7.11.08

a hora e a vez de keynes?

Que o capitalismo é bicho bruto, sabemos todos. Junto à sua inata índole transformadora carrega o vício da irracionalidade e, de tempos em tempos, mostra as caninos, jogando por terra as apostas e os sonhos dos dias de benevolência.
Isto não nos autoriza, contudo, imaginar que sejamos capazes de retirá-lo de cena, como tentou-se no socialismo real, nem substituí-lo por "outro mundo possível", como quer a militância voluntariosa dos Fóruns Sociais ou os grêmios de esquerda.

O próprio Marx foi um entusiasta do vigor transformador do capital, que pelas forças da concorrência intercapitalista e pela inescapável luta pela acumulação, conduziria a sociedade a uma progressiva redução do fardo do trabalho concreto, libertando o homem para uma existência mais digna e criativa. Além disso, não só o capitalismo era visto como uma etapa civilizatória, como era inevitável, necessário e, em grande medida, indiferente e refratário a julgamentos morais ou a ímpetos voluntaristas.
Keynes, que nunca foi marxista (há toda uma polêmica se ao menos foi leitor de Marx), percebeu no capitalismo os mesmos traços fundamentais apontados por Marx, mas resistindo à tentação de sonhar com um "mundo paralelo", um outro sistema, preferiu trabalhar na formulação de ajustes e regras que fossem capazes de reduzir a virulência das crises de nervos do capital e ao mesmo tempo preservar suas maiores qualidades, quais sejam: a incessante transformação tecnológica (que se traduz em melhores condições de vida) e a garantia de razoável grau de liberdade individual.
Para tanto, Keynes propôs extirpar do capital o nervo que lhe produzia os surtos, destruindo países e famílias de quando em quando. O segredo estava em construir canais institucionais por onde fluíssem os capitais, irrigando o setor produtivo de pé em pé. Ou seja, era preciso evitar que os fluxos de capitais, impelidos pela necessidade de acumulação e inoculados pela incerteza, seguissem livremente para os mercados de menor risco e maiores possibilidades de acumulação, sob pena deste próprio movimento produzir ondas de valorização de ativos dissociadas dos processos de aumento real da renda e do produto.
E na formulação de Keynes, este enquadramento do capital só poderia ser obtido por meio do fortalecimento de instituições públicas nacionais e supranacionais. Ou seja, não se trata de colocar o Estado a serviço do mercado (como fazem os detratores do keynesianismo), mas sim de subordinar o capital à Política.

É disso que andam falando por aí, mas que como sabemos é tarefa pra lá de difícil.



Sobre as propostas de Keynes, reproduzo abaixo artigo esclarecedor do incansável Belluzzo:





Keynes e o fim do laissez-faire

31/10/2008
Luiz Gonzaga Belluzzo


John Mayard Keynes nasceu em 1883, o ano da morte de Karl Marx. Nesse momento a economia mundial vivia o tempo da Grande Depressão do século XIX e das profundas transformações da 2ª Revolução Industrial. Entre 1873 e 1896 o aço, a eletricidade, o motor a combustão interna, a química da soda e do cloro, alteraram radicalmente o panorama da indústria, até então marcado pelo carvão, pelo ferro e pela máquina a vapor. A aplicação simples da mecânica cedeu lugar à utilização e integração sistemática da ciência nos processos produtivos. Esta segunda revolução industrial veio acompanhada de um processo extraordinário de ampliação das escalas de produção.

O crescimento do volume de capital requerido pelos novos investimentos impôs novas formas de organização à empresa capitalista. A sociedade por ações tornou-se a forma predominante de estruturação da propriedade. Os bancos, que concentravam suas operações do financiamento do giro dos negócios, passaram a avançar recursos para novos empreendimentos (crédito de capital), e a promover a fusão entre as empresas já existentes. Pouco a pouco todos os setores industriais foram dominados por grandes empresas, sob o comando de gigantescas corporações financeiras. O movimento de concentração do capital produtivo e de centralização do comando capitalista tornou obsoleta a figura do empresário frugal que confundia o destino da empresa com sua própria biografia. O magnata da finança é, agora, o herói e o vilão do mundo que nasce.

