26.11.10

a saga da macacada triste que não gostava de banana

A fábula que segue é parte do esforço para responder à pergunta safada ("o governo espera o que para baixar a taxa de juros?") de um internauta inconsequente, que, contudo, serviu para que eu tomasse ciência do quanto sou jejuno na dita ciência econômica.


Cap I) Vivia feliz da vida um grupo de 12 macacos numa arejada jaula de um zoológico;


Cap II) Um dia, cientistas colocaram uma parruda penca de bananas no centro da jaula


Cap III) Sem pestanejar, o mais afoito dos macacos correu para pegar uma daquelas doces bananas que lhe provocavam as papilas;


Cap IV) Assim que o macaco proativo triscou na penca de banana, uma ducha de água gelada deu um banho em todos os macacos;


Cap V) Como macaco - e cientistas - são animais teimosos, a experiência se repetiu por vários dias - banana, saliva, ducha fria na macacada; banana, saliva, ducha fria, ....


Cap VI) Semanas depois, já bastante gripados, os mais macacos velhos resolveram agir para evitar os repetidos banhos gelados. Ao notarem que um dos proativos pretendia pegar banana, deram-lhe uma surra inesquecível.


Cap VII) A surra foi forte e precisou ser repetida ainda por diversas vezes - como disse, são animais teimosos - até que todos tivessem ciência absoluta da regra do jogo: comer banana dava resfriado.


Cap VIII) Essa geração de macacos viveu o resto de seus dias em absoluta abstinência de banana. Comiam Kiwi, frutas vermelhas, romãs, mas jamais desejaram as bananas que, invariavelmente, lhes eram oferecidas reluzentes pelos cientistas;


Cap IX) Cientistas e macacos envelheceram, dando lugar a novos macaquinhos de segunda, terceira, quarta geração, até que chegou-se a uma época em que não havia mais macaco velho na jaula.


CapX) Nessa época, portanto, nenhum dos macacos que habitava a jaula tinha presenciado o episódio da penca de bananas, dos jatos de água gelada, da surra e dos resfriados. Apesar disso, sem saber a exata razão, a nova geração de macacos jamais ousava triscar no cheiroso cacho de banana que luzia no meio da jaula. E se algum ousasse, tomava ripa.


Cap XI) A nova geração de cientistas também manteve a tradição, e sem saber exatamente o porquê, colocava dioturnamente a penca de bananas na jaula.


EPILOGO: Assim viveram, tristes e resignados pelo resto dos tempos...


PARA O LAR: 
Substitua as personagens: 
- sai macaco, entra brasileiro; 
- sai banana, entra taxa de juros;
- sai cientista sádico; entra economista cínico. 
Discorra sobre outras experiências desse tipo que você porventura conheça. 
BIBLIOGRAFIA BÁSICA: 
- elucidativo post de Luis Nassif, clique aqui, sobre os amigos da inflação;
- leia também o post anterior neste mesmo blog; 
BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR: Sobre a relação banana-economia, sugiro o excelente artigo dos professores Luiz Belluzzo e Ricardo Carneiro no link que segue http://bit.ly/ghKyOG

uma pergunta sádica

Um amigo de tuiter, por puro sadismo, me pergunta por que o governo simplesmente não abaixa os juros. É!... Por que?

Mui amigo o tal Marcos.

Vamos por partes.

1) A taxa que remunera os títulos da dívida pública - conhecida como taxa de juros selic - é um preço fundamental da economia, pois indica ao mercado (investidores) quanto se pode ganhar sem fazer nada (comprando títulos públicos). Portanto, é um piso para as demais possibilidades de aplicação do capital. Se fôssemos racionais, só colocaríamos nossos dinheirinhos em atividades cuja expectativa de rendimento fossem iguais a "selic + x", sendo que "x" deverá ao menos cobrir o risco estimado para aquela aplicação.

2) Quem define a taxa Selic no Brasil é o COPOM (um comitê formado pelos presidente e diretores do Banco Central), em reuniões periódicas (hoje a cada 45 dias) - rezam os bons costumes que é prudente nomear para as diretorias do Banco Central economistas talentosos com vertiginosas passagens pelo sistema financeiro (grandes bancos, corretoras, FMI).

