29.5.11

jovem pra quê?



Na última sexta, estive no Fórum Social do ABCD, participando de um debate sobre o tema "Juventude e Trabalho". Tema difícil, afinal, mesmo nas nações ditas desenvolvidas, o desemprego juvenil é extremamente elevado e a falta de perspectiva para os jovens tem provocado movimentos de contestação bastante virulentos que se espraiam pela Europa (como o grupo denominado "jovens sem futuro" que, surgido na França, inspirou o movimento M15 que toma conta das praças da Espanha).

O que dizer aos jovens? Que mundo temos a oferecer àqueles que chegam cheios de vontade e energia à vida adulta?

Em tese, seria desejável que conseguíssemos postergar a entrada dos jovens no mercado de trabalho. Primeiro, porque não há razão para lançar um indivíduo em sua plenitude vital e criativa às linhas de montagem, às aborrecidas tarefas de escritórios ou mesmo às responsabilidades e preocupações da vida profissional. Segundo, porque no capitalismo, para bem ou para mal, há inexorável redução da necessidade de trabalho vivo e, consequentemente, eliminação de empregos. Se assim é, parece razoável que os cada vez mais escassos postos de trabalho sejam ocupados por trabalhadores maduros, mais necessitados, com maiores obrigações financeiras, etc.

Porém, pergunte aos jovens se gostam da idéia. Tirante um ou outro mais cuca fresca, os jovens em geral são ávidos para reduzir sua dependência em relação à família e, mais do que isto, muitos vivem contando os dias para terminar a intragável escola e cair na vida. E o trabalho, um emprego qualquer que seja, de entregador de pizza ou de atendente de telemarketing, é o caminho mais curto a ser seguido.

O que fazer? Como resolver esse dilema tão característico de nosso tempo?

Claro que não tenho resposta a esse assunto e desconfio que a sociedade contemporânea levará ainda um tanto de tempo lidando com o problema. Contudo, uma coisa me parece imprescindível. Não será possível manter a juventude fora do mundo do trabalho sem que se ofereça uma alternativa concreta para a qual possa canalizar o impulso fáustico (vontade de potência e sede de sentido) que, com maior ou menor intensidade, habita o espírito de quem acaba de virar gente. É preciso, portanto, reinventar o mundo do não-trabalho ou do pré-trabalho. O modelo de escola que aí está já há muito que não serve, mas apesar de muito se falar a respeito, pouco - ou quase nada - se tem conseguido mudar. Cada vez mais as escolas se configuram como um fardo e repaginar a velha e tradicional escola só faz aumentar a distância para alguma solução.

Enfim, tal como concluí minha participação no Fórum, acho que a temática "Trabalho e Juventude" talvez seja prematura. Deve ser precedida de outra reflexão: quem são os jovens de hoje? Para depois se avançar sobre qual a educação que cabe a essa juventude. Só então fará sentido falar em "postergação" do mundo do trabalho.

PS: E sobre a reinvenção da escola, tema que conheço pouco, tenho apenas um palpite a dar. Creio que é preciso trilhar o caminho da educação com sentido. A essa geração plasmada na velocidade, na busca rápida pelo satisfação, na relação utilitária com o mundo, é urgente tornar a educação um fim em si mesma, algo que tenha sentido per se, e que, portanto, não se configure apenas como um meio para conquistas futuras - como passar no vestibular ou se preparar para uma profissão promissora.
E, nesse sentido, por estranho que possa parecer à primeira vista, creio que são as escolas técnicas que mais se aproximam dessa proposta. Como são obrigadas a focar o ensino em alguma especialização do mundo do trabalho, permanecem mais coladas a aspectos concretos do aprendizado, resultando numa experiência mais carregada de sentido e que, por isso, permite um avanço maior inclusive nas disciplinas mais etéreas.

24.5.11

um debate oportuno

Nada como um catedrático, autor de gramáticas, fundador do Museu da Língua Portuguesa e, portanto, autoridade inquestionável sobre o assunto, para deixar claro os aspectos desconsiderados pelos doutos que, ignorantes e banhados em naftalina, saem por aí clamando pela "norma culta", como se a questão se resumisse a um debate jacobino.

É sintomático que uma polêmica como essa tenha surgido alguns dias após o episódio da "gente diferenciada". Plasmam-se no mesmo caldo de cultura, de uma classe dominante que vira e mexe se espanta com os novos bárbaros que emergem dos buracos de metrô, que consomem de maneira frenética ou que "assassinam" a 'norma culta' a três por quatro.

Para surpresa dessa gente reacionária, do jeito que a coisa vai, acabaremos falando como os franceses, que, como ensina o Prof. Ataliba, não pronunciam o "s" há séculos e que, a despeito do desvio, continuam encantando a trupe dos iguais.

