28.5.10

onde ir em 2012

Diz-se: o que seria do vermelho, se todos gostassem do verde? Pois então, àqueles que não costumam frequentar o mundo palestrino, verde por excelência, concedo a oportunidade de darem uma volta virtual pela Arena Palestra Itália, futuro palco de grandes eventos - não apenas futebolísticos - que já começou a ser erguida no histórico endereço da Rua Turiaçu.

Curiosidade: notem no vídeo, o conjunto de inovações que farão parte do novo Jardim Suspenso (que permanecerá "suspenso") e, em especial, observem já quase no fim do filme, quando a câmera passa pelas mesas do Restaurante-Camarote que, ao fundo à esquerda, aparecem Pedro e Tomás sentados comigo enquanto tomo um choppinho.

Sintam-se em casa, cliquem aqui:

27.5.10

um "quase" wilson cano

Não resisti.
Reproduzo abaixo o bom artigo publicado no site da Agência Carta Maior, também porque seu autor é estupidamente parecido - na expressão carrancuda, na verve ferina, no posicionamento político - com o ilustre Professor Wilson Cano (em foto menor), um dos fundadores do Instituto de Economia da Unicamp que, assim como o tal Vicenç Navarro, é descendente de espanhois de sangue ardido.


Segue o texto do V. Navarro

Este artigo assinala que os mal denominados mercados financeiros não correspondem às características que definem os mercados, pois os seus agentes – os bancos – gozam dum grande protecionismo fornecido pelos estados, assim como por instituições internacionais – como o Fundo Monetário Internacional – que garantem os seus exuberantes lucros à custa de enormes reduções dos gastos públicos e da proteção social das classes populares. O artigo mostra exemplos deste protecionismo no caso dos EUA e na mal denominada “ajuda” do FMI-Euro aos países com elevados déficits e dívida pública, como a Grécia, que é em realidade ajuda primordialmente para os bancos europeus.

A linguagem que se utiliza para explicar a crise é uma linguagem que aparenta ser neutra, meramente técnica, quando, na realidade, é profundamente política. Assim, dizem-nos que os “mercados financeiros” estão forçando os países da União Europeia e, muito em especial, os países mediterrânicos – Grécia, Portugal e Espanha – e Irlanda, a seguir políticas de grande austeridade, reduzindo os seus déficits e dívida públicos, com o objetivo de recuperar a confiança dos mercados, condição necessária para alcançar a recuperação econômica. Como disse há uns dias Jean-Claude Trichet, presidente do Banco Central Europeu (BCE): “A condição para a recuperação econômica é a disciplina fiscal, sem a qual os mercados financeiros não certificam a credibilidade dos estados” (Financial Times, 15-05-10).

A realidade, contudo, é muito diferente. Estas medidas de austeridade, promovidas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pela União Europeia (UE), estão criando uma grande deterioração da qualidade de vida das classes populares, pois estão afectando negativamente a sua proteção social e destruindo emprego, dificultando a sua recuperação econômica. Assim aconteceu na Lituânia, onde o PIB diminuiu 17% e o desemprego alcançou 22% da população ativa (veja-se o meu artigo Quién paga los costes del euro?). Uma situação semelhante ocorrerá nos países citados anteriormente.

Pareceria, pois, que são os mercados financeiros que estão a impor estas políticas aos governos. Ora bem, que quer dizer “os mercados financeiros”? Em teoria, na dogmática liberal que domina os establishments europeus (o Conselho Europeu, o BCE e a Comissão Europeu, assim como nos governos da maioria dos países da UE), os mercados são um processo de livre comércio entre agentes financeiros – os bancos – que obtêm benefícios para compensar os seus riscos, pois que se assume que existem riscos em tais mercados. Mas tal retórica não define a realidade, pois tais entidades – os bancos – operam em âmbitos e instituições enormemente protecionistas dos seus interesses, nos quais o risco, em geral, brilha pela ausência. Na realidade, os mal denominados mercados têm muito pouco de mercado. São bancos com muito lucro e poucos riscos. E o que está a acontecer mostra a certeza deste diagnóstico.

Nos EUA, onde existe amplo consenso sobre o fato de que a crise financeira foi iniciada pelos comportamentos de Wall Street, a crise bancária foi resolvida com a entrega aos bancos de quase um bilião de dólares pagos pelo Estado, que beneficiou enormemente os banqueiros e os seus acionistas, conseguindo inclusive mais benefícios do que os que tinham antes da crise. A obscenidade de tais benefícios e as práticas desonestas e criminosas dos banqueiros (causadores da crise) explicam a sua enorme impopularidade e a de tais medidas, que não se repercutiram favoravelmente sobre a população, que viu como os seus padrões de vida diminuíram devido à crise provocada pelos bancos. Não foram os mercados, mas os bancos e os seus políticos no Congresso (com nomes e apelidos conhecidos) e nas administrações Clinton, Bush e Obama (também com nomes e apelidos conhecidos) que criaram a crise, salvaram os bancos e agora apelam à austeridade.

