história. 


Nesse contexto, seria muito mais interessante e profícuo discutir, por exemplo, a evidente correlação entre desregulamentação financeira e desemprego. Os suecos poderiam talvez procurar reconhecer o trabalho de algum economista menos crédulo que demonstrasse que nada desemprega mais do que a livre mobilidade de capitais.


Mas, como sabemos, os cientistas da tal academia sueca não costumam primar pelo realismo quando o tema é economia. Não escondem a preferência pela ficção e por ela navegam pela economia neoclássica e suas premissas café-com-leite. Estão certos de que a economia tende ao "desemprego natural" e, de modo precavido e responsável, preparam a ciência para lidar melhor com esse futuro radiante.

Pobres suecos! Um país tão avançado tendo que conviver com uma pantomima desse quilate. 

E.T.: embalado pelo mesmo bafo conservador, o Nobel de literatura coube à Mario Vargas Llosa. A esse respeito, sugiro a leitura de artigo publicado no Biscoito Fino, de autoria de Pedro Meira Monteiro (Clique aqui)  

12.10.10

instrucciones para experimentos em dias ocos

Para um feriado, nada como as exatas instrucciones de Julio Cortazar.
No vídeo abaixo, en su próprio timbre, nos orienta como fazer para subir uma escada ao revés.
Como deverão notar, é assunto de especial utilidade em dias ocos.
Antes, porém, algumas considerações necessárias:

Recomendações para a presente Instruccion: considerando a lassidão e a indolência que a muitos de nós domina e contamina nos dias ocos, é recomendável que aqueles que se dispuserem a reproduzir o experimento sugerido e tão bem orientado por Cortazar, reservem especial atenção ao derradeiro degrau, quando um leve toque descuidado do calcanhar poderá jogar por terra as percepções colhidas nas etapas anteriores do ensaio e - o que pode ser ainda mais grave - jogar ao solo o próprio sujeito do experimento.

A relevância e especificidade do derradeiro degrau, independentemente de quantos mais possuir a escada, decorre do fato de que nele se sobrepõem três aspectos críticos, a saber:

1º) ter-se-á, lógica e necessariamente, atingido o pavimento com maior distância em relação ao solo, o que significa dizer que, estando correta a canção popular que afirma que "quanto maior o coqueiro, maior o tombo", não haverá tombo maior do que o possível no referido degrau;

2º) como o último degrau é, necessariamente, um ponto de transição para um plano horizontal, dever-se-a estar atento à mudança abrupta das circunstâncias, o que não é algo trivial como pode parecer àqueles que estão acostumados a subir escadas de frente e que, portanto, tendem a subestimar este momentum crítico do experimento;

3º) como é frequente acontecer em outras modalidades de deslocamentos em que há clareza por parte do agente a respeito dos pontos de partida e de chegada, há uma natural e compreensível tendência ao relaxamento da atenção no segmento final da jornada, o que amplifica de maneira aguda os riscos de acidentes. No caso em tela, significa dizer que apenas um ou dois milímetros do solado do calcanhar que deixem de ser erguidos como vinham sendo nos degraus anteriores serão suficientes para provocar um desequilíbrio crítico do agente que, dadas as circunstâncias descritas nos itens (1) e (2), produzirão uma queda de consequências imprevisíveis e certamente indesejáveis.

Obs: é forçoso lembrar que a hipótese, mencionada em outro dito popular, de que "para baixo todo santo ajuda" não se aplica ao contexto do experimento supracitado. Vale dizer: imprecisões no uso de dizeres populares, muitas vezes inócuas e até charmosas, podem adicionar gravames em escala crescente quando se está praticando jogos lógicos que lançam mão da inversão de sentidos.


10.10.10

filho de hippie, pai de metaleiro

Pausa na eleição, mas não na política. Um dia de Rock.
Fui ao SWU com o filho para 10 horas de rock. 
E voltei tosquiado.

Me interessava em especial assistir aos legendários Mutantes e a boa música do Los Hermanos, grupos mais adequados aos ouvidos de um quarentão cansado. 


Qual o quê? Como dizia o bom Chico. 
Fui infectado pela sonzera dos 'veios'.