Estas violentas transformações sacudiram a Inglaterra e a Alemanha, os Estados Unidos e o Japão. A Inglaterra, pioneira da indústria, foi incapaz de deter o avanço dos demais e de preservar sua supremacia econômica. Os Estados Unidos e a Alemanha ingressaram no cenário. Fizeram valer a superioridade de suas respectivas estruturas capitalistas, especialmente a agilidade de seus bancos e a presença ativa de seus respectivos Estados nacionais. A emergência de novas potências inaugurou um período de grande rivalidade internacional. A disputa pela preeminência econômica intensificou a penetração de capitais nas áreas provedoras de matérias primas e alimentos, alterando a configuração da chamada periferia do mundo capitalista.

O padrão ouro foi a organização monetária do apogeu da Ordem Liberal Burguesa. Isto quer dizer que ele se apresentava como a forma “adequada” de coordenação do arranjo internacional que supunha a coexistência de forças contraditórias: 1) a hegemonia financeira inglesa, exercida através de seus bancos de depósitos e de sua moeda; 2) a exacerbação da concorrência entre a Inglaterra e as “novas” economias industriais dos trusts e da grande corporação, nascidos na Europa e nos Estados Unidos, 3) a exclusão das massas trabalhadoras do processo político (inexistência do sufrágio universal) e 4) a constituição de uma periferia “funcional”, fonte produtora de alimentos, matérias primas e, sobretudo, fronteira de expansão dos sistemas de crédito dos países centrais.

No seu célebre artigo O Fim do Laissez-Faire, John Maynard Keynes cuidou de refletir sobre as transformações que deixaram para trás os mitos do capitalismo liberal. Não por acaso, ironizou a idéia de que a busca do interesse privado levaria necessariamente ao bem estar coletivo. "Não é uma dedução correta dos princípios da teoria econômica afirmar que o egoísmo esclarecido leva sempre ao interesse público. Nem é verdade que o auto-interesse é, em geral, esclarecido."

Conservador, Keynes professava a convicção de que a sociedade e o indivíduo são produtos da tradição e da história. Cultivava os valores de uma moral comunitária. Tinha horror ao utilitarismo e à hipocrisia da Era Vitoriana. Isso não quer dizer que recusasse o programa da modernidade, empenhado no avanço das liberdades e da autonomia do indivíduo. Não acreditava, porém, que esta promessa pudesse ser cumprida numa sociedade individualista em que os possuidores de riqueza orientam obsessivamente o seu comportamento para as vantagens do ganho monetário.

Descreveu sua utopia no artigo Perspectivas Econômicas para Nossos Netos: “Estou à espera, em dias não muito remotos, da maior mudança que já ocorreu no âmbito material da vida, para os seres humanos em seu conjunto. Vejo-nos livres para voltar a alguns dos mais seguros e tradicionais princípios da religião e da virtude tradicional – de que a avareza é um vício, a usura uma contravenção, o amor ao dinheiro algo detestável.. Valorizemos novamente os fins acima dos meios e preferiremos o bem ao útil. Honraremos os que nos ensinam a passar virtuosamente e bem a hora e o dia, as pessoas agradáveis capazes de ter um prazer direto nas coisas, os lírios do campo que não mourejam nem fiam.”

O “amor ao dinheiro”, dizia, é o sentimento que move o indivíduo na economia mercantil-capitalista. Fator de progresso e de mudança social, the love of money' pode se transformar em um tormento para o homem moderno. Seus efeitos negativos precisam ser neutralizados mediante a ação jurídica e política do Estado Racional e, sobretudo, pela atuação de "corpos coletivos intermediários”; como, por exemplo, um Banco Central dedicado à gestão consciente da moeda e do crédito.

Keynes acreditava que a cura para os males do capitalismo deve "ser buscada, em parte, pelo controle da moeda e do crédito por uma instituição central e, em parte, por um acompanhamento da situação dos negócios, subsidiados por abundante produção de dados e informações".