3) Em tese, o BC maneja a Selic para ativar/desativar a economia. Por um lado, se baixar a Selic, estará reduzindo o custo de oportunidade para outras aplicações, isto é, dirá ao mercado que vale a pena investir em um tanto de modalidades que antes eram consideradas pouco rentáveis ante o dinheiro fácil que ganhavam com os títulos públicos. Com isso fará aumentar a produção, o emprego, a renda e, no limite, os preços.

Por outro lado, quando eleva a Selic, o governo sinaliza ao mercado para sair de outros investimentos e ampliar a compra de títulos públicos - o que, portanto, reduzirá a atividade econômica e, consequentemente, diminuirá a pressão sobre os preços (inflação), além de diminuir a produção, os empregos e a renda.

4) Ora, na teoria econômica ensinada em Atlantis, todos são treinados para construir e interpretar modelos abstratos que procuram mostrar qual o potencial de crescimento econômico que uma determinada economia suporta. Ou seja, quanto dá pra crescer sem que isso implique no surgimento de gargalos que, no limite, farão subir os preços e despertar a inflação.

5) Acrescente-se a essa "ciência" um outro elemento importante: os agentes econômicos, além de racionais, são capazes de aprender com os sucessivos erros dos governos e, portanto, são dotados do que se chama de "expectativas adaptativas". Noutras palavras, o mercado tende a corrigir os excessos cometidos pelas autoridades econômicas, se antecipando e anulando os efeitos de sua mão pesada. Exemplo: o governo reduz os juros de forma exagerada, fazendo a economia crescer para além de sua "potencialidade natural" e, portanto, induzindo um aumento indesejável de preços no futuro. Cientes do exagero, os agentes econômicos tendem então a corrigir seus preços preventivamente, transformando o que era apenas uma hipótese teórica, num fato concreto. Uma profecia autorealizável.

6) Divulga-se tudo isso através de manuais (best-sellers escritos em Atlantis) para que todas as escolas de administração de empresas, cursos de contabilidade, de engenharia e inclusive de economia tenham absoluta clareza das leis que regem a economia.

7) Repercuti-se essas mesmas leis e idéias entre os chamados formadores de opinião, em especial jornalistas econômicos ambiciosos e com baixa auto-estima intelectual.

8) Para legitimar ainda mais o processo, crie um boletim semanal, com um nome do latim, que reúna a opinião de 100 instituições financeiras, para que se possa conhecer o posicionamento médio do mercado e assim referendar as decisões do BC. Claro que, como eles também se formaram pelos livros de Atlantis, as divergências serão mínimas, o risco é zero.

9) Por fim, deve-se organizar uma instituição que ajude a coordenar e disseminar essa ciência entre a sociedade civil. Um nome do latim também ajudará a reforçar o espírito científico (veja organograma aqui, é muito instrutivo). Caberá a essa organização zelar pelo processo de introjeção dos valores dessa ciência, de tal maneira que do pároco ao bancário, do médico ao compositor bahiano, todos tenham clareza da ordem natural das coisas.

10) Pronto. Com tudo isso, não haverá comunista, sindicalista, terrorista, analfabeto capaz de ousar triscar o dedo na mecânica sofisticada que ilumina o nosso caminho para a bem aventurança. A simples menção de desrespeito às regras impessoais do mercado já será prontamente antecipada pelos agentes racionais, tirando a economia do equilíbrio e, portanto, trazendo prejuízos ao desenvolvimento das forças produtivas.

....E no sétimo dia, descanse em paz. Nada poderá ser feito.

25.11.10

sobre o melhor solo, sou mais esse

Evidente que é uma bobagem, pela impossibilidade, eleger o melhor solo de guitarra de todos os tempos. Contudo, esse tipo de questão é sempre interessante por trazer à tona os muitos melhores de cada gênero. Pois, a meu sabor, a interpretação de Eleanor Rigby feita pelas quatro mãos de Stanley Jordan é obrigatória entre as mais-mais da guitarra. Não só pela técnica, pela jeito revolucionário de S.J. escalar a guitarra, mas, principalmente, pela interpretação em si dessa belíssima música dos Beatles.

seria o melhor solo de todos os tempos?

