17.8.14

o espectro de jânio quadros

Há um incômodo ranço no ar. Os dias que correm não repetem nem coincidem exatamente com as notas históricas do período conhecido como "4ª República", que vai de 1946 a 1964. Contudo, observadas as tônicas e as ordens dos compassos, é possível encontrar algum paralelismo entre a toada dos últimos 20 anos e aquela que marcou o período democrático que se seguiu ao fim da IIª Guerra .


Senão, vejamos.

No primeiro compasso (Governo Dutra, 1946-1950), tal qual no período FHC (1995-2002), tivemos a marca do liberalismo, do internacionalismo, da ortodoxia econômica e do descompromisso com os interesses populares. Rejeitados pelas urnas, não conseguiram fazer seus sucessores e deram lugar a governos de presidentes carismáticos (Getúlio entre 1951-54, Lula entre 2003-10), apoiados pelas camadas populares, ambíguos na macroeconomia e que deixaram como principais marcas: os aumentos do salário mínimo, as apostas no petróleo nacional (GV criou a Petrobras, Lula descobriu e avançou com o Pré-Sal), o impulso do BNDE(S) (GV foi seu criador e Lula lhe multiplicou por três os fundos para financiamento).

Entre os governos JK e Dilma, outras similitudes são possíveis, a despeito dos diferentes contextos internacionais e dos resultados muito mais expressivos do governo do primeiro. Em ambos, se pode notar o planejamento estatal como eixo estruturante dos respectivos governos (muito mais exitoso no Plano de Metas do que no PAC), além da preocupação com a expansão da infraestrutura ou ainda o vento favorável dos investimentos estrangeiros diretos para cobrir déficits crescentes nas transações correntes. Outro traço que marca os dois períodos é o desconforto da sociedade com as instituições públicas (sistema tributário, sistema político, códigos jurídicos, etc,) e os impasses que encerram.

Finalmente, avançando pelos compassos, o ano eleitoral de 2014 também dá mostras de preocupante similaridade com o ano de 1960. Aqueles impasses institucionais e a descrença na política que deles decorrem abrem um perigoso vazio político. Em sessenta, no campo da situação, o vazio advinha da ausência de um nome de peso para dar curso ao desenvolvimento praticado por GV e JK; em 2014, embora haja uma candidata da situação, (infelizmente) ela não é vista pela maioria do eleitorado como o nome ideal para dar sequência aos projetos iniciados por Lula. Além disso, então como agora, uma pequena oposição orgânica, embora estridente e fortemente apoiada por uma imprensa reacionária e liberal, não dispõe também de um nome forte capaz de polarizar a disputa com o governo de plantão. Em 1960 (quando a eleição era em turno único) decidiram apoiar um aventureiro que talvez pudesse quebrar a a espinha do varguismo. Hoje, com dois turnos, lançam um candidato para cumprir tabela, mas certamente estarão juntos de qualquer outro que tenha a chance de interromper o avanço dos governos petistas.

E não mais que de repente, como que por obra de um Deus Ex-Machina a martelar a história, uma reviravolta trágica alça Marina Silva como um novo Jânio a navegar pelo limbo político.

E muitas são as semelhanças entre os dois:

1º) são personalistas e inorgânicos: não ascenderam politicamente de nenhuma classe ou agrupamento político específico, nem sequer dispunham de uma estrutura partidária robusta ou de um projeto claro de país.
2º) o discurso moralista: Jânio e sua vassourinha sintetizavam a perspectiva de uma classe média desorganizada que se via ameaçada pelo fantasma do estatismo e pelas notícias de corrupção que acompanhavam o trajeto desenvolvimentista. Marina Silva, prescinde da vassoura e com aura de beata se apresenta impoluta, predestinada e messiânica a defender a harmonia idílica do mesozoico.
3) Ambos emergiram do povo: professores de ensino secundário, antíteses da figura do político oligarca que habita o imaginário da opinião média; voluntaristas, destemidos e desconectados das entranhas funcionais que fazem andar a sociedade.

Por tamanha similitude, não há exagero em imaginar os que riscos de crise institucional que se materializaram com Jânio também poderão vir à tona em uma hipotética vitória de Marina Silva. Sem estrutura partidária, sem vínculos orgânicos, sem um projeto de país, Marina Silva representa uma aventura messiânica incapaz de dar conta da complexidade econômica, social e política de um país como o Brasil. Sua vitória seria disruptiva e uma ameaça concreta para o esforço de retomada do desenvolvimento que, a duríssimas penas, temos perseguido nos últimos 12 anos.

colossal pesquisa, tímidas soluções

Nas últimas semanas, as ideias apresentadas por Thomas Piketty em seu livro Capital in the twenty-first century se espraiaram em ritmo viral pelas redes da gente que dialoga sobre os temas econômicos ao redor do mundo. Muitas resenhas foram escritas, críticas pertinentes, louvações justas, a ponto de Paul Krugman ter afirmado que se trata de “um livro que vai mudar muito a maneira como pensamos a sociedade e o modo como fazemos economia“. Oxalá!

Como entender o enorme alvoroço provocado pelo livro de Piketty, esse pacato professor da Paris School of Economics, afinado com a ortodoxia econômica, Phd em Harvard e membro do Partido Socialista Francês?

Certamente uma das razões do entusiasmo decorre do colossal conjunto de dados sobre a desigualdade da riqueza e da renda que foram reunidos no livro e que jamais tinham sido expostos com tal amplitude à luz do dia – apesar de imaginados à sombra e sentidos nas ruas.

As conclusões que Piketty tira dos dados e as recomendações que faz, embora meritórias e certamente necessárias – como a utópica taxação da riqueza ao nível planetário e a defesa do controle de capitais – são, em certa medida, de uma singeleza que chega a ser intrigante. A começar pelo fato de que o autor, tal qual um contabilista de grande envergadura, mira apenas os resultados agregados da distribuição do produto e da renda ao longo da história do capitalismo, passando ao largo do problema central: o caráter disruptivo e incerto da dinâmica da produção e da acumulação. Embora ele reconheça, ao analisar as séries históricas, que o capitalismo só conseguiu sobreviver até aqui (transformado e reformado) graças a profundos e violentos choques exógenos que marcaram o século XX, dá de barato que o capitalismo no século XXI tende a seguir uma trajetória monótona e previsível, à qual, por injusta, ele recomenda reparos.

Não será, pois, por acidente que dois autores que indiscutivelmente revolucionaram o pensamento econômico (Marx e Keynes) são lembrados somente de forma acessória no livro de Piketty. Em sua perspectiva, as crises de reprodução do sistema não aparecem na tela (!) e o que se deve manejar são apenas os critérios de distribuição, de modo a ajustar o viés concentrador, que se revela quase como um fenômeno acidental.