Primeiro, porque Os Mutantes, sob a autocrática liderança de Sergio Dias, já não mudam nem a roupa. Vestidos como nos sessenta, tocaram sem viço ou qualquer lampejo criativo. Sérgio Dias, cada vez mais ressentido, enche o saco, com uma eterna postura de reclamão. Entre hits do grupo, escolheu os mais etéreos, justamente aqueles em que, nos bons tempos, Rita Lee era a alma - para infelicidade da afinada substituta Bia. De resto, impôs duas músicas novas, que poucos tiveram a paciência de levar a sério. Ante uma platéia repleta de "air guitar players", não reviveu os inesquecíveis solos de guitarra que quarenta anos atrás colocaram Os Mutantes no topo do mundo. Foi uma pena.


Quanto aos cariocas Los Hermanos, o problema não foi exatamente com eles. Ocorre que aquela não era a praia nem a hora para a banda. Não cabiam no SWU, e estando lá, deveriam ter se apresentado antes das bandas nervosas que abriram a noite. Quando subiram ao palco, tocando suas melódicas canções, despertaram a platéia para as pernas exauridas, a bexiga cheia, o zumbido no ouvido, ... e muitos dispersaram. Apesar de que, os casais e boa parte das mulheres curtiram e até cantarolaram junto com os barbudos C.B.


Desconstruídos meus interesses, restaram-me as bandas pauleira, como dizíamos no tempo do Passat e do Corcel. E gostei do que ví.


Quem primeiro botou fogo no palco foi  o ótimo grupo de Goiania, Black Drawing Chalks, com um rock pesado, de grande força. Depois, veio o Macaco Bong, de Cuiabá, que toca um rock instrumental, meio alternativo, de excelente qualidade. Eram apenas  três sujeitos siderados (baixo, bateria e guitarra, sem vocal) que, por quase uma hora, mantiveram o público a alguns metros do chão. 


É curioso como têm surgido boas bandas no interior do país. Depois do Angra (originário de Fóz do Iguaçu), agora essa moçada do Centro-Oeste, com um tipo de música que poderia brotar em qualquer grande metrópole cinza do planeta. É som com cara de Berlim ou Londres, só que subproduto da soja e das distâncias encurtadas pela internet e seus aparatos.


Então, vieram as bandas gringas. 


Infectious Grooves, com um funk carregado, meio metal, e seu vocalista um tanto estranho, uma espécie de red-neck do B ou um Kid Vinil mais diabólico, que animou a platéia e em especial a moçada da pancadaria. Foi a senha para abrirem as rodas de bate-cabeça e o espreme-espreme entre os que queriam apenas ouvir a música.


Mais adiante, foi a vez do The Mars Volta,  grupo do Texas, formado por chicanos com pinta de holandeses. Gostei bastante. Com um hard-rock psicodélico que lembra muito o Led Zeppelin - com certeza alguém já deve ter dito isso antes. O vocalista, Cedric Zavalla, embora fisicamente talvez se pareça mais com Jimmy Page, tem um timbre de voz e trejeitos afeminados muito parecidos com os de Robert Plant. E faz animadas performances no palco. Já o guitarrista e lider do grupo, Omar Rodriguez-López, escondido atrás de sua boina preta, toca no melhor estilo Jimmy Page, fazendo solos delirantes, na linha de Dazed and Confused ou lemmon Song. À dupla, que faz a alma do grupo, acompanham outros ótimos músicos, apoiados por um sujeito que, à beira de um PC, cuida dos efeitos espaciais que permeiam os solos e nos fazem pensar em Marte. Muito bom.


E, finalmente, para terminar a noite, o explosivo e incendiário Rage Against The Machine. Além da música agressiva, algo entre o hip-hop e o heavy metal, o grupo se notabiliza pela militância política de esquerda. Tanto o vocalista Zack de La Rocha, financiador declarado da guerrilha Zappatista, quanto o extraordinário guitarrista Tom Morello, um filho de ex-guerrilheiro do Quênia, formado em ciências políticas em Harward, provocam como nunca ví a gana de suas platéias. Com um som nervoso e pegado e letras incendiárias, misturam revolução com desobediência civil, e protestos da melhor cepa. Em poucos minutos, fizeram cair a grade de proteção que os separava da platéia e, ironicamente, foram vítimas das machines: as caixas de som pifaram por 15 minutos, esfriando o sangue dos endiabrados do palco e do gramado. Mas não deixaram por menos, no final -  que ouvi do estacionamento - deixaram rolar a Intenacional Socialista enquanto se preparavam para o bis. Vida longa para essa banda porreta.