Meu cunhado, Fernando, grande virtuose na guitarra, manda esse vídeo com um portentoso solo de Gary Moore.

Há quem diga que é o melhor solo de todos os tempos. Confira. E, se discordar, favor mostrar as cartas.

23.11.10

milão em 22 dias

Caríssimos visitantes, nesse mês de novembro este Pífano que vos informa registrou o recorde de visitas: mil em 22 dias.

Não é lá muita coisa, tem blogueiro por aí que registra 10 mil visitas por hora, ou até mais.
Porém, considerando que o tema de fundo aqui é a árida economia e, pra piorar, economia do B, até que é um bocado de gente compartilhando essa bagaça.

Aproveito a data para convidar os amigos leitores a participarem mais ativamente do blog. A tarefa de bater o ponto aqui todo dia não é fácil e seria uma enorme satisfação ter mais gente tocando o debate.
Se aqui estamos é porque, provavelmente, compartilhamos certa visão de mundo, mesmo que alguns ainda insistam em torcer por agremiações esportivas de qualidade discutível.

Pra animar a data, um vídeo de um pífano bem tocado. Valeu!

21.11.10

hora de mexer os pauzinhos

Sabe-se que Lula tem gosto especial pela negociação e que é exímio na arte da conciliação. Escolado na vida sindical e partidária - numa época de especial eferverscência - tornou-se um craque, um Pelé do gênero, de dimensão internacional. O sucesso de seu governo, por certo, em muito se deve a essa veia do peão de São Bernardo. É preciso reconhecer, contudo, que um tanto de episódios fortuitos contribuíram decisivamente no acerto de rumo e na culminante explosão de sua popularidade.

Como um super-homem nietzschiano, para quem o veneno só o faz mais forte, o mensalão deu a Lula a oportunidade de livrar-se de armadilhas políticas e se engajar mais ativamente na construção de sua obra política. As diferenças entre seus primeiro e segundo mandatos são evidentes; só não as enxergam aqueles que desejam lourear a herança de FHC. Também a crise de 2008, ao estreitar as margens para ações conciliatórias, estimulou Lula a sair do corner e ele, mais uma vez, deu a volta por cima e descobriu-se capaz de liderar uma retomada econômica que ecoou mundo afora. Por tudo isso, tem hoje uma dimensão política admirável e terá marcado como poucos a história desse país.

Mas, seu gosto pela conciliação deixará também umas tantas feridas mal curadas. À futura Presidenta caberá desarmar consensos que perderam relevância política e que hoje representam impasses que necessariamente deverão ser enfrentados. E essa tarefa é especialmente premente no campo da macroeconomia, onde os empates, além de raros, em geral são falaciosos.

A primeira grande ferida a ser enfrentada é o câmbio. Há hoje no país um grande alvoroço sobre a valorização do real, fato que torna nossos produtos caros perante o mundo e que, por outro lado, barateia os bens importados, roubando produção, emprego e renda de nosso país. O problema, é que, segundo o consenso mercadista cristalizado como verdade científica no Brasil, não se deve ceder à tentação de desvalorizar administrativamente a nossa moeda. Defende-se que é preciso garantir o pleno funcionamento das leis de oferta e procura.

Seria lindo, não fosse o fato de que dois gigantes - EUA e China - preferem ajustar suas moedas segundo suas conveniências internas. Como são grandes o suficiente para controlar as marés, nos deixam expostos à concorrência externa e provavelmente se divertem com o falotório mercadista que reverbera em nossas paragens.

Por tudo isso, seria já suficientemente ridículo o bom-mocismo cambial brazuca. É, contudo, ainda mais enrubrecedor pelo agravante de mantermos a taxa de juros oficial do país a níveis extraordinariamente elevados. Pagamos 5% a mais do que o resto da turma e isso significa que, enquanto o mundo se encontra em tenebroso marasmo, onde faltam oportunidades para aplicação de capital, nós tocamos as trombetas remunerando os dinheiros com taxas gordas a baixíssimo risco. É claro que o resultado é uma enxurrada de dólares do mundo todo invadindo o país. E, no maravilhoso mundo das impessoais leis de mercado, dólar entrando significa valorização do real. Ou seja, menos produção, menos emprego, menos renda.