Keynes falava "da direção inteligente pela sociedade dos mecanismos profundos que movem os negócios privados”; particularmente os processos que envolvem as decisões de investimento, ou seja, a criação de riqueza nova.

Na Teoria Geral, Keynes tratou do caráter instável do investimento privado, concebido por ele como uma vitória do espírito empreendedor sobre o medo decorrente da "incerteza e da ignorância quanto ao futuro". É a tensão não mensurável entre as expectativas a respeito da evolução dos rendimentos do novo capital produtivo e o sentimento de segurança proporcionado pelo dinheiro que vão determinar; em cada momento, o desempenho das economias de mercado. A vida do homem comum vai depender do volume de gastos que os capitalistas - detentores dos meios de produção e controladores do crédito - estarão dispostos a realizar, criando mais renda e mais emprego. O destino da sociedade é decidido na alma dos possuidores de riqueza, onde se trava a batalha entre as forças de criação de nova riqueza e o exército negro comandado pelo "amor ao dinheiro”.

As decisões de gasto estão subordinadas às expectativas dos capitalistas - enquanto possuidores de riqueza monetária - do sistema bancário em derradeira instância - de abrir mão da liquidez, criando crédito e incorporando novos títulos de dívida à sua carteira de ativos.

Nos momentos em que o medo do futuro atropela o espírito de iniciativa, a demanda capitalista por riqueza pode se concentrar em ativos líquidos já existentes, inchando a circulação financeira e jogando para baixo os preços dos papéis (e, portanto, afetando as taxas de juros), com prejuízos para o emprego e a renda da comunidade. Esta demanda por liquidez não suscita o aumento da produção e a contratação de novos trabalhadores para satisfazê-la. Por isso, o investimento não deve ser deixado exclusivamente aos caprichos do ganho privado. Deixados à sua lógica, os mercados são incapazes de derrotar a incerteza e a ignorância.

Não é surpreendente que nos trabalhos elaborados para as reuniões que precederam as reformas de Bretton Woods, Keynes tenha tomado posições radicais em favor da administração centralizada e pública do sistema internacional de pagamentos e de criação de liquidez. Ele imaginava que o controle de capitais deveria ser "uma característica permanente da nova ordem econômica mundial".

Uma instituição supranacional-um banco central dos bancos centrais - seria encarregada de executar a gestão "consciente" das necessidades de liquidez do comércio internacional e dos problemas de ajustamento de balanço de pagamentos entre países, superavitários e deficitários. Keynes pretendia evitar os métodos de ajustamento recessivos e assimétricos impostos aos países deficitários e devedores por um sistema internacional em que os problemas de liquidez ou de solvência dependem da busca da "confiança" dos mercados de capitais.

As instituições multilaterais de Bretton Woods - o Banco Mundial e o FMI - nasceram com poderes de regulação inferiores aos desejados inicialmente por Keynes e Dexter White respectivamente representantes da Inglaterra e dos Estados Unidos nas negociações do acordo, que se desenvolveram basicamente, entre 1942 e 1944. Harry Dexter White pertenceu à chamada ala esquerda dos New Dealers e foi por isso, depois da guerra, investigado duramente pelo Comitê de Atividades Anti-Americanas do Congresso. Seu plano inicial previa a constituição de um verdadeiro Banco Internacional e de um Fundo de Estabilização. Juntos o Banco e o Fundo deteriam uma capacidade ampliada de provimento de liquidez ao comércio entre os países-membros e seriam mais flexíveis na determinação das condições de ajustamento dos déficits do balanço de pagamentos. Isso assustou o establishiment americano. Uns porque entendiam que estes poderes limitavam seriamente o raio de manobra da política econômica nacional americana. Outros porque temiam a tendência "inflacionária" desses mecanismos de liquidez e de ajustamento.