Uma situação quase idêntica está acontecendo na UE. Os comportamentos especulativos da banca europeia foram consequência de decisões políticas que desregularam a banca, decisões que se tomaram particularmente, não apenas em Wall Street, mas também nos centros financeiros, principalmente a City de Londres e Frankfurt, consequência da enorme influência da banca sobre os governos britânico e alemão. A mal denominada “ajuda” do FMI-EU (de 750 bilhões de euros) aos países com dificuldades não é uma ajuda às populações daqueles países, mas sim aos bancos (e muito em especial aos alemães e franceses) para assegurar-lhes que os Estados lhes pagarão as dívidas com os juros confiscatórios que exigiram. Na realidade, se os mercados financeiros fossem mercados de verdade (e, portanto, houvesse competitividade e risco no seu comportamento), os bancos teriam de absorver as perdas em investimentos financeiros falidos. Se o Governo da Grécia, por exemplo, fosse à bancarrota, a banca alemã teria de absorver as perdas por ter tomado a decisão de comprar títulos do Estado grego.

Ora bem, isto não acontece nos mal denominados mercados financeiros devido a haver toda uma série de instituições que protege os bancos. E a mais importante é o FMI, que empresta dinheiro aos Estados para que o paguem aos bancos. Daí que, como nos EUA, os bancos nunca perdem. Quem perde são as classes populares, pois o FMI exige aos governos que extraiam o dinheiro dos serviços públicos das tais classes populares para pagar aos bancos. O que o FMI faz é a transferência de fundos das classes populares para os bancos. Isto é o que se chama “conseguir a credibilidade dos Estados face aos mercados”.

Estas transferências, contudo, além de serem profundamente injustas, são enormemente ineficientes. O fracasso das políticas de austeridade propostas pelo FMI nos países em crise é bem conhecido, o que explica o descrédito de tal instituição. O FMI, desde a era Reagan, é a organização financeira que impôs mais sacrifícios às classes populares dos países que receberam a “sua ajuda”, com resultados económicos altamente negativos, tal como denunciou correctamente Joseph Stiglitz. Não são os mercados, mas os interesses bancários e seus aliados – entre os quais se destacam o FMI e o BCE – que estão a impor estes sacrifícios. Ao menos, chamemos os culpados pelo nome.

Artigo publicado por Vicenç Navarro no diário PÚBLICO, 20 de Maio de 2010

(*) Vicenç Navarro ha sido Catedrático de Economía Aplicada en la Universidad de Barcelona. Actualmente es Catedrático de Ciencias Políticas y Sociales, Universidad Pompeu Fabra (Barcelona, España). Es también profesor de Políticas Públicas en The Johns Hopkins University (Baltimore, EEUU) donde ha impartido docencia durante 35 años. Dirige el Programa en Políticas Públicas y Sociales patrocinado conjuntamente por la Universidad Pompeu Fabra y The Johns Hopkins University. Dirige también el Observatorio Social de España


Tradução para o Esquerda.net de Paula Sequeiros

25.5.10

urticária nos mídia-ligeira

Desde quarta passada resisti a colocar o link para o pavoroso e intolerável comentário do Arnaldo Jabor na CBN. Trata-se do exemplo mais grotesco das distorções produzidas pelo que se chama de "liberdade de expressão" em meio à acentuada concentração dos meios de comunicação em mãos privadas.

(clique aqui para escutar o sujeito)

Por sí, pela inversão de sentidos, pelo falseamento da realidade, pela sabujisse, pela falta de decorro, pelo patente desrespeito aos interesses nacionais, o comentário do Arnaldo Jabor, expoente do Instituto Millenium, é peça suficiente para alertar a todos que prezam pela democracia e pelo bem do país da urgente necessidade de reformulação das regras de concessão de mídia.

E a barbaridade fica ainda mais gritante quando contrastada com a evolução dos fatos, como por exemplo o editorial de hoje do Le Monde (clique aqui) que rasga uma seda fenomenal a Lula e seu protagonismo na geopolítica internacional e, principalmente, ante o artigo escrito pelo ex-vice-presidente do Conselho de Inteligência da CIA, publicado no Estado de São Paulo de hoje (leia aqui), tratando do episódio como um marco no processo de decadência da hegemonia norte-americana.