Por fim, uma palavra sobre o público. 
É verdade que era uma noite com sabor de sangue, mas gostei de ver a moçada rockeira destes dias de hoje. São muito diferentes da minha geração. Gente com cara boa e cabeça aberta, com um espírito meio libertário, mas sem porraloquice. Ao contrário do que se costuma dizer por aí, o rock de hoje me parece mais politizado e o público muito mais atento e crítico. Talvez seja uma decorrência do novo mundo inaugurado pelos arquivos em MP3 e a internet, que furaram as gravadoras e suas pautas musicais.  

o ronco da cuíca



Copiado do Tijolaço, blog do Brizola Neto 

8.10.10

na ponta do lápis



Veja o panfleto num tamanho maior!
Via @IlustreBOB

pensando verde e vermelho

É muito bom que temas como meio ambiente e sustentabilidade ganhem espaço na agenda política brasileira e devemos reconhecer que só por isso a candidatura de Marina Silva teve sua razão de ser.

Acho, porém, que mesmo considerando os limites de tempo e compromissos empresariais do PV, aqueles temas foram tratados de maneira superficial e se perdeu uma ótima oportunidade para avançar sobre tantas outras questões do nosso modo de vida contemporâneo. (a degradação da vida e do ambiente nas grandes metrópoles, o consumo inconsequente e desenfreado, a centralidade do automóvel, os incentivos fiscais, etc, etc...)

Há, contudo, um outro aspecto que gostaria de me aprofundar aqui em relação à agenda ambientalista, que tratei rapidamente dois posts abaixo.

Apesar do uso frequente de slogans do tipo "abordagem sistêmica" ou "perspectiva holística", que costumam acompanhar outros mais antigos como "desenvolvimento sustentável" ou "responsabilidade sócio-ambiental", vejo no discurso dos verdes uma inconsistência dos argumentos, justamente por carecerem de uma análise que abarque o conjunto de variáveis que compõem o complexo mundo que nos cerca. Ou seja, falta-lhes justamente a visão sistêmica de que tanto falam; falta-lhes um projeto de sociedade que dê conta de enfrentar todas as bandeiras que empunham, todas meritórias, mas que exigem um enfrentamento concreto e coerente para o qual não se arriscam.

Em sua grande maioria (na verdade não me lembro de nenhuma exceção), os Partidos Verdes não questionam ou problematizam os conflitos inerentes à dinâmica econômica atual, limitando o seu foco às manifestações mais tangíveis e epidérmicas das lutas dilacerantes e disruptivas que se multiplicam a partir das entranhas da concorrência intercapitalista. Aliás, é especialmente cara aos PVs a idéia de concorrência. Sonham com um darwinismo institucional, no qual as boas iniciativas devem ser premiadas através das regras impessoais do mercado. Adeptos entusiasmados do método de precificação de bens públicos, acreditam ser possível quantificar - em escala monetária - o valor da Mata Atlântica ou uma ninhada da arara azul e assim mobilizar via mercado os interesses econômicos capazes de salvá-los.

Ora, não há nada menos sistêmico do que esse tipo de abordagem. É o que na economia corresponde à perspectiva microeconômica, em oposição à macroeconomia que, se bem entendida, é a expressão fora de moda que no passado denominava os processos sistêmicos que compõem o ambiente sócio-econômico.

Portanto, os verdes nada mais fazem do que reunir em uma única cesta um conjunto de soluções parciais, supondo que, garantida a eficácia e a coerência interna (sustentabilidade) de cada solução, se conseguirá atingir uma sociabilidade mais racional e civilizada.

Lamento, mas é difícil não enxergar nesse tipo de posição ideológica uma mistura de voluntarismo ingênuo com preguiça intelectual. Creio ser muito mais profícuo e politicamente responsável, refletir sobre as causas da destruição massiva que a concorrência desregulada do capitalismo atual produz a cada vez que avança o frenético e imperativo processo de acumulação do capital. Nesse sentido, feitas as devidas mediações, nada é mais deletério ao meio ambiente ou à sustentabilidade do que o livre trânsito de que desfruta o capital nos dias de hoje. Como já via o velho Marx no século XIX, nada mais potente do que o capital (entenda-se como capital a dinâmica de valorização da riqueza, não a moral dos patrões) na tarefa de produzir obsolescências.

A mesma bolsa de valores, que dá vida às mágicas transações de crédito de carbono, é palco de trocas de ativos financeiros que põem de joelhos governos e tornam inócuas as políticas econômicas. Sem elas, ninguém, nem mesmo o espírito santo, é capaz de evitar que a fábrica que ontem produzia parafusos no teu bairro vire abrigo para os crackeiros nessa madrugada.