Nesse sentido, seu pensamento estaria mais próximo do direito do que da economia política crítica, pois se debruça fundamentalmente sobre o tema da propriedade e da partição da renda e quase nada tem a dizer sobre o engenho que transforma, aliena e reinventa as forças produtivas sob a égide do capital. Além disso, se por um lado a perspectiva de Piketty se aproxima à de Keynes quando imagina um equilíbrio de longo prazo com baixo dinamismo - e que, portanto, não atende à coletividade (para o primeiro devido à desigualdade e para o segundo devido ao desemprego) - por outro, em muito se distancia dela no que tange ao enfrentamento do problema. Enquanto Keynes vai se dedicar a encontrar meios que alterem ex-ante a dinâmica capitalista para que se alcance uma taxa de crescimento que garanta o pleno emprego, Piketty se debruça apenas sobre os artifícios ex-post que poderiam mitigar a desigualdade.

Mas não é apenas na ausência de diálogo com a teoria econômica crítica que reside a simplicidade do argumento de Piketty. Outro tema crucial de seu livro é a atual impotência dos mecanismos meritocráticos, incapazes de garantir uma distribuição de renda mais equânime e, ao mesmo tempo, permitir a diferenciação dos indivíduos e os estímulos para o progresso. Segundo ele, dada a crescente concentração da riqueza no bolso de pouquíssimas famílias, a saudável competição entre os homens tem sido maculada na origem e, portanto, urge recriar ou instituir mecanismos políticos – tributos – que reestabeleçam condições mais isonômicas para a peleja e assim tracionem a meritocracia, recolocando o capitalismo numa toada mais justa e democrática.

Tudo bem, nada a objetar, muito pelo contrário. Contudo, é ruidosa a ausência de qualquer menção ao fato de que a tributação é sim fundamental, não apenas para reconduzir em condições de igualdade o plantel à arena, mas, essencialmente, porque o produto e a renda são fenômenos sociais, e como tal devem ser distribuídos. A apropriação privada, mesmo que sirva de motor para o progresso e esteja na base da dinâmica que concentra e revoluciona os meios de produção é, desde sempre, um artifício, e não um desfecho mecânico que corresponde ao grau de contribuição de cada indivíduo para a coletividade.

Entre as muitas resenhas do livro de Piketty que estão na praça, apontam-se também outras simplificações problemáticas de sua abordagem - como, por exemplo, o excessivo determinismo econômico (cuja expressão maior é reduzir o problema do capitalismo à persistência de r>g, onde r é a taxa de retorno do capital e g é a taxa de crescimento do produto) e a pouca atenção às especificidades nacionais e históricas dos países que compõem a economia global. Embora não retirem o mérito do grande panorama da desigualdade no mundo do capital, essas críticas são, sem dúvida, pertinentes e reforçam a impressão de que, pelo menos no que tange ao século XXI, o livro lança mão de um aparato metodológico quase naif.

Mas, vá saber...? Não seriam esses aspectos táticos de um Piketty estrategista?

Exaltando os valores republicanos da democracia burguesa (o espectro da Revolução de 1789 ronda as páginas do livro) e sem se desviar do esperanto mercadista, um mérito inegável de Capital in the twenty-fist century é ter conseguido semear no centro do gramado verde do mainstream econômico uma cisma quase existencialista, qual seja: mesmo que tudo funcione comme Il faut, estará tudo dando errado.

Artigo publicado originalmente na revista Carta Capital, edição nº 800, pp 50-51, 16/05/2014.
http://www.unicamp.br/unicamp/clipping/2014/05/19/colossal-pesquisa-timidas-solucoes.

a nova dimensão paulista

Há alguns anos, a NASA divulgou imagens da Terra vista de noite. Belíssimas. Em meio ao azulão profundo, a costa leste dos EUA e a Europa aparecem como constelações vibrantes, espécie de Via Lactea do progresso. Abaixo do equador, porém, esparsos pontos de luz revelam o descompasso do desenvolvimento. As nações periféricas brilham muito menos, também aos olhos dos satélites.

No Brasil, onde por extensas regiões não se enxerga uma única piscadela, apenas na costa sudeste se percebe uma concentração de luzes comparável àquela que se espraia pelo mundo desenvolvido. Num formato que lembra o de uma mão aberta, nota-se que, a partir de uma mancha larga, estendem-se cinco raios, como dedos, cada qual apontando para uma direção do interior. Trata-se do estado de São Paulo: a megalópole sobre o planalto e, sobre as pegadas bandeirantes, os cinco eixos de economia pujante.
E o que nos dizem essas cicatrizes que se avistam do céu?

Contam-nos que as tecnologias da IIª Revolução Industrial (o aço, a eletricidade, o petróleo, o motor a combustão, o automóvel, etc.), que dinamizaram o capitalismo no século XX, também se fizeram presentes por aqui e transformaram profundamente essa região do país. Sobre um tabuleiro fertilizado pelo dinheiro do café, ergueu-se no estado de São Paulo o palco maior da industrialização brasileira.
Efeito reflexo, as forças concêntricas da acumulação capitalista fizeram cristalizar neste mesmo estado os grandes polos do poder contemporâneo: as finanças, os boards das corporações, os órgãos de imprensa, os sindicatos, os partidos políticos.

Quanto aos raios que se estendiam para o interior, indicavam que as punções do desenvolvimento capitalista se desdobraram para algumas importantes regiões do estado, induzidas por investimentos governamentais que trataram de instalar polos industriais em pontos estratégicos do mapa estadual, articulando as fontes de matéria prima aos setores industriais que se irradiavam desde a capital. Foram estes, por exemplo, os casos da região de Campinas, que além de uma refinaria de petróleo (em Paulínia), recebeu diversos centros de tecnologia e pesquisa (CTI, Telebrás, CPQD, Sincrotron, Unicamp, etc.) ou de São José dos Campos, agraciada com outra refinaria e investimentos relacionados à tecnologia aeroespacial (CTA, ITA, Embraer).

No litoral, o porto de Santos, outra resultante do passado cafeeiro, serviu e foi servido pelo vigor da industrialização. Continua sendo o maior porto da América do Sul, responsável pela movimentação de 25% de nosso comércio exterior e por onde passam mais de 1/3 do PIB brasileiro.

Por tudo isso, esse grandioso passado colocou São Paulo como estrela maior do desenvolvimento nacional. Mas o Brasil mudou. A profunda crise que atingiu a economia brasileira nos anos 80 e que resultou em duas décadas de estagnação econômica foi mais ainda uma crise paulista. A outrora locomotiva da nação tem caminhado a taxas mais modestas do que o resto do país. Entre 2002 e 2010, enquanto a taxa média de crescimento do PIB brasileiro foi de 4,1%, ao ano, a de São Paulo ficou em 3,6%. Claro que São Paulo ainda é - e por muito tempo será - o mais importante estado do país. Mas as últimas três décadas revelam que está em curso um processo de desconcentração do parque produtivo nacional, seja por mérito das políticas de desenvolvimento experimentadas em outras regiões do país, seja pela passividade da condução política no estado. De 1985 para 2009 a participação de São Paulo no PIB nacional caiu de 37,6% para 33,4%. Em relação à indústria manufatureira, a queda foi ainda mais abrupta: de 52%, para 42%.