23.5.10

entrevista do belluzzo


Ótima entrevista do Belluzzo, tratando das rupturas engendradas pela crise financeira internacional que assola o capitalismo. De quebra, uma sensata consideração sobre o episódio Lula-Irã-EUA. Confira no site da Revista Eletrônica do Instituto Humanitas Unisinos, clique aqui

18.5.10

enfim, o longo prazo

Minha geração, que virou gente nos anos 80, não conhece a preocupação com o longo prazo. Atravessamos praticamente três décadas vivendo e pensando sobre o curto prazo: as crises do balanço de pagamentos, a hiperinflação, as lutas pela recomposição salarial, a taxa selic, a pesquisa focus, etc... Num país cronicamente em crise e abarrotado de urgências, era normal que qualquer plano ou projeto para além de dois anos fosse tomado como devaneio.

Contudo, quem diria, na agenda política de hoje, o planejamento de longo prazo ocupa lugar central. Seja Dilma, seja Serra, é sobre as estratégias de desenvolvimento de longo prazo que buscam demonstrar as qualidades de seus respectivos projetos.

Mais do que isso, o tema do "financiamento de longo prazo" que até ontem era assunto restrito à literatura dos cursos de economia heréticos, parece aflorar como a variável chave a determinar o potencial de nosso desenvolvimento nos próximos anos. Ótimo sinal. A meu ver, expressa o sentimento concreto da classe política, de que, para os demais temas, bem ou mal, já existe um cardápio de propostas a serem executadas e que o grande "nó" é a questão do financiamento para investimentos de grande envergadura e longos períodos de maturação.

A esse respeito, vale conhecer a entrevista que a candidata Dilma concedeu ao Brasilianas.Org, comentando, entre outras coisas, que mais do que um elenco de projetos de infraestrutura, o mérito do PAC está na recuperação da capacidade de planejamento e gestão e, de estruturar modelos de financiamento - público e privado - para os projetos elencados no programa.

Considerando que a próxima década promete abrir diversas oportunidades ao Brasil, com a possibilidade concreta de nos consolidarmos como uma economia desenvolvida, é no mínimo reconforante saber que a preocupação com o financiamento de longo prazo está na ordem do dia e que marca o modo de pensar dos dois principais candidatos nessa eleição.

9.5.10

quem diria, estão em busca de um kirchner europeu

Em entrevista ao Estadão de hoje, Barry Eichengreen, economista e renomado especialista em finanças internacionais, comenta a sinuca em que se encontra a zona do Euro a partir da erupção da crise grega.

Não consegui acesso à versão on-line, mas chamo atenção para o fato de que Eichengreen, como muitos outros analistas, não vê alternativa para a crise grega que não passe por uma reestruturação da dívida daquele país, ou seja: trata-se de organizar o calote e distribuir o ônus de maneira mais justa e ordenada.

Enfaticamente, ele sugere que se copie o processo de renegociação de dívida realizado na Argentina, sob o  governo de Nestor Kirchner, nos anos de 2001/2002, quando os títulos de dívida velha foram negociados com deságio de 75% e o prazo da dívida largamente estendido. Enfrentando a fúria e cara feia de todo o primeiro escalão das finanças internacionais, Kirchner teve àquela época grande êxito e, contrariando o mundo, consegui não só reduzir e alongar a dívida pública de seu país, mas escapar da cilada da dolarização, armada pelos seus antecessores.

Pois, à Grecia, o caminho deverá ser o mesmo. Contudo, persistem algumas dúvidas quanto a possíveis desdobramentos que a reestruturação de sua dívida poderá provocar: 1º) será possível à Grecia permanecer no Euro? 2º) Ante o calote grego, como deverão se comportar os detentores de títulos de dívida soberana de outros países?

Nos próximos dias, provavelmente ainda nesta semana que se inicia, descobriremos - e, provavelmente, pelos próximos anos amargaremos.

E.T.: o que dirão - ou não dirão - os Sardemberg's e as Mirian's sobre o plano Kirchner ter virado um "case" internacional?

8.5.10

alô, visitante desconhecido

Observando pelo "sitemeter," noto que de um mesmo IP, acessado em Montain View, California, há uma elevado número de visitas a esse blog infame.
Alguém sabe do que se trata? Será um endereço para o qual convergem outros mais? Uma fã distante cujo marido ciumento não lhe permite revelar a identidade? Ou seria a CIA monitorando blogueiros incautos do terceiro mundo?

4.5.10

domenico losurdo em campinas


Vai uma dica de palestra interessante que acontecerá no auditório do IFCH (Unicamp), nesta quarta-feira, 05 de maio, às 14hs.