Alguém bem aventuroso haverá de lembrar, claro, que essa situação desconfortável para o país - mas não para os investidores do mercado financeiro - não decorre da omissão das autoridades econômicas, mas da necessidade de manter a estabilidade dos preços. Sustentam que para evitar a volta da inflação é importante frear a excessiva atividade econômica e que, portanto, é preciso elevar as taxas de juros, desestimulando o aquecimento da economia real.

Com esse argumento, encerra-se então o debate e todos somos obrigados a aceitar a fatalidade do câmbio valorizado. Qualquer proposta alternativa é logo refutada com a tese de que é preciso manter o tripé (cambio flutuante, superávit fiscal e autonomia do BC), que a estabilidade é uma conquista importante demais para ser ameaçada com aventuras heterodoxas e que com o tempo (gradualismo) tudo se ajustará.

Há uma carrada de argumentos contrários a essa mistificação. A começar que nas demais duzentas e tantas economias do mundo, nenhuma mantém os juros tão altos - e isso já dura 25 anos. Mas, não pretendo escrever um livro sobre o assunto. Quero apenas tratar de um único aspecto, nada heterodoxo, mas que a meu ver poderia fazer importante diferença nesse imbróglio.

Se a vaca sagrada é a inflação e por ela temos tomado rumos que são desfavoráveis para a economia do país, não caberia refletir se não há algo funcionando mal em nosso sistema de controle de inflação?

Vejamos. Vigora hoje no país o sistema de metas. O governo define um índice de inflação oficial (IPCA), estabelece uma meta de inflação a ser alcançada em 12 meses (4,5%) e uma margem de variação aceitável de 2% a mais ou a menos. Ou seja, os diretores do Banco Central devem hoje manejar os juros e outras ferramentas de tal sorte que, em novembro de 2011, a inflação medida pelo IPCA esteja entre 2,5% e 6,5%. Se a inflação está com tendência de elevação, sobe-se a taxa de juros; se a tendência é de queda, reduzem-na. Trata-se de um modelo bonitinho que, no entanto, tem se mostrado muito arisco, obrigando o BC a puxar os juros pra cima com mais frequência e intensidade do que seria desejável.

Então, o que fazer?

Ora, com alguns ajustes pontuais seria possível aperfeiçoar o nosso sistema de metas e torná-lo menos suscetível às bruscas oscilações. Nada que outros países do mundo desenvolvido já não façam e que tenha portanto sido testado e aprovado.

Uma primeira medida importante seria utilizar outro indicador, que não o IPCA, para servir de parâmetro para a meta de inflação. Ocorre que no cálculo do IPCA lava-se em conta o preço dos serviços sob concessão pública (luz, telefone, pedágio, etc) cuja variação pouco tem a ver com as oscilações da demanda e que, portanto, não deveriam ser combatidos com elevações das taxas de juros. Além disso, caberia também às autoridades do BC expurgar da medição da inflação aquelas variações de preços que decorrem de fenômenos exógenos, i. é., que não resultam de variações do nível de atividade interno. Uma guerra num país exportador de petróleo, por exemplo, costuma provocar aumento no preço da gasolina, mas esse aumento não é fruto de um sobreaquecimento da economia nacional e de nada adiantará combatê-lo com elevação dos juros.

Um outro aspecto que deveria ser aperfeiçoado na atual sistemática é diz respeito ao prazo a ser considerado para o cumprimento da meta. Os atuais 12 meses exigem uma ação muito aguda do BC, visto que o mercado leva alguns meses para reagir às alterações na taxa de juros. Como a margem de tempo é estreita, o BC tende a exagerar na dose. Tivesse um prazo de 24 meses, poderia atuar com mais vagar, numa sintonia fina, evitando os chamados overshootings que, na vida real, provocam queda no ritmo de produção, de crescimento da renda e do emprego.