Ou haveria outra razão para as infinitas casas, milhões de quarteirões espalhados pelas cidades norte-americanas esvaziadas por uma lufada mal ajambrada dos mercados financeiros? Ou pense no belíssimo centro do Rio de Janeiro ou na saudosa Barra Funda em São Paulo, por que são hoje inservíveis e mumificaram? Não foi precisamente a inescapável volúpia capitalista que inventou os novos paraísos - a Barra da Tijuca, o Alphavile -  que não só escalpelaram as novas frentes de expansão, como precisaram desvalorizar as antigas e bem montadas regiões centrais?

O capital, por sua natureza, seu temperamento, não tem como fugir a essa sina. Ante a incerteza radical, lança mão de todas as estratégias a seu alcance, amplificando a concorrência e, no limite, tornando cada vez mais incerto o seu habitat, ao que dobra a aposta.

Assim, se forem estimuladas e facilitadas a concorrência e a competição - em nome da beleza teórica das leis de mercado ou da suposta eficiência dos instrumentos impessoais de alocação - será sempre crescente a sua dinâmica de destruição-criadora. Ao invés de acenderem velas ao capital de boa índole, à responsabilidade social dos managers, os que se preocupam de fato com o meio ambiente deveriam refletir obrigatoriamente sobre as formas de enquadramento da concorrência. E descobrirão que a variável chave a ser enjaulada no regime capitalista é a "decisão de investimento", pois é ela a morada da incerteza. Descobrirão, por fim, que Keynes foi o sujeito que enxergou isso com grande lucidez, há quase cem anos, e que, um tanto desconsolado, sugeriu o controle público das decisões de investimento como a única forma de evitar que as diatribes do capital destruissem nossa periclitante civilização.

Por tudo isso, nesse segundo turno, acho que entre aqueles que desejam e que estão seriamente comprometidos com as questões ambientais, cabe refletir sobre qual candidatura está mais próxima do necessário e urgente enquadramento do capital. Ninguém - talvez devêssemos lamentar - está propondo uma luta contra o capital, a instauração de outro regime ou coisa parecida. Mas, apensar disso, há importantes distinções relacionadas ao papel do estado, ao grau de liberdade do capital, ao balanço entre interesses públicos e privados que são sim determinantes para as questões relativas ao meio ambiente e à sustentabilidade de nosso necessário desenvolvimento econômico e social.

6.10.10

deixa a mulher falar!

Nesse momento em que se busca redefinir as estratégias de campanha para o segundo turno, me parece oportuno voltar ao vídeo da famosa chapuletada dada por Dilma em Agripino "culatra" Maia.

Além de explicitar os compromissos da Dilma com a democracia e a liberdade de expressão, o vídeo deveria servir de lembrança aos marqueteiros de campanha, que decidiram engessar a candidata e maquiar suas expressões. Dilma, em su tinta, fala com veemência e convicção, mesmo estando em uma situação de aguda pressão, como era o caso mostrado no vídeo. Veja abaixo:

5.10.10

ciro na cartucheira

Trecho da entrevista de Ciro Gomes ao Rede Brasil Atual
(RBA) A Veja passou da conta no primeiro turno?
CIRO: A Veja? A Veja passa da conta. Vive a serviço do que há de mais espúrio na sociedade brasileira. É isso que a gente deve explicar para as pessoas. Que a Veja tenha longa vida, mas que todos fiquem sabendo que a Veja não é uma observadora neutra da vida brasileira: ela está a serviço dos interesses internacionais, da privataria, da escória brasileira. Isso sempre foi. Desde que a turma de melhor nível saiu, virou isso (referindo-se a jornalistas mais antigos). Um instrumento de achaque.
Leia na íntegra aqui

para pensar a política, a economia

A tal onda verde que desestabilizou pesquisas e corações, está provocando bons debates pela bolgosfera. Gente como Alex Nodári, Rodrigo Viana, Flávia Cera, Antônio L.C.Costa, Luis Nassif e Idelber Avelar escreveram coisas muito interessantes. Em especial, recomendo o post do Idelber, que aponta para os aspectos mais relevantes, muitos dos quais passaram batido pelos analistas dos jornalões e dos politicólogos acadêmicos.