Isso, porém, não deve ofuscar outra tendência importante que se observa na dinâmica interna do estado: enquanto o ritmo de desenvolvimento arrefece na capital, ao interior do estado reserva-se ainda um horizonte com grande potencial de desenvolvimento.

A capital e seu entorno dão claros sinais de fadiga. O gigantismo e a complexidade que caracterizam essa enorme metrópole indicam que talvez se tenha aproximado daquilo que os economistas consideram como uma situação sujeita a “rendimentos decrescentes de escala”. Ou seja, quanto maior é, pior fica.

De fato, há diversos indícios que apontam para o crescente transbordamento econômico em direção ao interior de São Paulo. Hoje, metade da riqueza produzida anualmente no estado de São Paulo é procedente do interior, algo próximo de R$ 700 bilhões e que corresponde a 1/6 do PIB nacional.

Por sua vez, quando nos detemos a observar o interior, notamos que o desenvolvimento econômico que catapultou o estado no último século produziu também lá uma divisão bastante nítida: a banda de cima e a banda de baixo do Rio Tietê. Na de baixo (lado sul),
atravessada pelos eixos da Castelo Branco e da Regis Bitencourt, percebe-se o predomínio de municípios mais pobres, cujas populações têm menor escolaridade e menor expectativa de vida e, portanto, com um padrão de vida mais característico das nações em subdesenvolvidas. Nessa região, prevalecem ainda as atividades agrícolas, com forte crescimento das áreas de reflorestamento, voltadas à produção de celulose e, portanto, não há vetores econômicos que nos autorizem imaginar uma guinada produtiva da região nos próximos anos.

Já na banda de cima (lado norte) se encontram os municípios de maior riqueza, com melhores índices de escolaridade e de longevidade. Os paulistas que ali habitam vivem numa região de grande prosperidade que, em muitos aspectos, lhes permite gozar de um padrão de vida semelhante ao dos países desenvolvidos. E é por essa banda norte do estado que atravessam os três mais reluzentes eixos avistados do satélite: o da Via Dutra (sobre o Vale do Paraíba), o da Anhanguera (passando por Campinas até Ribeirão Preto) e o da Rodovia Washington Luiz, (que se estende até S. José do Rio Preto).

Ciente das particularidades dessa região e de seu grande potencial econômico articulado aos negócios da capital, o governo paulista instituiu em 2008 uma nova unidade territorial denominada “macrometrópole”. Trata-se de um polígono que reúne as regiões metropolitanas de Campinas, de São José dos Campos e a Grande São Paulo. E é certamente desse importante bloco regional que deverão emergir as forças que induziram o novo desenvolvimento que o país espera experimentar nas próximas décadas. Primeiro, porque depois de anos de inanição, há um número considerável de projetos de infraestrutura que deverão impactar fortemente essa área - vale mencionar, por exemplo, a ampliação de Viracopos, que deverá se tornar o maior hub da América Latina, atendendo a 70 milhões de passageiros/ano, ou ainda a construção do Trem de Alta Velocidade, com enorme efeito multiplicador sobre a produtividade regional. Em segundo lugar, porque com o avanço da exploração do pré-sal, estima-se que além do grande impulso econômico sobre a região litorânea (de Peruíbe a Caraguatatuba), deverá haver ainda uma convergência econômica e tecnológica entre esse setor e o aeroespacial, visto que os desafios relacionados à demanda por equipamentos de acesso remoto e controle à distância são comuns a ambos. Por fim, em função dessa região contar com grande concentração de universidades e centros de pesquisa, espera-se que as exigências de inovação que necessariamente decorrerão da retomada do desenvolvimento do país farão convergir nesse polígono empreendimentos capitalistas com elevada capacidade de gerar de valor agregado, devolvendo ao estado de São Paulo o dinamismo que as últimas décadas lhe tiraram.

Artigo publicado originalmente na Revista Meio&Mensagem, edição de maio de 2012.