Por fim, vale lembrar que agindo apenas nesses poucos e singelos parâmetros, dentro, portanto, da estrita institucionalidade ortodoxa, seria provavelmente possível navegar com juros em patamares mais civilizados. Com eles, o Brasil seria menos atrativo ao apetite dos capitais externos e, consequentemente, conseguiríamos manter a taxa de câmbio um pouco menos valorizada, ampliando exportações, reduzindo importações e, no limite, melhorando a condição econômica de cada um de nós.

E.T: a boa notícia é que 1) a banca já não está em condições de exigir muita coisa; 2) a Presidenta Dilma conhece bem esse assunto e 3) ela não parece tão afeita ao estilo conciliador que tão útil nos foi no passado.

17.11.10

em solidariedade aos patrícios




Em homenagem a nossos irmãos-patrícios, que se encontram em difícil cipoal econômico, revisito o hino da Academia do Bacalhau de Coimbra que, a qualquer tempo e lugar, será sempre motivo de inspiração e alegria:




Vamos cantar à saúde de Coimbra
Academia com cartola de penacho
Sou de Coimbra
Ninguém me deita abaixo
O vinho tinto dá-me força pela medida
Teu bacalhau cheira a seiva de menina
Sou gavião vou comer esse repasto
Sou de Coimbra
Eu nunca serei casto
O vinho tinto dá-me força pela medida
Vestes de negro
Roupinha branca por baixo
Que é a cor da toalha desta mesa
Hoje vou comer-te esse penacho
Nem que seja uma punheta à Portuguesa
Sou de Coimbra
Ninguém me deita abaixo
O vinho tinto dá-me força pela medida
Quando te como vou p’ra cima
E vou p’ra baixo

autor:
Compadre João Afonso

16.11.10

a hora e a vez da classe média

Ao que tudo indica, com a eleição de Dilma se encerrará um ciclo de nossa história. Provavelmente, se o mundo não atrapalhar demais, chegaremos em 2014 com uma situação social e econômica muito superior à que tínhamos em  1989, quando retomamos nossa periclitante democracia. 

Mantidas as taxas de crescimento do PIB em torno de 5% a.a., a política de reajustes reais do salário mínimo, os programas de transferência de renda, as iniciativas de estímulo à escolarização, alçaremos a um novo patamar de desenvolvimento, no qual mais da metade da população estará solidamente localizada entre os estratos médios da sociedade.

Há, portanto, fortes razões para supor que em 2014 os valores característicos da classe média deverão pautar os rumos da sociedade brasileira, direcionando a agenda política para demandas que até hoje tinham pouco eco na sociedade - é bom lembrar que, durante os oito anos de governo Lula, a classe média foi o segmento que menos se beneficiou das políticas sociais e econômicas praticadas. Enquanto ricos faturaram com juros generosos, empresários viram seu faturamento crescer e os muito pobres puderam galgar importantes degraus com o auxílio das políticas de renda, os estratos do meio quando muito se beneficiaram apenas indiretamente desses anos de prosperidade.

Transitar para essa nova agenda será um desafio político nada trivial, quanto mais para a coalizão de partidos de centro-esquerda que desde 2002 governa o país. Será preciso reconstruir o discurso, sob pena de assistirmos um recrudescimento da agenda conservadora e dos agrupamentos políticos de centro-direita.

Nessa perspectiva, alguns temas ganharão especial importância nos próximos anos. Segurança e educação, por exemplo, são assuntos para os quais a classe média reivindica crescentemente soluções da esfera pública, assim como deverão ser maiores as gritas contra a carga tributária. Como se sabe, dada a atual configuração do nosso "sistema tributário", há de fato uma maior incidência dos impostos diretos (que são aqueles para os quais se é mais sensível) sobre os assalariados de classe média. Responder, portanto, a esses clamores é requisito quase obrigatório para qualquer força política que pretenda participar da arena eleitoral nos próximos anos.

É nesse contexto que considero extremamente relevante e estratégica a idéia de alterar o modelo vigente de financiamento da nossa seguridade social (previdência, assistência social, saúde e políticas de emprego). Ou seja, é preciso encontrar uma alternativa aos encargos sociais que hoje incidem sobre a folha de pagamento das empresas e que, portanto, desestimulam a intensificação do uso de mão-de-obra.  