Contudo, como sempre há algo mais a dizer - e eu o disse ao Idelber nos cometários do Biscoito Fino - reproduzo abaixo, tanto o texto dele, quanto o meu, onde procuro chamar a atenção para os aspectos econômicos que necessariamente devem ser considerados no debate político.

Primeiro o dele e a seguir o meu:

Por Idelber Avelar
O que dizem os votos de Marina e como conquistá-los


Você pode discutir qual é o peso relativo dos três (não dois) grandes blocos de votos que contribuíram para os surpreendentes 20% de Marina Silva: 1) o voto estritamente marinista, verde, ecológico, que é crítico de algo maior que o PT, ou seja, de todo um paradigmadesenvolvimentista que, ironia das ironias, o PT veio a representar melhor que ninguém; 2) o voto "ético"-jovem-universitário-profissional-liberal-urbano, uma parte dele (a maior, me parece) composta por desiludidos com erros ou presepadas do PT, e a outra parte (menor, me parece) composta por eleitores movidos pelo episódio Erenice; 3) o voto evangélico que, por sua vez, tampouco é homogêneo, posto que formado de uma parcela—menor, creio—de votantes que já estavam com Marina e outra parcela—maior, creio—que foi mobilizada em termos anti-Dilma às vésperas da eleição. Num debate que teria, de preferência, que se realizar com atenção aos mapas relevantes, poder-se-ia discutir à exaustão qual é a contribuição de cada um desses segmentos para o resultado final.
O que me parece indiscutível é que somente este último, o voto evangélico, chega como irrupção e acontecimento. Foi ele o grosso do voto não computado nas pesquisas. Isso me parece verdadeiro, mas não se pode pular daí para a afirmação de que foi o atraso quem impediu a vitória dilmista no primeiro turno. Essa linha de análise é sempre muito rasa.
Para a campanha de Dilma, a tarefa é dupla. Por um lado, há que se entender os recados dados por todos os segmentos que votaram em Marina, para que a partir daí ocorra a negociação e o convencimento desse eleitorado. Esses recados têm densidade, têm conteúdo, aludem a fatos reais e não se limitam, de forma nenhuma, a uma suposta “Marina no colo da direita”. Jogar por aí é não entender o jogo. Por outro lado, há que se analisar quais foram os erros de campanha de Dilma que ajudaram a impedir a esperada vitória no primeiro turno. Fazer as duas coisas já não é fácil. Fazê-las simultaneamente é mais difícil ainda, pois a primeira—ouvir realmente os eleitores de Marina—exige humildade, proximidade e empatia. A segunda tarefa—fazer a autocrítica da campanha—exige inteligência, desprendimento, distância. São duas tarefas aparentemente contraditórias, que demandam posturas e capacidades opostas, mas elas são simultâneas e complementares.
O fascinante do resultado de domingo é que todo mundo errou. Se alguém aí previu que Marina venceria em Belo Horizonte, Maceió, Distrito Federal, Nova Lima, Volta Redonda, Vitória, Vila Velha e Niterói, além de praticamente empatar com Dilma em Natal e superá-la em Campina Grande, levante a mão, mostre um link com data anterior a 03 de outubro, que eu visto uma camisa do Flamengo ou do Cruzeiro aqui, a gosto do freguês. Todo mundo errou nas previsões, inclusive o vitorioso de domingo na eleição presidencial, que foi claramente o campo marinista. Por isso o futebol, na sua imponderabilidade, é o esporte que mais tem a ver com a política democrática. Sim, trata-se do velho clichê da caixinha de surpresas, mas também do dado menos óbvio de que o futebol é o menos contábil dos esportes, e se há uma mensagem relevante que a campanha de Marina tentou transmitir é a crítica à redução do mundo a uma lógica contábil. Quando gente como Ricardo Paes de Barros, José Miguel Wisnik, Alexandre Nodari e Eduardo Viveiros de Castrocoincidem numa candidatura que não é a sua, ou que não é a que você esperava que eles apoiassem, só um sectário muito desprovido de sensibilidade passaria à desqualificação sem uma escuta detida.
No campo dos erros, há que se destacar os estruturais, mais antigos, e os conjunturais, que se manifestaram de uma forma especialmente maluca nesta campanha. Os erros estruturais são parte do recado das urnas marinistas e não podem ser ignorados. O caso de Belo Horizonte é emblemático. Há exatos dois anos, o PT concluía 16 anos de governo de uma coalizão sua na cidade, com um prefeito que deixava o cargo comnoventa por cento de aprovação. Esse prefeito, Fernando Pimentel, é diretamente associado a Dilma e é parte da cúpula de sua campanha. A cidade não tem qualquer tradição de antipetismo raivoso como aquele encontrado em partes de São Paulo e Porto Alegre. Como é possível que o resultado aqui tenha sido Marina Silva 39,9%, Dilma Rousseff 30,9% e José Serra 27,7%, num contexto de grande vitória da esquerda nas legislativas?