10.5.11

éh...., me passou


É bastante conhecida a expressão de Sergio Buarque de Holanda que, no livro "Visões do Paraíso", chamou de "procissão de milagres" a ocorrência de sucessivos ciclos econômicos que marcaram a história de nosso país.

Recentemente, tratei desse tema em sala de aula.

Dias depois, ao aplicar uma prova e questionar os alunos sobre os determinantes de nossa industrialização, um inspirado aluno se sai com uma tirada inusitada, nem de todo equivocada:

a causa da industrialização? "o vácuo de milagres"

2.5.11

identidades sociais e ressentimento psicológico

Nesta palestra de Maria Rita Kehl (copiada em 4 videos no youtube - clique abaixo) uma interessante perspectiva do significado do "ressentimento" na psique da sociedade contemporânea. Mais interessante ainda, porque a conhecida psicanalista e professora da PUC-SP parte da interpretação do indivíduo - portanto, uma abordagem clínica - para chegar a uma interpretação das "identidades sociais" em nossa época, e, mais do que isso, de alguns traços constitutivos da sociedade brasileira.

A palestra, que fez parte do programa Café Filosófico (CPFL/Cultura), resulta de um livro escrito pela psicanalista, denominado simplesmente "Ressentimento" (Editora Casa do Psicólogo, 2004), onde ela avança com muita originalidade sobre o significado de certas máculas em nossa memória social (como a escravidão e a ditadura militar) como constitutivas do imaginário da política brasileira. Infelizmente, o livro está esgotado, mas o vídeo da palestra serve bem para apresentar os argumento fundamentais da autora.

18.4.11

a vida é sonho

Nasça o homem sabendo que
Todo esse império deve ser por ele 
Conquistado ou perdido.

A frase, de Calderon de La Barca, da peça "A Vida é Sonho", serve bem ao excelente artigo do indignado Rubens Ricúpero, publicado ontem na Folha, no qual ele manifesta sua perplexidade não só com a promiscuidade dos agentes econômicos que levaram países inteiros à bancarrota, mas principalmente com a "ausência de indignação moral" de todos, que continuam tocando a vida como se nada tivesse acontecido, assistindo ao desmonte das instituições do bem estar social, como se fosse um desígnio de deus.