Keynes propôs a Clearing Union, uma espécie de Banco Central dos bancos centrais. A Clearing Union emitiria uma moeda bancária, o bancor, ao qual estariam referidas as moedas nacionais. Os déficits e superávits dos países corresponderiam a reduções e aumentos das contas dos bancos centrais (em bancor) junto à Clearing Union. Uma peculiaridade do Plano Keynes era a distribuição mais eqüitativa do ônus do ajustamento dos desequilíbrios dos balanços de pagamentos entre deficitários e superavitários. Isto significava, na verdade, dentro das condicionalidades estabelecidas, facilitar o crédito aos países deficitários e penalizar os países superavitários. O propósito de Keynes era evitar os ajustamentos deflacionários e manter as economias na trajetória do pleno-emprego. A proposta também sofreu sérias restrições dos Estados Unidos, país que emergiu da segunda guerra como credor do resto do mundo e superavitário em suas relações comerciais com os demais.

O enfraquecimento do Fundo, em relação às idéias originais, significou a entrega das funções de regulação de liquidez e de emprestador de última instância ao Federal Reserve. O sistema monetário e de Bretton Woods foi menos "internacionalista" do que desejariam os que sonhavam com uma verdadeira ordem econômica mundial.

5.11.08

obama é o cara?

Que bela festa e que bela história a vitória de Obama. Assim como o Lula, o sujeito tem uma biografia que impõe um baita respeito. Na ponta do lápis e em sã consciência, ninguém teria sido capaz de dizer que estes caras chegariam ao mais importante cargo de seus respectivos países.
Gosto destes enredos porque nos ajudam a lembrar que a história se desenvolve do presente para o passado, da foz para a nascente, contrariando nossa intuição. O fato de terem alcançado um desfecho nobre dá sentido imediato a todo o amontoado de acontecimentos pelos quais atravessaram no passado e que agora ganham ares de predestinação. Não fosse pelo fim (um acaso histórico fruto de incontáveis determinantes), os passos pretéritos de nada valeriam, como aliás são os passos de tantos outros, de desfecho menos glorioso.
Mas e agora? Obama estará a altura dos desafios que a ele se apresentam ou da esperança que nele depositam? Este é o assunto que pipoca na imprensa neste momento, e não são poucos os sabidos que desfilam seus agouros, alertando os incautos para o óbvio: que Obama não fará a revolução nem tampouco trará a solução para os problemas de nosso cambalido planeta. É claro e notório que Obama só conseguiu se eleger por conta do apoio do establishment e que portanto está amarrado até a alma com grupos econômicos e políticos que não desejam uma virada de mesa. Porém... acho que vale a pena arriscar algumas hipóteses otimistas: primeiro, o fato de estar assumindo o governo durante uma crise profunda, ao contrário do que pensam alguns, pode ser uma rara oportunidade para que seu tino e sua retórica de mudança sejam instigados a avançar sobre limites (políticos, institucionais e sociais) que em condições normais de temperatura e pressão jamais seriam tocados (vale lembrar que Roosevelt viveu processo parecido, elegendo-se no furacão da crise em 1933 e consagrando-se como grande presidente dos EUA no século XX, eleito por 4 mandatos consecutivos); segundo, como é portador da esperança de milhões, uma vez transpostos alguns limites, parece razoável imaginar que o processo cobre crescente proatividade de Obama, que até onde pode-se depreender de seu perfil, não dá mostras de refugar a desafios políticos. Aguardemos os próximos anos. Fico entre aqueles que acreditam em tempos mais generosos.


E para que não restem dúvidas da comoção provocada pela vitória de Obama, segue o vídeo do ex-candidato Jesse Jackson, negro e democrata como Obama, chorando como criança durante o discurso do novo presidente. Belíssima cena.

1.11.08

arquitetura natural

Vejam que belas fotos do metrô na Suécia







30.10.08

the caw is going to the swamp, again!