Circulam na praça algumas propostas para reduzir ou mesmo eliminar alguns desses encargos (contribuição para o INSS, Salário-Educação, Sistema S, etc) e, em troca, instituir um tributo sobre o faturamento das empresa que seja suficiente para manter o financiamento da seguridade nos mesmos níveis atuais. Com isso, a um só tempo, seria possível reduzir os custos trabalhistas - em especial nas pequenas e médias empresas, que respondem por 90% dos empregos no país - estimular a formalização de trabalhadores e deslocar parte do ônus da seguridade para os setores da economia que mais faturam, quais sejam: bancos e grandes empresas exportadoras de commodities que, pela sistemática atual, contribuem pouquíssimo para a seguridade social, visto que, relativamente, empregam muito pouco.

Em suma, se estaria concedendo um importante estímulo econômico às micro e pequenas empresas, bem como a diferentes categorias de profissionais liberais, que em conjunto constituem os principais pólos de condensação da ideologia de classe média no país. Numa só tacada, a desoneração da folha promoveria, pois, importantes transformações na dinâmica das empresas e do mercado de trabalho e daria à coalizão de centro-esquerda dividendos políticos sobre um segmento da sociedade que, tradicionalmente, tende a se afastar da agenda dita progressista à medida em que a economia se desenvolve e as desigualdades sociais se reduzem.  

ET: nunca é demais lembrar das experiências dos partidos sociais-democratas europeus que, com a consolidação de suas bandeiras de centro-esquerda, viram suas bases políticas bandear para o campo conservador.

15.11.10

boca chiusa




Autor: 
Carlos Latuff















                                                            



Autor: Angeli











Autor: não identificado






       Autor: Paulo Emamnuel 




     



          

 Autor: não identificado



















Autor: Caco Galhardo

14.11.10

sobre a porrada de "tropa de elite 2"

Publico hoje uma resenha que o amigo e colega Alessandro Ortuso escreveu sobre o desconforto inescapável provocado pelo filme Tropa de Elite 2. 


A ilustração é do cartunista carioca Carlos Latuff.