12.4.11

excelente artigo de delfim netto

Publicado originalmente no jornal Valor, do dia 12/04/2011

Custo/benefício e legítima defesa
Na organização do universo, Deus foi muito duro com os "cientistas sociais", dentre os quais se destacam os economistas. Para benefício desses últimos, entretanto, construiu um "homem" que age com racionalidade limitada num espaço permanentemente preenchido pela incerteza. Para superá-la abriga-se na imitação e nos costumes. Com um legítimo processo de abstração, esquecemos as expressões "limitada" e a "incerteza" e construímos uma hipótese poderosa: o homem age a partir de um cálculo racional absoluto, obedece a incentivos, procura maximizar os seus benefícios e não tem relação com outros homens. Como já suspeitava (numa nota de rodapé) o ilustre Thomas Robert Malthus (1766-1834), isso abria espaço para entendê-lo aplicando o cálculo diferencial criado por Newton (1642-1727).
E não deu outra! O conhecimento da economia avançou dramaticamente explorando aquela hipótese, até assumir o respeitável grau de "rainha" das ciências sociais. A "ciência" criada por Adam Smith exagerou: predou primeiro a psicologia e depois exerceu seu imperialismo sobre a antropologia, a arqueologia, o direito, a geografia, a história, a sociologia e a política! Enquanto isso ela mesma estava sendo predada pela bela e irresistível matemática! Foi um porre que durou pelo menos um século e meio. Terminou quando exagerou na formulação do "equilíbrio geral" num espaço topológico. Isso deu nascimento a uma revisão da hipótese básica. Redirecionou a observação e o estudo sobre a realidade em que se forma o comportamento do agente econômico, absorvendo e reintegrando o conhecimento das ciências sociais que havia predado.
Não há ciência capaz de recomendar ou não a liberdade de capitais
Nada é mais indicador desse movimento, renovador, do que está acontecendo, por exemplo, com relação à liberdade de capitais. No acordo de Bretton Woods (depois de uma penosa e longa discussão teórica) ela praticamente foi interditada; foi construída lentamente depois que o "gold standard" foi definitivamente destruído pela desvalorização do dólar com relação ao ouro no início dos anos 70 e foi consagrada quando o poder político nos EUA passou, de novo, às mãos do sistema financeiro (como acontecera antes de 1929). Iniciou-se na década dos 80 do século passado, a desmontagem da regulação construída nos anos 30. É um fato interessante que no Consenso de Washington, nos anos 80 do mesmo século, apesar da insistência do FMI, ela nunca foi reconhecida.
Agora, em menos de duas semanas, o FMI modificou a sua posição. Admite que em circunstâncias específicas o seu controle pode ser uma das "ferramentas" da política econômica dos países que estão sofrendo com a supervalorização das suas moedas. Esses, de fato não devem assistir passivamente à erosão de sua base industrial sujeita à competição desleal de países mais "espertos". A resposta imediata veio do organizado e poderosíssimo "lobby" financeiro, o "think-tank" Institute of International Finance, de Washington, financiado pelo sistema financeiro internacional, pela boca do seu economista-chefe, o sr. Phillips Suttle. Referindo-se diretamente ao real nos ensinou que sua valorização está associada ao desempenho e às perspectivas positivas da economia brasileira (o que é uma premissa verdadeira) e que, portanto, deveria ser vista com a maior naturalidade. Logo, admitir e lidar com essa realidade seria um instrumento mais útil do que a imposição de controles sobre o movimento de capitais (o que, infelizmente, é uma conclusão que não decorre da premissa).
O que é evidente nessa discussão? Que ninguém dispõe de uma "teoria científica" para recomendar ou não a liberdade de capitais. Além do mais, nenhuma pesquisa empírica feita com métodos estatísticos robustos pode resolvê-la. Trata-se, na mais benigna das hipóteses, de uma recomendação "normativa" que pode ou não ser útil, mas que, evidentemente, é contaminada por interesses. É uma questão cuja resposta depende das circunstâncias internas e externas de cada país. Dizer, como disse o sr. Suttle (e dizem alguns de nossos melhores economistas), que deixar o câmbio flutuar "naturalmente" é a melhor solução para nosso problema, não tem maior valor "científico". É apenas uma opinião, como todas as outras (inclusive a minha), ditada por diferentes visões do mundo. Afinal, deveria ser óbvio que a "liberdade de movimento de capitais" não está escrita nas "leis naturais" imutáveis da organização do universo.
Parece difícil de entender como ainda não tenhamos internalizado em nossas consciências:
1º) que a macroeconomia (inclusive seus mais recentes modelos) tinha muito pouca coisa a dizer sobre como funciona, de verdade, a economia real. Ela também é mais "normativa" (isto é, expressa mais a vontade de como o sistema deveria funcionar do que como ele funciona) do que "científica" e;
2º) que o aparato econométrico que às vezes aparentemente a sustenta (a "calibração") é terrivelmente deficiente para levar a qualquer conclusão segura. Aliás não deveria haver surpresa: a ciência só avança quando falha!
Ao contrário, portanto, da ideia que as políticas macroprudenciais são uma volta ao passado, elas simplesmente indicam nossa perplexidade com a tragédia a que levou a aparente sofisticação financeira. O momento não é de afirmações apodíticas, apoiadas numa ciência que não existe, mas de avaliação cuidadosa da relação custo/benefício, no curto e no longo prazo, das medidas que estamos tomando em legítima defesa...
Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento

5.4.11

a perda de um grande historiador do pensamento econômico

Em 26 de fevereiro passado, morreu o pensador, sociólogo e economista canadense Gilles Dostaler que, entre outras destacadas obras, escreveu a que pode ser considerada a melhor biografia de J.M Keynes (Keynes and his battles) e que soube reconhecer no pensamento de Keynes a singularidade de suas idéias, sem reduzi-lo ou mistificá-lo.
 Reproduzo abaixo um artigo escrito em sua homenagem, que traduzi de forma um tanto mequetrefe do original em francês.

Em memória de Gilles Dostaler
Gilles Bourque, Bernard Élie, Robert Nadeau, Jean-Marc Piotte, Stéphane Pallage - professores, Universidade do Quebec em Montreal Le Devoir, 7 de Março de 2011, p. UM 6.