Essa parte me parece relativamente simples. As urnas disseram: “não gostamos das lambanças do PT-BH nas eleições de 2008 e do PT-MG em 2010, apesar de o PT ter governado bem a cidade. Votaremos em alguém que é suficientemente próxima aos ideais da bem sucedida prefeitura de 1992-2008, mas que se afastou do campo petista, em parte, por lambanças como essa”. Junte-se a esse recado mais estrutural a avalanche de desinformação e propaganda pra cima dos evangélicos nos últimos dias--essa avalanche realmente existiu—e você tem os ingredientes dos números que deixaram todos os junkies políticos belo-horizontinos de queixo caído. Os mesmos ingredientes se combinam em outras latitudes, como o Acre, um estado onde o PT tem fortíssimas raízes, elegeu o Governador e um Senador, mas no qual Dilma ficou empatada com Marina e bem longe de Serra. Se você é petista e não vê aí um recado além do “Marina está no colo da direita” ou do “Marina é a falência do movimento ecológico” (sim, isso foi escrito), sinto muito, você precisa ler a Flávia Cera.
É sabido que, por volta de dois meses atrás, um grupo de lideranças evangélicas procurou a campanha de Dilma, preocupadas com a disseminação de boatos e emails falsos. A campanha fez a “Carta ao Povo de Deus” e ficou por isso mesmo. Os programas de João Santana—excelentes, belíssimos, inovadores—não dedicaram um só minuto, no entanto, à refutação da pilha de spam religioso anti-Dilma disseminada para púlpitos e fiéis. A coordenação de internet não ofereceu respostas a isso. Preferiu brincar de Twitter e #ondavermelha. A campanha online foi feita à base do cada um por si, sem que se aproveitasse de forma coordenada a enorme base de recursos humanos da esquerda brasileira na rede.
Quando os evangélicos voltaram a procurar a campanha de Dilma, em setembro, o nível da loucura havia piorado sensivelmente. Algumas lideranças religiosas gravaram depoimentos de apoio à candidata petista, mas não houve uma resposta sólida e consistente da campanha. Os marqueteiros não são lá grandes fãs do potencial da rede e, por sua vez, a coordenação de internet de Dilma era pobre e fraca de ideias. É importante reconhecer isso sem que esse reconhecimento nos ensurdeça para o recado real das urnas marinistas, que transcende em muito o spam do ódio.
É evidente que temos que explicar que Michel Temer não é satanista. Aliás, podemos inclusive esclarecer que ele já fez pactos com o DEM mas, pelo que nos consta, com Satã nunca aconteceu. Mas é preciso fazer isso sem desmerecer ou desqualificar o recado dado pelas urnas marinistas em sua totalidade, sem reduzir o voto de Marina a qualquer um de seus blocos, muito menos o evangélico, justamente aquele que é mais conjuntural (apesar que não necessariamente menos numeroso) na constituição da identidade da sua candidatura.
Não há motivo para pânico. Marina tem muito mais a ver com Dilma que com Serra, e isso é o próprio Serra quem diz. Para nós, faltam 3 pontinhos. Para Serra, faltam quase 18. Marina sabe que coloca seu capital político em maus lençóis se apoiar alguém como Serra. Também sabe que não lhe interessa entregar nada de graça a Dilma agora, e há que se entender isso. É da política. Um petista reclamando que Marina não está agindo de forma a facilitar as coisas pra nós é como um lateral queixando-se de que um ponta o engana, fingindo que vai abrir o jogo para depois cortar para o meio. Ora, você tem que aprender a marcar. O jogo é jogado.
Ainda estamos bem, mas é preciso jogar com inteligência, humildade e decência e, acima de tudo, não deixar que nenhuma dessas qualidades atrapalhe as outras duas.
(aqui o link para o post de Ildeber Avelar)


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Abaixo, o meu comentário, com alguns ajustes em relação àquele postado no Biscoito Fino:

Excelente análise. Aliás, como sempre. 
Vesti a carapuça em mais de um trecho e estou certo de que a candidatura Marina foi subestimada, em boa medida por conta do clima de "já ganhou" que se instaurou na campanha da Dilma e pelo fato de que, aos olhos petistas, era difícil reconhecer méritos e ameaça em alguém que veio do ninho e que, principalmente, "traiu" o campo governista aos 35 minutos do segundo tempo (Freud e Xico Sá talvez expliquem melhor).