Por Alessandro Ortuso

Assisti Tropa de Elite 2. Gostei bastante. Mas explicar porque gostei não é uma tarefa simples. Exige um tempo para a reflexão. Antes de qualquer coisa, é preciso dizer que o filme em nada fica devendo para qualquer grande produção de Hollywood. Por isso, ele também é bom. Mas isso não parece ser a questão mais importante. Ele é bom, acima de tudo, porque não permite a indiferença. Exige uma opinião. Ainda mais em tempos de eleições marcadas por temas como a corrupção e o nepotismo. Mas, no filme, é muito difícil que nossa opinião se resuma na escolha de um lado ou de outro. Algo impossível, principalmente, para os personagens principais do filme.
            No início, o capitão Nascimento, agora Coronel, diante de uma rebelião de presos em Bangu I tem a chance de eliminar o mal pela raiz. É a justificativa que eles e seus subordinados tanto esperaram para dar fim aos principais lideres do tráfico no Rio de Janeiro. Para isso, basta autorizar a invasão. Uma crueldade covarde dirá o outro lado. Neste caso, um Professor Universitário membro de um grupo internacional de defesa dos direitos humanos. Sendo assim, teríamos, de um lado, o fascismo extremado da direita e, de outro lado, a esquerda que defende os valores da igualdade e solidariedade. Até aí é possível escolher em que lado ficar. Independente de onde esteja o bem ou o mal.
            Mas, o que se segue a partir daí torna as fronteiras indefinidas e os extremos menos distantes. Mas, ainda assim, é impossível a indiferença. Não há mais muro para nos equilibrarmos. Tudo vem abaixo num ritmo alucinante. De fato, tudo que é sólido parece se desmanchar no ar. Caem todas as certezas. Por quê?
            Creio que não podemos, aqui, evitar respostas desagradáveis e indigestas. Isso porque, em última instância, elas tornam evidentes porque nós, como seres humanos, falhamos. Falhamos porque a maneira pela qual decidimos organizar nossas vidas materiais exige uma estruturação social que não deixa espaço para a espontaneidade desinteressada. Porque torna muito difícil uma sociabilidade fora do âmbito utilitário mediado pelo dinheiro. E aqui, não há exageros e nem ficção. Não há esquerda ou direita. Não há outras escolhas possíveis.
            Falo aqui no despotismo do dinheiro. Ganhar dinheiro tornou-se para nós uma exigência cega. Cega, porque não se trata apenas de uma imposição externa. Ela foi internalizada. Cega, porque é algo que acaba tornando-se natural. Os que se acham mais intelectualizados dirão que faz parte da natureza humana. Isso porque, em última instância, é da nossa natureza competir. E, se o critério para definir os ganhadores e perdedores é exclusivamente monetário, porque não afirmar: somos educados pelo dinheiro? Educados para o consumo que o dinheiro permite! As coisas que consumimos falam! Dizem, até para os que não querem ouvir, quem somos ou em que lugar estamos na estrutura social.
            Claro que é sempre melhor estar em cima. Quanto mais alto se estiver na estrutura social mais poder temos sobre os outros. Mas o que é poder? Nada mais do que a capacidade de impor sua vontade sobre os demais. Quem não tem dinheiro obedece, nunca manda. Trata-se de uma hierarquia que prevalece inclusive sobre o poder político. Sobre a lei. Pior, se mistura a ela. Quase sempre a subordinando.
            Esse é justamente o assunto de que trata o filme. Estamos vivendo numa sociedade individualista onde os indivíduos, competindo uns com os outros, disputam poder. Vale dizer, disputam dinheiro. Tudo se complica quando essa lógica invade a esfera do Estado. Porque aí, as fronteiras entre o público e o privado ficam completamente borradas. Tudo é privado. Tudo é dinheiro e poder. E, como o poder se resume na capacidade de controle sobre a vontade alheia, a constituição de uma hierarquia é algo lógico.
            Como mostra o filme, o Governador fica no topo dessa hierarquia. Depois dele, não exatamente nessa ordem, secretários, subsecretários, deputados, comandantes militares, soldados, etc.. Esses, ainda têm a vantagem de usar a burocracia estatal para reforçar seus poderes. Reforçar, principalmente, o poder sobre outras estruturas estabelecidas fora do âmbito do Estado. No caso do filme, fundamentalmente, sobre a empresa ligada ao tráfico de drogas e armas nas grandes favelas do Rio de Janeiro.
            Neste contexto, o Coronel Nascimento, tendo ao seu lado o monopólio da violência, liquidou o tráfico nas favelas cariocas. Matou ou prendeu todas as principais lideranças. Tocou o terror! Fim do problema? Fim da violência nos morros cariocas? Fim da bandidagem? Fim da ilegalidade? Não, muito pelo contrário. Tudo isso se acentuou. No lugar dos traficantes oriundos das próprias favelas, entram as milícias organizadas dentro da estrutura do Estado. Fica impossível distinguir o bandido do policial. Talvez, o único critério adequado seja o lado da grade ocupado por cada um. Fora ou dentro, todos são movidos pela mesma lógica.