O filósofo marxista Domenico Losurdo, autor do livro "Hegel, Marx e a Tradição Liberal. Liberdade, Igualdade, Estado", estará debatendo com o Prof. João Quartim de Moraes sobre a sua obra e, mais especificamente, sobre o tema de seu último trabalho: "A Linguagem do Império", cuja edição brasileira será lançada ao final do evento. 

Acesse aqui o link do evento

27.4.10

fiscalismo desenvolvimentista?

Em entrevista à Agência Reuters, uma fonte anônima, citada como sendo um assessor muito próximo do candidato Serra, dá as primeiras pistas de como seria a política econômica caso o tucano vença as eleições de outubro.

Confira a matéria aqui.


Pontos preocupantes:

1) Obsessão com o ajuste fiscal - sempre sob o argumento questionável de que as despesas com custeio do governo federal estão excessivamente altas.

A esse respeito, vale a leitura da Coluna do Nassif de hoje, comentando um estudo do IBRE/FGV que aponta para a falácia da disjuntiva Custeio-Investimento. Apenas para citar um ponto relevante, o chamado "custeio restrito" (aquele que corresponde a despesas efetivamente da máquina pública) caiu de 2,1% para 1,8% do PIB entre os anos de 1999 e 2009;

2) Crítica ao BNDES por financiar processos de consolidação patrimonial. A proposta alternativa seria a de concentrar os recursos do banco nas operações de financiamento de novos empreendimentos.

Ou seja, a estratégia de fomentar a criação de grandes grupos nacionais, capazes de atuar como players globais, é tida como indesejável ou desnecessária;

3) Crítica ao papel dos demais bancos públicos que, supostamente, estariam aquecendo a demanda para além do necessário, induzindo à manutenção da taxa básica de juros em patamares muito altos;

4) Defesa dos superávits primários elevados, associada à crítica da política fiscal "excessivamente frouxa" executada no período de crise.

No conjunto, o receituário não me parece lá muito alvissareiro, quanto mais para um candidato que carrega a flâmula do desenvolvimentismo.

PS: se tivesse que apostar na identidade secreta da fonte, jogaria todas as fixas no nome de José Roberto Affonso.

24.4.10

do destempero lúcido

Tal como vaticinado, Ciro Gomes puxou o gatilho, disparando aos quatro ventos sua irrequieta metralhadora. Por seu pavio curto, a cada ano que passa, vai se tornando um candidato menos viável. Contudo, se a quilometragem não lhe deu temperança necessária para maiores vôos, parece ter-lhe servido para apurar sua qualidade de interprete da política do país. Na sua explosão verbal da última sexta-feira, não foi diferente.
De fato, o que disse da Dilma e do Serra sintetiza bem o que provavelmente passa pela cabeça de muitos que se dedicam a decifrar a atual conjuntura política: por um lado, a Dilma, gerente competente, com uma boa visão de país, experimentada no ofício de articular e dimensionar o setor estatal brasileiro tal qual necessário a um desenvolvimento de maior fôlego, é, contudo, frágil e inexperiente na arte da política. Serra, por outro lado, mais tarimbado, jogador impetuoso da política, de alma desenvolvimentista - ainda a se revelar - peca por ter se aninhado no colo de uma elite cosmopolita e conservadora que muito pouco compromisso tem com a nação.

O que esperar então da peleja que definirá os rumos do país nos próximos anos?

Se estiver correto o instinto do analista Ciro Gomes, de um certo ponto de vista - digamos, progressista - pode-se dizer que a parada já está ganha. Não há, na prática, um candidato da direita, sequer um representante dos rincões patrimonialista, sequer um das franjas neoliberais. Mesmo numa eventual vitória de Serra, é bastante plausível a hipótese de um chapéu na trupe conservadora que lhe sustenta.

Nesses termos, portanto, a eleição que se aproxima tem a dita "polarização" apenas como fachada. Os dois candidatos em muito se assemelham. Noves fora, deveremos apostar apenas e tão somente naquele que carrega a dúvida que menos nos angustia: Serra chutará os seus para governar como o diabo gosta? E Dilma, saberá domar a tigrada a partir no dia em que o tio Lula sair de cena? Suspeito que nada mais do que isso estará em jogo na campanha que seguirá até outubro.      