Gilles Dostaler pode ser considerado como um dos mais importante historiadores do pensamento econômico, não só em Quebec, Canadá, mas também no mundo acadêmico internacional.
Gilles Dostaler soube dissociar sua pesquisa de seu engajamento político e social. Desde seus anos de faculdade, ele foi um intelectual comprometido e ativo nos debates da sociedade. Na década de 1960, ele foi o primeiro membro do conselho editorial da Parti Pris, ("Tendência") uma revista mensal mantida por jovens intelectuais que teve um impacto considerável à época. Ele foi um dos primeiros a vincular a ascensão do movimento nacionalista na formação da nova classe média canadense, consequência do desenvolvimento de instituições do fordismo e do Estado-Providência.
Juntou-se à revista Socialism do Quebec  na década de sessenta, revista criada em 1964. Após ter feito campanha pelo RIN, ele foi um dos fundadores da CEI (comissão pela independência e pelo  socialismo), grupo dedicado a promover a independência do Quebec e à idéia do socialismo democrático. Foi também um dos organizadores da McGill francessa, que tornou-se famosa como  parte de um movimento mais amplo, reinvindicando a criação de novas instituições acadêmicas francófonas, após o que foram criadas na Universidade do Quebec em Montréal e na rede universitária do Quebec.
Jovem economista, ele esteve envolvido ativamente na organização de cooperativas de economia doméstica,  primeiras associações de consumidores do Quebec.
Endereço alternativo
Após estudos de doutoramento em Paris, tornou-se professor do departamento de sociologia, I’UQAM (1975) antes de se mudar para o departamento de ciências econômicas (1979). Durante a segunda metade da década de 1970, ele foi vice-presidente e presidente do sindicato dos professores da Universidade do Quebec e presidente do comitê de greve de professores de 1976. Ele também foi membro do Conselho Executivo da Federação Nacional de Professores do Quebec (1976-1978), membro do Comitê de Coordenação dos Cem, em 1980, que deu origem ao breve ‘Movimento Socialista’ liderado por Marcel Pepin.
No final dos anos 1970, Gilles Dostaler foi um dos fundadores da Associação de Economia Política (EPA) e foi seu primeiro presidente. A EPA tinha como objetivo difundir um discurso econômico alternativo e a crítica ao pensamento "neoliberal", que se tornaria, em seguida, mais e mais dominante.
Mais recentemente, Gilles Dostaler foi muito ativo no desenvolvimento da economia coletiva, dando  continuidade à sua vontade de contribuir para a disseminação do discurso econômico "alternativo" e de debates críticos junto à sociedade.
Com uma produção científica reconhecida internacionalmente, a produção de Gilles Dostaler é impressionante: não menos de dez livros traduzidos em várias línguas, cerca de 30 artigos nos principais periódicos de sua área, outros 30 capítulos de livros, uma dúzia de colaborações regulares em várias revistas e obras coletivas. Desde 2002, ele assinou no jornal francês Alternatives Éconómiques uma emocionante série sobre os principais autores de economia.
Nos últimos anos, o trabalho de Gilles Dostaler esteve centrado no pensamento de John Maynard Keynes. Economista, filósofo, filantropo, Keynes inspirou as políticas intervencionistas da década de 1930 para a superação da grande depressão. Além de O Pensamento Econômico depois de Keynes (com Michel Beaud), de 1993, Éditions du Seuil, Gilles Dostaler dedicou vários livros ao pensamento de Keynes, incluindo Keynes e suas batalhas (Albin Michel, 2005) traduzido para várias línguas, incluindo inglês, espanhol, árabe e japonês; Capitalismo e Pulsão de Morte (com Bernard Maris), também publicado pela Albin Michel, em 2009 e Keynes, para Além da Economia, com Thierry Magnier em 2009. Estes livros, que tiveram uma impressionante repercussão, são uma novidade vibrante.

Renovação do problema
Para Gilles Dostaler, não se consegue entender a formação do pensamento de um autor sem estudar todos os aspectos de sua vida. No caso de Keynes, ele não deixou nada de lado. Ele teve acesso privilegiado aos seus arquivos no King’s College, em Cambridge, leu cada uma de suas cartas, através de seus diários, seus escritos de juventude, estudou suas contradições, seu amor, sua sexualidade.
Gilles Dostaler realmente revolucionou a metodologia da história do pensamento econômico. A nova abordagem que ele desenvolveu progressivamente em seus muitos estudos consiste em articular uma síntese global de dois modelos de  análise distintos, que aqui se faz uma breve apresentação.
O primeiro desses modelos é uma reconstrução contextual das teorias econômicas: cada economista que contribuíu para a evolução do pensamento econômico de forma um pouco original não pode ser perfeitamente inteligível, de acordo com que postulou Gilles Dostaler, se o contexto social, político e cultural em que trabalhou não for totalmente reconstruído.
O pensamento de um economista  pode ser entendido apenas se for examinado o seu ambiente intelectual (como, por exemplo, suas parcerias intelectuais, seus gostos culturais, suas ligações políticas) se nós traçarmos meticulosamente seu trajeto (as perguntas a que foi submetido, as leituras que fez, as pessoas marcantes que conheceu), numa busca para  compreender sua integralidade, isto é, não só como um pensador, mas antes como um ser humano.
Em segundo lugar, Gilles Dostaler tinha a intenção de tirar rigoroso proveito das ferramentas desenvolvidas nas análises epistemológicas contemporâneas. Para Gilles Dostaler, cada um dos principais marcos da evolução do pensamento econômico podem ser explicados se reconhecermos o que ocorre como pano de fundo das rupturas  fundamentais com as formas anteriores de pensamento. O desafio, então, é tentar entender por que Marx rompe de forma radical com Ricardo e com os clássicos, por que Keynes também rompe com os clássicos e com os neoclássicos e por que, enfim,  um economista como Hayek, mais atento do que qualquer outro ao tema dos  limites cognitivos do agente econômico, trata de destacar de forma quase obsessiva a impraticabilidade de uma economia centralmente planejada.