financeirização, pero no mucho

Nas últimas semanas, por ocasião das comemorações do 1º de maio, passaram pelo Brasil importantes intelectuais europeus que agitaram o debate a respeito do futuro do trabalho no Brasil e no mundo. Ouvir e debater com figuras como as que aqui estiveram (Guy Standing, Pierre Salama, Gérard Duménil, entre outros) é sempre uma ótima oportunidade para sair da zona de conforto e nos obrigarmos a conhecer outras possibilidades de distribuição das peças no tabuleiro. Por mais que as maravilhas online tenham encurtado as distâncias e facilitado enormemente o acesso ao conhecimento, o tete a tete continua fundamental. É também no cafezinho, nas expressões faciais, nos embates entre palestrante e plateia que se revelam as nuances, os interditos, as ênfases que complementam o pensamento e a visão de mundo de cada autor.
Entretanto, experiências como essas também revelam como o olhar do centro, na maioria das vezes, persiste enviesado, contrabandeando para a periferia esquemas de interpretação com ambições totalizantes que são permeados de preconceitos e conclusões inapropriadas.  Não raro a carapuça não nos veste.
Pois me parece que tenha sido esse o caso com as ideias que trouxe na bagagem o ilustre Pierre Salama. Importante crítico da mundialização financeira, Salama esteve no Brasil e na América Latina a fim de difundir seus estudos sobre os impactos da financeirização na vida de nossotros.
O tema da financeirização é, sem dúvida, inescapável a quem queira compreender os diversos aspectos das transformações que se processam na dinâmica de acumulação capitalista ao redor do mundo, à qual nenhuma nação pode escapar. A pressão exercida pela classe dos acionistas em um ambiente econômico global aberto, cada vez mais instável e incerto, encurta dramaticamente o horizonte temporal para os investimentos produtivos, em prejuízo da produção, do emprego e das políticas nacionais. Sob o efeito da ampliação da concorrência intercapitalista em escala global, a exploração do trabalho se intensifica e os casos de regressão social se multiplicam, sem que ninguém saiba ao certo como resistir à dieta do capital.
Salama chegou por aqui imbuído da tarefa de anunciar a nós, brasileiros, que é chegada a 25ª hora: após a crise de 2008, a financeirização estaria finalmente aterrizando em nossas paragens e com ela emerge um conjunto de obstáculos por demais complexos para serem enfrentados pelo Estado Nacional. A prova? A minguada tração macroeconômica que se revela no Brasil desde 2011. Segundo ele, estamos experimentando, com algum atraso, a mesma hipertrofia dos acionistas que há algum tempo empurra a Europa e outras nações desenvolvidas para a estagnação.
Será?
Será que uma suposta mudança de comportamento dos acionistas ou dos CEOs das empresas que atuam no Brasil poderia ser a causa de nosso baixo dinamismo? Não caberia antes perguntar se alguma vez na história do Brasil nosso desenvolvimento esteve associado ao “animal spirit” da classe capitalista? Aliás, rigorosamente, é possível encontrar uma classe capitalista em nosso país?
Até onde sei, o capitalismo brasileiro prescindiu - não por gosto, mas por precisão - do “burguês empreendedor” e foi sempre um artifício gestado e embalado a duras penas pelo Estado Nacional. Assim, não parece muito razoável invocar a perda do que nunca tivemos como fator explicativo dos nossas atuais dificuldades econômicas.
Em realidade, a mediocridade de nossas taxas de investimento e de crescimento do PIB resulta, antes de tudo, de problemas muito mais concretos e evidentes: a manutenção de uma taxa de câmbio valorizada e de uma taxa de juros proibitiva que, em um só tempo, deprime o consumo, inviabiliza o investimento e diminui a envergadura da ação fiscal.
É certo que em defesa dos argumentos de Salama, alguém poderá dizer que esse arranjo macroeconômico que sabota o desenvolvimento brasileiro atual decorre, em última instância, da pressão política exercida pela classe rentista sobre o governo de plantão. É verdade, sem dúvida a causa é essa, mas isso não pode ser interpretado como “financeirização”, nem como uma proeminência do mercado de capitais sobre as outras formas de financiamento da acumulação capitalista. Para bem ou para mal, talvez estejamos ainda em uma etapa anterior do desenvolvimento.
As contradições e disfuncionalidades de nossa macroeconomia são, essencialmente, expressões de um arranjo político cujo centro de gravidade é ainda o patrimonialismo, sustentado sem cerimônia por uma elite econômica que sempre teve grande aversão ao risco capitalista e não abre mão dos ganhos fáceis obtidos por meio de instrumentos jurídicos lastreados em receitas fiscais (títulos da dívida pública; contratos de concessão; contratos de fornecimento e prestação de serviços ao setor público).
A financeirização, portanto, é ainda um aspecto marginal em nosso problemático desenvolvimento, útil para explicar diversas inovações gerenciais que afetam negativamente as relações de trabalho, mas que não se traduz - pelo menos por ora - em causa fundamental de nossa perda de dinamismo.
Muito pelo contrário, o Brasil talvez seja um contraexemplo que deveria servir de inspiração para aqueles que se assustam com o apagamento do Estado Nacional. Na contramão de boa parte do mundo desenvolvido, temos conseguido manejar as políticas públicas com razoável soberania e, só não o fazemos melhor, por conta do arcaísmo da política doméstica, muito mais próxima do Brasil colônia do que das impessoais finanças internacionais do século 21.
Em tempo: nos dias que vão, é sempre prudente guardar alguma distância dos argumentos por demais internacionalistas. É com eles que a extrema esquerda costuma confraternizar com o ultraliberalismo econômico, em prejuízo dos projetos nacionais.

Este artigo foi publicado originalmente no site da Fundação Perseu Abramo, em 19/05/2014
http://novo.fpabramo.org.br/content/financeirizacao-pero-no-mucho

18.8.13

Brisa Certa

Na medida em que vai decantando o processo de catarse social que ganhou as ruas do país em junho passado, restam alguns espasmos de indignação expressos na síntese radical da tática Black Bloc.
Afinal, quem são esses caras?
Analistas de variadas cepas se esforçam para encaixar “os caras” em seus esquemas de interpretação do mundo, frequentemente reservando a eles o recanto das ovelhas negras.
Não parece mesmo fácil decifrar essa moçada que, desde logo, não se considera sequer como um grupo homogêneo ou um ‘movimento’, mas tão somente uma tática efêmera, uma combustão espontânea do tal ‘sentimento difuso de indignação’.
Pois bem, apesar de muito já ter sido dito a respeito, arrisco um tanto mais.
Tomemos emprestado o veio aberto pelo Prof. Belluzzo em artigo recente na Carta Capital(24/06). O dito sentimento de indignação resultaria em última instância de nossa condição de “condenados à liberdade”. Desde que em algum momento da história remota fomos fisgados pelo ideal da transcendência libertária, lutamos e nos acotovelamos obcecados pela miragem da autodeterminação do indivíduo, a mãe das utopias.
Se assim for – e acredito que seja – estamos também condenados a rechaçar toda e qualquer interpretação de nossa realidade que carregue algum traço normativo. Tal como um adolescente frente à autoridade, vivemos uma cruzada secular de rejeição a enredos que de alguma forma resultem na pré-determinação de nossos atos. E é esse precisamente o ethos que caracteriza a esquerda: a crítica radical e a negação das certezas.
Pois é nesse tênue e fugidio veio que navega a intuição dos Black Blocs. Filhos de uma época em que as grandes narrativas já não afloram, de uma cultura que não tem mais tempo, de uma experiência hedonista e utilitária, essa galera prima pelo uso de atalhos e tem pressa de chegar ao cerne: os bancos, os símbolos do alto consumo, a polícia, a mídia, as instituições obstruídas pela norma e pela demagogia.
Claro que não lhes faltam acusações. Dizem alguns que são anarquistas, outros que são fascistas, filhos de uma classe média sem norte, narcisos em busca de sentido, ou apenas consumidores frustrados.
Não creio. Se bem observarmos, nas manifestações desses hereges de nossa época as bandeiras são todas “brisas certas”, como usam dizer. Apontam suas câmeras e marretas aos nódulos desse sistema que tudo devora. E surpreendentemente, ao contrário dos tais coxinhas ou de udenistas de esquerda que, de verde e amarelo, se misturam aos chamamentos da rede Globo, a turba de encapuzados do Black Bloc, caótica ou acéfala, não se voltou contra as instituições que efetivamente representam conquistas sociais, nem tampouco se opuseram aos partidos e governos que enxergam como aliados no processo de transcendência libertária.
Sem postulados, destituídos de normas e cartilhas, não incorrem no erro fratricida que desde sempre fez das facções de esquerda os maiores inimigos das facções de esquerda.
Crítica em estado puro, livre de pretensões iluministas ou teleológicas, a tática Black Bloc é apenas e tão somente esquerda.

Outros artigos interessantes sobre o assunto:
- Vandalismos (Pedro Serrano)
- Black Bloc é a resposta à violência policial (André Takahashi)

29.6.13

mais uma vez, ainda, pelo começo

(esclarecimento necessário: este texto é um auto-plágio de um artigo que publiquei em março de 2004 na revista Caros Amigos. Fiz apenas alguns ajustes pontuais, atualizando as datas e alguns fatos. Infelizmente, tantos anos se passaram e o tema volta a fazer sentido)

Duas ou três semanas de asfalto e vinagre foram suficientes para azedar o sabor de prosperidade econômica que há quase dez anos embalava os brasileiros, o governo e o PT.