20.4.10

o timoneiro enrustido

É verdade que o candidato José Serra, dentro do PSDB, foi sempre um dissidente, mais desenvolvimentista e menos liberal que seus pares de partido. Isso, contudo, não me parece um argumento forte o suficiente para qualificá-lo como um estadista em condições de colocar o país numa trajetória de desenvolvimento mais robusta e duradoura. Sua trajetória como executivo nos diferentes cargos que ocupou em sucessivos governos tucanos não sugere que seja ele um desenvolvimentista enrustido esperando a sua hora para agir.

Quando esteve no Ministério do Planejamento, fez declarações enfáticas ante as insanidades macroeconômicas promovidas pelo malanismo, escreveu para os seus alertando sobre as bobagens que se dizia sobre os "déficitis gêmeos", mas continuou firme no cargo de Ministro de Planejamento num governo que, por essas e outras, fez grande estrago à nossa estrutura produtiva, privatizou, aprofundou o sucateamento do Estado e ainda fez explodir nossa dívida pública.

É verdade que, astuto que é, Serra saltou a tempo para o Ministério da Saúde, onde desempenhou talvez o papel que mais frutos lhe deu. Contudo, basta conversar com os sanitaristas mais experientes, membros do "Partido do SUS", para saber que boa parte dos louros colhidos por Serra resultaram de políticas gestadas por seus antecessores. A Saúde da Família, os Genéricos, a quebra das patentes foram projetos oriundos das competentes equipes montadas por Jamil Hadad (Governo Itamar) e de Henrrique Santana (Governo FHC) que antecederam Serra no MS. É claro que ele foi competente o suficiente para dar continuidade a esses programas, manteve o bom time que ocupava as áreas técnicas do MS e soube cacarejar como bem deve fazer um político que se preze.

Mais tarde, como prefeito de São Paulo, diria que Serra fez uma administração mediocre, que não deixou marcas e que se notabilizou por desmontar o que havia sido iniciado na gestão Marta. O tratamento dado aos CEUs é um exemplo notório, mas não o único.

Por fim, no governo do Estado de São Paulo, botou um xerife fiscalista na fazenda, fez pose de desenvolvimentista, mas na prática, manteve os investimentos nos mesmos níveis medíocres que os do governo federal, a despeito de ter ampliado a arrecadação e ter constrangido as despesas correntes às custas dos salários do funcionalismo estadual (veja aqui post anterior comparando as taxas de investimento)

Alguns dirão, e o Rodoanel? E a terceira pista da Marginal? Ora, o Rodoanel é um projeto que está em execução a 16 anos, desde que Mario Covas assumiu o governo em 1994, assim como o metrô ou as vias marginais na Anhanguera  são obras que se arrastam pelos governos tucanos, todos fiscalistas de carteirinha.

Mas, aos que ainda assim enxergam em Serra o timoneiro do desenvolvimentismo, sugiro a leitura de matéria do jornal Valor de hoje, onde são pinçadas algumas considerações econômicas feitas por Serra em seu discurso em Minas. Pretende rever o papel do BNDES e dá sinais de que seu homem para o Ministério da Fazenda seria o pitbull fiscalista e Secretário de Estado, Mauro Ricado.

14.4.10

sobre a natureza das crises

Ainda na toada do Prof. Belluzzo, avançamos hoje pelo tema das crises financeiras em Marx.

Como o assunto é parrudo, vamos por pontos:

1) não há em "O Capital" nada explicito sobre a "crise final" do capitalismo. Há sim, a identificação de que, pelas contradições da própria dinâmica capitalista, o sistema tende recorrentemente a crises de superacumulação.

2) o conceito de crise de superacumulação não deve ser confundido com o de crise de subconsumo. Nos termos do próprio Marx, o subconsumo é uma constante estrutural do regime capitalista. Já a superacumulação decorre da tendência do capital de, por um lado, promover a constante ampliação de mais-valia e, por outro, produzir uma ampliação sistemática da composição orgânica do capital (i.é: amplia-se crescentemente a participação do capital fixo em relação ao capital variável) que, no limite, torna o capital abundante - note-se, abundante em relação às taxas de retorno vigentes na economia, não em relação ao capital variável. Com isso, ocorre uma desvalorização relativa do estoque de capital que termina interrompendo a dinâmica de reprodução capitalista.

3) Instaurada a crise de superacumulção, emerge o conflito entre diferentes parcelas do capital, em um processo que só se encerra quando parte do capital abundante é destruído para dar novo fôlego ao sistema.

4) À medida em que se desenvolvem o sistema de crédito e órgãos de "inteligência coletiva" com a missão de gerenciar o sistema financeiro (como são hoje os Bancos Centrais) cria-se uma instância de socialização das decisões de investimento que, no entanto, só age como tal, quando a crise já está em curso e faz-se necessário uma intervenção que permita que o processo de redução do estoque de capital se dê da forma menos deletéria possível.