Não. Não é da crise que pretendo falar. É da notícia do jornal Le Monde (traduzida pelo UOL), informando que a pint (medida de volume que corresponde a 0,568 litros, preferencialmente de cerveja), consagrado nos PUBs e responsável por esquentar ainda mais a breja inglesa, poderá ser substituída por uma nova medida, equivalente a 2/3 de pint.
Não me parece sensato. Os ingleses deveriam levar mais a sério suas esquisitices, sob pena de perderem o pouco charme que quiçá lhes resta.
Anos atrás, desativaram os ônibus duble-deck vermelhos. Antes, já haviam abandonado os taxis garbosos de teto alto e cor negra. Os 'orelhões' (também vermelhos e protegidos da chuva e do vento) se modernizaram e hoje são futuristas e azul celeste. Seus times de futebol, famosos pelo estilo chuveirinho (bola para o alto na grande área e, quem sabe, alguém faz alguma coisa?), estão sendo comprados pelos capos do crime internacional e transformados em hordas de estrangeiros bons de bola. Sumiram os grandiloquentes empates de 7 a 7 e hoje imperam as vitórias por 2 a 1 ou 1 a 0.

Coisa de louco esses britânicos. Mandaram no mundo, e hoje desvanecem como uma republiqueta chinfrim, com o agravante de que não contam com belas praias, comida boa, muchachas buenas, sol,... nem bananas.

fundo do poço em 2010


Em debate promovido pela câmara de vereadores do Rio, a ardida e sempre brilhante Maria da Conceição Tavares (sou fã da portuguesa, desde quando ela ministrou a aula magna à minha turma de graduação) prevê que o auge da crise financeira será em 2010. Ruim? Certamente, mas a portuguesa acredita que o Brasil não viverá necessariamente uma recessão se - e somente se - o governo tiver a grandeza de pensar grande. Como ela alerta, caberá ao governo sustentar a demanda interna, garantindo os investimentos das estatais e empregando o superávit fiscal em investimentos de infraestrutura.

Para saber mais da fala de Conceição, confiram matéria publicada no Terra Magazine clicando aqui

29.10.08

testemunha da crise de 1929


Meus Caros, em especial meus alunos, recomendo a entrevista em vídeo gravada pelo jornal Estado de São Paulo com o empresário e bibliófilo José Midlin, que em 1929 trabalhava no jornal com a missão de acompanhar os acontecimentos provocados pelo Crash da Bolsa de NY.
Cliquem aqui para assistir

27.10.08

o retorno do casal


Vocês se lembram da dupla Eliakim Araújo e Leila Cordeiro, simpático casal que dividia a apresentação do Jornal da Globo nos anos oitenta? Pois então, conforme dica repassada pelo Rogério Furtado, os dois estão hoje capitaneando um site de notícias bastante interessante - Direto da Redação - sem filtro e sem patrão. A conferir.

26.10.08

Pra Janda

Meus parcos,

em dias de partida de minha avó Jandira, que nos conta de sua "felicidade exata" e que tanta poesia fez da vida, reproduzo abaixo dois pequenos poemas escritos pelos seus bisnetos Pedro e Tomás:

Bambuzal

com o vento batendo no bambuzal, a noite cai,
para o poeta ali sentado
um perfeito haicai

Pedro Manzano (12)


A Laranja

a laranja é mais doce do que doce
a laranja é como uma poesia
a laranja é como fogo
é fresca como água no barro
a laranja...


Tomás Manzano (8)

22.10.08

e por falar em economista


Em tempos de colapso da acumulação financeira e na ausência - pelo menos até agora - de líderes capazes de lançar uma âncora ao futuro, reproduzo abaixo uma brilhante proposição de Keynes, de 1924, sobre as qualidades esperadas de alguém que se pretenda "economista":

"O expert em economia deve possuir uma combinação pouco comum de dons. Deve ser ao mesmo tempo matemático, historiador, homem de Estado e, de uma certa forma, filósofo. Deve compreender os símbolos e se expressar com palavras. Deve pensar o particular em termos do geral e abordar o abstrato e o concreto em um mesmo elã de pensamento. Deve estudar o presente à luz do passado em vista do futuro. Deve ser simultaneamente decidido e desinteressado, tão distante e incorruptível como um artista, mesmo que, por vezes, tão pé-no-chão como um político"

O trecho acima foi copiado do post de Fernando Eichenberg, publicado pelo Terramagazine

20.10.08

hora de sair do muro


Paul Krugmann, o mais recente vencedor do nobel de economia, publicou artigo na data de ontem (veja cópia abaixo) chamando atenção para a tarefa crucial - e herética - a ser desempenhada pelo setor público (dos EUA) no processo de recuperação econômica pós-crise.