O homem
Todos aqueles que o conheceram puderam testemunhar que, por trás do pesquisador rigoroso, havia um homem atencioso e carismático, um homem engajado, sempre militando por uma sociedade melhor, um homem que amava a vida em todas as suas dimensões.
O câncer, contra o qual ele lutou, não lhe tirou em nada o prazer para viver com grande intensidade cada momento. Se ele gostava de mergulhar nos arquivos de autores ilustres, Gilles Dostaler amava igualmente fazer uma refeição ou brigar com um salmão no rio de Gaspésie. Ele também era um grande fã de touradas. A caça e a pesca foram artes que permitiram-lhe inscrever-se no equilíbrio entre homem e natureza e de lembrar-lhe quanto somos pequenos ante esse mundo que nos hospeda.

31.3.11

'carne de vaca', uma expressão anacrônica

Segundo os entendidos, a dita carne de vaca - tão abundante em nossas paragens que virou expressão a indicar algo rotineiro e sem qualidades especiais - deve se tornar uma iguaria, coisa como caviar ou escargot. O despertar dos orientais para o mundo do consumo, dizem, tornará o bife cada vez mais caro e raro; o jeito será revisitar as partes menos nobres do gado, que vínhamos esnobando nas últimas décadas.


Nessa toada, por exemplo, ressuscitei recentemente, com grande sucesso aqui em casa, a saudosa brachola - aquele bife enrolado e cozido no molho de tomate - que faz a alegria de qualquer espaguete, ou mesmo de um desenganado arrozinho. Na mesma linha, outro prato candidato à emergência é o Ossobuco. Saboroso, saudável e barato, têm a vantagem de também distrair a clientela. 


Pois, aproveito a boa hora para compartilhar uma receita de Ossobuco que me chegou clandestina. Antes, porém, um aviso: assim que o Camboja completar a sua industrialização, repasso a receita de sopa de pedras (he, he, he.....)




Ossobuco braseado
Por Licínia de Campos 
Nutricionista, integrante do comitê técnico do Serviço de Informação da Carne (www.sic.org.br)


Ossobuco em italiano significa osso com um furo, uma referência ao orifício preenchido de tutano localizado no centro da peça, retirada do corte transversal da perna traseira do bovino. É um corte que contempla músculo, osso e tutano e confere ao prato alto nível de valor nutricional e cálcio. É uma especialidade milanesa, braseada com hortaliças, vinho branco e caldo. Quase sempre leva como guarnição a gremolata, que é um tempero à base de salsinha, dente de alho picado bem miúdo e uma colher de chá de casca de limão siciliano ralada, que deve ser salpicado por cima da carne. 
Há dois tipos de ossobuco: na versão mais antiga, o ossobuco in bianco é aromatizado com canela, folha de louro e gremolata; já na versão moderna, e mais popular, inclui tomates, cenouras, salsão e cebola, c om a gremolata opcional.
O ingrediente básico desse prato é relativamente barato e muito saboroso. Como o processamento é feito por braseamento, o corte rijo se torna macio. O que significa brasear? Do termo francês braiser, é uma combinação de métodos de cocção, que utiliza calor seco e úmido. Normalmente, o alimento é refogado em alta temperatura e depois finalizado em uma panela com tampa (ou pressão) com quantidade variável de líquidos. O brasear se baseia em calor, tempo e umidade para quebrar o rijo tecido conectivo, o colágeno da carne, revelando-se um método ideal para cozimento de cortes rijos. O cozimento lento ou em panela de pressão são expressões do brasear, como por exemplo, o lagarto assado de panela. 
A maioria dos braseados segue os mesmos passos básicos. O alimento a ser braseado é primeiramente selado, até ter sua superfície dourada e seu sabor incrementado. Se o alimento não liberar seus próprios sucos, acrescenta-se então uma pequena quantidade de líquido, que inclui quase sempre um elemento ácido, como tomates, cerveja ou vinho, adicionado à panela, e complementado com caldo. A panela é então tampada e o alimento cozido em fervura bem lenta, até a carne ficar tenra. O líquido resultante do cozimento é finalizado para criar um molho. 
Um braseado de sucesso deve intermediar os sabores dos alimentos cozidos com o líquido do cozimento. Esse método de cocção dissolve o colágeno da carne em gelatina, enriquecendo e dando corpo ao líquido. Brasear é um método econômico, pois permite o uso de cortes rijos e mais baratos e eficientes, pois emprega uma só panela para cozinhar uma refeição completa.
Por causa de sua origem italiana, o ossobuco in bianco é tradicionalmente servido com risotto alla milanese, mas o corte bovino também pode ser acompanhado por purê de batatas ou polenta. Algumas vezes é servido com macarrão. 
Uma receita simples do ossobuc o alla milanese pode ser feita com seis ossobucos aparados, com cerca de 250 gramas cada, uma colher de chá rasa de sal, uma pitada de pimenta do reino, um quarto de xícara de farinha de trigo, uma colher de sopa de azeite de oliva, uma xícara de cebola média picada, meia xícara de cenoura bem picada, meia xícara de salsão bem picado, duas fatias de toucinho cru em cubos, uma xícara de vinho branco seco, uma xícara de caldo de legumes, 450 g de tomates inteiros sem pele, picados.
O ossobuco deve ser temperado com metade do sal e a pimenta e empanado na farinha de trigo. Numa panela despeja-se uma colher e meia de azeite e se refogam, em fogo médio, três ossobucos, dourando-os de todos os lados. Devem ser retirados da panela após 8 minutos e reservados numa travessa. Repete-se o procedimento com mais uma colher e meia de azeite, desta vez, adicionando-se a cebola, cenoura, salsão e o toucinho, refogando-os por 5 minutos ou até as hortaliças ficarem macias . Em seguida, adiciona-se o vinho branco, cozinhando-se por mais cinco minutos ou até o líquido quase evaporar. Adiciona-se o sal restante, o caldo e os tomates. Volta-se com o ossobuco à panela, até o caldo ferver. Tampa-se a panela, abaixa-se o fogo e cozinha-se em fervura lenta por duas horas ou até a carne ficar macia. 
Essa receita é uma reformulação da receita tradicional e tem por objetivo torná-la mais leve e menos calórica (358 kcal). Mesmo assim, não considero a receita original altamente calórica (cerca de 450 kcal). É um mito achar que o ossobuco é muito calórico. É um corte extremamente nutritivo e por ter o tutano, é rico em colágeno, que é responsável pela reposição de tecido muscular para crianças, adolescentes e idosos.