Porém, a despeito de tudo que dissestes e do pós-moderno ou pós-Lula que eventualmente explique a ascensão da candidata verde, acho que é importante refletir o fenômeno Marina tendo sempre em mente sua dupla face: por um lado, essa novidade que você bem analisa e, por outro, a velharia que lhe deu combustível, qual seja, a estratégia tucana de desconstruir a Dilma. Essa face opaca da ascensão de Marina não me parece que seja tão irrelevante como você sugere em tua análise. Vinte dias antes da eleição, Marina aparecia nas pesquisas com aproximadamente 10% das preferências, e não foi de seu próprio campo que se construiu o impulso final que lhe deu projeção. Ela estava no lugar certo (sentada sobre uma proposta política principista, estéril, que não ameaça porque não é concreta) e na hora certa (quando os tucanos intensificaram o terrorismo anti-PT), atraindo para si a tal onda verde (seria de paúra?).
Além de tudo isso, tem um aspecto que já tratei em teu blog em outras ocasiões - e que pode decorrer de nossos diferentes tiques profissionais. Acho que você peca na análise por enfatizar a superestrutura (do Marx), deixando em segundo plano a perspectiva econômica que habita as posições e projetos políticos. Marina, Obama, Clinton, PT de BH, Palocci, por exemplo, (que no teu blog já despontaram com vestes rosadas) são a meu ver fenômenos políticos carregados de contradição, que, em última instância, naturalizam a infraestrutura (a dimensão econômica) para capturarem (intuitivamente, claro) o melhor dos dois mundos. Quando falo em infraestrutura, não estou resgatando temas como o conflito capital-trabalho, mas, por exemplo, a cegueira dessa trupe em relação ao caráter disruptivo da circulação financeira no mundo contemporâneo. Fazer cara de paisagem e vender a imagem de que os temas econômicos devem ser tratados apenas com a austeridade e o bom-mocismo é de uma insanidade inaceitável em um político que se pretende apresentar como transição para o pós-moderno. A matriz dessa abordagem econômica naturalista remonta ao século XVIII, quando o equilíbrio surgia como idéia-força. Não por acaso, costuma seduzir com facilidade as mentes preocupadas com os importantes temas da sustentabilidade e da perspectiva sistêmica.
Dificilmente há algo mais pós-moderno do que os derivativos financeiros que estão sendo maquinados nas mesas de operações de Wall Street, enquanto jogamos conversa fora. E o fato de serem transações abstratas, etéreas, não nos autorizam a desconsiderá-las. Pelo contrário, é justamente por esse aspecto fugidio da economia pós-moderna que, mais do que nunca, devemos nos esforçar para ancorar o debate político no econômico. Um exemplo. A rápida obsolescência industrial que devasta cidades, empregos e vidas nos EUA de hoje (portanto um descalabro em termos de sustentabilidade), é decorrência direta da liberdade de capitais que joga com moedas e ativos mundo afora. 
 os partidos e candidatos que se arriscam pela terceira via fingem desconhecer esse fenômeno, tão bem antecipado por Keynes, no século passado. É precisamente por essa razão que esse povo todo topa sentar no mesmo barco. Noves fora, estão todos de acordo.

4.10.10

voto e renda média

Um exercício interessante a se fazer com os números do primeiro turno é comparar a votação entre os candidatos a presidente e o nível de renda média da população de cada estado da federação.

Como pode-se observar no gráfico (clique aqui para ver), se considerarmos os dez estados de maior renda média, em apenas dois (Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul) Dilma teve votação superior a de seus concorrentes. Serra chegou à frente em sete estados e Marina Silva venceu no Distrito Federal.

No outro extremo, quando se analisam as votações nos dezessete estados de menor renda média (abaixo de R$ 1.065,70), verifica-se que Dilma venceu em 16, perdendo apenas em Roraima.