5) É precisamente essa arquitetura produzida pelas próprias contradições do capital que instaura a possibilidade de socialização das decisões de investimento e que, no limite, abre a possibilidade para um novo regime. Porém, históricamente, o capital não ousa avançar sobre esse limite.

6) A chave do problema não está, portanto, na órbita da distribuição ou na questão da propriedade privada. O ponto crucial  é retirar da esfera privada as decisões de investimento. À medida em que o capitalismo avança, os instrumentos de socialização daquelas decisões também se desenvolvem, abrindo a possibilidade -ao menos teórica - de se pensar em um regime em que se possa manejar o estoque de capital de acordo com as demandas do conjunto da sociedade, eliminando o componente caótico e disruptivo que decorre das decisões privadas de investimento.

Pra encerrar, um comentário interessante do Belluzzo sobre a dinâmica contraditória do capital:

A idéia de "contradição em processo" refere-se ao fato de que o capital, ao rumar para o absoluto (que entendo ser, por um lado, a plena eliminação da concorrência intercapitalista e, por outro, a total independência em relação ao trabalho vivo), conduz o regime invariavelmente a crises de superacumulação que lhe revelam o seu caráter relativo e histórico.

8.4.10

em suma, o capital

Sereno, conduzindo a bola a passos largos e trocando passes precisos - sim, leitor, como fazia o maestro Ademir da Guia - o professor Belluzzo protagonizou na noite de ontem mais um excelente seminário sobre "O Capital" de Marx.

Partiu do debate sobre a relação entre capital produtivo e capital financeiro (ou taxa de lucro e taxa de juros), que compõe o Livro III, e que tanta confusão provoca.

De cara, uma observação fundamental: a forma de reprodução do capital a juros (D-D'), antes de representar uma anomalia ou uma hipertrofia do processo de acumulação capitalista, é a expressão suprema de seu aperfeiçoamento. Diz o Belluzzo: "é como capital a juros que o capital se aproxima de seu conceito"

Portanto, ao contrário do que advogam muitos interpretes do capitalismo atual, entre o capital produtivo e o capital financeiro há uma evidente relação funcional, em que o primeiro se subordina ao segundo. Assim, não cabe reduzir a acumulação financeira a uma função de mediação entre fundos de crédito a alimentar a acumulação produtiva. Ao contrário, é a expectativa de rendimentos da esfera financeira (por isso capital fictício) que viabiliza as inversões produtivas e, em última instância, a taxa de lucro.Nesse sentido, o conceito de "financeirização", empregado para caracterizar o capitalismo das últimas três décadas, deve ser entendido apenas como atinente ao fato de que se verifica uma crescente amplificação da diferença funcional entre o capital a juros e o capital produtivo.

Ora, isto posto, cabe refletir sobre quais as bases materiais de tal processo de acumulação. Se a taxa de juros é determinada pela expectativa de renda descontada do futuro ao valor presente e se é essa, em última instância, que determina o volume de inversões produtivas, e portanto, a taxa de lucro presente, pode-se dizer que, quanto mais avança o capitalismo em seus aspectos financeiros, mais o capital se despreende de suas bases materiais. Dito de outra forma, se é o capital fictício que conduz a economia e se esse se orienta por uma relação especular (especulativa) quanto ao futuro (por isso fictício para Marx e radicalmente incerto para Keynes), podemos dizer que à medida que se desenvolve, o capital de desmaterializa.  Ou seja, tendencialmente o capital se desvincula do presente, de significados ex-ante, vira um espectro de sí mesmo e -como bem complementou o colega Renato -se aproxima do puro movimento/processo. Um símbolo abstrato da qualidade de não ter sentido, o fetiche em torno de substâncias em eterna e radical mutação, a cristalização abstrata do efêmero.

É mole?

- Interrompidos a tempo de fazer uma última refeição, deixamos o que resta (...) do debate para uma próxima.

30.3.10

gente alugando cabeça de gente


Lockerz!

De locação? de loucura? Sabe-se lá! Trata-se de uma insidiosa estratégia comercial que vem se espalhando como braquiária nos pastos da internet. A idéia é simples: os associados do site são convidados a participar de diferentes atividades on-line (assistir pequenos vídeos indeléveis, responder questionários insípidos, clicar aqui e ali, convidar um amigo, etc....) e a cada tanto de participação vão ganhando um "x" de bônus que poderão ser trocados por inúmeros brindes - alguns muito bons - que são oferecidos de graça àqueles que atingirem as metas. Ninguém paga nada, ninguém põe a mão no bolso e findas as tarefas se tem a recompensa.