enfim, o pós-autismo?

Embora a data não inspire comemorações, segue uma análise alvissareira sobre a renovação das idéias econômicas

Por Luiz Nassif

O fim dos "cabeças de planilha"

Na semana passada, o seminário “Repensando a política macroeconômica”, organizada pelo FMI com os economistas David Romer, Joe Stiglitz e Michael Spence e com seu economista-chefe Olivier Blanchard ,decretou oficialmente o fim da era dos “cabeças de planilha” - tipo de analista que contaminou o mercado financeiro nas últimas décadas, com simplificações que desmoralizaram o que se entendia por ciências econômicas.

Munidos de suas planilhas, e com conhecimento insuficiente em política, análise setorial, ciências sociais, psicologia social, e mesmo correlações básicas de economia, esses economistas julgaram ter descoberto o equilíbrio universal, o fim dos riscos sistêmicos. Qualquer questionamento à sua falsa ciência era tratado com superior desprezo.

O encontro promovido pelo FMI é a pá de cal nesse tipo de pensamento cabeção, primário, manipulador, insuficiente.

Um dos princípios era a visão monofásica de que cada instrumento de política econômica deveria visar apenas um objetivo.
Por exemplo, para inflação em alta, aumento das taxas básicas de juros. Esse aumento impactava a dívida pública, apreciava o real, causava desequilíbrio nas contas externas que, mais à frente, provocava uma maxidesvalorização do real que comprometia o próprio combate à inflação.
Pouco importava: juros só devem se preocupar com a inflação.

Às vezes o aquecimento do consumo se dava em um setor específico. A situação poderia se resolver com uma restrição ao financiamento àquele setor. Mas as “boas práticas” diziam que apenas os juros poderiam ser.

Anos atrás, monetaristas brasileiros – da melhor escola de Chicago – alertavam para os erros da política de metas inflacionárias.
Define-se uma meta, mede-se a expectativa dos agentes econômicos. Se estiver acima da meta, aumentam-se os juros. Os monetaristas alertavam que nesse modelo não se levava em conta o excesso de liquidez (de moeda) na economia.
Consequência: esse excesso formou bolhas especulativas por todos os poros do sistema financeiro internacional, resultando na grande crise de 2008.

Esse pensamento manipulador criava um agente financeiro imaginário, racional que por si só seria capaz de coibir qualquer abuso do sistema financeiro internacional, permitindo abrir mão de qualquer regulação. Se uma instituição abusasse, se algum ativo estivesse muito caro, os investidores simplesmente trocariam por outras instituições ou ativos, regulando automaticamente o mercado.
Era uma miragem, como se todo investidor fizesse cálculos complexos, análises de risco, arbitragens.