Porém, muito mais grave do que as fraturas políticas que a crise traz à tona é que um eventual fracasso do atual governo significará muito mais do que o tropeço de um partido ou de um programa político econômico. Não afetará somente nossa vida daqui por diante, mas marcará drasticamente a nossa vida pretérita, nossos tantos anos de construção de uma alternativa para este país.

Como muitas vezes nos ensina a história, o sentido das coisas, o rumo dos processos sociais e políticos são definidos de frente para trás – de hoje para ontem. São os eventos do presente que magicamente dão sentido às trajetórias e escolhas do passado e essas, por sua vez, só podem ser plenamente compreendidas a partir do seu desfecho. Sem ele, não seriam mais do que eventos fortuitos, largados ao acaso, ao lado de tantos mais.

É como quando damos o primeiro beijo na namorada. Resgatando na memória, identificamos naquela festa da escola, ou naquele olhar no retrovisor, um encanto que só poderia desaguar no grande amor de hoje. Ou também no futebol, quando tabelamos desde o nosso campo de defesa numa triangulação predestinada a encher a rede, num belíssimo gol de placa. Mas, quantos foram as tabelinhas desperdiçadas pelo centroavante fominha? E quantos olhares em quantos retrovisores não passaram de olhares nos retrovisores?

Para que nossa arte, nossa labuta, faça algum sentido, é imprescindível que de algum jeito consigamos conectar o presente a nossas ambições de ontem. Se não para construir o futuro - como gostamos de acreditar - talvez para amalgamar o passado. 

Pois é com isso que o governo atual e a Presidente Dilma estão lidando. Tenhamos participado mais ou menos ativamente da política nos últimos 30 anos, temos que reconhecer que o PT foi o portador da caneta que parecia predestinada a ligar os pontos de nossa história. Os chumbos da ditadura, a luta pelas Diretas-Já, os desenhos do Henfil, a Constituinte do Dr Ulisses, o Lula-lá, o impeachement do Collor, o sufoco do FHC,... todo esse amontoado de vida só comporá um roteiro inteligível se, ao fim, formos capazes de desaguar em algum mar. Aquele leito caudaloso, expressão talvez das duras escarpas que nos acompanharam ao longo do tempo, não deveria terminar assim, absorvido pela areia da costa, empapuçando um mangue que parece infinito.

Sem um mar, não haverá rio, nem córregos, nem nascentes. 

10.10.12

manifesto em defesa da civilização*


Vivemos hoje um período de profunda regressão social nos países ditos desenvolvidos. A crise atual apenas explicita a regressão e a torna mais dramática. Os exemplos multiplicam-se. Em Madri uma jovem de 33 anos, outrora funcionária dos Correios, vasculha o lixo colocado do lado de fora de um supermercado. Também em Girona, na Espanha, diante do mesmo problema a Prefeitura mandou colocar cadeados nas latas de lixo. O objetivo alegado é preservar a saúde das pessoas. Em Atenas, na movimentada Praça Syntagma situada em frente ao Parlamento, Dimitris Christoulas, químico aposentado de 77 anos, atira contra a própria cabeça numa manhã de quarta-feira. Na nota de suicídio ele afirma ser essa a única solução digna possível frente a um Governo que aniquilou todas as chances de uma sobrevivência civilizada. Depois de anos de precários trabalhos temporários o italiano Angelo di Carlo, de 54 anos, ateou fogo a si próprio dentro de um carro estacionado em frente à sede de um órgão público de Bologna.

Em toda zona do euro cresce a prática medieval de anonimamente abandonar bebês dentro de caixas nas portas de hospitais e igrejas. A Inglaterra de Lord Beveridge, um dos inspiradores do Welfare State, vem cortando recorrentemente alguns serviços especializados para idosos e doentes terminais. Cortes substantivos no valor das aposentadorias e pensões constituem uma realidade cada vez mais presente para muitos integrantes da chamada comunidade europeia. Por toda a Europa, museus, teatros, bibliotecas e universidades públicas sofrem cortes sistemáticos em seus orçamentos. Em muitas empresas e órgãos públicos é cada vez mais comum a prática de trabalhar sem receber. Ainda oficialmente empregado é possível, ao menos, manter a esperança de um dia ter seus vencimentos efetivamente pagos. Em pior situação está o desempregado. Grande parte deles são jovens altamente qualificados.

A massa crescente de excluídos não é um fenômeno apenas europeu. O mesmo acontece nos EUA. Ali, mais do que em outros países, a taxa de desemprego tomada isoladamente não sintetiza mais a real situação do mercado de trabalho. A grande maioria daqueles que hoje estão empregados ocupam postos de trabalhos precários e em tempo parcial concentrados no setor de serviços. Grande parte dos postos mais qualificados e de melhor remuneração da indústria de transformação foi destruída pela concorrência chinesa.

Nesse cenário, a classe média vai sendo espremida, a mobilidade social é para baixo e o mercado de trabalho vai ficando cada vez mais polarizado no país das oportunidades. No extremo superior, pouquíssimos executivos bem remunerados que têm sua renda diretamente atrelada ao mercado financeiro. No extremo inferior, uma massa de serviçais pessoais mal pagos sem nenhuma segurança, que vivem uma realidade não muito diferente dos mais de 100 milhões que recebem algum tipo de assistência direta do Estado. O Welfare State, ao invés de se espalhar pelo planeta, encampando as tradicionais hordas de excluídos, encolhe, aumentando a quantidade de deserdados.

Muitos dirão que essa situação será revertida com a suposta volta do crescimento econômico e a retomada do investimento na indústria de transformação nestes países. Não é verdade. É preciso aceitar rapidamente o seguinte fato: no capitalismo, o inexorável progresso tecnológico torna o trabalho redundante. O exponencial aumento da produtividade e da produção industrial é acompanhado pela constante redução da necessidade de trabalhadores diretos. Uma vez excluídos, reincorporam-se – aqueles que o conseguem – como serviçais baratos dentro de um circuito de renda comandado pelos detentores da maior parcela da riqueza disponível. Por isso mesmo, a crescente desigualdade de renda é funcional para explicar a dinâmica desse mercado de trabalho polarizado.

Diante desse quadro, uma pergunta torna-se inevitável: estamos nós, hoje, vivendo uma crise que nega os princípios fundamentais que regem a vida civilizada e democrática? E se isso for verdade: quanto tempo mais a humanidade suportará tamanha regressão?

A angústia torna-se ainda maior quando constatamos que as possibilidades de conforto material para a grande maioria da população deste planeta são reais. É preciso agradecer ao capitalismo, e ao seu desatinado desenvolvimento, pela exuberância de riqueza gerada. Ele proporcionou ao homem o domínio da natureza e uma espantosa capacidade de produzir em larga escala os bens essenciais para as satisfações das necessidades humanas imediatas. Diante dessa riqueza, é difícil encontrar razões para explicar a escassez de comida, de transporte, de saúde, de moradia, de segurança contra a velhice, etc. Numa expressão, escassez de bem estar!