Pois o mesmo alerta valerá para o Brasil. Nos últimos dias, não foram poucos os economistas e palpiteiros market-friendly que flertaram com a tese de que ante a necessária frouxidão monetária do BC (que encharcou nossos bancos de dinheiro para estimular o crédito), caberá ao governo a tarefa de desaquecer a demanda por meio de corte de gastos (aumento do superávit fiscal). Seria um erro grotesco, pois, sem o fôlego da demanda externa, será preciso usar de todos os expedientes à mão do governo para estimular a demanda interna e garantir o crescimento do PIB.
É hora de sabermos se Lula é de fato um estadista ou apenas um hábil presidente que até aqui contou com a sorte. Se der trela aos alertas mochos dos autistas do BC, internalizará a crise e terminará seu governo de forma mediocre.
Desta escolha resultará nosso futuro. Em poucas semanas saberemos.

Segue o artigo do Krugmann, publicado dia 18/10 no NYT e traduzido pelo UOL.


hora de gastar o dinheiro público

Paul Krugman
Colunista do The New York Times

O Dow está subindo! Não, está caindo! Não, está subindo! Não, está...

Deixe para lá. Enquanto o mercado de ações maníaco-depressivo domina as manchetes, a história mais importante é a grave notícia sobre a economia real. Agora está claro que o resgate aos bancos é apenas o começo: a economia não financeira também está precisando desesperadamente de ajuda.

E para fornecer essa ajuda, nós teremos que colocar alguns preconceitos de lado. Está politicamente na moda se queixar contra os gastos do governo e exigir responsabilidade fiscal. Mas no momento, maiores gastos do governo é exatamente o que o médico recomenda, e as preocupações com o déficit orçamentário devem esperar.

Antes que eu possa falar disso, vamos falar sobre a situação econômica.

Apenas nesta semana, nós soubemos que as vendas no varejo despencaram de um penhasco, assim como a produção industrial. O desemprego está em níveis elevados de recessão, e o índice manufatureiro do Fed da Filadélfia está caindo no ritmo mais rápido em quase 20 anos. Todos os sinais apontam para uma recessão que será feia, brutal - e longa.

Quão feia? A taxa de desemprego já está acima de 6% (e medições mais amplas de subdesemprego estão em dois dígitos). Agora é virtualmente certo que a taxa de desemprego ultrapassará 7%, e possivelmente 8%, tornando esta a pior recessão em um quarto de século.

E quão longa? Poderá ser muito longa.

Pense no que aconteceu na última recessão, que se seguiu ao estouro da bolha de tecnologia do final dos anos 90. Na superfície, a resposta política para aquela recessão parece uma história de sucesso. Apesar dos amplos temores de que os Estados Unidos experimentariam uma "década perdida" ao estilo japonês, isso não aconteceu: o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) conseguiu promover uma recuperação daquela recessão ao reduzir as taxas de juros.

Mas a verdade é que estamos parecendo japoneses há algum tempo: o Fed teve dificuldade para conseguir tração. Apesar das repetidas reduções dos juros, que no final levaram a uma taxa dos fundos federais de apenas 1%, a taxa de desemprego continuou subindo; foram necessários mais de dois anos para que o quadro do emprego começasse a melhorar. E quando uma recuperação convincente finalmente chegou, foi apenas porque Alan Greenspan conseguiu substituir a bolha de tecnologia pela bolha imobiliária.

Agora a bolha imobiliária estourou, deixando uma paisagem financeira repleta de escombros. Mesmo se os esforços em andamento para resgatar o sistema bancário e descongelar o mercado de crédito funcionarem -e apesar de ainda ser cedo, os resultados iniciais são decepcionantes- é difícil ver o setor imobiliário se recuperando tão cedo. E se há outra bolha a caminho, ela não é óbvia. De forma que o Fed terá ainda mais dificuldade para conseguir tração desta vez.