Nas instituições financeiras, havia cálculos infernais mostrando que quando despencasse a cotação do ativo 1, haveria um aumento na cotação do ativo 2, de tal maneira que aplicando em ambos o risco tenderia a zero.
Imbecis, sem nenhuma noção do que uma crise sistêmica provocava no mercado. Quando sobrevinha a crise, caía o ativo 1. Para cobrir sua posição naquele mercado, o banco vendia o ativo 2, provocando também sua queda e assim por diante.

Havia muito mais erros nessas formulações. Nunca foram combatidos porque criaram uma cadeia improdutiva de juros e especulação.
Só a crise para repor o conhecimento econômico no seu devido lugar

27.3.11

passagens de ônibus: fim da picada ou começo da mordida?

Sabemos todos que as grandes cidades brasileiras estão travando por conta do uso irracional do automóvel particular. O mais grave, contudo, é que sabemos disso há décadas, e continuamos comprando carros, construindo avenidas e viadutos e, sabendo cada vez mais.

Ao longo dessas décadas, enquanto agonizamos encalacrados, pudemos ouvir no radio os analistas econômicos dizerem que o setor público é um péssimo gestor e que subsídios de qualquer natureza devem ser banidos: produzem distorções nos sistemas de preços, dão fôlego a empresas incompetentes e constituem uma via azeitada para a corrupção. Recado: os serviços de utilidade pública devem ser transferidos, na forma de concessão, a empresas privadas e os preços devem ser determinados de acordo com as regras de mercado, isto é, devem cobrir os custos efetivos e ainda garantir uma margem de lucro que seja empregada em novos investimentos e ainda remunere o capital. Simples, cristalino, imune aos desvios morais e ao apetite particularista que caracteriza a alma humana.

Só que o simplismo dos economistas de rádio, o espírito sabujo dos mídia-ligeira, faz questão de esconder que, embora de fácil digestão, as leis de mercado falham tremendamente quando é preciso conciliar interesses de curto e de longo prazo ou quando se trata de definir o preço de um bem público - como é a passagem de ônibus. Exemplos: para a empresa de ônibus, quanto mais cheio o ônibus, maior a rentabilidade - para o cidadão e a cidade, pior; se o ônibus é caro e lotado, o cidadão lutará para conquistar um carrinho - comprando o carro, entupira mais a cidade, elevando o tempo dos trajetos, aumentando o custo para as empresas de ônibus que buscarão aumentar as passagens, dando novo impulso para o cidadão comprar um carro; etc..., etc...

Mas os problemas não são apenas esses. O preço das passagens não pode ser tratado como um custo individual a ser arcado pelo consumidor-cidadão numa relação mercantil com o empresário de ônibus. Custos elevados de transportes resultam em gigantesca e incomensurável ineficiência para o conjunto da sociedade: além da obvia perda de tempo de quem gasta horas do dia encalacrado, recursos que poderiam ser despendidos em outras atividades são sugados pelo realismo tarifário do transporte público.

Um exemplo escandaloso dessa irracionalidade se encontra, por exemplo, no peso dos custos de transportes nos cursos de qualificação profissional. Como sabem bem os mídia-ligeira, há no país uma urgente necessidade de capacitação da mão-de-obra, fato que não só restringe o nosso desenvolvimento, como dificulta o acesso dos mais pobres ao mercado de trabalho, obstruindo a ascensão social. Pois bem, os governos, utilizando recursos que provém da folha de pagamento das  empresas, financia, através de diferentes órgãos (MTE, MEC, Sistema S, etc), inúmeros cursos profissionalizantes voltados às populações  mais vulneráveis. Com isso, pagam-se professores, materiais didáticos, aluguel de salas de aula, lanches, despesas administrativas e... , em alguns poucos casos, vale-transporte. Quando faltam recursos para o transporte, a evasão nos cursos cresce significativamente, afetando principalmente os que mais precisam. Ficam os remediados, somem os lascados. Quando é pago o vale-transporte, de 30 a 50% dos recursos são empregados na compra das passagens, em detrimento do pagamento a professores e outros recursos pedagógicos.

Alguém haverá de dizer: mas não se pode oferecer desconto nas passagens de ônibus?

Em coro, gestores públicos e privados ecoarão os dogmas ensinados pelos mídia-ligeira, condenando os subsídios, lembrando que o sistema já carrega o peso dos descontos a idosos e estudantes secundaristas. Tudo em nome da eficiência alocativa, da racionalidade microeconômica do mercado de transportes.

Não fosse tão arraigada e difundida esta miopia, faria todo o sentido do mundo arrecadar tributos sobre outras fontes (grandes fortunas, pedágios urbanos, heranças, renda superior a 50 salários-mínimos, movimentação bancária, etc...) e subsidiar as passagens dos transportes coletivos, baixando o seu preço de forma radical. Numa só tacada, desafogaríamos o bolso dos que mais necessitam e reduziríamos a pressão sobre o trânsito das grandes cidades.