Um bem estar que marcou os conhecidos “anos dourados” do capitalismo. A dolorosa experiência de duas grandes guerras e da depressão pós 1929, nos ensinou que deveríamos limitar e controlar as livres forças do mercado. Os grilhões colocados pela sociedade na economia explicam quase 30 anos de pleno emprego, aumento de salários e lucros e, principalmente, a consolidação e a expansão do chamado Estado de Bem Estar Social. Os direitos garantidos pelo Estado não deveriam ser apenas individuais, mas também coletivos. Vale dizer: sociais. Dessa maneira, ao mesmo tempo em que o direito à saúde, à previdência, à habitação, à assistência, à educação e ao trabalho eram universalizados, milhares de empregos públicos de médicos, enfermeiras, professores e tantos outros eram criados.

O Welfare State não pode ser interpretado como uma mera reforma do capitalismo, mas sim como uma grande transformação econômica, social e política. Ele é, nesse sentido, revolucionário. Não foi um presente de governos ou empresas, mas a consequência de potentes lutas sociais que conseguiram negociar a repartição da riqueza. Isso fica sintetizado na emergência de um Estado que institucionalizou a ética da solidariedade. O individuo cedeu lugar ao cidadão portador de direitos. No entanto, as gerações que cresceram sob o manto generoso da proteção social e do pleno emprego acabaram por naturalizar tais conquistas. As novas e prósperas classes médias esqueceram que seus pais e avós lutaram e morreram por isso. Um esquecimento que custa e custará muito caro às gerações atuais e futuras. Caminhamos para um Estado de Mal Estar Social!

Essa regressão social começou quando começamos a libertar a economia dos limites impostos pela sociedade, já no início dos anos 70. Sob o ideário liberal dos mercados, em nome da eficiência e da competição, a ética da solidariedade foi substituída pela ética da concorrência ou do desempenho. É o seu desempenho individual no mercado que define sua posição na sociedade: vencedor ou perdedor. Ainda que a grande maioria das pessoas seja perdedora e não concorra em condições de igualdade, não existem outras classificações possíveis. Não por acaso o principal slogan do movimento Occupy Wall Street é “somos os 99%”. Não por acaso, grande parte da população espanhola está indignada.

Mesmo em um país como o Brasil, a despeito dos importantes avanços econômicos e sociais recentes, a outrora chamada “dívida social” ainda é enorme e se expressa na precariedade que assola todos os níveis da vida nacional. Não se pode ignorar que esses caminhos tomados nos países centrais terão impactos sob essa jovem democracia que busca, ainda, universalizar os direitos de cidadania estabelecidos nos meados do século passado nas nações desenvolvidas.

Como então acreditar que precisamos escolher entre o caos e austeridade fiscal dos Estados, se essa austeridade é o próprio caos? Como aceitar que grande parte da carga tributária seja diretamente direcionada para as mãos do 1% detentor de carteiras de títulos financeiros? Por que a posse de tais papéis que representam direitos à apropriação da renda e da riqueza gerada pela totalidade da sociedade ganham preeminência diante das necessidades da vida dos cidadãos? Por que os homens do século XXI submetem aos ditames do ganho financeiro estéril o direito ao conforto, à educação e à cultura?

As respostas para tais questões não serão encontradas nos meios de comunicação de massa. Os espaços de informação e de formação da consciência política e coletiva foram ocupados por aparatos comprometidos com a força dos mais fortes e controlado pela hegemonia das banalidades. É mais importante perguntar o que o sujeito comeu no café da manhã do que promover reflexões sobre os rumos da humanidade.

A civilização precisa ser defendida! As promessas da modernidade ainda não foram entregues. A autonomia do indivíduo significa a liberdade de se auto-realizar. Algo impensável para o homem que precisa preocupar-se cotidianamente com sua sobrevivência física e material. Isso implica numa selvageria que deveria ficar restrita, por exemplo, a uma alcateia de lobos ferozes. Ao longo dos últimos de 200 anos de história do capitalismo, o homem controlou a natureza e criou um nível de riqueza capaz de garantir a sobrevivência e o bem estar de toda a população do planeta. Isso não pode ficar restrito para uma ínfima parte. Mesmo porque, o bem estar de um só é possível quando os demais à sua volta encontram-se na mesma situação. Caso contrário, a reação é inevitável, violenta e incontrolável. A liberdade só é possível com igualdade e respeito ao outro. É preciso colocar novamente em movimento as engrenagens da civilização.

*este manifesto é uma iniciativa de um grupo de professores e pensadores do campo das ciências humanas.


4.9.12

vestibular: o rabo que abana o cachorro

No post anterior, tratei da polêmica em torno das cotas de 50% nas universidades federais e defendi que, ao contrário do que muitos têm dito, não considero que sejam um fator de redução da qualidade, nem que seja o fim da meritocracia.

Mas o que me traz de volta ao assunto, foram alguns comentários de leitores indignados - principalmente no Facebook - que contra-argumentaram com a tese de que, se o governo quer aumentar as chances de ingresso no Ensino Superior daqueles que vieram de escolas públicas, o correto seria investir pesadamente na Educação Básica, para que daqui a alguns anos, os alunos da rede pública possam disputar em condições de igualdade as vagas do ensino superior.

Perfeito. Sou absolutamente a favor de que se faça um grande investimento na Educação Básica. 10% do PIB já!

Porém, não vejo porque tratar as duas questões como excludentes - até porque para as gerações que já passaram ou estão hoje na rede pública não há como recuperar essa lacuna em sua formação.

A questão que me parece efetivamente relevante em toda essa discussão é o mito do vestibular, que vai se tornando mais uma jabuticaba de nossa pátria.

Sob o mantra da meritocracia, inventamos um funil educacional que, concebido para aferir a qualidade pedagógica do ensino médio, está reduzindo o ensino médio a clínicas de adestramento de adolescentes. Ou seja, perversamente, o meio se tornou fim: o vestibular ganhou tanta importância em nosso sistema de ensino que terminou esvaziando os projetos pedagógicos das escolas, substituindo livros por apostilas, professores por animadores de auditório, sábados por simulados.

Não sei se todos têm consciência do que falo. Eu mesmo, me dei conta do problema há pouco tempo.
Como sou pai de um adolescente, sai em peregrinação atrás de uma boa escola, preparado para conversar com coordenadoras pedagógicas ou diretoras que me contassem um pouco do projeto de cada qual.

Quebrei a cara! As ditas "boas escolas" funcionam hoje em prédios que se parecem com agências bancárias. No lugar da velha diretora, que apoiava os óculos de leitura sobre os peitos, quem me recebe é uma 'Juliana Paes' de lábios doces, que me apresenta os folder's e me disponibiliza uma senha para que eu possa consultar o material pedagógico no site.