Em outras palavras, não há muito o que Ben Bernanke possa fazer pela economia. Ele pode e deverá reduzir ainda mais as taxas de juros - mas ninguém espera que isso faça mais do que fornecer um leve estímulo econômico.

Por outro lado, há muito o que o governo federal pode fazer pela economia. Ele pode ampliar os benefícios aos desempregados, o que ajudaria tanto as famílias em dificuldades a sobreviverem e colocaria dinheiro nas mãos de pessoas que provavelmente o gastarão. Pode fornecer ajuda de emergência aos governos estaduais e locais, para que não sejam forçados a cortar ainda mais seus gastos, o que degrada os serviços públicos e destrói empregos. Ele pode comprar hipotecas (mas não pelo valor nominal, como propôs John McCain) e reestruturar os termos para ajudar as famílias a permanecerem nos seus lares.

E este é um bom momento para promover sérios gastos em infra-estrutura, algo que de toda forma o país seriamente necessita. O argumento habitual contra obras públicas como estímulo econômico é que demoram muito: quando se chega de fato a reparar aquela ponte e a atualizar aquela linha ferroviária, a recessão já passou e o estímulo não é mais necessário. Bem, esse argumento não tem força agora, já que as chances de que esta recessão acabe tão cedo são virtualmente nulas. Então vamos botar esses projetos em andamento.

Será que o próximo governo fará o que é necessário para lidar com a recessão? Não se McCain conseguir uma virada. O que precisamos agora é de mais gastos do governo - mas quando McCain foi perguntado em um dos debates sobre como lidaria com uma crise econômica, ele respondeu: "Bem, a primeira coisa que temos que fazer é colocar os gastos sob controle".

Se Barack Obama se tornar presidente, ele não terá a mesma oposição automática a gastar. Mas ele enfrentará um coro de tipos lhe dizendo que precisa ser responsável, que os grandes déficits que o governo administrará no próximo ano se fizer a coisa certa são inaceitáveis.

Ele deve ignorar o coro. A coisa responsável, no momento, é dar à economia a ajuda que necessita. Agora não é hora de se preocupar com déficit.

Tradução: George El Khouri Andolfato

14.10.08

toró de palpites


meus caros,
enquanto a crise desabrocha e traz à tona seus lírios e vícios de anteontem, muita coisa boa tem sido escrita sobre as causas e o significado do cataclisma. Finalmente, dá-se ouvidos aos hereges que em tempos de pensamento único eram ridicularizados em sua sensatez fora de hora. Me lembro, por exemplo, como há apenas alguns poucos anos atrás, falar em "razões estratégicas" para defender as empresas estatais era considerada uma sandice de dinossauro ressentido. E vejam como é pra lá de estratégico ter hoje em poder do Estado bancos como o BNDES (única alternativa possível aos investidores industriais), a CEF (que poderá sustentar o ritmo de atividade do setor imobiliário) e o Banco do Brasil (apto a garantir o crédito agrícola). Sem eles, tombaríamos tal qual uma jaca.
Fica cada vez mais evidente que a crise internacional pegará a economia real pelo colapso do crédito e, portanto, o tombo será maior para aqueles que apostaram na tese de que uma brocha na mão e a fé no mercado eram condições mais do que suficientes para flanar no maravilhoso mundo da globalização financeira.
Sobre estes e outros aspectos da crise, o site da Agência Carta Maior (com link ai do lado, na Redondeza) reuniu um conjunto de artigos de renomados pensadores que vale a pena dar uma olhada. Recomendo em especial o didático artigo do Belluzzo (com uma perspectiva histórica da crise), a entrevista da endiabrada Conceição Tavares, o artigo do F. Chernais, o Stiglitz e outros mais. Cliquem aqui
Divirtam-se (enquanto é tempo!)