Parece ficar claro, portanto, que, mais do que uma questão regional, existe uma clivagem do eleitorado de acordo com a renda per capita de cada estado. É evidente que, como o recorte de renda de cada estado decorre do desenvolvimento regional do país, há alguma correspondência entre o nível de renda e a distribuição regional, mas o fator renda parece ser o preponderante.

escarafunchando o pleito

Algumas considerações sobre a eleição do dia 03:

- Consolida um avanço lento e consistente das esquerdas e em especial do PT, com importante avanço no legislativo. O PT é o único partido brasileiro que cresce ininterruptamente desde 1982, ampliando o número de deputados e senadores a cada pleito.

- A tal Onda Verde, que nesse momento tem sido tão comemorada pela mídia tucana, não me parece que decorra de méritos efetivos da candidata dos seringais. Ao contrário do que andam dizendo Sardemberg, Merval e Cia, acho que a Marina foi o verdadeiro poste da eleição, capturando os votos dos tementes da classe média que, por despolitizados, acreditaram no bombardeio de prata promovido por Serra e seus quatro patrões. Marina apresentou um discurso principista, anódino, despolitizado, e precisamente por isso capturou os desavisados. Além disso, foi a única alternativa que restou entre aqueles que, atentos à palavra do Pastor, não suportaram imaginar a Dilma promovendo abortos Brasil a fora.

- O Datafolha, tanto malhado - inclusive aqui - foi o instituto que mais próximo chegou da fotografia final. O atento Alê Porto já havia demonstrado  (clique aqui) que, nas eleições anteriores, o Datafolha era o instituto de pesquisa que mais bem exprimia a vontade do voto na hora "h". Isso não significa que seja o mais confiável durante todo o período, pois, na comparação com os concorrentes, parece que tem dificuldade de antecipar as tendências de longo prazo, como de fato se verificou nessa eleição, quando correu atrás dos demais. Ou seja, é ruim de filme, mas melhor em fotos.

- Outro ponto importante notado pelo Alê Porto é que nas últimas eleições presidenciais o candidato do PT sempre oscilava de 2 a 3 pontos percentuais para baixo entre a última pesquisa e a votação. Talvez por conta do perfil social e regional do voto petista, verifica-se uma baixa no dia da votação - quando se trata de eleição nacional.

- Fora o fenômeno Tiririca - que, cá entre nós, é melhor e mais divertido que os falecidos Enéas e Clodovil - a trupe dos paraquedistas midiáticos não teve êxito.

- Protógenes, o delegado que ousou morder o calcanhar de Dantas, conseguiu se eleger na última colocação, escapando da fúria que lhe prometia a justiça comum. Sem o fórum privilegiado que terá como deputado, seria devorado como aquele gato da vizinha que, capturado pela molecada do bairro, foi entregue aos onze cachorros reunidos na lavanderia, onde nem uma gota de sangue foi encontrada.

- Por falar em cachorro, na região de Campinas, deu-se um fato que me parece mais grave que a eleição do Tiririca. O deputado estadual com a maior votação foi o tal Feliciano, colega de partido da Marina, que tem como único mote a defesa dos cachorros de rua. Tiririca pelo menos faz rir e representa o voto dos inconsequentes. Já o Feliciano, que não pode ainda contar com os votos da cachorrada, teve seus 137 mil votos garimpados entre seres humanos que fazem dos vira-latas a causa primeira a ser levada à arena política. De minha parte, não tenho paciência alguma com esse assunto e menos ainda com seu representante legislativo, tanto porque, quando eu era responsável pelo programa de apoio às cooperativas de reciclagem na cidade de Campinas, tive que aguentar o sujeito solicitando que encaminhássemos um projeto de lei proibindo o uso de cavalos puxadores de carroça. Quando questionado se achava justo e razoável que um ser humano substituísse um cavalo para puxar as carroças, ele não teve dúvidas em dizer que o ser humano o faz pelo livre-arbítrio e, portanto, poderia escolher outro trabalho. Já o cavalo,... ao que tive que me segurar para não lhe dar um coice.

- E por falar em coices e livre-arbítrio, nada como ver os cavalos da tropa de choque demotucana perderem as eleições. Virgílio, Heráclito, Tasso, Cesar Maia,... Bye!

- Quanto ao segundo-turno, acho que vai ser desgastante, mas com o mérito de colocar na mesa temas importantes que foram evitados até agora. Câmbio e Juros, provavelmente os dois institutos que mais matam e esfolam farão parte do menu. Não custa lembrar que em 2006, quando Lula e Alckmin passaram ao segundo turno, Lula foi obrigado a se posicionar sobre questões cruciais, melhorando a enbocadura de centro-esquerda de seu governo.