Ora! Os capciosos idealizadores do  LOCKERZ  se deram conta de que, se conseguissem "alugar" algumas milhares de mentes de internautas mundo afora, teriam nas mãos um produto capaz de atrair caminhões de dólares de anunciantes que buscam ávidos os sites com grande número de acessos e e longos períodos de permanência. Ou seja: arrebanhada a garatoda, que religiosamente frequenta o LOCKERZ para cumprir a tarefa diária, é distribuir um bocado de brindes e faturar milhões.

Parafraseando o velho, nestes tempos de capitalismo virtual parece que 'tudo que é etéreo se materializa no caixa'.

25.3.10

boa entrevista do waldir quadros


Reproduzo abaixo a entrevista concedida pelo economista e Professor da Unicamp Waldir Quadros à revista do Instituto Humanitas Unisinos. 


Conciso, Waldir toca nos pontos cruciais que deveriam compor a agenda política do país nos próximos anos.



IHU On-Line - Como avançar num novo patamar econômico e social, tendo em perspectiva o atual cenário econômico, de centralização do capital?

Waldir Quadros - O crescimento da economia brasileira no período 2004-2008 pode fornecer importantes indicações a este respeito. Em primeiro lugar, ao evidenciar os efeitos benéficos do dinamismo econômico sobre a estrutura social. Até 2003, parecia que a sociedade brasileira estava, de certa forma, resignada com taxas medíocres de crescimento. Agora, não mais. Este ciclo de taxas mais expressivas teve um importante efeito pedagógico e, sem dúvida, esta temática está na ordem do dia das análises econômicas e das perspectivas políticas. Em segundo lugar, ao também deixar suficientemente claro que os efeitos sociais positivos do crescimento são bastante potencializados com a adoção de medidas redistributivas. É o que se notou com os simultâneos reajustes reais do salário mínimo e a ampliação dos programas de transferência de renda aos miseráveis.

Com certeza, estas questões assumirão papel relevante nas eleições presidenciais deste ano. Entretanto, em nosso entendimento, também ficou claro os limites estruturais deste dinamismo social, o que nem sempre tem merecido a devida atenção. De fato, verifica-se uma importante mobilidade social nos estratos inferiores da população, notadamente entre os miseráveis e a massa trabalhadora pobre. Porém, esta ascensão mais vigorosa chega apenas até a baixa classe média remediada. Para quem já se encontrava nesta camada, e legitimamente aspira melhorar de situação, as possibilidades foram bem mais restritas, pois, na classe média, as novas oportunidades são bastante reduzidas, e, na alta, predomina a estagnação.

Acreditamos que estas limitações, em grande medida, recorrem das condições macroeconômicas desfavoráveis ao desenvolvimento industrial e tecnológico e seus rebatimentos nos serviços produtivos. Em poucas palavras, este ciclo recente de crescimento teria ocorrido de forma um tanto “espontânea”, num primeiro momento, aproveitando os estímulos favoráveis da economia mundial em relação às exportações de produtos primários. Em seguida, pela reativação do consumo interno propiciado pela elevação nos rendimentos e, sobretudo, pela explosão do crédito a taxas de juros exorbitantes. Mas, sem alterar a estrutura produtiva bastante dilapidada por tantos anos de neoliberalismo.

Ou seja, crescemos apesar da nossa política econômica estagnacionista, particularmente no que se refere ao câmbio que beneficia as importações, e aos juros que punem o investimento produtivo. O que se completa com os fortes atrativos da valorização financeira desenfreada.
Nestas condições, as empresas praticam intensa rotatividade e rebaixam continuamente os salários. Aumentam as exigências de qualificação e engajamento e reduzem os salários. Este procedimento se generaliza no meio empresarial. As empresas em dificuldades diante das condições adversas adotam esta prática por razões defensivas, e as que estão em melhores condições também o fazem para gerar excedentes e aplicá-los na órbita financeira.
IHU On-Line - O senhor diz que o país precisa de uma política de industrialização, que o permita crescer com mobilidade social mais expressiva. As investidas do governo em criar empresas nacionais fortes sinalizam algo nesse sentido, ou pelo contrário, isso retrai o desenvolvimento social?

Waldir Quadros - Sem dúvida, este é um passo decisivo e bastante oportuno. Para avançarmos na industrialização, é necessário que contemos com grupos nacionais de projeção internacional e capazes de realizar maciços investimentos, promovendo o contínuo desenvolvimento tecnológico.
Entretanto, existem outras lacunas igualmente fundamentais que não estão sendo cuidadas. Refiro-me às sérias perdas nas cadeias produtivas provocadas pelas já referidas condições macroeconômicas adversas. De fato, desde a abertura comercial sem critério e o predomínio do câmbio e juros desindustrializantes, inúmeras empresas fecharam as portas e se transformaram em distribuidoras de produtos importados ou se transferiram para outros países.