Haja ideologia!

25.3.11

zizo vivo

Hoje vou de mata atlântica. De um pedaço dela, de sua porção localizada no extremo sul do estado de São Paulo, na bela região do Ribeira. Mais precisamente, no município de São Miguel Arcanjo.

A história começa no acinzentado ano de 1969, entre os meses de setembro e outubro. D. Quinha, mãe de oito, é avisada que o corpo de seu filho de 24 anos foi encontrado morto a bala na cidade de São Paulo. Era o Zizo, que tinha partido para estudar engenharia na USP. "Abatido" feito caça.

29 anos mais tarde, em 1998, uma segunda notícia de Zizo chega a São Miguel: a justiça brasileira determinara uma indenização de R$ 120 mil por reconhecer que Luiz Fogaça Balboni fora assassinado pelas forças do Estado, isto é, pelos capangas do Delegado Fleury.

Que surpresa! D. Quinha, seu marido Luiz e os sete irmãos, jamais souberam as razões da morte de Zizo. Fora encontrado morto a bala, ponto. Mas agora a história de Zizo volta à tona. Através dos autos processuais, descobrem que Zizo havia entrado para a clandestinidade - militava  na ALN - e que foi morto durante uma ação de "expropriação" a uma agência bancária na Alameda Santos, São Paulo. Seu parceiro na operação sobreviveu, foi interrogado e contou os detalhes: chegaram ao ponto de encontro na hora marcada, mas identificaram um carro suspeito parado próximo à agência. Tentaram fugir, mas os caras saíram atirando. Zizo foi atingido e seu parceiro escapou. Ferido, preso e levado ao hospital, Zizo morreu.

Com quase trinta anos de atraso, D. Quinha descobre seu filho. Que orgulho! Agora finalmente entendia porque, na última vez em que o Zizo esteve em casa, pediu à mãe que cantasse 'Sussuarana'. Era a morte que sussurrava.

Família larga, terra pequena, todos se sensibilizaram ao conhecer a heróica história de Zizo. Como mantê-la viva? Como devolver a Zizo uma parte do sonho que o embalou?

A indenização!

Tinham R$ 120 mil. Divididos, ajudariam pouco na vida de cada um dos irmãos. Preferiram comprar um pedaço de mata virgem. Zizo e seus irmão passaram a infância enfronhados naqueles matos, e nada melhor do que um pedaço de mata para guardar viva a história de Zizo.

Assim, com o dinheiro da indenização e muita colaboração e dedicação dos familiares, criaram então o Parque do Zizo, uma reserva particular de mata atlântica, com 300ha, que recebe escolas e turistas para compartilhar o mundo e os sonhos do Zizo - que, dizem, vez ou outra assobia por lá junto com a passarinhada.

23.3.11

promiscuidade 24 quilates

Finalmente consegui assistir ao documentário Inside Job, de Charles Ferguson.

Excelente!

Todos que têm algum interesse em compreender as forças que movem a sociedade e a economia contemporânea devem assistí-lo.

Reunindo um conjunto de entrevistas com personagens-chave da chamada crise do subprime que se alastrou a partir do setor bancário dos EUA em 2008, o arguto Ferguson conseguiu depoimentos inacreditáveis, nos quais renomados economistas se portam como sacos de batatas, gaguejam e perdem a compostura ante um repórter que apenas os coloca diante de sua própria criatura.

É muito didática a explicitação dos canais de promiscuidade que soldaram com absoluta eficácia os interesses financeiros e as instituições reguladoras (incluso governos). E àqueles que vivem a apontar o dedo para a corrupção política, certamente será ainda mais relevante conhecer a monstruosa corrupção branca que está na base da arquitetura financeira que dá fôlego aos bussines de hoje.

Abundam calhordas e sujeitos inescrupulosos que recebem gorjetas de centenas de milhões de dólares; mas o filme tem o mérito de deixar claro que não se trata apenas de uma questão moral ou de um desvio de conduta localizado no tempo. Fica evidente que se trata de um problema estrutural do capitalismo atual: sem uma regulamentação que restrinja fortemente a livre movimentação de capitais, não parece possível imaginar que a sociedade pare em pé.

PS: 
(1) entre outras coisas, o filme demonstra também o embuste que é o governo Obama, completamente entregue aos mesmos personagens que desde os anos oitenta se encarregam de alimentar a banca. 
(2) Louve-se os movimentos iniciais do governo Dilma que, pela primeira vez desde a redemocratização, montou uma diretoria do Banco Central constituída 100% de servidores da instituição. É o mínimo que se espera para a equipe de um órgão que, entre outras, tem a missão de vigiar o sistema financeiro.

A imagem acima é do fotografo Chema Madoz 

20.3.11

direto do parachoque

"Quanto mais velho eu fico,
mais rápido eu era"