12.10.08

Lula bombando no cordel


Além de despontar como importante liderança da América Latina - pelo que, vira e mexe, recebe elogios da imprensa internacional - Lula vem se tornando um dos principais personagens da literatura de cordel. Nada mais justo para um presidente nascido em Garanhuns-PE e dono de biografia típica de um herói popular. Segundo a Academia Brasileira de Literatura de Cordel (veja matéria do Estadão), Lula já é o quarto personagem mais frequente nos cordéis, perdendo apenas para Lampião, Padre Cícero e Frei Damião.
E para embalar o heroi, Crispiniano Neto, que assina livro sobre o assunto, lança um slogan de fazer inveja ao grande Getúlio Vargas e seu "o petróleo é nosso".
Na versão cordelista, o brado nacionalista é recriado:

Lula, guenta o pré-sal
Que nóis guenta a pressão!

8.10.08

nhaaaaaca!!!!!!!!!!!!!!


Quem teve a oportunidade de assistir ao debate de ontem entre Obama e McCain deve ter notado como ambos pouco consideram o 'resto do mundo'.
Para nós que não somos Yankees, chega a ser chocante como na cabeça dos candidatos, nas perguntas dos eleitores ou nos comentários dos jornalistas o 'resto do mundo' é tido como um grande quintal, onde vivem povos mais ou menos bem comportados e sobre os quais os EUA devem manter-se sempre na condição de tutor ou xerife. Cagam e andam para a ONU ou para a 'autonomia dos povos'. Se interesses norteamericanos forem feridos, não deve haver limites para sua intervenção!
Creio até que Obama, pelo seu histórico e pela sensatez com que trata outras temas, talvez não compartilhe pessoalmente daquela perspectiva. Contudo, dado que precisa conquistar o eleitorado indeciso, adequa seu discurso aos ouvidos do americano médio, e esse cara (o americano médio) é um sujeito terrível: conservador, ignorante e com o rei na barriga.
Por sorte, discurso de campanha é uma coisa e governo é outra. Além disso, a crise financeira dará conta de botar o 'americano médio' em seu devido lugar e quem sabe obrigar os EUA a baixar a crista e colaborar apenas como um país importante na concertação internacional que deverá suceder a crise.

1.10.08

pau na autonomia do banco central


Em seus artigos de ontem (no Valor) e de hoje (na Folha); o mago e ex-gênio do mau Delfim Neto traz à baila muitos questionamentos sobre o comportamento dos Bancos Centrais ("autônomos") que fizeram bonito nos anos de bonança. Delfim, até outro dia, foi um defensor da autonomia, argumentando que a terefa de zelar pelo valor da moeda, embora prerrogativa do Estado, deveria estar 'protegida' das pretensões populistas e imediatistas dos governantes. Por isso, terceirizar a gestão da moeda a "técnicos" e "profissionais" do ramo poderia ser uma estratégia sensata, principalmente quando associada a sistemas de metas inflacionárias.
Mas, com a crise de agora, a "autonomia" dos BC's vai à berlinda.
Enquanto ultra-conservadores e esquerdistas xenófobos juntam forças na busca pelo DNA da ganância, o esforço para decifrar a crise e evitar que se repita não pode deixar de considerar a leniência "autônoma" dos BCs. Foi precisamente porque acreditava-se na virtude auto-regulatória dos mercados que se instituíram estes esqualidos monstrengos chamados "BCs autônomos", reduzidos à tarefa de "coordenar as expectativas". "BC autônomo" é um eufemismo chinfrim para designar a quase ausência de BC. Nos últimos dez ou quinze anos, a própria Política Monetária (peça maior do arsenal de que dispõe a autoridade monetária) foi sendo esvaziada a ponto de se transformar tão somente em ratificadora das expectativas do mercado. Sob a máxima da não-intervenção, os presidentes dos BCs tornaram-se guardiões dos mercados ante a suposta irracionalidade da Política. Muitos, como o nosso H. Meirelles, foram até premiados como 'personalidade' ou 'economista' do ano, louvados pela capacidade de resistir às pressões do mundo real e pelo exímio manejo das sofisticadas técnicas do não-fazer. E deu no que deu! Quem diria? Estão hoje lutando para convencer seus fieis de que via mercado não voltaremos à luz.
Hmmmm!Engraçado, né? E caro!