E esta atrofia da indústria se irradia de maneira extremamente negativa aos serviços de apoio à produção, sendo que ambos geram empregos, em geral, melhor remunerados que o comércio e os serviços pessoais.
IHU On-Line - É possível vislumbrar uma evolução da estrutura social numa fase em que a base econômica é fomentada por instituições nacionais portadoras de muito capital e competitivas no cenário internacional?

Waldir Quadros - Imagino que sim, e basta olhar para a nossa própria experiência histórica. De fato, de 1930 a 1980 - e notadamente desde o pós 2ª Guerra -, o Brasil cresceu a taxas muito expressivas a partir do esforço de industrialização pesada comandada pelo Estado. E a mobilidade social foi extremamente dinâmica, gerando uma respeitável classe media urbana e um operariado moderno, em que pesem o aumento da desigualdade social e da concentração de renda.

As potencialidades que o Brasil detém na atualidade nos capacita a retomar este caminho em direção aos resultados da terceira revolução industrial, agora o complementando com medidas redistributivas efetivas que alcancem a reconstrução dos serviços públicos sociais bastante degradados.

Nestas condições de desenvolvimento industrial e dos serviços produtivos e de avanço nos serviços públicos sociais, com certeza assistiremos à ampliação da média e alta classe média, abrindo caminho para a ascensão social mais efetiva das camadas inferiores e para a melhoria das condições de vida do conjunto da população.
IHU On-Line - O senhor defende a ideia de que, sem o crescimento da economia, não é possível promover avanços sociais significativos. No que se refere aos investimentos do PAC, por exemplo, percebe-se uma dualidade? O crescimento da economia, sem levar em conta questões ambientais e habitacionais, gera ainda mais desigualdades e vulnerabilidade?
Waldir Quadros - Corretamente, o PAC procura superar os graves estrangulamentos da infraestrutura nacional. Em boa medida, suas limitações decorrem, fundamentalmente, do desaparelhamento do Estado, que foi profundamente desarticulado desde o Governo Collor e só recentemente começou a ser recomposto. Mas, sem dúvida, ainda se faz necessária uma ampla reforma administrativa que assegure a competência e eficiência estatal em níveis comparáveis aos países desenvolvidos.

A própria área ambiental se ressente deste desaparelhamento. De um modo geral, sem recursos suficientes para avaliar adequadamente os impactos e, sobretudo, de monitorá-los em tempo real com poder para interferir com agilidade e efetividade, a tendência é de não aprovar os projetos. Ou seja, apenas prevalece a prudência ambiental, deixando o desenvolvimento sustentável em segundo plano. E esta cultura acaba por impregnar profundamente amplos setores do ministério público.

Agora, é crucial perceber que temos as melhores condições para crescermos em harmonia com o meio ambiente, desde que contemos com adequadas condições de planejamento e execução para efetivar nossas potencialidades, aprimorando nossa tradição de comando e controle pelo estado e incorporando a mais ampla participação da sociedade.

Por fim, não devemos focar nossas atenções apenas na preservação dos recursos naturais “selvagens”, descuidando da realidade urbana. Neste âmbito, entre tantas urgências, é crucial que nos livremos rapidamente do pernicioso predomínio dos automóveis no transporte de massa, que já tornou impraticável a vida civilizada nas cidades brasileiras. E não apenas nas metrópoles.
IHU On-Line - Que conjuntura econômica o senhor vislumbra para 2010? De que maneira ela irá refletir na estrutura social do país?

Waldir Quadros - Formou-se um relativo consenso entre os analistas de que, não ocorrendo algum abalo mais sério na economia mundial, nosso desempenho em 2010 será comparável ao vigente no período anterior à crise de fins de 2008.

Assim sendo, é de se esperar que os retrocessos sociais porventura ocorridos em 2009 (e que só poderão ser mensurados com a divulgação da PNAD de 2009, por volta de outubro) sejam superados ao longo de 2010.

Entretanto, implicações mais profundas e duradouras podem advir da próxima eleição presidencial. Caso ela resulte na escolha de um(a) estadista que encaminhe a economia nacional nos rumos do desenvolvimento esboçados nas perguntas anteriores, poderemos construir uma sociedade próspera, mais justa, menos desigual e ambientalmente sustentável num prazo não muito longo.

Não é sempre que uma sociedade se defronta com tais possibilidades históricas.