E fui a outra. Mais outra. Com pequenas variações de logotipo, de batom, senhas e softwares, as escolas já não fazem outra coisa que não seja preparar para o vestibular.

Claro que existem exceções. Poucas. Raríssimas. Algumas ligadas a ordens religiosas, outras vinculadas a culturas estrangeiras, os bons e velhos colégios técnicos e as caríssimas, que em São Paulo chegam a cobrar de 5 a 10 salários mínimos por mês e oferecem para o seu filho o melhor que o mundo burgues pode-se comprar.

O resto,... o vestibular moeu!


1.9.12

cotas e meritocracia: tudo a ver

Não estou entre aqueles que se entusiasma com o discurso da meritocracia como critério exclusivo para a inclusão no ensino superior. Por duas razões, que me parecem óbvias:

1º) Por princípio ético: não acho que direitos fundamentais devam ser acessados por mérito. E, universidade, nos dias de hoje, não é mais uma questão de formação de quadros, nem apenas de preparação de uma elite dirigente, mas sim de garantia de acesso à vida digna. Se ao longo do século 20 nas sociedades avançadas foi possível universalizar a Educação Básica, no século XXI me parece possível e desejável que seja universalizada a Educação Superior.

2º) Falar de meritocracia pressupõe igualdade de oportunidades. Como ainda estamos anos-luz desse idílico mundo da abstração liberal, me parece fundamental e democrático que aqueles que nasceram e cresceram em condições desfavoráveis (famílias pobres, precárias condições de vida, acesso a escolas de baixa qualidade, etc) devem ter, sim, um benefício extra nas provas que dão acesso à universidade pública.

Dito isso, me disponho a dar de barato o argumento "meritocrático". Tudo bem, vamos aceitar a tese de que nas universidades públicas devem estar as melhores cabeças do país. Mas, então, como escolher as melhores cabeças?

Com uma prova - ou uma bateria delas - é possível selecionar os melhores ou os mais bem preparados?

Um aluno que estudou 12 anos numa escola pública com enormes deficiências, cujos pais não estudaram, portanto, não teve contato cotidiano com os temas da "sociedade letrada" e tira nota 6 numa prova de seleção é melhor ou pior do que um aluno que alcança nota 8, mas que estudou numa escola privada de elite, foi velejar na Escandinávia, vive num ambiente "culto", almoça, janta e come barrinhas de cereais entre uma aula de inglês e outra de judô? Quem desses dois é mais capaz? Qual deles é mais inteligente? Quem tem mais mérito? De quem a sociedade pode esperar o melhor quadro?

Eu, que sou professor universitário em uma faculdade privada, e que, graças ao Prouni, dou aulas para os dois extremos, estou convicto de que os alunos que superaram grandes adversidades e conseguiram se destacar no frágil sistema público de ensino de nosso país são aqueles que têm melhor desempenho, sobre os quais o "efeito acelerador" do ensino superior é mais evidente.

Além disso, é bom lembrar que estes heróis da sobrevivência, exemplos trágicos do darwinismo social, são muito mais numerosos do que os relativamente escassos bons alunos das escolas de elite e, portanto, suas presenças nas universidades públicas devem funcionar como um aditivo à dinâmica indolente que se esparrama pelas salas de aula do ensino superior atualmente.

Portanto, se é a bandeira da meritocracia que levantam aqueles que se opõe à política de cotas sociais nas universidades, é em nome da mesma bandeira (da qual já manifeste minha discordância) que eu defendo as cotas. Lamentavelmente, porém, justamente no estado mais rico do país, com as melhores condições de universalizar a educação e o conhecimento, os seguidos governos conservadores do PSDB vêm se opondo a aceitar as cotas em suas universidades, criando expediente diversionistas, desconsiderando as notas do ENEM, motivados pelo mesquinho interesse partidário (de não reconhecer mérito na política federal) e pelo ranço preconceituoso de uma elite que, sejamos francos, se enoja das classes subalternas.

Mérito neles! Que venham as cotas.

28.8.12

Esquerda para boi dormir

A competente Rose Guglielminetti tratou em seu blog (leia aqui) de um suposto acirramento da tensão entre o PT e o PSB em torno da questão do uso da imagem da Dilma. Segundo a blogueria, poderia ser um indicativo da antecipação do clima que deverá se instaurar na eleição presidencial de 2014. E ela deva ter razão.

Entretanto, em seu comentário, a Rose nos conta também que "alguns militantes de esquerda ligados a Jonas" criticam a postura do PT em relação a seus aliados. 

Mas aí eu fico me perguntando: "militantes de esquerda ligados ao Jonas"? Quem serão eles? Onde estarão escondidos? 

É bom lembrar que o Jonas tem seus quatro costados de direita. 

Durante muitos anos o Jonas foi do PSDB de Campinas e só saiu da legenda porque a fila de candidatos a prefeito no PSDB era grande e ele estava na rabeira. Além disso, depois dos sucessivos fracassos do Carlão Sampaio, a rejeição ao PSDB na cidade cresceu muito, de tal forma que o insistente deputado Jonas foi trocando de carapuça e hoje, apesar do vice tucanaço, se apresenta como homem de um partido que carrega o socialismo no nome e que faz parte da base do governo Dilma no congresso.
Só que até as andorinhas das calçadas campineiras sabem bem que o PSB da cidade pode ser tudo, menos de esquerda. Há muitos anos se reduziu a uma legenda ônibus, que serve de meio de condução para políticos que, por qualquer razão, estão sem espaço para trafegar em seus partidos de origem.

Mas então, se os "militantes de esquerda" não estão no PSB, onde mais estariam? Alguém certamente haverá de me lembrar que devem estar no PCdoB. Será? 

Eu até que respeito o PCdoB, restam ainda algumas lideranças nacionais importantes e, em Campinas, tenho vários amigos no partido. Porém, sejamos francos, é possível chamá-los de esquerda? Faz algum sentido dizer que é de esquerda um partido que se alia a uma coligação inventada pelo Sr. Alckmin? Pensemos com serenidade. O governador de São Paulo, chegado na Opus Day, arauto das privatizações, negação in corpore da política e autor da tragédia de Pinheirinho não estaria muito mais bem caracterizado como um homem da ultra-direita? Suspeito que se vivesse nos EUA, muito provavelmente estamparia seu carisma de chuchu nas fileiras infames do Tea Party ou até na odiosa Ku-Klux-Klan. 

Como aceitar então a ideia estapafúrdia de que há vida inteligente à esquerda de Alckmin? Na melhor das hipóteses, seus pares são profissionais da política que se movem de acordo com seus cálculos particulares e suas estratégias de micropoder. O resto é conversa para boi dormir.

E alguém ainda há de dizer: e o PPS?

20.8.12

Diga-me com quem andas...