            O espaço antes ocupado por membros da comunidade da própria favela é agora ocupado por agentes externos. Um espaço que permite a exploração capitalista de muitas outras empresas além da droga. Falo aqui da venda de bujões de gás, do famoso "gato-net", do comércio de medicamentos, etc.. É tudo parte do "Sistema". O Sistema é impessoal. Não tem endereço fixo. É insaciável. Não tem limites. Não respeita a vida e nem a lei. Não reconhece o Estado.
            A lei é, sempre, um acordo entre vontades iguais em favor do interesse da comunidade. É a restrição de certas liberdades individuais que permitem a vida coletiva. De valores coletivos.  Pois bem. Tudo isso foi varrido do nosso horizonte. O Sistema exige que todos maximizemos nossos interesses individuais. Lembro aqui do sujeito que ganhou uma edição do Big Brother que tinha tatuado em seu braço: maximize-se. Lembro aqui da revista "Você S.A.". Em outras palavras, é o sucesso individual a qualquer preço. Algo que se resume no jargão do mundo dos negócios como empreendedorismo.
            Mas, sem a restrição imposta por valores coletivos, na favela, o empreendedor de sucesso é o traficante. Na política, o corrupto. Na polícia, a milícia. Na mídia, o jornalista inescrupuloso. Na corporação, o executivo. Todos são movidos pela lógica do sucesso individual. Um sucesso que se mede por um único critério: dinheiro. Esse é o "Sistema" tanto citado pelo Coronel Nascimento.
            Esse "Sistema" tem como consequência lógica apenas um cenário: a barbárie. A guerra de todos contra todos. O darwinismo social. A não civilização. A selvageria instintiva. A luta individual pela sobrevivência física. É neste ambiente que devemos tentar entender, já no final do filme, o papel do Coronel Nascimento e do nosso Professor Universitário, agora Deputado. Se, no início era possível escolher de que lado ficar, agora, isso é impossível. Os dois terminam o filme do mesmo lado. Mas que lado é esse que não reconhece direita ou esquerda? Que não tem partido político? Que não tem nome fixo?
            A resposta parece nos mostrar o único caminho de resistência ao "Sistema". É o caminho da defesa da lei. De suas diretrizes mais básicas. Isso porque, em última instância, a lei é o coletivo. A lei é a comunidade. A lei é o Estado que permite a civilização. Respeitar a lei é respeitar o outro. Apesar de toda a violência que segue a trajetória de vida do Coronel Nascimento, é justamente isso que o aproxima do Deputado humanitário. Ambos lutam contra o "Sistema". Ambos resistem ao despotismo do individualismo mediado pelo dinheiro. São movidos por outros valores.
            Neste contexto, a lei tem que valer igual para todos. É preciso prender o traficante, mas também o político corrupto ou o sonegador de impostos. Deve-se punir quem rouba um relógio na praia de Ipanema, como também aquele que para seu carro em lugar proibido ou que fuma maconha nesta mesma praia. Podemos aqui discutir se concordamos ou não com a lei. Principalmente, com essa última que não permite pequenas recusas inofensivas. Mas, qualquer mudança possível precisa ser pensada coletivamente. Não há respostas individuais.
            Só nos resta aqui tentar entender porque o Coronel Nascimento não consegue responder a seguinte pergunta para seu filho adolescente: pai, por que você mata? De fato, uma pergunta incômoda e muito difícil. Nosso Coronel mata porque quer fazer valer a lei, mas mata, fundamentalmente, porque nessa sociedade que beira a barbárie é matar ou morrer. Mata-se para sobreviver. Mata-se, porque, por mais cruel que isso possa parecer, parte da nossa sociedade é "óleo queimado". Vale dizer, pessoas que foram tão massacradas e violentadas pelo "Sistema" que pouco podemos fazer por elas.
            Em outras palavras, como recuperar um sujeito que desde sua infância só pode usar a violência física como arma para sua sobrevivência. Quando adulto, encarcerado, o que se pode fazer com ele? O que prometer?
            Por favor, antes que os mais exaltados se manifestem! Isso não quer dizer que eles devem ser exterminados como quis nosso Coronel Nascimento. Quer dizer, isso sim, que devemos sentir vergonha de nós como seres humanos. Culpa, por sermos capazes de viver cercados de tantas riquezas materiais e não conseguirmos traduzir isso numa sociedade verdadeiramente democrática. Uma sociedade onde seja possível a sociabilidade desinteressada fundada em valores como a amizade e o lúdico.
            Por isso, ao invés das palmas oferecidas ao Coronel Nascimento, deveríamos, na verdade, baixar nossas cabeças para refletir. É isso que queremos? Só isso é possível? É da natureza do homem ser assim? Pensar diferente disso é ser ingênuo ou idealista? Não creio. Acreditar nisso é deixar de acreditar no homem e na humanidade. Acreditar nisso é reconhecer que os filhos das classes médias e ricas também podem vir a ser "óleo queimado". Isso não é privilégio de classe.