A cidade de Campinas, assim como outras tantas do Brasil, viu avançar nos últimos anos os lançamentos imobiliários destinados a todos os públicos e gostos. Embalados pelos incentivos fiscais concedidos pelo governo federal para estimular a construção civil - e incorporar milhões de trabalhadores ao mercado de trabalho - e pela maior oferta de crédito, construtoras e incorporadoras saíram à caça de boas oportunidades de fazer dinheiro.

Caberia a cada município definir as diretrizes urbanas, regular as áreas de expansão e investir na infraestrutura necessária para que esse bem facejo dinamismo do ramo imobiliário resultasse num processo virtuoso de melhoria das condições gerais de vida da população. Contudo, lamentavelmente, em muitas cidades falou mais alto o interesse dos negócios imobiliários. Em conluio com autoridades municipais, conseguiram aprovar a toque de caixa empreendimentos de alta rentabilidade, passando por cima de normas ambientais, dos planos diretores e das boas práticas de planejamento que deveriam orientar a expansão das cidades.

E foi esse o caso de Campinas, como ficamos sabendo à medida em que assessores e a própria esposa do ex-prefeito Dr. Hélio foram denunciados pelo Ministério Público, acusados de receber vantagens em troca da facilitação a projetos imobiliários. Foi um trauma para a cidade que pouco antes havia dado grande voto de confiança ao então prefeito, reelegendo-o com quase 70% dos votos em 2008. Como consequência, Campinas mergulhou numa crise política profunda, que paralisou a gestão e culminou com a cassação do prefeito e se vice e com a eleição indireta do então presidente da Câmara, o vereador Pedro Serafim.

Passados menos de seis meses, entretanto, o cidadão campineiro assiste a um novo lance inusitado desta relação promíscua entre o chefe do executivo municipal e os negócios do setor imobiliário. Como revela uma ampla reportagem publicada no jornal Valor Econômico de hoje (leia aqui), desde que assumiu em abril de 2012, a gestão de Serafim tem se notabilizado, de um lado, por "destravar" projetos viários que fazem a alegria de grandes empreendedores imobiliários e, de outro, por usar sua base na Câmara para "frear a tramitação do projeto de zoneamento urbano da cidade" (Valor Econômico, p. A10, 20/08/2012).

É mais um capítulo da tragédia política que atinge a cidade há décadas. Torço para que seja o último.



19.8.12

Sopro na veia

Porque é domingo, o sol tá sangrando o pasto, o frango tá no tacho, é hora de sopro na veia: Brassroots!!!



Brassroots by Brassroots on Grooveshark

Gemini Rising by Brassroots on Grooveshark

18.8.12

Porque Pochmann é favorito em Campinas

Há grande ansiedade entre aqueles que vivem mais antenados ao mundo político quanto à atual letargia do processo eleitoral. Faltando 50 dias para o primeiro turno, as cidades parecem ainda não ter despertado para a disputa. Fora um ou outro cavalete mal ajambrado nas ruas ou um carro de som estridente, a eleição teima em não pegar.

Em Campinas, onde acompanho mais de perto, a situação não parece diferente. À parte meia dúzia de celerados que esgrimam a retórica na internet e nos botecos, aqui também a indiferença e incerteza é que dão o tom.

Contudo, como bem analisa o cientista político Antônio Lavareda (veja matéria do Valor aqui), o cenário deve mudar radicalmente com o Horário Eleitoral Gratuito, que começa neste dia 21 de agosto. Analisando eleições municipais de anos anteriores, Lavareda ressalta o fato de que, ao contrário do que ocorre nas eleições para governador ou para presidente, nas eleições municipais a propaganda de TV tem um impacto muito maior, chagando a entregar 9 pontos por semana para candidatos iniciantes que disputaram as eleições de 2008. Por ser realizada "solteira" (diferente das outras), a eleição para prefeito reserva um tempo de TV e rádio muito mais extenso aos candidatos e um número muito superior de inserções diárias (os tais "spots"),  produzindo frequentemente reviravoltas inesperadas num curto espaço de tempo. Além disso, eu acrescentaria que, diferentemente do que acontece na disputa para governador ou presidente, na eleição para prefeito as surpresas são maiores também porque, com frequência, o pleito é disputado por candidatos que partem de condições muito desiguais. É principalmente nas cidades que os novatos iniciam sua trajetória política e, portanto, os candidatos que carregam "recall" de eleições anteriores, ao mesmo tempo em que partem de uma situação aparentemente confortável (são os únicos que são conhecidos dos eleitores), ficam expostos ao "efeito novidade", sem ter tempo suficiente para esgrimar com o adversário em ascensão.

Pois, em Campinas vivemos exatamente uma situação como essa. De um lado, dois candidatos tradicionais, vinculados a grupos políticos que parasitam a política local há décadas e, de outro, o candidato do PT, Márcio Pochmann, ainda desconhecido da grande maioria da população, mas que tem uma trajetória claramente diferente de seus principais concorrentes, com uma biografia notável, com passagens relevantes no mundo acadêmico e na gestão federal.

Mas, será que tudo isso basta para considerar a candidatura do Márcio como favorita?

Eu diria que sim, se levarmos em conta um outro importante aspecto que caracteriza o atual pleito em Campinas. Por conta de décadas de gestões marcadas por crises e turbulências, o cidadão campineiro, mais do que em outras cidades do país, manifesta um claro desejo de mudança na política local e, mais do que nunca, pretende votar em alguém que seja capaz de trazer sangue novo à esfera municipal e compromisso com a coisa pública. E, conforme apontam os oráculos das "qualis" (pesquisas qualitativas que são feitas com diferentes grupos sociais para avaliar um candidato ou uma situação), o eleitor campineiro deseja votar na eleição do dia sete de outubro em alguém que tenha exatamente o perfil do candidato do PT. A questão é que, até o presente momento, o eleitor não o conhece e, portanto, não teve a oportunidade de vincular as qualidades que espera de um candidato à pessoa Márcio Pochmann.

A partir desta semana, porém, esse vínculo começará a se estabelecer e, tenho certeza, será a fagulha necessária para alçar a candidatura Márcio Pochmann à vitória.

16.8.12

De volta à lida

Passei seis meses longe deste blog, mas a tese de doutorado não se moveu. Concluo que não eram os atrativos da blogosfera que me impediam a deslanchar.

Portanto, volto à lida, até porque estou empenhado na campanha a prefeito na minha cidade, trabalhando para a eleição do Márcio PochmannE, como deve saber o leitor, em tempos de eleição é muito difícil resistir ao papiamento sem fim que fervilha no mundo virtual.


Para esquentar os motores e tirar o atraso, começo com um convite para que assistam nesta sexta, dia 17 de agosto, às 19hs, um debate na TV POCHMANN, sobre o tema da "Democratização da Cultura e da Comunicação", com a participação de Emir Sader e do próprio Márcio Pochmann.